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BAFTA (British Academy Film Awards – Oscar inglês) – vencedores (18 de fevereiro de 2024)

Mia McKenna-Bruce
Astro em Ascensão
Samantha Morton
Prêmio Fellowship
Cillian Murphy
Oppenheimer
Melhor Ator
Oppenheimer
Christopher Nolan, Emma Thomas, Charles Roven
Melhor Filme
Emma Stone
Pobres Criaturas
Melhor Atriz
Da’Vine Joy Randolph
Os Rejeitados
Melhor Atriz Coadjuvante
Robert Downey Jr.
Oppenheimer
Melhor Ator Coadjuvante
Zona de Interesse
Jonathan Glazer, James Wilson
Melhor Filme Britânico
20 dniv u Mariupoli
Mstyslav Chernov, Raney Aronson-Rath, Michelle Mizner
Melhor Documentário
Christopher Nolan
Oppenheimer
Melhor Direção
Jellyfish and Lobster
Yasmin Afifi, Elizabeth Rufai
Melhor Curta-metragem
Zona de Interesse
Jonathan Glazer, James Wilson
Melhor Filme Estrangeiro
Oppenheimer
Ludwig Göransson
Melhor Trilha Sonora Original
O Menino e a Garça
Hayao Miyazaki, Toshio Suzuki
Melhor Animação
Pobres Criaturas
Tim Barter, Dean Koonjul, Simon Hughes, …
Melhores Efeitos Visuais
American Fiction
Cord Jefferson
Melhor Roteiro Adaptado
Zona de Interesse
Johnnie Burn, Tarn Willers
Melhor Som
Anatomia de uma Queda
Justine Triet, Arthur Harari
Melhor Roteiro Original
Holly Waddington
Pobres Criaturas
Melhor Figurino
Crab Day
Bart Stanislawek, Ross Stringer, Aleksandra Sykulak
Melhor Curta-Metragem de Animação
Shirley O’Connor
Earth Mama
Melhor Estreia de Argumentista, Realizador ou Produtor Britânico
Savanah Leaf
Earth Mama
Melhor Estreia de Argumentista, Realizador ou Produtor Britânico
Medb Riordan
Earth Mama
Melhor Estreia de Argumentista, Realizador ou Produtor Britânico
Os Rejeitados
Susan Shopmaker
Melhor Elenco
Pobres Criaturas
Mark Coulier, Nadia Stacey, Josh Weston
Melhor Maquiagem e Cabelo
Jennifer Lame
Oppenheimer
Melhor Montagem
Pobres Criaturas
Shona Heath, Zsuzsa Mihalek, James Price
Melhor Direção de Arte
Hoyte van Hoytema
Oppenheimer
Melhor Fotografia
June Givanni
Melhor Contribuição Britânica para o Cinema
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FÉ CORROMPIDA – NO CORAÇÃO DA ESCURIDÃO (FIRST REFORMED)

Um filme (de 2018) incomum, por sua seriedade e estranheza sombria. E por isso mesmo perturbador. Acompanhamos os fatos sem sabê-los inteiramente e com o desenrolar da história – que se passa em Snowbridge (NY) – é que vamos reunindo as informações sobre o protagonista e todo o seu entorno. Um pastor, uma comunidade, alguns segredos, situações que retratam uma vida aparentemente normal, mas já se intui de início que há muitas profundezas a serem exploradas, escondidas sob o verniz. Inclusive da Igreja e da própria fé (dos valores cristãos), muitas vezes indevidamente revestidas de política. E que, de fato, existem e vão sendo reveladas aos poucos e no final do filme de forma surpreendente e até assustadora. Duas cenas especialmente chamam a atenção e a final é simplesmente estarrecedora, daquelas de surpreender e ao mesmo tempo deixar o coração em situação de terror indefinido. Portanto, um filme destinado a públicos especiais, pesado, às vezes difícil de se entender de imediato, mas que revela muitas qualidades cinematográficas, principalmente do ator Etham Hawke e do diretor e roteirista Paul Schrader, embora a atriz Amanda Seyfried (igualmente em papel marcante da carreira) também esteja maravilhosa. Sobre Hawke, sua interpretação do reverendo Ernst Toller talvez seja o ápice de sua multifacetada carreira e alguns críticos, definindo muito bem, dizem que o personagem oscila, o tempo todo, entre a luz e as trevas. O filme é pessimista quanto ao futuro da humanidade, abordando também questões relevantes ambientais, tudo com muita competência em um texto inegavelmente rico, que concorreu a Melhor roteiro original no Oscar de 2019. O quanto pode a fé resistir à destruição dos dogmas, paradigmas, ideologias e talvez do próprio planeta? Segundo consta, este filme iniciou a trilogia, que teve continuação com O jogador (The card counter) de 2021 e com O mestre jardineiro (Master gardener) de 2022. 8,9

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O SEQUESTRO DO VOO 375

Em primeiro lugar, não há como deixar passar que mais uma vez os imbecis continuam a dar nomes aos filmes que entram no mercado. Porque o título traz um “spoiler” e no caso seria totalmente desnecessário se revelar já antes do filme que haveria um sequestro, até porque a maioria das pessoas desconhecia esse fato. No caso, porém, o mal é menor porque tal fato vai acontecer na parte inicial do filme (mas mesmo assim, sempre há que se lamentar essa insensibilidade e que ocorre apenas para fins comerciais). O título poderia ser, por exemplo, “Voo 375”, simplesmente, ou acompanhado de outro adjetivo mais inteligente. Mas deixemos isso para lá, porque tirando esse aspecto de pouca relevância, o filme é daqueles que pode ser chamado de “filmaço” e a partir de seu lançamento, no Festival do Rio de 2023 (e nos cinemas no final do ano), passou a ter grande sucesso e ser alvo (merecidamente) de muitos elogios. Porque é realmente uma produção nacional de alta qualidade, caprichada em todos os seus aspectos e baseada em fatos reais datados de 1988, época em que o país era governado por José Sarney e enfrentava enorme instabilidade econômica-financeira e institucional, havendo relevantes movimentos sociais e que não passam ao largo do roteiro, muito bem construído, por sinal, em todos os seus elementos (até mesmo bem cuidado nas ligações telefônicas, cabe notar). É notável a reconstituição da época, ainda mais que se trata de acontecimentos envolvendo a empresa Vasp e a aviação da época, mas o forte do filme são seu dinamismo, suspense, direção (leia-se também edição) e atuações, com destaque para Danilo Grangheia (o comandante do avião) e Roberta Gualda (a funcionária da torre de comando). O diretor é Marcus Baldini (Os homens são de marte e é pra lá que eu vou, Bruna Surfistinha) e o filme realmente confirma, com seu elevado nível, o status que atingiram algumas produções brasileiras, sendo um retrato empolgante, impressionante e emocionante de um fato histórico relevante, mas que acabou sendo divulgado com muita parcimônia pela mídia e principalmente pelo governo, que teria omitido o reconhecimento oficial de aspectos fundamentais do caso: nesse particular, recomenda-se com veemência a leitura das informações postas no final do filme, na parte dos créditos finais. Se tudo ocorreu realmente conforme se passa na tela, tratou-se de eventos extraordinários e que mereceriam um (re)conhecimento global, além de efetivamente tornarem absolutamente verossímeis todas as citadas informações que fecham com mais impacto ainda o roteiro bem engendrado. 9,1

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VERGONHA

Filme sueco em preto e branco, escrito e dirigido por Ingmar Bergman em 1968 e que destoa um pouco da abordagem da maior parte de suas obras, embora mantenha a excelente fotografia (aqui em tons cinzas para mostrar a opressão da guerra), a exploração psicológica dos personagens e de suas relações na intimidade crua, os closes (que revelam o âmago dos sentimentos e a qualidade da interpretação), a capacidade de contar com competência uma história e um elenco de alto nível, com sua atriz e seu ator favoritos: Liv Ullmann e Max Von Sydow. Um casal de ex-músicos de orquestra e que vive em um local que parece um sítio – mas que é, na verdade, uma pequena propriedade em uma ilha -, nos transmite sua rotina, seus sonhos e conflitos, um pouco de seu passado e ao mesmo tempo vê chegar bem próxima a eles a guerra civil que eclode no Báltico, com todo o poder de sua força malévola e destruidora. A partir daí o filme faz um estudo profundo das mudanças provocadas pela guerra, das tragédias que pode ocasionar nas relações e ao transformar os indivíduos, tornando-os irreconhecíveis até para os mais próximos: a doença moral tirando a dignidade/integridade e revelando o melhor e o pior de cada um. Realmente é algo bastante contundente e há situações surpreendentes no filme e que aos poucos vão inclusive impactar, pelo que se imaginava de início, em relação a atributos como coragem, sentimentos, ideais e valores. Um grande trabalho do diretor e de toda a sua equipe, incluindo o elenco (integrado também por outro ator habitual nos filmes do cineasta, Gunnar Bjornstrand) e o habitual diretor de fotografia Sven Nykvist. Interessante que em um dos seus livros autobiográficos Bergman contou não ter ficado totalmente satisfeito com o filme, considerando o roteiro irregular, principalmente em sua primeira parte. O perfeito entendimento do título exige que se preste atenção em algo que Eva diz no início e complementa no fecho do filme, o que também impõe ao espectador uma boa reflexão antes do perfeito entendimento. 8,9

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DOGMAN

Desde a primeira cena este filme francês de 2023 se revela instigante e passa a vestir inclusive alguns lugares-comuns com trajes de originalidade e elevada qualidade cinematográfica, além de também harmonizar o conjunto com som, trilha, ritmo/ação, mistério e suspense. Luc Besson é um diretor diferente e seus filmes têm sempre um algo mais. São dele, por exemplo, produções como Imensidão azul, Nikita, O quinto elemento, Lucy e O profissional. Aqui, um roteiro que até se mostra fantasioso em alguns momentos, mas com cores de humanidade e sempre a serviço do resultado pretendido. Há instantes tensos, cruéis, mas também líricos em meio à violência e ao caos, que já começa pelas origens do personagem, permanecendo as trevas por toda a sua complexa e contundente trajetória. A história acumula tons poderosos e arrebatadores de drama e emoção, tanto pela direção, como pela interpretação extraordinária do ator Caleb Landry Jones, americano e que também é músico. Um roteiro que resgata a velha luta da sobrevivência em um mundo injusto e cruel, do bem contra o mal, mas com ingredientes mais sofisticados e inovadores, em meio aos convencionais, sendo a mensagem forte, pungente e que de fato sensibiliza e nos alimenta e alvoroça os sentidos todo o tempo, inclusive fazendo com que os “absurdos ou exageros” sejam engolidos pela magia toda. Alguns inclusive já o classificam como filme cult. E o final é simplesmente espetacular. 9,3

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RAB NE BANA DI JODI

Quem viu o filme PK na Netflix (de 2014) e ficou encantado com o cinema indiano e com a atriz Anushka Sharma, aqui também poderá ser arrebatado por ela e pelo ritmo contagiante do filme, repleto de cores, movimento e romantismo. Na verdade, tem o mesmo apelo das telenovelas, só que muito melhor, porque superior em todos os aspectos: há o chamado “dramalhão”, só que aqui cercado de ritmo, de talento dramático, de músicas e de um colorido daqueles bem típicos do cinema indiano que acende o ânimo de quem assiste a ele, tornando tudo uma bela diversão, impregnada de romance, mas também de sensibilidade e lições filosóficas e de vida, como os orientais são hábeis em transmitir. Anushka tinha 20 anos quando protagonizou este filme em 2008 e a partir dele começou a alcançar a fama de que desfruta atualmente, sendo uma das atrizes mais bem pagas da Índia. Aqui ela contracena simplesmente com um dos artistas mais famosos do cinema indiano, protagonista de mais de 70 filmes: o excelente Shahrukh Khan, conhecido como Grande Khan, o Rei de Bollywood. O filme explora um tema já batido, portanto não tendo um roteiro original. Entretanto, isso é o que está escrito, porque na prática, ou seja, a forma pela qual a história já conhecida é recontada é um deleite para os sentidos: ação, naturalidade nas performances, competência de todo o elenco e do diretor Aditya Chopra, muita música e dança, ritmo incessante, tudo formando algo extremamente atraente e divertido, leve e descompromissado, alimento para o coração por falar de amor e ideal para quem se propõe a se emocionar sem amarras e se jogar no entretenimento sem rede de proteção. Prime Vídeo. 8,5

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PK

Os indianos possuem uma fisionomia única, principalmente na cor da pele. Mas seu cinema também é único e sua indústria cinematográfica é a maior do mundo, tendo um público fiel que ainda lota todas as salas de exibição. Os filmes indianos, regra geral, têm muitas cores, movimento, música, ação, romantismo e abordam com alegria e descontração assuntos gerais, inclusive sociais sérios, causando no espectador ocidental, muitas vezes, uma espécie de desconforto pelos contrastes que apresenta, entre o bom e o mau gosto: não é incomum a uma cena dramática seguir-se outra bizarra ou de pastelão, por exemplo. Mas possui recursos técnicos e seus atores, atrizes e diretores têm elevada qualidade artística. Neste caso, pode até ser que essa miscelânea toda seja um recurso para se transmitir uma mensagem que aqui é bastante desafiadora, de uma forma mais amena: exatamente conforme o filme ensina, no sentido de primar pela sutileza ao se denunciar fraudes de grande repercussão. Mas esta produção inusitada – de 2014, em idioma hindi e dirigido por Rajkumar Hirani – se enquadra no que foi exposto, porém com dois diferenciais a mais: a fantasia agregada ao drama com comédia e a coragem, até audácia, de bater de frente com instituições sagradas e apresentar contundente crítica social e às religiões, notadamente em um país cuja religiosidade é acirrada e perpetuada pelos tempos e gerações. A história, assim, é muito interessante, pelo tema, pela diversidade dos elementos e pela imprevisibilidade, tudo isso nos provocando uma variada gama de emoções, sendo que na parte final do filme é difícil até conter as lágrimas (para os mais sensíveis, claro). Uma experiência muito agradável, portanto e que no caso propicia ainda importantes questões sociais e filosóficas para serem pensadas e debatidas. Apenas achei destoante a composição física do personagem “Tonto” (que é o PK e que dá título ao filme), por sua aparência estranha, exagerada e agressiva. Entretanto, talvez esse fato (proposital, provavelmente) acabe sendo positivo, ao nos obrigar a conviver com “o que é diferente”, neste caso valendo também como lição: até porque com o passar do tempo acabamos acostumando com tal aparência inusitada, principalmente considerando o conteúdo de sua proposta. Essa questão à parte, o grande destaque do filme, por sua beleza, simpatia, carisma e bela e natural interpretação é a atriz Anushka Sharma (com 35 anos), que também é produtora e uma das artistas mais bem pagas do cinema indiano. Produção Netflix. 9,0

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RINGO NÃO PERDOA…MATA (IL RITORNO DI RINGO)

Após o declínio do gênero faroeste nos Estados Unidos (e que fez grande sucesso nos anos 50), foi ele revigorado na Itália entre os anos de 1964 e 1973 aproximadamente, ficando esses filmes conhecidos como westerns spaghetti (ou faroeste macarrônico ou, ainda, bang-bang à italiana). Apesar disso, algumas filmagens também ocorriam na Espanha. Foram dezenas e dezenas de produções , com grande popularidade e revelando atores e diretores. Sérgio Leone foi o mais famoso, tendo feito sua famosa trilogia estrelada por Clint Eastwood (que iniciou em 1964 com Por um punhado de dólares). Mas talvez o mais amado e idolatrado ator tenha sido Giuliano Gemma – que por questões de marketing passou a ser conhecido também como Montgomery Wood -, por sua aparência de galã e também por ser carismático e atleta. Quando fez este filme ele tinha 27 anos e naquele mesmo ano de 1965 já havia estrelado Uma pistola para Ringo e protagonizou Adiós, Gringo e o filme que se tornou um dos mais famosos do gênero na história e que elevou o ator a ícone do faroeste spaghetti: O dólar furado, também enaltecido pela famosa música assoviada, que se eternizou na história das maiores trilhas sonoras do cinema. Este filme é imperdível para os fãs, porque contém todos os ingredientes que se espera, mas mesmo para quem não é aficcionado contendo inúmeras qualidades, como ação, emoção, algum romance/lirismo, aventura, tiros e além de tudo um roteiro que repisa a história do herói que volta da guerra e se impacta com a mudança dos fatos (situação que clama por ação e por vingança, como na Odisseia de Homero). Além da peculiar maneira de filmar, dos closes e principalmente a figura do protagonista, bonito, viril, corajoso, arguto, dando colorido à história, que naturalmente tem também os bandidos estereotipados de sempre, um deles interpretado por Fernando Sancho, habitual inimigo do mocinho nos filmes de Gemma. Por fim, destaca-se também a marcante trilha sonora, forte e naturalmente imprescindível para o gênero: entretanto, embora anunciada como de autoria do festejado Ennio Morricone, esse fato se tornou polêmico porque o compositor declarou que não foi contratado para fazer a trilha e que parte de sua obra foi utilizada indevidamente, inclusive processando os produtores. Essa questão à parte, o filme entrega exatamente o que se espera dele (e dos faroestes spaguetti), constituindo uma ótima diversão. 8,7

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AO BALANÇO DAS HORAS (ROCK AROUND THE CLOCK)

Este filme de 1956 e produzido pelo chamado “Rei dos filmes B”, Sam Katzman (que fez vários de Elvis Presley nos anos 60), é um musical e que tem o mérito de reafirmar ao mundo o sucesso da novidade que naquela época transformou e alucinou a juventude, substituindo os tradicionais bailes de orquestra: o rock and roll ! E essa transformação iniciou principalmente na figura de Bill Haley & seus Cometas, que na verdade dois anos antes haviam estourado com a música “Rock Around the Clock”, que dá título original ao filme, que surgiu na verdade na onda do sucesso da música e do movimento e que tiveram outros propulsores, como Alan Freed, The Platters, Tony Martinez & banda e Freddie Bell and His Bellboys. Todos retratados no filme, que nos dá o prazer de apresentar algumas músicas que já se tornaram clássicas dessa época. A história contada aqui é uma ficção a respeito da descoberta do rock and roll e tudo é extremamente simples, até ingênuo, com furos de roteiro etc, sendo o filme banal do ponto de vista técnico e artístico. Entretanto, o seu valor efetivo é o “documental”, pois além de nos propiciar a visão da origem das coisas (e dos artistas), nos permite perceber a radical mudança de costumes e o que seria uma verdadeira e irreversível revolução no mundo da música. Há também mérito em uma ou outra cena artística, geralmente com a participação de Lisa Gaye, que era dançarina e atriz americana e tinha apenas 21 anos quando fez o filme, unindo talento com beleza física. Também carismático, atua muito bem o ator e cantor Johnnie Johnston, muito popular nos EUA na década de 40 e que na época do filme tinha 41 anos. Muito importante destacar, por fim, que o filme gerou nos EUA (onde foi obviamente lançado) inúmeros escândalos e verdadeiras desordens nas salas de cinema e fora delas – histerismo, destruição de patrimônio, desrespeito às autoridades etc -, o que não foi muito diferente em São Paulo e Rio de Janeiro, quando foi lançado no Brasil, naquele mesmo ano. Esses fatos repercutiram não apenas na mídia, mas geraram intensos e prolongados debates sobre censura, juventude, costumes etc, nas mais variadas camadas sociais (delegados, juízes, psicólogos, educadores etc), sendo fato que o rock and roll entrava oficialmente no Brasil no final de 1956, mas não de forma totalmente pacífico, sendo inclusive chamado de “ritmo selvagem” e gerando até mesmo providências severas e formais do governador de São Paulo, na época o conhecidíssimo Jânio Quadros. 8,0

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BOM DIA, TRISTEZA (BONJOUR TRISTESSE)

Dizem que quem tem dinheiro sobrando pode gozar a vida e desfrutar dos prazeres todos sem necessitar sequer pensar em trabalhar. O famoso bon vivant. Que pode também não ser totalmente isento de algumas preocupações ou, ao contrário, ser, de fato, inteiramente voltado à ociosidade. O filme mostra pessoas que desfrutam dessa boa vida, mas também questões de relacionamento e mesmo filosóficas que acabam surgindo, notadamente como fruto do reencontro de pai e filha e de quem vai de repente compartilhar essa rotina de prazeres sem compromisso. Sabendo-se que esse pequeno núcleo anticonvencional a ser impactado (“filha mimada, pai irresponsável”) reside em local privilegiado da Riviera Francesa, época de pós-guerra. Da beleza e mansidão reinante, poderão redundar dramas e até tragédias. Baseado em obra escrita por Françoise Sagan, o filme é de 1958, dirigido por Otto Preminger (Laura, Anatomia de um crime, Inferno número 17) e estrelado por David Niven, Jean Seberg e Deborah Kerr, também atuando nele Mylene Demongeot e Geoffrey Horne. Embora pareça às vezes fútil e de cunho simples e superficial, o roteiro, se observado com bastante atenção e sensibilidade, poderá gerar uma ou outra boa surpresa e até mesmo relevantes questões a serem discutidas e/ou objeto de reflexão, havendo inclusive quem o considere, por essa razão, efetivamente um clássico. Sem dúvidas, polêmico ele é, pois é fato que muitos ainda continuam classificando-o como um melodrama banal. De qualquer forma, a pista do que virá (ou do “clima” a ser percebido) poderá ser apreendida desde o início, quando Juliette Gréco interpreta a bela música que dá título ao filme (a letra diz tudo). O fato é que no mínimo se trata de um filme a ser visto por se tratar de algo polemizado e atípico e que retrata não apenas fatos embalados em cenário paradisíaco (lindamente fotografado), mas reúne um elenco importante na Hollywood dos anos 50/60 (e até antes): Niven com extensa filmografia, como 55 dias em Pequim, Cassino Royale, A pantera cor de rosa, Dois amores e uma cabana, Kerr, da mesma forma, com Narciso negro, O rei e eu, Tarde demais para esquecer e Jean Seberg, que na época tinha 20 anos e um ano antes havia sido premiada pela atuação como Joana D´Arc: em 1960, ela ganharia fama mundial e definitiva ao estrelar o famoso Acossado, de Jean-Luc Godard. 8,4

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MORTE EM VENEZA

Baseado na obra de 1913 de Thomas Mann, este filme de produção ítalo-francesa foi dirigido em 1971 por Luchino Visconti (Rocco e seus irmãos, Os deuses malditos, O leopardo) e é estrelado por Dirk Bogarde e Silvana Mangano e com a participação de Marisa Berenson. Passa-se, como o nome indica, em Veneza e a época é o início do século 20, quando paralelamente ao foco principal do enredo, vemos se instalar a cólera asiática, por mais que a cidade procure disfarçar esse fato (por razões óbvias vinculadas ao turismo). O olhar e o comportamento do protagonista, ao longo da história, vão sendo afetados pela chegada da peste e esse acaba sendo mais um elemento que perturba o seu objetivo principal de descanso e paz de espírito: porque o grande agente de desequilíbrio e que é tão inesperado, quanto poderoso, tem apenas 14 anos e atende pelo nome de Tadzio. Em relação a ele, o compositor austríaco projeta todos os seus ideais de beleza (ou seria só uma atração homoafetiva?). Embalado por Mahler, o filme é lento, contemplativo e aprofunda esse descontrole por que passa Gustav, diante do que considera a perfeição e que o atrai cada vez mais para um abismo que desconhecia: o do amor amargo, porque inalcançável. À luz do personagem, ironicamente tudo acaba soando como a melancolia de uma obra inacabada. O tema central da obra já era incômodo para a época em que foi produzido, gerando muita polêmica, sendo fato que se fosse atual facilmente provocaria debates intermináveis sobre a pedofilia e os limites da arte e da censura. Mesmo assim, a obra recebeu muitas indicações e vários prêmios, inclusive para melhor filme, direção, ator, fotografia, figurino e direção de arte. 8,6

 

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CAT PERSON

Durante algum tempo de projeção sentimos estar diante de um filme daqueles típicos para adolescentes, em grande parte bobinho, água-com-açúcar, muito embora tenha uma outra faceta interessante, incluindo as atuações (principalmente da inglesa Emilia Jones, de Coda, que também é cantora na vida profissional) e a direção (da americana Susanna Fogel); além de uma ou outra pitada de mistério. Entretanto, o filme surpreende com o mérito da imprevisibilidade. Porque repentinamente vemos o gênero “drama leve com comédia” se transformar em “suspense, com alguns momentos de quase terror”. Essa mudança é realmente algo que nos apanha de surpresa e a seriedade que se instala quebra totalmente as expectativas. E então passamos a ficar no vazio quanto aos desdobramentos que haverá.  Esse aspecto do filme o retira do lugar comum e o transforma em uma diversão algo original e que garante a satisfação do espectador: que no final das contas, entre pontos negativos e positivos, acaba ficando com estes últimos e sai recompensado do cinema. Também atua no filme, como rosto mais conhecido, Nicholas Braun, que fez o papel de Greg na série Sucessão. Nada especialmente memorável na verdade, mas até que bem divertido. 8,0

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THE TEACHER´S LOUNGE (DAS LEHRERZIMMER)

Um belíssimo e consistente filme alemão concorrente do Oscar 2024 de Melhor filme em língua estrangeira e que embora tenha grandes adversários pela frente, ao mesmo tempo tem suficiente força para ser o ganhador, embora o páreo este ano esteja efetivamente duro: na verdade, não me lembro de um Oscar onde houvesse cinco concorrentes com tanta qualidade e que tornam absolutamente imprevisível o resultado. Seja como for, este é um filme poderoso em sua mensagem, fortíssimo em sua realização e que, principalmente graças à trilha sonora, causa muitos momentos de uma tensão duradoura e que atinge em cheio os sentidos. Porque o tema é difícil e incômodo, tratando de relações, no mundo de hoje, entre professores e alunos e entre eles próprios, com sérios e perigosos ruídos a serem enfrentados e superados. Aliás, o título original do filme é levemente irônico em sugerir a mansidão onde vai haver labaredas: o nome em alemão é reprisado no inglês e significa “sala dos professores”, que é fisicamente onde se passam várias ações e metaforicamente tem um significado de alta relevância no enredo. O roteiro é maravilhoso e o trabalho de direção e de elenco – incluindo as crianças (com destaque para o menino Leo Stettnisch)também algo primoroso. O diretor é o berlinense Ilker Çatak e a protagonista Leonie Benesch, que atua brilhantemente em um papel bastante difícil. O filme tem recebido diversas indicações e prêmios, em várias frentes, principalmente pela obra cinematográfica em si e por seu roteiro. Cinema de alta qualidade, extremamente original e grandemente emocional, discutindo temas atuais e sensíveis. 9,3

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IO CAPITANO

Um caprichado e invulgar trabalho cinematográfico e que tem como uma das virtudes a de, em muitos momentos, parecer um documentário, tal o realismo das cenas e a excelência da direção/edição e das performances de todo o elenco, comandado por esse extraordinário ator chamado Seydou Sarr. Fora a fotografia e a produção toda (incluída a bela trilha sonora), que praticamente retrata um drama épico de aventuras, que começa no Senegal e percorre vastas regiões, incluindo o deserto do Saara. Não sem razão, o filme está entre os cinco concorrentes ao Oscar 2024 de Melhor filme em língua estrangeira. O diretor é Matteo Garrone, que também é um dos roteiristas (igualmente tendo elaborado o roteiro de outros filmes, como Pinóquio). Um filme emocionante, extremamente bem feito, com cenas bem realistas e que mostram uma jornada de coragem e sobrevivência/superação, certamente com perdas, deixando escarrado que o mundo decididamente não é nada cor de rosa e que há um preço a pagar quando se ousa. Uma história contada com sensibilidade e firmeza, por quem tem habilidade e competência e que mostra a lealdade, a amizade, a generosidade pulsando nas mais precárias condições, uma odisseia repleta de perigos, mas também de humanidade. Na parte final do filme entendemos a razão do título e é o momento reservado às maiores emoções. Entre outros prêmios e eventos, concorreu ao Leão de Ouro em Veneza, ganhando o Leão de prata pela direção e o prêmio Marcello Mastroianni pela atuação magnifíca de Seydou Sarr. 9,0

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A 23 PASSOS DA RUA BAKER

Filmado em Londres no ano de 1956, este suspense dirigido por Henry Hathaway (Beijo da morte, Lanceiros da Índica, Nevada Smith, Bravura indômita, A conquista do Oeste, Sublime devoção) é estrelado por Van Johnson e Vera Miles. Ele, com algumas dezenas de participações no cinema e inúmeros filmes e séries de TV; ela, nessa época com 25 anos, acabou estrelando diversos faroestes e filmes de Hitchcock, sendo dele uma das atrizes favoritas. Este filme tem um mistério a ser resolvido e o protagonista se dedica a resolvê-lo juntamente com seu homem de confiança (uma espécie de mordomo, interpretado por Cecil Parker), fazendo com que o espectador caminhe junto nas investigações e seja cúmplice tanto dos métodos e do raciocínio, quanto dos perigos que virão com a busca à verdade. O problema único é que o protagonista é cego, o que torna o filme um pouco mais instigante, embora não seja uma produção especialmente memorável e possa ser apenas um bom passatempo para uma sessão da tarde, por exemplo. Mas uma boa diversão, com momentos e passagens dramáticas bem interessantes. 8,0

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A COR PÚRPURA (THE COLOR PURPLE)

O primeiro filme, também baseado no livro de Alice Walker e dirigido por Steven Spielberg, fez um grande sucesso no ano 1985 e recebeu 11 indicações para o Oscar de 1986, caprichosamente não ganhando nenhum deles. Esta produção de 2023 é um remake, mas sob a forma de musical, dirigido por Blitz Bazawule e curiosamente tendo como um dos produtores o mesmo Spielberg (além de Oprah Winfrey e Quincy Jones, entre outros). Não perdeu seu vigor e sua poesia, embora boa parte seja triste e dolorida, mesmo em meio a uma bela paisagem de flores púrpuras. Mas é basicamente a mesma história, embora, neste caso, da metade em diante o drama atinja níveis mais intensos e com isso propicie efetivamente sensíveis emoções, com pelo menos um grande número musical (na inauguração do bar do Harpo, com a festejada Shug Avery). E todo o elenco apresenta grandes performances, notadamente Colman Domingo no papel de Mister e Danielle Brooks como Sofia: ele foi um dos indicados ao Oscar 2024 na categoria de Melhor ator, mas não por este filme (e sim por Rustin); ela, por este filme, foi indicada a Melhor atriz coadjuvante. A história é a mesma do filme anterior, vale dizer, repleta de momentos doídos, relacionados com condutas violentas, opressoras, preconceituosas e principalmente machistas, além de separações, saudades, injustiças. Frutos de uma época e dos costumes locais, alguns desses fatos são verdadeiros absurdos, mas têm sua força insana absorvida pela impotência das vítimas, basicamente mulheres negras. Entretanto, existe mesmo lá alguma luz e que acaba iluminando momentos importantes do filme, inclusive enaltecida pela trilha musical. Por fim, durante os créditos finais vale a pena admirar os belíssimos bordados, que reproduzem momentos do filme. E se recomenda, notadamente pela parte final do filme, o uso de lenços, como forma de resgatar um pouco a dignidade. 8,9

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INDICADOS AO OSCAR 2024 (que acontecerá em 10 de março de 2024)

INDICADOS AO OSCAR 2024 (indicação de 23 de janeiro de 2024)

MELHOR FILME

  • American Fiction
  • Barbie
  • Zona de interesse
  • Os Rejeitados
  • Assassinos da lua das flores
  • Oppenheimer
  • Maestro
  • Vidas Passadas
  • Pobres Criaturas
  • Anatomia de uma queda

      • MELHOR ATOR

  • Bradley Cooper (Maestro)
  • Colman Domingo (Rustin)
  • Paul Giamatti (Os Rejeitados)
  • Cillian Murphy (Oppenheimer)
  • Jeffrey Wright (American Fiction)

      • MELHOR ATRIZ

  • Lily Gladstone (Assassinos da lua das flores)
  • Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda)
  • Carey Mulligan (Maestro)
  • Annette Bening (Nyad)
  • Emma Stone (Pobres Criaturas)

      • MELHOR ATOR COADJUVANTE

  • Sterling K. Brown (American Fiction)
  • Robert DeNiro (Assassinos da lua das flores)
  • Robert Downey Jr. (Oppenheimer)
  • Ryan Gosling (Barbie)
  • Mark Ruffalo (Pobres Criaturas)

      • MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

  • Emily Blunt (Oppenheimer)
  • Danielle Brooks (A Cor Púrpura)
  • America Ferrera (Barbie)
  • Jodie Foster (NYAD)
  • Da’vine Joy Randolph (Os Rejeitados)

      • MELHOR SOM

  • The Creator
  • Maestro
  • Missão impossível
  • Zona de interesse
  • Oppenheimer

                   MELHOR DIREÇÃO

  • Justine Triet (Anatomia de uma queda)
  • Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)
  • Christopher Nolan (Oppenheimer)
  • Jonathan Glazer (Zona de interesse)
  • Martin Scorsese (Assassinos da lua das flores)

      • MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

  • Anatomia de uma queda
  • Os rejeitados
  • Maestro
  • Vidas passadas
  • Segredos de um escândalo
      • MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

  • Greta Gerwig e Noah Baumbach (Barbie)
  • Cord Jefferson (American Fiction)
  • Tony Mcnamara (Poor things)
  • Christopher Nolan (Oppenheimer)
  • Jonathan Glazer (Zona de interesse)

      • MELHOR FOTOGRAFIA

  • Matthew Libatique (Maestro)
  • Rodrigo Prieto (Assassinos da lua das flores)
  • Robbie Ryan (Pobres Criaturas)
  • Edward Lachman (El Conde)
  • Hoyte van Hoytema (Oppenheimer)

                   MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

  • Ruth De Jong, Claire Kaufman (Oppenheimer)
  • Jack Fisk, Adam Willis (Assassinos da lua das flores)
  • Sarah Greenwood, Katie Spencer (Barbie)
  • James Price, Shona Heath, Szusza Mihalek (Pobres Criaturas)
  • Arthur Max, Elli Griff (Napoleão)

      • MELHOR EDIÇÃO

  • Laurent Sénéchal (Anatomia de uma queda)
  • Jennifer Lame (Oppenheimer)
  • Yorgos Mavropsaridis (Pobres Criaturas)
  • Thelma Schoonmaker (Assassinos da lua das flores)
  • Kevin Tent (Os rejeitados)

      • MELHOR FIGURINO

  • Jacqueline Durran (Barbie)
  • Ellen Mirojnick (Oppenheimer)
  • Holly Waddington (Pobres Criaturas)
  • Jacqueline West (Assassinos da lua das flores)
  • Janty Yates, David Crossman (Napoleão)

      • MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

  • Golda
  • Sociedade da neve
  • Oppenheimer
  • Maestro
  • Pobres criaturas

              MELHORES EFEITOS VISUAIS

  • Resistência (The creator)
  • Guardiões da Galáxia Vol. 3
  • Missão: Impossível – Acerto de Contas Parte 1
  • Napoleão
  • Godzilla Minus One

      • MELHOR ANIMAÇÃO

  • The Boy and the Heron
  • Elemental
  • Nimona
  • Homem-Aranha Através do Aranhaverso
  • Robot dreams

                   MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

  • io capitano
  • The teacher´s lounge
  • Perfect Days
  • Sociedade da Neve
  • Zona de interesse

                   MELHOR CANÇÃO

  • I´m just Ken” (Barbie)
  • The fire inside (Flamin´Hot)
  • It never went away” (American Symphony)
  • Wahzhazhe” (Assassinos da lua das flores)
  • What Was I Made For” (Barbie)

      • MELHOR TRILHA SONORA

  • Pobres criaturas
  • Oppenheimer
  • American fiction
  • Indiana Jones
  • Assassinos da lua das flores
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ASSUNTO DE FAMÍLIA (SHOPLIFTERS)

O

Os filmes do diretor Hirokazu Kore-eda são singulares: possuem muita humanidade, são extremamente bem feitos em todos os sentidos, apresentam ângulos originais de situações comuns, belos momentos de pessoas e de situações e também surpresas em seu roteiro, que inicia na mansidão mas posteriormente a subverte. Talvez para questionar o que é, afinal, a felicidade e o que é certo e o que é errado neste mundo. No caso, o tema é como o próprio nome indica: familiar. Trata-se de uma família pobre, numerosa inclusive considerando limitado espaço e parte dela trabalha fora – em atividades moralmente questionáveis – para sustentar o todo. Família que inesperadamente vai aumentar. E eis o foco principal da história! Que envolve o jogo da sobrevivência ou da própria educação ou mesmo do sistema imposto. E também resgata a milenar questão: mãe é quem gera ou quem cria? O fato é que mesmo nas condições precárias de subsistência assim todos lutam, se adaptam e os sinais evidentes são de união, amor, amizade e afeto. Mas, como já dito, a estabilidade não dura para sempre e tempestades haverá, para exigir talvez desse núcleo aparentemente sólido a resposta social desejada. E provocar abalos inesperados. Kore-eda mostra a afetividade familiar e a educação caseira (que substitui, com justificativa apresentada, a escolar) em pequenos e até líricos detalhes e a questão é a percepção dessa realidade diante do que a sociedade espera, mas, por outro lado, do que esse modo de viver propicia a todos, sob o ponto de vista de benefícios, de crescimento, formação, visão ampla das coisas. Meios inadequados mas para um fim maior? É um filme bonito, comovente, profundo e bem realizado, com muito coração e conhecimento de causa. Entretanto, embora todo esse mérito, ele parece fugir do perfil daqueles que usualmente são premiados em Cannes, sendo, de certa forma, surpreendente ter ganho a Palma de Ouro em 2018. 8,7

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O TERCEIRO ASSASSINATO

Um thriller policial de 2017 (e em parte “filme de tribunal”) dirigido pelo magistral cineasta japonês Hirokazu Kore-eda (Monstro, Pais e filhos, Assunto de família), premiado e indicado a diversos prêmios (como Veneza, 2017) e que tem no elenco Masaharu Fukuyama (Pais e filhos), Kôji Yakusho (melhor ator em Cannes 2023 por “Perfect days”, de Wim Wenders) e Suzu Hirose (atriz e modelo japonesa), entre outros. Fukuyama, aliás, apesar de ser um excelente ator e parecer ter total domínio e experiência nessa arte, é na verdade um ídolo mas da música, fazendo grande sucesso na mídia musical do Japão, como compositor e cantor daqueles de lotar estádios. Aqui temos um filme investigativo, que além do mérito de fazer o espectador ir acompanhando passo a passo os fatos e tentar ir com isso desvendando todos os mistérios, tem também o de repentinamente virar o jogo, apresentando ingredientes que mudam totalmente o rumo da história, formando um redemoinho de possibilidades e gerando sensíveis dúvidas, sobre qual, afinal, é a verdade dos acontecimentos. Depoimentos e versões contraditórias retiram totalmente a segurança de um caminho que parecia seguro ao espectador, assim como também a alguns dos personagens envolvidos, que por sinal dão total dignidade tanto à advocacia quanto aos próprios institutos culturais do Japão, embora haja pontos incômodos de contato com a civilização ocidental (a corrupção de bastidores), que o filme enfoca ao nos colocar diante de importantes questões que aqui sintetizo em duas frases: “Quem, afinal, decide quem será acusado?”, “O juiz faz o que quer com as pessoas”. Um filme instigante, interessante, muito bem interpretado e dirigido, com todos os demais elementos cinematográficos agregados para, mais uma vez, referendar o cinema de qualidade desse diretor. Há mais na tela que simples imagens e que revelam a delicadeza e a singeleza das obras de Kore-eda, como a do vidro que separa o advogado do presidiário e que com o desenrolar do filme e dos fatos vai se transformando de obstáculo instransponível até uma fusão bela e significativa de rostos e almas.  E na última cena, o emaranhado de fios que o advogado contempla reflete muito bem os nossos sentimentos. 8,9

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SEGREDOS DE UM ESCÂNDALO

Todd Haynes é um perfeccionista na direção de filmes, bem como de atores e atrizes, sendo também bastante original nos temas que abraça, ou, pelo menos, na maneira de mostrá-los. Ao terminarmos um filme dele, saberemos com certeza que por ali transitou o pulso firme de um competente cineasta. São dele, por exemplo, filmes como A última aventura de Robin Hood, The velvet underground, Carol e Longe do paraíso). Neste filme em que o trio de protagonistas efetivamente brilha – Julianne Moore, Charles Melton e principalmente Natalie Portman, que está maravilhosa -, vemos uma adaptação de fatos do mundo real e que chocaram os Estados Unidos, com o envolvimento de um aluno de 13 anos e sua professora de 36 anos, que acabou engravidando dele (e depois se casaram). Não é um spoiler, porque em 5 minutos de filme isso já fica claro, já que a história gira justamente em torno desse fato décadas depois e da visita à família pela atriz que fará o papel da ex-professora em um filme a ser lançado e que está ali para fazer o famoso “laboratório”, muito comum para atores e atrizes, que convivem um tempo com situações que irão personificar, não sendo tão habitual com personagens ainda vivos, mas representando esse fato uma grande oportunidade – e que terá um significado muito especial na última cena do filme -, pois a pesquisa será feita diante de quem vivenciou os fatos. Só que essa convivência, que vasculhará o passado, provocará decorrências e desdobramentos, cutucando temas já adormecidos e que poderão ser incômodos, não será um mar de rosas, havendo tensão no mínimo implícita durante todo esse curto relacionamento. Todas as sutilezas dessa relação invulgar e inesperada aparecem na tela, deixando inclusive o espectador com certo desconforto e sendo, ainda, recheadas muitas vezes de ironia em face da hipocrisia reinante. O roteiro aqui procura olhar com olhos diferentes os fatos sensacionalistas da mídia, para tanto invadindo de forma resoluta (não sem oposições) a intimidade dos personagens, que têm o seu lado subterrâneo subitamente iluminado, mesmo a contragosto. Há cenas de sair faísca, como se diz, e outras em que os diálogos são tão agudos quanto as imagens. Segredos e vaidades afloram, à medida em que Elizabeth imerge nos fatos e se insere no universo íntimo da professora, do atual marido (e que era o menino seduzido – ou sedutor?) e dos demais envolvidos (como o marido da época e os filhos), revelando também facetas ocultas de todos: a sensualidade que deliberadamente provoca da atriz, a fragilidade de um pai de família que de repente começa a questionar todo o contexto, o momento delicado da família, inclusive pela saída dos filhos e assim por diante. O filme (drama denso e, portanto, para certos gostos) tem recebido prêmios e sido indicado em premiações importantes (como Cannes 2023 e o recente Globo de Ouro, onde concorreram todos os três protagonistas e mais o filme, na categoria de Melhor comédia ou musical), cogitando-se que inclusive terá algumas nomeações para o Oscar 2024. 8,8