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ESCAPE FROM PRETORIA (FUGA DE PRETÓRIA)

Com o título que tem o filme, embora Pretória seja uma das maiores cidades da África do Sul, fica difícil esconder que a ação se passa inteiramente dentro de uma prisão. Naturalmente a famosa prisão de segurança máxima e os fatos ocorrem na época do Apartheid (regime de segregação racial), a partir de 1975. O protagonista do filme é o ator Daniel Radcliffe, cuja figura temos dificuldades de dissociar do personagem que o tornou famoso (Harry Potter), embora ele se esforce no particular e inclusive tenha um ótimo desempenho dramático. Filmes de prisão geralmente não têm por onde escapar e os roteiros ficam bastante limitados, sendo abundantes os clichês (com raras exceções, como a da série Prison Break). Aqui sob determinados ângulos é o que ocorre (o perfil dos guardas é absolutamente padrão de todos os filmes do gênero), entretanto o elenco todo é coeso e da metade para o final o filme passa a ser bastante tenso e provoca todo o interesse no espectador, que não tem elementos para concluir sobre se haverá ou não um final “feliz”. A produção é britânica e australiana e o filme foi feito inteiramente na Austrália em março de 2019. No final das contas, nada memorável absolutamente, mas uma diversão que pode agradar muita gente. 7,6

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A CASA (HOGAR ou THE OCCUPANT)

Mais um filme espanhol de nível, que teve alguns percalços de lançamento em razão do Corona vírus, mas que acabou encontrando como veículo ideal a Netflix, fazendo atualmente grande sucesso. É um drama com suspense, mas que embora aparente de início uma certa limitação e inocência de enredo, acaba evoluindo para caminhos inesperados e os desdobramentos serão além de surpreendentes, também bastante impactantes. O suspense, que é o gênero predominante do filme, acaba em alguns momentos cedendo vez ao terror, muito embora se trata de uma história que envolve exclusivamente seres humanos e não haja nada de sobrenatural. O espectador vai acompanhando com redobrado interesse os caminhos do personagem e não tem a ideia exata do que planeja e do que irá executar. Muita tensão, mistério, em produção muito bem realizada, dirigida (pelos irmãos David e Alex Pastor)   e interpretada (Javier Gutiérrez, que protagonizou o ótimo O autor, também atuando em Durante a tormenta e Mario Casas, de Contratiempo). 8,7

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PEIXE GRANDE E SUAS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS

Este é um filme de 2003, belíssimo e talvez o melhor do diretor Tim Burton, cineasta de muitas obras inesquecíveis (Edward mãos de tesoura, Os fantasmas se divertem, Sweeney Todd, Batman, Alice no país das maravilhas, Ed Wood, A lenda do cavaleiro sem cabeça, Marte ataca, Grandes olhos etc). O elenco também é magnífico: Ewan McGregor, Albert Finney (em uma de suas últimas atuações), Jessica Lange, Helena Bonham Carter, Danny DeVito, Marion Cotillard, Steve Buscemi e Billy Crudup, entre outros. A trilha sonora é do premiado Danny Elfman e o filme foi indicado para dezenas de prêmios, incluindo Filme, Roteiro, Direção, Ator, Compositor…Trata-se de uma delicada fábula, com ares e cores (e efeitos visuais) de sonho –como não poderia deixar de ser- e que como toda obra do gênero envolve fantasias, alegrias, tristezas, mas principalmente lições sobre a vida, sobre a família (alguns relacionamentos difíceis), sobre a felicidade, as buscas, tudo em uma fascinante mistura de real com ficção e com o estilo narrativo adequado a esse tipo de história. “Um peixe grande não pode ser posto num aquário pequeno demais, pois se guardado num aquário pequeno o peixe permanecerá pequeno e não poderá crescer”. Na parte final do filme -separada a realidade da fantasia-, coroada pela grandiosa e significativa cena final, emerge uma verdadeira filosofia de vida, que valoriza tanto a missão de cada ser humano, como define, pelo que especifica, a própria imortalidade.  Belo, divertido, reflexivo, emocionante, inspirador.  9,5

 

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UM OFICIAL E O ESPIÃO (AN OFFICER AND A SPY – J´ACCUSE)

A medida da arte nunca deveria ser avaliada pela moral do artista. Ou seja: a conduta na vida pessoal (no caso de um diretor de cinema) não deveria ser considerada na avaliação de seu trabalho artístico. Mas isso é fácil de dizer. Na prática, Roman Polanski, desde que foi condenado no final da década de 70 por ter feito sexo com menor de 18 anos (ter “abusado sexualmente de menor com 13 anos”), não teve mais paz. Proibido de entrar nos EUA, passou a ser alvo de constantes perseguições de pessoas e associações, inclusive porque ao longo do tempo foi também acusado por outras mulheres de abusos e até de estupro. Inclusive sofreu forte assédio há poucos meses, quando este filme concorreu a diversos Cesar (Oscar do cinema francês) -12 indicações ao todo. Mesmo assim, acabou ganhando o Cesar de Melhor diretor e de Melhor roteiro adaptado. E havia ganho antes no Festival de Veneza (2019) o Grande Prêmio do Júri. O filme, de fato, reafirma tratar-se de um grande cineasta, independentemente das questões pessoais. Aqui temos um filme de qualidade, interessante, instigante, emocionante e ao mesmo tempo enxuto, abordando os fatos relacionados com o famoso Caso Dreyfus, que abalou a sociedade parisiense no final do século XIX, envolvendo a alta cúpula do exército e um soldado judeu. Trata-se de um escândalo político-jurídico-militar que durou de 1894 a 1906 e que no filme é contado pelo olhar de um oficial superior ao réu, Georges Picquart, interpretado pelo excelente Jean Dujardin. Além dele, o filme conta com a participação da esposa do diretor, a sempre bela Emmanuelle Seigner. Todos os elementos de produção são de alto nível, incluindo evidentemente a trilha sonora, responsável pela tensão do filme e a cargo do premiadíssimo Alexandre Desplat (O curioso caso de Benjamin Button, A forma da água, Argo, A garota dinamarquesa, Harry Potter etc).   8,8

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THE SONG OF NAMES

A razão do título do filme só será compreendida na parte final, onde, aliás, tudo vai adquirir grande significado e o filme terá seus momentos de maior emoção. É um drama com as dores da guerra, que mostra uma época com os personagens já adultos e também quando eram jovens, tudo orbitando em torno de um determinado fato e de um instrumento musical. E de uma lacuna que se busca obstinadamente preencher. O diretor, François Girard, coincidentemente também dirigiu um filme que tinha como um dos seus focos principais o violino (O violino vermelho, de 1998). Talvez esse seja, efetivamente, o mais emocionante dos instrumentos, porque a variação súbita de graves e agudos e a profundidade e extensão destes efetivamente mexem com os sentimentos do ouvinte. Um filme particularmente significativo para alguns, que tem instantes de grande emoção, mas que também tem momentos que poderiam ser mais bem editados/explorados, o que impede que haja uma unidade perfeita no roteiro e, a par das emoções que traz, provoca uma grande variação na nota de críticos e fãs, indo de duas até quatro estrelas. Provavelmente sua apreciação dependerá do tipo de espectador e do momento da degustação. De todo modo, um filme interessante e que vai sensibilizar pelo tema, estrelando os ótimos Tim Roth e Clive Owen, na boa companhia de Catherine McCormack.  8,0

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PICNIC (FÉRIAS DE AMOR)

PICNIC (FÉRIAS DE AMOR) – O título em português é colocado entre parêntesis porque é absolutamente ridículo, como costuma acontecer há décadas. São pessoas despreparadas e sem qualquer sensibilidade as encarregadas dessa missão, que poderia atingir seus propósitos comerciais sem sacrificar a essência da mensagem de cada filme. Mas esse filme, de 1955, ficou famoso por três motivos: a temática para a época (alguma pimenta, enfim), o casal de protagonistas (William Holden e Kim Novak são protótipos de beleza masculina e feminina e ídolos da sétima arte) e a cena da dança (de uma sensualidade que se tornou imortal no Cinema). É um drama com ares meio novelescos, certos exageros interpretativos, um roteiro que não foge muito do lugar comum, mas os citados elementos de destaque elevam o filme para um lugar especial, principalmente considerando o ano em que foi realizado. Na verdade, existem fatos importantes na história e que provocam muita reflexão, pois a partir de uma cidade conservadora (e sem negros!), de costumes sempre iguais, da mesmice do dia a dia, surge um “furacão”, que vai mudar atitudes, provocar revoluções, gerar desabafos (amargura represada e que se liberta subitamente) e a partir do qual se vislumbra a possibilidade de mudança de comportamento, de coragem para encarar desafios. Além da dupla de protagonistas, o elenco é formado por Cliff Robertson, Arthur O´Connell (muito bom) e Rosalind Russell, entre outros, mas o destaque do filme –apesar da também muito boa atuação de Susan Strasberg (como a irmã da personagem de Kim)- é efetivamente Holden (que com sua exuberância física desempenha perfeitamente o papel de “macho alfa”), embora faça um papel como se fosse bem mais jovem do que os quase 40 anos que tinha na ocasião. De todo modo, era um ator dos mais requisitados, protagonizando inúmeros filmes, como “As pontes do Toko-ri”, “Inferno 17”, “Crepúsculo dos Deuses”, “Sabrina”, “Nascida ontem”, “Suplício de uma saudade”, “A ponte do Rio Kwai” etc. A atriz Kim Novak na minha opinião é muito bela, mas nunca me convenceu do lado interpretativo (sempre a achei sonsa demais), embora tenha muitos fãs nesse sentido. O diretor Joshua Logan -que logo em seguida viria a dirigir Sayonara com Marlon Brando- ganhou por este filme o Globo de Ouro de Direção e o filme ganhou dois Oscar em 1956: Direção de Arte e Montagem. 8,0

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O HOMEM INVISÍVEL

Com direção de Leight Whanell (Jogos mortais), este filme produzido nos Estados Unidos é um remake do suspense de ficção científica de 1933, baseado na novela de H.G. Wells (que escreveu A guerra dos mundos, A máquina do tempo, A ilha do Dr. Moreau, entre outros). No ano 2000 também foi feito um filme com o tema, estrelado por Kevin Bacon (Hollow man).  É um thriller moderno de ficção, que cumpre o que promete, embora não tenha o charme e o apelo do original, justamente pela falta do “clima” adequado dos dias de hoje, em razão da evolução tecnológica, ou seja, o impacto hoje é muito menor do que o causado há 100 anos, evidentemente. O suspense é bom e muito bem realizado (também em efeitos), sendo extremamente valorizado pela atuação de Elisabeth Moss, atriz que já se destacou na série Mad Men e brilhou na premiada série The Handmaid’s Tale (no Brasil, O conto da Aia), porém o que se sente, inclusive no final, é que o roteiro tinha muitas possibilidades mais de evoluir, com mais inteligência e criatividade, na verdade sobrevivendo mesmo às custas de Elisabeth (atriz de muitos prêmios), que, como se diz, “carrega o filme nas costas”.  7,8

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DARK WATERS (O PREÇO DA VERDADE)

Não é o primeiro filme com temática semelhante (Erin Brockovich, com Júlia Roberts, foi um deles), mas é provavelmente o melhor. Porque aprofunda com força e coragem na medida certa as questões discutidas e expõe todos os detalhes ao longo do tempo (muitos anos), de um caso real envolvendo cidadãos de certa cidade de West Virgínia e uma poderosa indústria química, inicialmente acusada de envenenar a água do rio e posteriormente de dolosamente submeter milhares de pessoas a ingredientes potencialmente perigosos no seu famoso produto Teflon, que foi proibido a partir de 2015 nos Estados Unidos e que depois do filme certamente vai deixar de ser usado por muitos dos espectadores. O filme é um drama recheado de suspense, no chamado estilo “investigativo”, no caso não por detetive, mas por um advogado idealista e persistente, que resolve comprar a briga contra a gigante empresa, a favor de cidadãos que mostram a maior evidência de estarem adoentados e da existência de anomalias congênitas provocadas pelas substâncias químicas. Mesmo assim, é um processo judicial de 20 anos, fato que sob certo aspecto valoriza ainda mais a luta e o enfrentamento do enorme desafio, embora o desgaste e a pressão, que o filme faz questão de enfatizar. A trilha sonora é ótima, a interpretação de Mark Ruffalo (igualmente produtor) também, assim como estão ótimos Anne Hathaway, Tim Robins e Victor Garber, entre outros. O filme foi rodado em Cincinatti e nos seus arredores, para dar maior verossimilhança à reprodução dos fatos. O diretor é Todd Haynes (Longe do paraíso, Carol…), que conduz o trabalho de forma muito competente.  8,7

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DESCULPE, VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI

Este é o mais novo e contundente filme do cineasta britânico Ken Loach (83 anos), veterano diretor e que ganhou inúmeros prêmios com seu trabalho anterior, “Eu, Daniel Blake”, incluindo a Palma de Ouro, o Cesar (Oscar francês) e o Bafta (Oscar britânico). Mais uma vez a temática é social e o trabalho bastante aprofundado e eloquente. Porque escancara uma realidade talvez pouco explorada pelo cinema e que parece legalizada/institucionalizada. Obviamente não se trata aqui de cinema fantasia, ou cinema diversão. Os fatos transpostos para a tela mostram graves aspectos das atuais relações de trabalho, nas quais a autonomia e o empreendedorismo são fictícios, existindo na verdade uma crua, voluntária e inexorável exploração da mão de obra, colocada quase em nível de escravidão, quando os tempos evoluídos reclamam exatamente o oposto. Tudo se passando dentro de um sistema em que o tipo de contrato retratado parece plenamente institucionalizado dentro da conservadora sociedade inglesa. O turbilhão que vai se formando e fortalecendo inclusive provoca em nós instantânea identificação com o sistema brasileiro, com a diferença de que, após os danos feitos, no Brasil se pode reivindicar direitos no Judiciário, ao contrário do que ocorre na Inglaterra, EUA e alguns outros países. É um filme ideológico e que mostra todas as consequências desse desequilíbrio entre capital e trabalho, principalmente no núcleo familiar, que é o foco principal do filme, do qual vão se extraindo, pouco a pouco e progressivamente, as consequências daquela nociva relação de trabalho. Ficamos chocados ao acompanhar tais decorrências, avaliamos a imperatividade da união familiar, a força da mãe da família, os problemas cotidianos que agravam ainda mais os fatos, mas parece a certas alturas não haver saída. O filme é bastante sério, funciona perfeitamente como uma denúncia, sendo extremamente bem dirigido e interpretado, tendo também o mérito de colocar o espectador em meio aos conflitos que vão sendo expostos sem concessões. Depois de tudo, de fato não haveria como ser outro o seu final. 9,0

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O JANTAR DOS MALAS

Uma deliciosa comédia francesa de 1998, que, provocativa, brinca com o politicamente correto, provoca sinceras gargalhadas e ainda, de quebra, dá lições de moral em sua parte final, fechando a trama em grande estilo. O título em português poderia ser “O jantar dos…bobos, tolos, bobocas, bobalhões etc”, pois se trata de um evento semanal promovido por amigos, para eleger o “mais mala” entre os convidados de cada um, sendo, então, proclamado o campeão de cada semana. A partir daí a trama se desenrola de um modo bastante ágil e eficaz, principalmente pelo talento e harmonia dos dois principais atores (embora todo o elenco seja coeso): Jacquer Villeret e Thierry Lhermitte. O diretor Francis Veber (que fez os ótimos A gaiola das loucas e O Closet, entre outros) também é responsável pelo ótimo ritmo e acabamento/desdobramentos da comédia, que é daqueles simples mas de grande efeito cômico.  8,8

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INSPIRAÇÃO TRÁGICA

Este é um filme de 1947, portanto produzido cinco anos depois do grande sucesso de Humphrey Bogart em Casablanca e três anos depois do sucesso de Bárbara Stanwyck em Pacto de sangue. Aqui, onde também estrela Alexis Smith,  os dois contracenam como grandes estrelas de Hollywood e no ápice da popularidade, com um orçamento de mais de um milhão de dólares. Detalhe: foi o único filme em que trabalharam juntos. Trata-se de um drama de suspense/policial (ou um thriller, pode-se dizer), em p&b, muito bem montado e dirigido, com pitadas de romance policial, baseado em famosa peça de teatro e extremamente valorizado pela atuação da dupla principal. Talvez o que tenha faltado foi o que Hitchcock, por exemplo, faria se tivesse dirigido o filme: um suspense maior quanto às intenções e quanto à verdadeira face do personagem de Humphrey, tanto no lado do romance, quanto –e principalmente- no aspecto do mistério envolvendo As duas Mrs. Carrols, título original do filme. Esse aspecto principalmente impede que o filme se coloque entre os memoráveis do cinema noir, mas mesmo assim é um bom filme, uma boa diversão, notadamente em razão da atuação de seus protagonistas. 7,8

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EL CUENTO DE LAS COMADREJAS (A GRANDE DAMA DO CINEMA)

Mais um belíssimo filme argentino, um remake, dirigido por Juan José Campanella (O filho da noiva, O segredo dos seus olhos…), que é peça essencial na condução de tudo, inclusive quanto aos enquadramentos interessantes de câmeras. De início, a música dos anos 60 “I´m sorry” (Brenda Lee) e as imagens nos mostram que o palco dos fatos é uma casa antiga, de três andares (com o sótão), onde além da diva do passado – ganhadora do Oscar colocado em local de honra- moram também alguns exemplares do reino animal (gambá, ratazana, aranha, galinhas e doninhas, estas últimas dando nome ao filme) e outros três idosos: o marido, um ex-diretor e um ex-roteirista de cinema. O filme vai girar em torno deles, interpretados por Graciela Borges, Oscar Martinez, Marcos Mundstock e Luis Brandoni e de outros dois personagens que logo surgirão, interpretados por Clara Lago e Nicolás Francella. Desde o início já somos brindados com diálogos maravilhosos, repletos de humor inteligente, sarcasmo e muita acidez. Tempos idos de glória, ambição, vaidade, tudo servido em doses inteligentes e criativas, muitas vezes como humor negro e em tom de farsa. São diálogos brilhantes e rápidos durante todo o filme, que, entretanto, também tem seus momentos sérios e melancólicos. Mas vira um jogo de gato e rato, no qual não se sabe qual será o próximo lance. O filme é extremamente bem feito e além do elenco perfeito tem todos os seus elementos bastante harmoniosos, com uma excelente trilha sonora (Young at Heart, Only you etc, esta última tocada em um momento singular). Muitos são os detalhes e as cenas marcantes, como a estátua no jardim, a alusão aos clássicos do cinema (como “Crepúsculo dos deuses”, a mais óbvia), a divertidíssima cena inicial da sinuca e a segunda cena, filosófica e contundente, as da aranha, a da verruga no quadro e assim por diante. Uma das frases: “Se os filmes, que são feitos de plástico envelhecem, imagine o amor, que é feito de boas intenções”. O final surpresa é também maravilhoso e fecha com chave de ouro. Em suma, um filme diferente, rico e que com sua inteligência e criatividade cativa e prende o espectador, que verdadeiramente fica refém da obra e com isso ganha uma diversão extremamente prazerosa.  9,2

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STAR WARS – A ASCENSÃO SKYWALKER

Apresentado como o capítulo final da saga, este filme foi dirigido por J. J. Abrams, o mesmo diretor de Os últimos Jedi (2017), Sem fronteiras (2016), O despertar da força (2015) etc, além de outros filmes e séries fora da marca Star Treck, como, por exemplo, Lost, Missão Impossível (várias edições) e Armagedon. Excelente e experiente cineasta, embora nada fácil a missão de conjugar todos os elementos que formaram gerações de heróis e vilões (e fãs), com os princípios que os moveram e que foram as linhas mestras da produção, como o da luta do bem contra o mal, do altruísmo, do companheirismo e da renúncia, das buscas pela paz, tudo com o alicerce da fé. Diante do filme anterior e das dificuldades todas, a simplicidade e a despreocupação com desenvolvimentos mais complexos foi a solução encontrada e que parece ter sido plenamente satisfatória, sendo difícil imaginar um epílogo mais satisfatório, inclusive representando a derradeira cena um deslumbre para os fãs e para o cinéfilo em geral (real e simbólico). Sempre com emoção e com os ingredientes indispensáveis e que deram voz e corpo à série de filmes (a música-tema, a trilha sonora emocional, os efeitos especiais, os letreiros no início do filme e agora, com maior qualidade evidentemente, o som extraordinário e a técnica mais elaborada), naturalmente acompanhados do velho ufanismo, inseparável de filmes desse estilo. Ainda mais produzidos nos EUA. Aliás, para se gostar de filmes como este é indispensável o devido espírito infantil ou juvenil, que se deixa inteiramente levar pelo heroísmo sem fronteiras, pela imaginação sem limites e com isso usufrui integralmente dos prazeres da tela. Na parte final principalmente, certamente os mais velhos e os fãs resolutos vão lembrar dos velhos filmes de faroeste, envolvendo índios e soldados. Aqui, com alguns personagens mantidos atuantes e eternos, em razão dos demais não há o mesmo carisma dos primeiros heróis que comandaram as aventuras, mas não fazem feio e a tecnologia que comanda as maiores emoções com notável competência, desfazendo qualquer carência. Mesmo assim, impossível deixar-se de reconhecer a importância das velhas ideologias e personagens (como o da Carrie Fischer, de Billy Dee Willians e de Mark Hamil), dos permanentes heróis (que retornam como bons espíritos/fantasmas em momentos vitais do filme), assim como o magnetismo da atriz Daisy Ridley, que faz um ótimo e físico/corajoso trabalho, representando a força em todos os sentidos e a nova geração de atrizes. Além dela, o elenco é também estelar como o filme: entre outros, Adam Driver, Oscar Isaac, Richard E. Grant e Lupita Nyong´o. Com uma ou outra parte triste no filme -principalmente para quem acompanha a saga desde o início-, o final alcança com muita habilidade a comunhão de todos os elementos vitais e a possível coerência da obra, celebrando com euforia a conquista dos valores que forjam a face da humanidade e que lhe emprestam a plena e necessária esperança no futuro.  9,0

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O PINTASSILGO

O irlandês John Crowley, ganhador do Oscar Britânico (Bafta) com o filme Brooklin, apresenta aqui uma obra bem acabada e interessante, mas desafiante, de longa duração e algumas estranhezas eventuais. O filme tem quase 2h 30min de duração e também por esse motivo pode não agradar a muitas pessoas. E as “estranhezas” talvez fiquem por conta das dificuldades de adaptar de forma adequada um romance vencedor do Prêmio Pulitzer (Donna Tartt), no caso deixando o filme muitas vezes complexo ou pesado. Entretanto, é uma história densa e ampla, que acompanha o personagem desde a infância, mostrando, a partir de um fato específico, todas as consequências na vida desse personagem, inclusive com idas e voltas no tempo (flash backs), com drama e algum suspense (inclusive policial), mas deixando o espectador efetivamente interessado. O que acontece na infância, o tratamento recebido dos pais, as perdas, as amizades -até mesmo o que se toma-, são fatos que forjam as pessoas, que as moldam para a vida adulta. Porém a vida apresenta respostas inesperadas e dá voltas imprevisíveis e um dos encantos do filme é mostrar esses aspectos. Não é um filme talvez muito fácil e pode merecer ser visto mais de uma vez para a sua total compreensão, mas, seja como for, sua parte final compensa qualquer amargura ou aborrecimento. De se registrar que nas avaliações de crítica e público, sua nota oscila de 1 a 5 estrelas, o que significa que, definitivamente, gostar ou não, depende apenas do gosto ou do momento de cada um. O elenco é ótimo e absolutamente variado em todos os aspectos: Nicole Kidman, Luke Wilson, Ansel Ergort (A culpa é das estrelas), Finn Wolfhard, Sarah Paulson, Willa Fitzgerald, entre outros.  8,6

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ALLES.ISY

Este é um filme alemão (2018) que se leva muito a sério e também considera com muita seriedade o tema da violência contra a mulher. Não é à toa que foi premiado e também indicado para vários prêmios, tendo participado com elogios do Festival de Munique de 2019. O assunto está na moda e existem dezenas de maneiras de contar as diversas e dramáticas histórias, mas o cinema alemão é realmente original na abordagem dos assuntos e os enfoques seguem uma linha que preserva o drama, acrescentando pitadas de suspense e, ainda, com muita qualidade técnica, produção e elenco em perfeita harmonia. Desse modo, um fato que poderia ser abordado como corriqueiro, provoca o mergulho do espectador nos detalhes e o surpreende. Impressionante é a cadeia de acontecimentos, de pessoas desejando encobrir a verdade, camuflar os fatos, alterar a realidade para se safar…os desdobramentos são inesperados e intensos. E este filme possui a densidade certa para nos mostrar as diversas facetas, nos fazer sentir o choque e levar a reflexões, algumas em comum com os personagens. Outro aspecto importante e abordado no filme é a difícil missão de se impor freios aos jovens, diante do comportamento e da liberdade que hoje possuem e praticam (drogas, nudes etc).  8,0

 

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UMA VIDA OCULTA (A HIDDEN LIFE)

Este é um filme indicado para determinado tipo de público. Aquele público que gosta do chamado cinema “de arte”. Há que se apreciar sobretudo filmes que contam uma história bem lentamente, desenvolvendo os detalhes, principalmente o lado emocional dos personagens, no caso  nas suas quase três horas de duração. Poderia ser mais breve? Certamente que sim, mas em mãos de outro diretor. Porque no caso é um filme de Terrence Malick e, ao que parece, o seu estilo tornou imprescindível a história se estender por tempo superior ao padrão. É um diretor de várias obras, algumas polêmicas (como “A árvore da vida”, por exemplo), extremamente competente e cuidadoso, mas nada convencional. Este filme mostra vários ângulos de câmera, tomadas que propositalmente dão conotações específicas em cenas determinadas, trilha sonora meio estranha, imagens de sonhos, cenas rápidas alternando com tomadas longas… Mas tudo isso identifica o cineasta e o valoriza, porque apesar de longo, o filme conta uma história que passa claramente as mensagens desejadas, levando o espectador a várias reflexões que emergem em meio à ocupação nazista da Áustria, na década de 40: até onde se pode defender princípios em meio a uma guerra?…até onde o idealismo pode/deve sobreviver contra o sistema? Quais as perdas de um homem se abandonar seus ideais, mesmo se eles nada significarem para o meio? Quais os sofrimentos para a família de quem resiste? A fé surge aqui também como um elemento poderoso, porém mais do que isso o amor que une o casal parece sobreviver acima de tudo e de todos, principalmente pela maneira como esse amor se manifesta na comunicação do casal, post que um decide poupar o outro de qualquer dor…e as imagens acompanham essa difícil sintonia com delicadeza e a necessária profundidade. Sobre a reflexão já referida, uma cena eloquente: na prisão alemã, o homem nega jurar lealdade a Hitler, em nome de suas convicções. O advogado diz então a ele que se mudar de atitude e concordar em assinar um documento será automaticamente livre. Ele responde, então, ao advogado: “mas eu já sou livre”.  8,0

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THE COLDEST GAME

Este é um filme feito em 2019 e de origem polonesa, embora em língua inglesa e estrelado por Bill Pullman. A trama supostamente se passa praticamente toda em Varsóvia, por sinal. Surpreende a qualidade da produção e a trilha sonora é maravilhosa, incluindo alguns belíssimos blues e principalmente pontificando a tensão, que permanece em grande parte do filme. É um thriller na classificação da Netflix, mas o gênero padrão é o de espionagem. A temática é a Guerra Fria, na época da famosa Crise dos Mísseis, envolvendo Cuba, Rússia e Estados Unidos. O roteiro sintoniza perfeitamente com o nível da produção, deixando o espectador em permanente curiosidade, tenso, sem saber para onde a história o levará, contendo vários elementos da consagrada expressão “jogo de gato e rato”, sem se saber exatamente quem é amigo e quem não é. É um filme, portanto, bem acima da média para o gênero e seu título, excelente aliás, evoca um dos mais importantes ingredientes da trama, que é jogo de xadrez disputado entre EUA e União Soviética e que polariza as atenções dentro do enredo, no melhor estilo Fischer x Spassky (que na verdade disputariam um match que foi tido como o do século, em 1972, dez anos depois dos fatos abordados aqui). Na verdade, a rapidez das jogadas é o único elemento que destoa da realidade, pois os grandes mestres jamais jogariam com tal velocidade. De resto, um filme a ser visto e saboreado, principalmente por quem aprecia o gênero, que fazia tempo não nos brindava com um tema que ficou tão famoso nos anos 60, inclusive nos filmes de James Bond.  8,7

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OSCAR 2020 – VENCEDORES

OSCAR 2020 – RESULTADOS

 

Melhor Filme

Melhor Direção

Melhor Ator

Melhor Atriz

Melhor Atriz Coadjuvante

Melhor Ator Coadjuvante

Melhor Roteiro Original

  • Bong Joon Ho e Han Jin Won – Parasita

Melhor Roteiro Adaptado

Melhor Montagem

Melhor Fotografia

Melhor Trilha Sonora Original

Melhor Design de Produção

Melhor Figurino

Melhor Canção Original

  • Rocketman – “(I’m Gonna) Love Me Again”

Melhor Edição de Som

Melhor Mixagem de Som

Melhores Efeitos Visuais

Melhor Cabelo e Maquiagem

Melhor Filme em Língua Estrangeira

Melhor Animação

 

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UM LUGAR NA PLATEIA

A vida é feita muito especialmente de coisas simples, que podem ser saborosas, fazer nascer muita paz e felicidade e no final das contas alcançar grande significado e resumir tudo: o amor e a alegria necessários para acalmar e satisfazer as buscas. Esse é o sentimento que me despertam certos filmes franceses, que possuem muita sensibilidade nos seus elementos, a começar pelo roteiro, passando pelo elenco e tendo como pano de fundo uma bela e sentimental trilha sonora. Esse é um desses filmes, sem grandes pretensões, mas que fala de arte, da música, de romper os padrões, de buscas, de encontros…Tudo de um modo leve, em tom de comédia, provocando risos e  também emoções, sem qualquer tipo de chantagem emocional. E tendo Paris permanentemente ao redor, como mais um dos encantos inseparáveis do cinema francês. Com a encantadora e talentosa Cécile de France e as presenças dos festejados Albert Dupontel (En equilibre…) Claude Brasseur e do diretor Sydney Pollack (mas não deste filme, dirigido por Daniele Thompson), um filme de 2006 sem sofisticação, mas que acerta no tom e na delicadeza.  8,8

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O CASO RICHARD JEWELL

Este é o mais recente filme produzido e dirigido por Clint Eastwood (janeiro de 2020), por esse motivo sendo uma direção sem ressalvas, com muita delicadeza, momentos de emoção, enfim, o padrão de qualidade desse notável cineasta (após se notabilizar pelos inesquecíveis westerns na carreira de ator). Tem como protagonistas Sam Rockwell e Paul Walter Hauser, este em excelente atuação, da mesma forma Kathy Bates, como sempre, aliás. Além deles, as presenças de Olívia Wilde e Jon Hamm (Mad man), entre outros. Mas o destaque da história, que envolve um atentado a bomba na época de uma olimpíada americana, não é o fato em si da violência terrorista. O filme enfoca as consequências na vida das pessoas, principalmente do suspeito, a partir da atuação da mídia e do FBI. Nesse sentido, sentimos em muitas cenas a amplitude dos fatos e de uma investigação aprofundada do governo, cabendo a pergunta sobre se poderia ser de outra forma ou se não há alternativas menos invasivas, menos avassaladoras até, em certos momentos. Do mesmo modo, a mídia é questionada enfaticamente e nesse ponto a resposta ou os excessos parecem ser oferecidos de modo mais fácil e pronto para o espectador. Mesmo assim, não há como deixar de sentir a dignidade das pessoas profundamente atingida. Apesar da temática, do elenco e do diretor, todavia, não é um dos trabalhos mais inspirados de Clint, faltando alguns ingredientes difíceis de identificar à primeira vista. Mas perceptíveis e que não fazem o filme empolgar ou emocionar, globalmente, como poderia ou mereceria.  7,7