O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER E O AMANTE (THE COOK, THE THIEF, HIS WIFE & HER LOVER – 1989)

Este filme certamente terá apreciadores muito restritos. Como o são os que se deliciam com as iguarias servidas ao longo da história, no restaurante sofisticado onde se passa todo o enredo. Apenas um público especial vai gostar do filme e muitos vão detestá-lo ou pelo menos se chocar com os fatos ou com a forma de contá-los ou com a própria estética do diretor Peter Greenaway, que aqui apresenta o superlativo de sua obra singular, também composta por filmes como Afogando em números, O livro de cabeceira, A última tempestade e O bebê santo de Macon. Realmente, é uma estética completamente revolucionária, que lembra até recursos teatrais, como, por exemplo, o de cada ambiente vestir coisas e personagens com uma determinada cor (o restaurante é vermelho, o banheiro é branco…). O diretor navega habilmente e faz referências à pintura, ao teatro, à música, à literatura etc, tudo simétrica e meticulosamente calculado em termos de cenários, iluminação, ângulos e foco de câmeras, cores, provocando o espectador da primeira à última cena, inclusive com experiências sensoriais, gustativas e eróticas. Algo que realmente foge do convencional inclusive em termos narrativos e que vai mergulhar o público em um universo totalmente novo e imprevisível, em uma experiência por vezes difícil e crua, porém com contornos de genialidade. Banquete visual e que no seu contexto pode até ser visto como uma feroz sátira política, como apontam alguns críticos (ao governo de Margaret Thatcher) ou mesmo algo para trazer uma nova linguagem ao cinema e aproximá-lo de outras artes. A direção é soberba, assim como são principalmente as atuações de Michael Gambon (como o gângster Albert Spica) e Helen Mirren (a esposa dele, Georgina), embora todo o elenco esteja bem, a exemplo dos ótimos Tim Roth (Mitchel) e Richard Bohringer (como o cozinheiro Richard), talvez com exceção do ator que faz o papel do amante (Michael), Alan Howard, que não parece estar no mesmo nível dos demais. Uma obra aclamada por muitos, mas também repudiada por outros tantos, pelo choque que provoca em seu conteúdo indigesto, notadamente nas cenas de violência psicológica, crueldade e elementos escatológicos. 9,4
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