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O CARTEIRO DAS MONTANHAS

A China já deu ao mundo do cinema obras marcantes, tais como Adeus, minha concubina, O tigre e o dragão, Lanternas vermelhas. Este filme de 1999, dirigido por Jiangi Huo, é, também, algo de destaque na filmografia oriental e contém ensinamentos e mensagens de alcance universal, de costumes/tradições/provérbios e integrações (inclusive entre homem e natureza) emolduradas por maravilhosos cenários e exuberante fotografia, sem esquecer a trilha sonora, que mistura as tonalidades orientais típicas com outras ocidentais oportunas. É um tipo insólito de road movie, na medida em que todo o filme consiste na jornada de dois homens através das montanhas chinesas, pelas diversas comunidades rurais existentes (como a província de Hunan, por exemplo) e com uma simples e principal finalidade: entregar cartas e encomendas aos habitantes que ali vivem, isolados do mundo. Os protagonistas são pai e filho, sendo aquele um carteiro veterano e prestes a se aposentar e o filho o sucessor também na profissão e que acompanha o pai na última jornada deste, com a finalidade do aprendizado, tanto dos trajetos, quanto dos contatos humanos (e aqui é que o enredo se torna mais importante e envolvente). Sentimos aqui, ao mesmo tempo em que ouvimos lições de vida, repetidas por gerações e vindas inclusive de sábios como Confúcio, a importância do respeito às pessoas em geral, aos seus sentimentos, aos mais velhos especialmente, a relevância de qualquer atividade e as responsabilidades que a cercam, por menos expressiva que possa parecer à primeira vista. Há muita delicadeza exposta em cada cena e são momentos inesquecíveis os que, pela primeira vez, pai e filho passam juntos por tanto tempo – o que permite até uma espécie de “rito de passagem” – e este último adquire, assim, uma compreensão maior da própria vida e do que pode estar por vir, inclusive do passado, vindo a finalmente entender os motivos da distância familiar do pai ao longo de seu crescimento (A cabeça do homem dói mais do que as pernas). Os laços afetivos são aprimorados, mas ao mesmo tempo o filme explora o inevitável conflito de gerações, embora a cada passo o jovem perceba que a função que está passando a assumir não é tão sem significado como pensava inicialmente, havendo desdobramentos com grandes repercussões no universo das pessoas que vivem nos referidos locais visitados e que principalmente aguardam com ansiedade a vinda do carteiro, em meio ao total isolamento. O homem sem esperança e sem ambição (leia-se aqui “propósito de existir”) perde parte de sua alma. Há vários temas e diversas cenas muito significativas no filme, como as do próprio cão fiel,  das inúmeras águas que parecem simbolizar o próprio tempo, a da velha que espera a carta do neto, a da inesperadamente populosa festa de casamento na aldeia (com destaque para a fotografia, inclusive), a significativa das cartas e do vento. A viagem também envolve as memórias e os tocantes flashbacks da história do pai e da mãe jovens, conhecendo-se e se apaixonando, por exemplo, reforçam a mensagem do ciclo da vida e sem qualquer resquício de apego material. A paisagem é um destaque totalmente integrado e indispensável ao filme, aparecendo muitas vezes de uma forma mágica e impactante, em seus picos montanhosos, vales verdes exuberantes, cursos de água esplendorosos, enfim, um visual que deixa o espectador imerso em suas fantasias e desejos de natureza. Uma história simples, singela, mas delicada e cativante e que celebra a vida e aquilo a que talvez ela devesse se resumir. 9,0

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CASTELOS DE AREIA (SUNA NO UTSUWA)

Necessário indicar também o nome original do filme e informar que é de 1974 e dirigido por Yoshitaro Nomura, para diferenciar de outros com o mesmo nome ou nomes parecidos. Este é um filme japonês, já se percebeu, de um gênero não muito comum na época: pois é um drama policial. Mas é bastante interessante, porque se trata de uma investigação da polícia, feita com a obstinação e os métodos japoneses, ou seja, o modo oriental de ser: seguir sempre, com persistência, paciência e argúcia. O que dá seriedade ao caso e também ao filme, que não se perde em floreios ou em temáticas acessórias e desnecessárias. E assim o espectador vai acompanhar, passo a passo, todos os atos na busca da verdade a respeito de um assassinato, cujos detalhes nos serão também revelados aos poucos. Sem muita surpresa, as buscas pela verdade envolverão uma boa  geografia além de Tóquio e a necessidade de se procurar as respostas no passado. E nesse ponto o filme vai crescendo de interesse, prendendo o espectador e em sua parte final simplesmente se torna uma surpresa maior, ao absorver outros gêneros, ampliando seu foco e tornando-se mais fascinante. Tudo isso sem perder de vista os valores sempre preservados pelos orientais, com sua filosofia de vida, suas tradições, que incluem o respeito aos mais velhos, os ensinamentos que passam de pais para filhos, percorrendo as gerações e a integração com a natureza. A solução do caso vai envolver o assombro do passado (que nos será mostrado em flashbacks) e as decorrências do presente, com muitos ingredientes emocionais que certamente lembrarão a muitos os dos filmes de Charles Chaplin, formando um contexto bastante original e sem dúvida marcante e admirável. O filme talvez tenha uma duração excessiva (2h 20min mais ou menos), talvez pudesse abreviar as cenas de seu final, mas em seu todo é uma obra que não mereceria ser esquecida, pelo seu alto valor cinematográfico e a excelência de seu roteiro, elenco e direção. Um thriller policial com uma trama muito bem construída e que em alguns momentos adquire inclusive os contornos das grandes obras do cinema. 8,7

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PIG

Um filme diferente, surpreendente, com uma delicadeza revestida de rudeza e que merece atenção, porque traz algumas lições importantes, relacionadas com nosso papel no mundo, com o valor que tem cada indivíduo, com o pouco necessário para sermos felizes e com a necessidade de não se viver “jogando para a torcida”, entre outras, propiciando também algumas reflexões: na conversa de Robin com o menininho, por exemplo, podemos nos perguntar “que fim levou a árvore da nossa infância”? O filme já começa interessante, mostrando um belíssimo e ativo rio e um ermitão, que habita uma cabana onde o possível apego à ordem e à limpeza já deve ter desaparecido há muitos e muitos anos. Esse eremita, muitíssimo bem interpretado por Nicolas Cage (uma atuação memorável, inclusive), vai aos poucos sendo desvendado ante nosso olhar. Com o passar do filme receberemos pistas de quem ele foi verdadeiramente e por que motivos se isolou da civilização (a fita cassete já parece desvendar esse mistério). Mas vamos, sem dúvidas, percebendo que ele já foi alguém importante. O fato é que já de início constatamos que é um homem que se afastou do mundo, que tem um singular animal de estimação, do sexo feminino e que o ajuda a se sustentar financeiramente. E que suas relações humanas se limitam aos contatos semanais com o bem vestido e rico jovem, apreciador de músicas clássicas (que inclusive emprestam força ao roteiro) e que compra as trufas que a “girl” localiza nos subterrâneos da floresta. Essa iguaria, na verdade, é um elemento da gastronomia, que vai se revelar como tema também fundamental e que já percebemos assim pelo título requintado dos vários capítulos do filme, todos relacionados com a alta culinária; o primeiro, por exemplo, é “Tarte rústica de cogumelos”. E assim por diante. Trata-se de um filme, na verdade, com temas antigos, mas roupagem nova, embora essa forma possa sem sustos enquadrá-lo na categoria dos filmes “de arte”, portanto não adequado a todos os gostos. Assim, sendo escrito e dirigido por Michael Sarnaski, ao mesmo tempo em que passa a sua mensagem do essencial para a felicidade, homenageia a gastronomia e os grandes cheffs e o faz com bastante sensibilidade, apresentando momentos bem dosados de ação em meio a uma aparente placidez: a cena tragi-cômica da conversa entre o protagonista e o chefe de cozinha na mesa do restaurante é em vários aspectos avassaladora. Mas a do jantar (um resgate e uma grande ideia!) na casa do pai de Amir (personagem de Alex Wolff) é comovente e significativa, evocando um famoso jantar inesquecível, que mais uma vez enaltece Rob e a própria gastronomia como poderosa fonte cultural e sensorial. E a memória. Um filme que conforme o momento e o espectador vai produzir efeitos talvez inesperados. Inclusive pela tocante cena final, embalada pela voz, pelo violão e pelas intensas recordações. E quem o apreciar, como as iguarias que celebra, certamente vai reconhecer seus méritos como uma obra diferenciada ou pelo menos algo bem acima da média e que merece ser apreciado como um trabalho original e de respeito. 8,8

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THE TRIP

Apesar de ser enquadrado pela crítica especializada como “uma comédia de erros”, este filme é classificado em alguns locais dentro do gênero terror e em outros de comédia. A explicação é simples: é uma comédia com humor negro e muito violenta, contendo cenas que realmente podem ser enquadradas como de horror, já que muitas possuem uma boa conotação de realidade. É na verdade uma comédia escrachada, que pode deixar o espectador até desconfortável, pelos momentos em que ocorre o humor e em que ocorre o terror ou a violência. Mas é algo original, diferente, divertido até, para quem gostar do gênero. Para começar, é um filme norueguês, o que já o distingue pela abordagem dos fatos e pelo próprio foco da temática, que envolve o relacionamento destrutivo de um casal, que viaja para um local afastado da cidade (chalé à beira de um lago), com intenções nada boas, porém algo misteriosas. E a partir desse fato, muitos desdobramentos inesperados acontecerão. Do casal em crise, a mulher é interpretada pela conhecida atriz Noomi Rapace (Os homens que não amavam as mulheres). De quebra, sem muito compromisso com nada, o filme acaba abordando temas interessantes do relacionamento e até a respeito da fama e da falsidade que a orbita. Diversão, meramente diversão, mais uma produção Netflix. 8,2

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A VIDA EM SI (LIFE IT SELF)

Um filme de 2018 e que merece ser descoberto. Porque, apesar de dilacerante sob certo aspecto, sob outro ângulo é maravilhoso. É um filme sofrido, porque mostra alguns lados dolorosos da vida, mas ao mesmo tempo é um filme belíssimo, porque mostra o esplendor das conexões, o impacto dos fatos vividos nas gerações, que a felicidade e o amor nos esperam, desde que cada vez que a vida nos coloca de joelhos nos levantemos dispostos a vencer. Essa é a mensagem que fica no final. Só que a história dos vários personagens, lugares e épocas não é contada de maneira fácil. É necessário que tenhamos paciência e que vamos aos poucos formando todo o contexto, montando as peças do quebra-cabeças, que começa parecendo assim, mas que vai se aclarando cada vez mais com o curso do enredo. Essa é uma virtude e que torna o filme difícil, embora especial. E por esse motivo e pelos momentos impactantes também não é, talvez, para qualquer tipo de público. Mas quem se deixar levar e souber que a realidade não deve intimidar e sim estimular, ensinar, será recompensado com uma obra magnífica em termos de princípios, conceitos e sentimentos. E a parte final do filme é comovente, espetacular, aliás, a mensagem linda do filme começa a produzir seus efeitos a partir do momento em que o foco se desloca para a Espanha, com a presença carismática e memorável de Antonio Banderas e um personagem de grande relevância. E que nos dá várias lições, como todos ali, naquele ambiente. A trama, muito bem costurada, nos leva a reflexões profundas sobre o tempo, sobre nossas decisões e até mesmo sobre o reflexo delas nas gerações futuras e sob a influência das anteriores. Ótimos atores, jogos de cena, costura das histórias e trilha sonora envolvente como o próprio enredo. Não é difícil lembrar do ditado que diz que a vida é um sopro, meramente. O filme nos transporta, nos faz viajar, testa nossas emoções e provoca sonoros efeitos em nossos corações. O que somente obras sensíveis e grandiosas conseguem. Muito feliz a divisão em capítulos, a narrativa in off, a edição, a trilha sonora, a direção de Dan Fogelman (This is us) e o elenco, também formado por Olívia Wilde (de House), Oscar Isaac (Ex machina) e Annette Bening (Beleza americana), entre outros. 9,3

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ANTONIA: UMA SINFONIA

Daqueles filmes que poderiam ser uma minissérie, tais os enfoques e os desdobramentos, com elementos fortes de drama, de documento histórico (baseado em fatos reais), contando fatos que se passaram nos anos 20/30, nos EUA e em parte da Europa. Algo feito sob medida para embalar o espectador em diversos tipos de emoção: ora mostrando a tenacidade de quem luta contra um sistema arraigadamente machista (no caso, a protagonista, cujo sonho é ser maestrina, fato inconcebível para a época), ora mostrando a luta das minorias, o abismo entre as classes sociais, os desencontros nos espinhosos caminhos ao longo da vida, o preconceito, as necessidades. O filme , mais uma produção Netflix, realmente apresenta diversos momentos emocionantes, principalmente na sua segunda metade. Uma de suas frases tão abrangente, quanto eloquente: “todos nós nascemos nus, o resto é disfarce”.  Para quem aprecia o estilo,  reserva belos e tocantes momentos e na verdade pode até ser “acusado” de ser meio “manipulador”, porque com maestria sabe misturar seus ingredientes –inclusive a trilha sonora, belíssima- para ofertar ao público exatamente aquilo de que necessita: algum romance, superação, dificuldades para se chegar aos objetivos, ganância e orgulho arrependidos e assim por diante. Mas na verdade, de dura já basta a vida como diz o ditado e é muito prazeroso, principalmente em dias e/ou instantes especiais, ver uma história emoldurada por boas ações, integridade, coragem, obstinação e fantasia na medida certa…E o filme tem tudo isso, sendo também dirigido, com toda a sensibilidade feminina, por Maria Peters (que após filmar, transformou o roteiro em um romance de sucesso) e protagonizado com toda a competência e talento pela também holandesa Christanne de Brujin. Na verdade mesmo, algo que nos deixa com a alma recompensada e com o coração repleto de bons sentimentos, um filmaço para as almas sensíveis ou para as pessoas românticas e que dá a todos nós, afinal, aquilo que de fato mendigamos em segredo. 9,0

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OLD HENRY

Pelo início do filme – trilha, paisagens, fatos e narrativa in off já intuimos que se trata de um faroeste diferente, especial. A história na verdade é simples, embora vá surpreender. Mas o mérito está na maneira de os acontecimentos serem mostrados, de contar os fatos, com ótima trilha, algum mistério e muita tensão. Mérito do roteirista e diretor americano Potsy Ponciroli e do elenco, pequeno mas afinadíssimo, capitaneado pelo ator Tim Blake Nelson (A balada de Buster Scruggs), excelente. O cenário é o da primeira década do século 20 (Oklahoma), quando o Velho Oeste já estava começando a se civilizar, embora o homem ainda tivesse que se defender, à família e às suas propriedades com o uso do velho colt e da velha winchester. A propósito, fundamental no filme o relacionamento, não sem conflitos, entre pai e filho. Um filme instigante, que prende a atenção todo o tempo, imprevisível em várias cenas e que em determinados momentos coloca o espectador diante de dilemas e de segredos a serem investigados e decifrados. Muitas vezes lento, sempre cru e realista, um belo westerns que narra de forma muito atraente uma história que poderia ser banal, mas com enfoques originais e sem perder de vista os momentos do velho e inesquecível bang bang. O bom, na verdade, é vê-lo sem saber muitos detalhes. Sua estreia mundial ocorreu em setembro de 2021, no Festival de Cinema de Veneza. 8,9

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THE NIGHT HOUSE (A CASA SOMBRIA)

atriz Rebecca Hall já atuou em bons filmes, inclusive de Woody Allen (Vicky, Cristina, Barcelona), sendo de certo modo uma referência para algo que parece à primeira vista como “mais uma produção” igual a dezenas das de suspense que andam por aí. Mas que, afinal, acaba se revelando acima da média e ela é um dos principais motivos para que isso ocorra, pela excelente e versátil atriz que é,  valorizando bastante este thriller tenso e muito bem montado e dirigido por David Brucker (Sereia), outras duas virtudes do filme. A trilha sonora é excelente e mesmo fundamental, pontificando com muita intensidade os momentos de tensão e mantendo-a ao longo de todo o filme, que também tem efeitos especiais muito bem elaborados e que impressionam. Na verdade o suspense é muito bem construído e o enredo conduz o espectador a labirintos, sobressaltos e um ou outro susto capaz de causar o famoso pulo na cadeira. As cenas são lentas e por isso também assustadoras, criando um efetivo clima de terror psicológico, que envolve fatos sobrenaturais e que ficam latentes de explicação. E justamente aí está o problema do filme: a par de toda essa qualidade em provocar e manter o suspense-horror, os referidos aclaramentos acabam não vindo como deveriam, com lucidez ou pelo menos coerência. Embora os fatos ocorram em um crescente de tensão e gerem uma expectativa plausível de serem dissolvidas todas as dúvidas, isso não ocorre satisfatoriamente e o espectador ao final permanece confuso, com vários pontos obscuros e interrogações. Aos quais apenas se incorpora a interessante e provocativa frase final. 8,0

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SOBRE MENINOS E LOBOS (MYSTIC RIVER)

Este é um thriller dramático de 2003, magnificamente dirigido por Clint Eastwood e com grandes atuações, destacando-se Sean Penn (com momentos fabulosos) e Tim Robbins (também inesquecível), que ganharam respectivamente os Oscars de Melhor ator e Melhor ator coadjuvante e também Marcia Gay Garden, indicada para o prêmio de Melhor atriz coadjuvante. Lembrando que era o ano de O senhor do anéis-o retorno do rei, a produção ainda concorreu os Oscars de Melhor filme, diretor e roteiro adaptado. É um filme extremamente bem feito, realizado com muita competência, sensibilidade e emoção, por quem sabe realmente fazer cinema, o que, em outras palavras, pode ser resumido pela “marca Clint Eastwood de qualidade”. O título original é, como sempre, o mais adequado, sendo aparentemente apenas o nome de um rio, mas na verdade tendo esse fato um grande significado dentro do contexto. Entretanto, neste caso e por exceção, o título em português também se revela bastante apropriado, evidenciando com criatividade um dos pontos centrais do roteiro e que é aquele que na verdade vai dar ensejo aos fatos mais pungentes. Temática adulta, aprofundamentos psicológicos, o filme vai nos envolvendo aos poucos e se desenvolve em um crescente a partir da reconexão dos amigos de infância que conhecemos já no início do filme, quando envolvidos em um fato que vai marcar e assombrar a vida de pelo menos um deles, o qual leva à conclusão de que há momentos tão contundentes na vida, que poderão representar a fronteira entre a lucidez e a insanidade, entre o sucesso e o fracasso. Há um clima permanente de tensão e momentos de grande impacto, não sendo de fato receita para qualquer tipo de público. Mas para os apreciadores do gênero, é imperdível, sem dúvida um dos grandes filmes do cinema e que tem algumas sutilezas como um de suas virtudes, característica, aliás, do diretor: por exemplo, a cena em que Dave já adulto está sendo levado de carro, no banco de trás, é feita de forma a propositalmente lembrar a outra, fundamental, do tempo da infância. Jimmy, Sean e Dave, cada qual seguiu seu caminho, mas essas rotas irão se cruzar de forma dramática e espetacular, inclusive na parte final do filme, que é soberba em todos os sentidos. Além dos já citados, integram o elenco os sempre eficientes Kevin Bacon e Laurence Fishburne, a maravilhosa Laura Linney, os ótimos Dennis Lehane e Tom Guiry (os Irmãos Savage) e Spencer Treat Clark, entre outros. Um filme forte, doloroso e que após a sua cena final (magnífica) ainda permanecerá um bom tempo, antes de todas as sensações se desvanecerem. 9,6

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ESTAVA CHOVENDO PÁSSAROS (IL PLEUVAIT DES OISEAUX)

Existem filmes que caem no agrado de alguns, mas desagradam a outros, que os acham entediantes, lentos, até vazios. Talvez tudo dependa da idade do espectador, da sensibilidade, do momento. Este é um desses filmes, porque conta uma história basicamente de pessoas da terceira idade e os fatos se passam junto à natureza de Québec (muito bela, por sinal), tendo muito mais a ver com a vida real do que com qualquer ficção. Não surpreende se o romance que inspirou o filme for baseado em fatos reais: And the birds rained down, de Jocelyne Sauder. É de fato um filme lento, que aos poucos vai desenvolvendo sua história e nos envolvendo, ao mesmo tempo em que conecta pessoas e aprofunda seus temas e também suas verdades. E cria outras conexões. Todo o roteiro se desenvolve a partir e em torno de um grande incêndio que houve na região e suas consequências, inclusive na vida dos protagonistas, havendo depois algumas importantes implicações, inclusive envolvendo mistérios, relacionados com um dos personagens (que já é cercado de mistérios desde o início do enredo), os quais vão desencadear os fatos mais importantes da parte final do filme. Uma obra bonita, sensível, delicada, uma história comum mas relevante no seu sentido emocional e até filosófico, com uma produção cuidadosa em todos os detalhes (roteiro, trilha, fotografia, som, figurino…), além de contar com um ótimo elenco e uma competente e sensível diretora: a canadense Louise Archambault. Foi exibido nos festivais de Toronto e San Sebastián e recebeu vários prêmios nos diversos eventos de que participou. 8,5

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O PRIMEIRO AMOR (FLIPPED)

Esta é uma comédia romântica feita em 2010, com alguns tons e reflexos/reflexões de drama, baseada em livro da famosa escritora Wendelin Van Draanem, americana apesar do nome. Não confundir com Meu primeiro amor, com Macaulay Culkin, Jamie Lee Curtis e Dan Aykroyd, de 1991. Mas é um filme que merece atenção, porque se destaca dos costumeiros do gênero. Por vários fatores, incluindo as interpretações (com uma exceção), com destaque para a talentosa e carismática Madeline Carrol (que na época tinha 14 anos), para Callan McAuliffe (15 anos), apresentando ainda Aidan Quinn, John Mahoney, Rebecca De Mornay, Penelope Ann Miller e Anthony Edwards. Apenas não gostei de Steve Loski, com uma performance estereotipada-forçada e até irritante, quebrando a harmonia dos demais. Fora isso, uma história contada com muita eficiência e sensibilidade pelo diretor e produtor Rob Reiner (Conta comigo, Harry e Sally, O lobo de Wall Street) e utilizando dois recursos que no caso deste filme funcionam muito bem: o de escutarmos os pensamentos da menina e do menino e o de apreciarmos os fatos também sob o ponto de vista separado de cada um. O filme não cai na pieguice, nos leva por caminhos tocantes, propiciando-nos alguns voos, trazendo lembranças, com leveza e diálogos inteligentes e nos fazendo refletir sobre nos mesmos e nossa família, inclusive. É um filme encantador e dentro do seu gênero pode ser tido como efetivamente o melhor. 9,0

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OS MELHORES ANOS DE UMA VIDA (LES PLUS BELLES ANNÉES D´UNE VIE)

Neste tipo de filme os franceses sempre foram mestres. Inclusive porque o amor que eles mostram e celebram, realista e não-adocicado, não cai na banalidade e naturalmente reflete o modo de vida/os costumes e o pensamento do próprio povo francês. Que de certa forma é bastante atraente. Só que este filme tem algo extremamente singular e certamente muito emocionante para os mais antigos ou os que assistiram ao filme Un homme et une femme de 1966, embora também seja tocante para os que não o viram: acontece que aqui se trata do reencontro dos antigos amantes, Jean Louis e Anne, os mesmos interpretados em 1966 por Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant, hoje com 87 e 89 anos, respectivamente! E que agora são colocados em um contexto no qual podem talvez avaliar melhor o passado e também o presente. E eles estão maravilhosos! E o diretor é o mesmo, isto é, o celebrado Claude Lelouch (Retratos da vida, Crimes de autor, Viver por viver) resolver promover um reencontro do casal já idoso, após mais de meio século, naturalmente em uma situação completamente diferente, com elementos inesperados e capazes de trazer à tona inúmeros pensamentos e sentimentos, presumivelmente com com a voz da experiência e a mais eloquente da razão. Ou pelo menos da maturidade, se é que razão é compatível com amor. O filme tem belos momentos e, assim como no anterior, muitos deles emoldurados pela belíssima música de Francis Lai, com destaque para Mon amour, para a canção do título e para o tema de Un homme et une femme, que aqui é relembrado em vários momentos, de forma muito especial. Aliás, em várias partes do filme também somos brindados com cenas do filme de 1966, o que certamente provoca uma emoção diferente, porque se trata de uma nostalgia onde aparecem exatamente os mesmos personagens, conforme conviveram há mais de 50 anos. A par das músicas bonitas – e Francis Lai sempre foi especialista em canções de um romantismo intenso -.e do drama em si, o filme tem cenas muito interessantes, como a do emocionante percurso pelas exuberantes ruas de Paris, com o veículo em boa velocidade e desafiando largas avenidas, algumas curvas e até os sinais vermelhos (o espectador se situa dentro do veículo, acompanhando os fatos como se fosse o motorista ou o passageiro da frente – aqui com certa tensão). Os diálogos são também muito bem elaborados, principalmente quando enfatizam os valores que ainda permanecem desde a juventude e com isso o lado filosófico do difícil personagem de Trintignant. Também se destaca a bela participação de Monica Bellucci. 8,5

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ÀS COISAS QUE NOS FAZEM FELIZES (GLI ANNI PIU BELLI)

Os italianos têm um dom natural para fazer filmes desse tipo (romântico-dramático-nostálgico), conseguindo na maior parte das vezes misturar os ingredientes de um modo adequado e que produz ótimos efeitos emocionais, trazendo as espectador lembranças e emoções e propiciando ainda uma boa reflexão sobre o presente. Assim como foram, os italianos, mestres incontestáveis do faroeste spaghetti e da música romântica dos anos 60/70. O filme pode ser resumido naquilo em que muitos outros retratam também: a busca da felicidade, ponto comum de todos os seres humanos. E para isso também celebra a amizade e a própria vida, ao mostrar o início jovem do relacionamento de amigos e acompanhar os fatos ao longo de suas vidas, os entrelaçamentos, os desencontros, desencantos, as tristezas, as alegrias, os relacionamentos principalmente, com a vida, com a família etc. Os amigos de meninice e juventude, como é óbvio acontecer, nem sempre vão colher da vida as flores e a facilidade que todos esperavam (ou sequer cogitavam), mas o passar do tempo e o desenrolar dos acontecimentos vão trazer valores preciosos e sendo mostrados de um modo às vezes melodramático, outras vezes melancólico, mas com intensidade, trazendo também muitos instantes marcantes e alguns de grande beleza, como o da cena na Fontana Di Trevi, o da cena do passarinho na Ópera. O título do filme em português tem praticamente o mesmo significado que o original, mas é importante por representar o brinde que os amigos fazem, à vida e à amizade. No elenco, alguns rostos conhecidos, com destaque para Pierfrancesco Favino. E tudo desaguará em uma bela cena, que pode até render mais de uma interpretação, mas que nos possibilitará pensar com profundidade, sobre ser de fato relativa a felicidade e, afinal, não estar em outro lugar senão exatamente onde nós a colocamos.  8,4

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A AUSENCIA QUE SEREMOS

Filme colombiano de 2020, com um nome diferente (baseado em obra literária de mesmo nome), dirigido pelo premiado espanhol Fernando Trueba (Oscar de Melhor filme estrangeiro em 1994 com Belle Époque) e maravilhosamente bem interpretado pelo também espanhol Javier Cámara (Fale com ela, Truman, Viver é fácil) e um grande elenco, harmoniosamente afinado, apesar de se tratar de homens e mulheres de diversas idades. Essa harmonia é muito importante para o enfoque familiar do filme, a doçura das relações, da união, dos sentimentos, do carinho e do afeto, que sem dúvida tocam o espectador, que a despeito disso já fica prevenido pelo que virá. E são fundamentais esses laços familiares também porque ocupam grande parte do filme. Paradoxalmente, porém, esse aspecto acaba se tornando um excesso e é o motivo pelo qual o filme não acaba sendo o que poderia, em outras palavras, uma obra realmente marcante para o cinema. Porque o aspecto principal do filme deveria ser o de mostrar a família Abad e seu chefe, o professor, médico e idealista Hector (centro das ações e coração da história), no meio do furacão que foram os anos de ditadura e de práticas violentas, discriminatórias, sem sentido e controle, na Colômbia dos anos 70/80, mas enaltecendo com muito mais profundidade os fatos e principalmente os conflutos todos, que ocorreram a partir da cidade enfocada, que é a de Medellín. O protagonista foi um cidadão e um pai exemplar, misto de conservador e ativista, que sempre lutou corajosamente a favor dos direitos humanos e contra aqueles estado de coisas que acabou se instalando, lentamente a partir da década de 60. No entanto, a história se concentra tanto na família, que reserva espaço bem menor do que deveria para mostrar os movimentos políticos e a violência real, perdendo com isso um pouco da dimensão das coias, omitindo muito da crueldade do momento e que efetivamente provocou transformações. Em síntese, faltou ao filme a necessária e fundamental tensão, que certamente deveria contagiar o espectador. Problema provavelmente de roteiro, porque tanto a direção, quanto o elenco e os demais elementos funcionam muito bem, incluindo a própria produção, a fotografia, a trilha sonora etc. E, a despeito do exposto, é um bom filme e considerando apenas a naturalidade do desempenho de todos os membros da família, já se pode deduzir que o diretor fez um belíssimo trabalho. Um bom entretenimento, embora destinado a quem aprecia dramas sérios e densos. Sobre o estranho título do filme (e do livro), na verdade se refere ao começo do soneto Epitáfio (Aquí. Hoy), de Jorge Luis Borges: Ya somos el olvido que seremos. El polvo elemental que nos ignora y que fue el rojo Adán y que es ahora todos los hombres, y que no veremos. Produção Netflix.  8,0

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O CULPADO

Adaptado do filme de 2018 de mesmo nome e que foi indicado para representar a Dinamarca no Oscar de 2019, este thriller da Netflix, dirigido por Antoine Fuqua, é original, tenso, imprevisível e apresenta um soberbo desempenho do ator Jake Gyllenhaal (O abutre), cujo personagem na verdade é a única razão de existir do roteiro elaborado pelo talentoso e aclamado Nic Pizzolatto (True detective). Os personagens à volta do protagonista são quase sem importância e a interação se dá verdadeiramente com pessoas que não aparecem e das quais ouvimos apenas a voz (com uma dramatização também digna de nota). E todo o filme se passa em um ambiente único e limitado. Poderia até mesmo, em razão desses fatos, tratar-se de uma peça teatral de um personagem só e o mais impressionante é que o roteiro é tão bem feito, que ao longo de todo o filme o interesse não apenas se mantém mas vai se intensificando e o espectador, totalmente imerso no suspense e na expectativa pelo desenlace, simplesmente não vê o tempo passar e não consegue desviar o olhar da tela. Os desdobramentos do roteiro permitem que se retire do enredo não só a crítica social, mas principalmente os aspectos psicológicos que envolvem a própria essência da comunicação. Isso, a par das conturbações específicas do protagonista e que também aos poucos vão ficando mais claras. Rica linguagem cinematográfica, entretenimento de alto nível e imperdível para quem aprecia o gênero. 9,2

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STILLWATER

Um drama com elementos policiais, baseado em fatos reais e bastante pungente nas relações paternais. Na verdade, formou-se uma polêmica a respeito do roteiro do filme, porque a personagem real nele representada não gostou da maneira como tudo foi exposto e declarou que não autorizou o uso de acontecimentos da sua vida para a realização da produção. De todo modo, tudo seguiu seu curso, com uma ótima atuação do ator Matt Damon, que nem sempre é regular em suas performances. Aqui ele está muito bem e totalmente mergulhado no personagem, que não é de fácil consecução e tampouco pode ser facilmente definido: tipo meio enigmático e taciturno, que parece represar uma aparente calmaria sobre um fio muito tênue e que pode a qualquer momento se romper, revelando tempestades inesperadas. Entretanto, a história não é toda bem lapidadada e o filme tem alguns altos e baixos, passando a ser realmente interessante apenas em sua parte final, justamente quando ouvimos pela segunda vez a palavra do título e passamos a começar a entendê-la. A trama no todo, com muitos fatos esparsos e que se perdem, constrói-se, todavia, de modo aceitável, apresenta bons momentos de tensão e deixa o espectador normalmente entretido e legitimamente interessado principalmente sobre se haverá alguma surpresa no final. Não é um filme memorável, mas uma boa distração, se bem que meio restrita a determinados tipos de público. 8,0

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MEU FILHO (MY SON)

Um filme de suspense, estilo policial, com o ótimo ator James McAvoy, que fez Fragmentado, Vidro, Desejo e reparação e vários de X-men, entre outros. Dizem inclusive que aqui ele atuou em boa parte da produção sem ainda ter o roteiro nas mãos, tendo que improvisar. Não é de duvidar e também participa muito bem do filme o ator Gary Lewis, conhecido em Outlander e em Vigil. O filme começa com um carro à esquerda na estrada (contramão para nós), já nos dando uma pista do país onde os fatos acontecem. Pelo clima e pelas paisagens (que são, de fato, atraentes até para dar um clima adequado para a história), percebemos que deve ser na Irlanda ou na Escócia, mas McAvoy é um ator escocês, então fica resolvida a questão, conforme um detalhe vai confirmar mais à frente…Mas esse suspense, com o acréscimo da trilha sonora tensa, não se dá apenas na primeira cena, permanecendo durante todo o filme. E realmente em sua maior parte o roteiro envolve o espectador de uma forma bem interessante, em variados mistérios, que se misturam com alguns elementos de conflitos domésticos, criando um ingrediente a mais. E seguimos tensos, com vivo interesse nos fatos e nos porquês, havendo variadas possibilidades para explicar o enigma e dar a resposta à pergunta que a todos inquieta. E assim o filme segue realmente instigante. Até o momento em que o mistério é revelado (para mim inesperado até), porém. Porque a partir daí, embora o diretor ainda consiga sustentar algum suspense (pela trilha e sua habilidade na direção e condução do elenco), deixa de existir qualquer surpresa possível e na verdade o roteiro fica banalizado pela própria revelação e pelo que se prevê, diante da repetição de histórias parecidas e que todos já conhecem dos enlatados da TV. A vantagem, porém, é que nesse momento estamos a 20min apenas do final e se ficamos envolvidos durante praticamente todo o tempo do filme, não será um pequeno lapso de fatos previsíveis que manchará de forma irremediável um bom trabalho. De sorte que merece até umas três estrelas e constitui uma boa diversão para os que apreciam o gênero. 7,8

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O BAILE DAS LOUCAS (LE BAL DES FOLLES)

Drama francês de 2021, dirigido pela talentosa Mélanie Laurent, que também atua (muitíssimo bem!), interpretando Geneviève, a chefe das enfermeiras. A atriz Lou de Laâge, que faz a protagonista e aparece no cartaz do filme junto com Mélanie, apresenta grande performance, bem como são ótimas as demais atrizes do elenco, com destaque também para Lomane de Dietrich. Fora a direção e a atuação, este filme da Prime tem as qualidades da bela fotografia – em tons perfeitos para o clima do filme – e da densa trilha sonora, harmoniosa com a época e a força do roteiro, por sinal baseado em obra literária. A maior parte do filme se passa no hospital da Salpêtrière, que é um hospital de Paris (hoje referência em oncologia) e que, curiosa e tragicamente, foi onde Lady Di faleceu, após ter sido para lá conduzida, do terrível acidente de 1997. E ficou famoso muito antes disso, porque nas últimas décadas do século 19 se tornou um grande centro de estudos importantes de doenças mentais, sob a gestão do renomado médico psiquiatra Jean-Martin Charcot, mentor de Sigmund Freud e considerado fundador da moderna neurologia: foi ele quem deu o nome da Síndrome de Tourette em homenagem a um aluno e do Mal de Parkinson, em homenagem ao médico que iniciou os estudos dessa doença. Após a Revolução Francesa, o citado local virou um asilo e hospital psiquiátrico de mulheres. É um filme forte e lento e com isso mostra a dolorosa rotina do sanatório na segunda metade do século 19 e alguns dos absurdos que ocorriam com mulheres, inclusive as que meramente pensavam e agiam diferente do padrão social da época. Muito importantes e interessantes são também os fatos relacionados com o espiritismo e o famoso livro de Alan Kardec, essenciais dentro do enredo. Um filme que não pode ser classificado entre os de fácil digestão, mas certamente entre os de qualidade superior, sendo bem realizado e com um conteúdo histórico e ideológico bastante relevante. E uma esplendorosa cena final, bela inclusive esteticamente e de vários significados. 8,7

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CRY MACHO

Como diz a minha ídola Isabela Boscov, mesmo que não seja um dos grandes filmes feitos por Clint Eastwood, qualquer filme dele merece ser visto, por ser ele quem é e pelo respeito que devemos a ele devotar: uma lenda-viva do cinema. E por menos força e originalidade que tenha qualquer história contada por ele, a narratuva vai no mínimo confirmar os valores nobres do ser humano, que ele não permite em suas obras serem esquecidos. De fato, aos 91 anos de idade – que percebemos pelas condições físicas do personagem, as quais infelizmente não conseguimos dissociar das do ator -, Clint já poderia estar há décadas usufruindo de um merecido descanso. Mas não dá trégua e não se deixa abater: continua produzindo e dirigindo filmes e ainda neles atuando, sempre com a velha empatia. E impregnando neles sua visão do mundo e seu estilo pessoal de dirigir: os filmes de Clint têm emoções, momentos de grandeza e a chama viva de humanidade, por mais difíceis que sejam os caminhos a serem percorridos. Este em particular, em parte possui a natureza de um road movie e a grandeza em muitas cenas das boas obras literárias. Embora seja a repetição de coisas já vistas muitas vezes. Começa lindamente com uma balada country do melhor estilo texano, no caso “Find a new home”, cantada pelo ótimo Will Banister, e que tem tudo a ver com o enredo que iremos acompanhar, onde os fatos irão ocorrer lentamente, bem ao estilo de Clint, sempre tentando desfazer, aos poucos que seja, a imagem do heroi infalível de outrora. Nos filmes dele, os afetos se formam com o tempo e por isso solidamente. Este filme tem um roteiro já batido, não há nada de imprevisível ou muito original, mas justamente os sentimentos e a sensibilidade do diretor é que tornam as coisas palpáveis e emocionais, representadas em belas cenas, como a do café da manhã, a do cavalo sendo encilhado, a do belo bolero (Sabor a mi) ao lado da fogueira, a dos dois jovens com reticências pairando no ar, a da dança…Clint sabe tudo sobre cinema e sobre contar uma boa história, conhecendo de cor o caminho das pedras. Esse fato consegue elevar qualquer história, que nas mãos de outro ficaria absolutamente insípida. Não tendo mais nada a provar, aqui o ator que se consagrou desde os westerns do cavaleiro solitário, os policiais de Dirty Harry e sua magnum 44 e os filmes que brilhantemente dirigiu, como, por exemplo, Sobre meninos e lobos, Menina de ouro, Gran Torino, Além da vida e Os imperdoáveis (um dos grandes faroestes da história do cinema), empresta mais uma vez ao espectador um pouco de sua filosofia de vida, pela qual, ao lado das dificuldades, impera o otimismo e o lado bom e generoso dos seres humanos, razão pela qual percebemos na última cena não apenas a fumaça da bondade e da alegria, mas a certeza de que é possível colorir a vida com os tons da beleza e da esperança. 8,0

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KISS ME (KYSS MIG)

Este filme escandinavo de 2011 aborda uma questão atual e incômoda para muitos. E que, a princípio, não deveria mais ser tão polêmica, ainda mais em um país como a Suécia, tido como de primeiro mundo. Mas a realidade é resistente aos preconceitos que nascem, crescem e permanecem orbitando mesmo em torno das populações ditas mais evoluídas. Parece natural e inseparável dos humanos, por mais que o tempo passe e as civilizações em tese se aperfeiçoem. E o tema, afinal, é universal, aqui sendo abordado com sensibilidade e sem cair na banalidade. O que torna o filme interessante e é, afinal seu mérito, considerando que o roteiro não tem novidades e é uma repetição de temas já retocados e reiterados. Diretora competente e também ótimas intérpretes, suecas, se destacam, assim como uma trilha sonora e fotografia caprichadas, tudo bem harmonioso e sendo apresentado de um modo que além de nos colocar frente a frente com nossos medos e contradições, também nos possibilita uma reflexão sobre o que no fundo realmente importa, para combatermos a hipocrisia social e encontrarmos, afinal, a nossa própria voz. A abordagem de bom gosto também nos permite contemplar a dor e o sofrimento, mas apesar disso também reafirmar a necessidade da lealdade nos relacionamentos. E apesar dos momentos de melodrama, o filme não nos nega a realidade que parece impor a todos, cada vez mais, no compromisso com a verdade e na busca pelo amor e pela nossa felicidade, que por serem tão difíceis de encontrar, certamente mereceriam de cada um mergulhos muito mais profundos. 8,0