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NARCISO EM FÉRIAS

A prisão acaba com toda a vaidade humana. Na verdade, com toda a dignidade de qualquer cidadão.  Ainda mais, quando ele desconhece os motivos pelos quais está sendo preso (como no livro de Kafka), fato não incomum nos regimes totalitários e frequente em algumas épocas da história do Brasil. Uma delas foi a da ditadura militar e aqui Caetano Veloso confirma o fato e lhe dá cores, de modo eloquente, mas emocionado, em um documentário produzido por sua mulher Paula Lavigne e dirigido por Ricardo Callil e Renato Terra. De uma forma despojada e corajosa (embora também dolorosa), relata com todas as cores como foi sua prisão aos 26 anos, em 1968/1969, quando, juntamente com Gilberto Gil, foi levado de sua casa para um suposto interrogatório e só voltou quase um mês depois completamente transtornado pela crueldade do terror psicológico por que passou. O filme é apenas Caetano na frente da câmera, com sua memória, seu jeito peculiar e sua inteligência criativa, levando a público o que ficou registrado em arquivos sigilosos e que apenas há algum tempo foi descoberto (depoimentos), além de  todo o contexto em torno dos apontamentos, com imagens realmente poderosas e emocionantes. Além de várias referências históricas, temos a oportunidade de avaliar, na pessoa de  um intelectual, instantes tão impactantes, quanto emocionantes, a desconstituição psicológica de um ser humano (razão do título do documentário, um Narciso privado do espelho): o próprio Caetano é tomado muitas vezes por intensas emoções e em determinado momento pede inclusive para serem interrompidas as filmagens.  O seu caso particular permite inclusive que imaginemos o que ocorreu com os presos tidos como verdadeiramente perigosos (armados, por exemplo), porque a crueldade mental e psicológica aqui foi intensa –são descritas cenas absurdas e chocantes, como a dele marchando com um soldado às costas ameaçando atirar se parasse a marcha ou sendo conduzido ao barbeiro, mas em um clima de que estava sendo levado a fuzilamento. Há várias passagens de grande emoção, sendo uma delas a de quando Caetano examina fotos do planeta Terra, publicadas na Manchete e que viu na prisão, relativas a uma das primeiras expedições lunares. O filme foi exibido em Veneza e vale tanto para um conhecimento histórico, como para a própria reflexão, sobre passado, presente e futuro, naturalmente cabendo a cada um depositar o seu grau de confiabilidade nos fatos expostos e que podem ser resumidos na frase dita por Caetano em certo momento do documentário:  “Quando você é preso, é preso para toda a vida”. 8,5

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WIND ACROSS THE EVERGLADES (JORNADA TÉTRICA)

O título em português seria impróprio para o filme, se não fossem alguns detalhes, inclusive da produção: porque o diretor Nicholas Ray acabou se incompatibilizando com o protagonista (Christopher Plummer) e com o roteirista (Budd Shulberg) e foi simplesmente demitido antes do final das filmagens, que por estarem na parte final puderam ser finalizadas pelo próprio roteirista e pelo elenco em atuação conjunta inclusive. Fora esse aspecto não usual, o roteiro, no todo, também é algo que chama a atenção pela mistura de coisas, alternando boas e más sequências, entre fatos de duvidoso bom gosto. No sentido acima, o nome em português foi acertado, de resto sendo péssimo como sempre. As atuações são muito boas. Plummer, o premiado e ainda atuante e ótimo ator, fazia seu primeiro ou segundo filme, sete anos depois vindo a ficar mais conhecido por A noviça rebelde e mais tarde por inúmeras outras produções, inclusive séries de TV (Pássaros feridos). Burl Ives, que era ator, escritor e cantor de música folk americana, faz um papel de destaque e mostra ser bastante talentoso: no ano seguinte, em 1959, seria premiado com o Oscar de Melhor ator coadjuvante pelo filme Da terra nascem os homens (The big country), também ganhando o Globo de Ouro pelo mesmo papel. Em papéis menores, porém satisfatórios Gypse Rose Lee e Chana Eden não decepcionam e outra estreia no cinema é a do ótimo ator Peter Falk (o Columbo). O detalhe é que este é um filme muito estranho, exótico mesmo, que tem uma introdução original (aliás, algumas cenas bem originais), trata de ecologia –no caso, o extermínio maciço de aves para venda das plumas que ornamentavam os chapéus das damas-, apresenta tensão e drama, mas mistura anarquicamente os fatos e até as cenas, tudo levando a crer que têm razão os críticos que diziam que Nicholas Ray sempre teve problemas na edição de seus filmes. Em certo sentido, o filme parece às vezes “uma bagunça”, considerada a harmonia esperada em um filme. Mas o fato é que apesar de toda a miscelânea de coisas, o filme acaba sendo interessante em seu contexto final. Há ótimas cenas de drama e ação, trechos em que a trilha sonora está muito bem colocada, imagens atraentes e um clima muito interessante de mistério selvagem (inclusive com várias espécies de animais aparecendo, como cobras e crocodilos), principalmente porque toda a paisagem é peculiar, já que foi inteiramente rodado na Flórida, leia-se, nos everglades, fato que em nada contribuiu para facilitar o andamento das filmagens e talvez tenha também ajudado na demissão do diretor. Também acaba ficando interessante o “duelo” (inclusive na bebida) entre o “mocinho” e o “rei dos bandidos”). É um filme difícil de definir e que nos provoca sentimentos conflitantes, também de complexa definição: que aparecem quando o bom e o mau gosto se juntam e produzem algo que de certo modo agrada ou atrai! Portanto, pode ser do agrado de alguns e de firme rejeição de outros. O cineasta François Truffaut disse que se trata de um filme doente.   7,9

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DESFORRA FATAL (THE HARD MAN)

Um faroeste de 1957, sem grande fama, sem os “ases” do gênero (diretor e elenco), que não está incluído entre os melhores da história, mas que cumpre perfeitamente o seu papel, como bom western, oferecendo uma história com os vários ingredientes dos grandes faroestes, temperando bem todos os elementos e constituindo em boa diversão. Nada para ficar na memória da sétima arte, mas um bang bang acima da média. O filme tem ação, duelos, tiros, bandidos e mocinhos, uma lady misteriosa (pelo menos no início, depois sendo enigmática quanto ao lado para o qual pende), um pistoleiro que chega de repente e de origem desconhecida e até o poderoso fazendeiro que domina o lugar (Lorne Greene, que poucos anos depois ficaria famoso como Ben Cartwirght em Bonanza). O protagonista é interpretado pelo ator Guy Madison, que ficou famoso na série de TV Wild Bill Hickok. O diretor foi George Sherman, cineasta americano que fez meia centena de filmes, geralmente de médio ou baixo orçamento. Não é memorável, mas um bom passatempo e que em momento algum agride o espectador com bobagens.  7,9

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A DAMA DE SHANGHAI

Dirigido e estrelado por Orson Welles, em 1947, este filme na minha opinião é supervalorizado. Embora tenha muitas qualidades, também tem defeitos -vários momentos que destoam, que não se encaixam, que soam como bizarras e sem sentido até, como algumas cenas no tribunal, e considero que aqui Orson foi muito melhor dirigindo do que atuando. Tem cenas charmosas, envolventes, Rita Hayworth cantando belamente e naturalmente, como noir, tem crime, a fotografia típica, a femme fatale e até narração em off e as sempre empolgantes e imprevisíveis cenas de julgamento de um crime (mistério…). Um julgamento, aliás, muito estranho e bagunçado, parecendo em alguns momentos uma feira. O todo do filme, em suma, não é harmônico. A própria atuação de Rita Hayworth é despida de emoções, difícil dizer se por exigência da personagem (para manter o suspense), se por falta de empenho/talento da atriz ou exigência do diretor. E o personagem de Welles também não é de todo satisfatório, apresentando um temperamento e uma personalidade (um caráter) na primeira parte do filme, que são totalmente negados depois. O próprio Everett Sloane (o marido) tem momentos ótimos no filme, mas no tribunal fica hesitante e até caricato.  Existe intriga e mistério, não se perde o interesse na trama, que  tem instantes de muito suspense, mas poderia ter havido mais coesão e até criatividade. O desfecho, porém, é muito bom, sendo ótima a cena dos espelhos. No todo um bom filme, mas nada muito além disso, comparando com outros, como Embriaguez do sucesso, A marca da maldade, O mensageiro do diabo, À beira do abismo, Crepúsculo dos deuses. 7,8

 

 

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O DIABO DE CADA DIA (THE DEVIL ALL THE TIME)

Este filme é dirigido por Antonio Campos (americano apesar do nome), sendo roteirizado a partir de obra literária e ambientado nos idos de 1957, basicamente em uma cidadezinha de Ohio (400 habitantes), chamada Knockemstiff. Cidade pequena, costumes tradicionais do interior religioso americano, mas com vários e impactantes acontecimentos por debaixo das aparências, ligados ao crime e à corrupção e também fruto do fanatismo religioso, da fé desmedida e da ação dos exploradores da bondade e ingenuidade humanas. Também importante no enredo são os traumas da guerra, fato que faz a conexão do início com o final do filme e que fez com que Willard (personagem de Bill Skarsgârd) colocasse atrás da casa uma cruz, onde exercitava diariamente sua devoção religiosa, ensinando ao filho Arvin que o mal é permanente e está em toda parte -o que justifica o nome do filme. Predomina o estilo soturno, cru, forte/realista e por esse motivo não é um filme para todos os gostos, pela intensidade com que são expostas as cores de drama, acrescido de suspense e até de um pouco de terror. O elenco é muito bom, ainda mais considerando os fatos dramáticos: Tom Holland (Homem aranha…), Robert Pathinson (Crepúsculo), Mia Wasikowska (Segredos de sangue) e Jason Clark (A hora mais escura), entre outros. Curiosidade: o narrador da história é o próprio autor do livro, Donald Ray Pollock, escolhido pelo sotaque típico de Knockemstiff. Produção assinada pela Netflix.   8,2

 

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CREPÚSCULO DOS DEUSES (SUNSET BOULEVARD)

Outra belíssima obra cinematográfica e que certamente está colocada entre as melhores produções noir. Feito em 1950, tem um ótimo título em português, ao contrário da grande maioria dos casos. Seu título original faz menção à rua da residência da protagonista, interpretada pela atriz Gloria Swanson, que aqui se mostra em parte caricata no papel, mas de forma proposital (em razão da personagem que representa): uma famosa atriz do cinema mudo e que se encontra na decadência da meia idade, incapaz de aceitar o fato e o esquecimento do público que tanto a venerou. Esses fatos, bem como os vários casamentos que teve a personagem, são elos em comum com a vida real da atriz (que teve 7 maridos), que entre 1915 e 1930 participou de dezenas de filmes e foi muito famosa na época do cinema não-falado. Outra homenagem ao cinema mudo é a participação no filme de alguns artistas famosos daquela época: Buster Keaton, H.B. Warner e Anna Q. Nilsson. Aqui, as ilusões de Norma Desmond são alimentadas por ela mesma e pelo mordomo fiel, interpretado muitíssimo bem pelo ator Erich Von Stroheim. O filme é narrado em off, a partir de um assassinato em sua cena inicial e seus grandes temas iniciam a partir da aparição e das ações do personagem de William Holden, excelente ator e que faz um roteirista à procura de um lugar no mundo do cinema. Aliás, esse mundo é objeto de várias críticas singelamente postas no roteiro, que mostra que Hollywood usa o que muitas vezes em seguida descarta, em síntese, que, como disse alguém, “Hollywood é para poucos”. Esse é um ponto vital do enredo, que primorosamente discorre, entre outras temáticas, sobre o envelhecimento e a solidão, de forma ora suave, ora absolutamente melancólica. Como também aborda questões éticas e morais, que inclusive angustiam o personagem de Holden, relacionadas ao mito da “venda da alma ao diabo”. Uma frase fundamental, dita por Joe Gillis “Nada há de trágico em ter 50 anos, a menos que se deseje ter 25”. Com a participação da ótima Nancy Olson e a presença especial do cineasta Cecil B. DeMille, um dos fundadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (e diretor de Os 10 mandamentos, Sansão e Dalila, Cleópatra, O maior espetáculo da terra…), o filme tem ótima direção de arte, trilha sonora, excelente elenco e um rico roteiro, tendo recebido 11 indicações ao Oscar de 1951. Ganhou nas de Melhor roteiro, Melhor direção de arte e Melhor trilha sonora e também foi premiado no Globo de Ouro, nas categorias de Melhor filme, Melhor diretor, Melhor atriz e Melhor trilha sonora. Dirigido pelo sempre brilhante Billy Wilder, que, entre outros, nos legou Quanto mais quente melhor, Se meu apartamento falasse, Pacto de sangue, Testemunha de acusação, Farrapo humano. O pecado mora ao lado, Irma la Douce, A montanha dos sete abutres, Inferno número 17. Um filme tocante e, conforme a sensibilidade do espectador, extremamente triste, sentimentos que mais ainda comprovam e enaltecem sua inegável qualidade e a permanência de sua força. 9,0

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O MENSAGEIRO DO DIABO (THE NIGHT OF THE HUNTER)

Este é um filme de 1955, o único dirigido pelo grande ator Charles Laughton (O grande motim, Testemunha de acusação, O corcunda de Notre-Dame), que também ajudou no roteiro e aqui fez um trabalho de mestre, valorizado bem menos do que mereceria. Este é um filme que destoa dos demais, não somente da época, mas de toda a história do cinema, contendo uma atmosfera difícil de definir precisamente, mas que fica entre o assustador e o lírico. As cenas que mais definem esse aspecto são as do barco navegando pelo rio, com as crianças, com a natureza exuberantemente filmada e se manifestando ao redor (os animais, ao longo da margem), em um panorama que é tão encantador e onírico, quanto misterioso e até sinistro. O filme é carregado de sombras, em um preto e branco belíssimo, na fotografia singular de Stanley Cortez e seu desenrolar é permeado justamente pelo contraste citado, em uma permanente oposição entre o claro e o escuro, entre as crianças (e seu mundo de normalidade e sonhos) e o reverendo, este uma criação notável do ator Robert Mitchum, que propositadamente desempenha o personagem de forma caricata e com elementos malignos: um psicopata travestido de pregador e que tanto é malvado, quanto imprevisível em seus atos. O que torna ainda maior o suspense do filme, que se passa em época muito difícil para os americanos, que foi a da pós-depressão de 1929. Os grandes momentos são enaltecidos pela ótima trilha sonora, que ora sugere tons leves, até de comédia, ora pesados, a cada aparição do falso e aterrorizante profeta, em total contraponto. Na verdade, trata-se de uma fábula adulta e esse fato fica evidente quando o “pastor” entrelaça os dedos das duas mãos (cada dedo tatuado com uma letra), simulando uma luta do bem contra o mal: as letras dos dedos da mão esquerda formando a palavra “hate” (ódio) e da direita a palavra “love” (amor). Trabalham no filme Shelley Winters, Peter Graves (o Jim, da série de 1966 Missão impossível) –em pequeno mas importante papel- e com grande atuação Lillian Gish, na época com 62 anos e já consagrada atriz, com uma carreira de setenta e cinco anos de cinema, iniciada em 1912: certamente, aqui foi com justiça homenageada por Laughton, inclusive porque considerada a maior atriz do cinema mudo. Hoje este filme é considerado um dos grandes noir de todos os tempos, mas, seja como for, suas qualidades e originalidade são incontestáveis, bem como sua ousadia e força ao tratar de temas que ainda hoje continuam atuais, mas que certamente eram bastante polêmicos na época, como maternidade e orfandade, casamento e separação, religiosidade real e falsa, poder e ganância e até –spoiler, atenção!- feminicídio. Vítima de muitas e pesadas críticas na década de 50, hoje é tido como uma obra de grandiosa importância artística (e estética, acrescento). 9,0

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SETE HOMENS E UM DESTINO (THE MAGNIFICENT SEVEN)

Este é o filme original, de 1960 -tendo havido um remake em 2016 com Denzel Washington & Cia-, embora seu roteiro tenha sido baseado no filme Os sete samurais de 1954 (Akira Kurosawa), no qual os “mocinhos” defendem os produtores rurais nas aldeias montanhosas. Trata-se de um faroeste estilo “diversão”, repleto de clichês e detalhes implausíveis (como a piada do prédio de 10 andares e o ingresso do pistoleiro dos “mocinhos” no bando dos “bandidos” sem ser percebido – inclusive bandidos que se conheciam, um ao outro, pelo nome!). É, assim, totalmente previsível, mas como filme “diversão” não tem outro compromisso senão o de ser leve, entreter e apresentar coisas e cenas que todo fã de faroeste gosta de ver: ação, heroísmo, algum humor, romance e certas atitudes, com atores conhecidos e de preferências belas imagens e boa trilha. Embora aqui, excepcionalmente, também tenha sido inserido no roteiro um componente diferente do usual: o herói que reflete sobre seu papel no mundo, inclusive um dos pistoleiros assumindo para ele mesmo o papel do covarde que precisa de atitude. Virtude inegável do filme, além das maravilhosas imagens e cenas do Velho Oeste (a partir da cidadezinha e da cena do enterro – onde o fã já vibrava com Yul Brynner e Steve McQueen mostrando sua coragem) são tanto as lições de moral (do personagem de Bronson, por exemplo), de pacifismo (mas não acomodado), como a trilha sonora e o grande prazer de ver esse elencaço atuar, com grandes artistas e todos na melhor forma: Yul Brynner (O rei e eu, Westworld), Steve McQueen (Papillon, Fugindo do inferno), Charles Bronson (Era uma vez no Oeste, Desejo de matar), James Coburn (Quando explode a vingança, Flint), Robert Vaughn (O agente da UNCLE), além do ótimo Eli Wallach (Três homens em conflito) fazendo um grande papel de bandido e o menos conhecido mas com dezenas de filmes, Horst Buchholz (o jovem impetuoso que se junta ao banco). Apenas Brad Dexter fica meio fora do contexto, parecendo o tempo todo deslocado dos demais e destoando do grupo tão harmônico e no qual cada um tem sua personalidade muito bem definida. Quanto à música de Elmer Berstein, está presente em todo o filme, inclusive em cenas onde outros diretores optariam pelo silêncio (o que para alguns representou um certo excesso). Claro que esse fato foi uma opção do diretor John Sturges (Fugindo do inferno, O velho e o mar, E a águia pousou). De todo modo, a trilha sonora foi indicada para o Oscar de 1961 e a música-tema ficou para a história, como uma das mais representativas e poderosas do gênero. O filme é muito empolgante, principalmente pela música, pelo elenco e pela nobre missão dos pistoleiros e o final é heroico e ao mesmo tempo melancólico, com o personagem do Yul Brynner repetindo uma reflexão anterior sobre o destino dos pistoleiros, dentro da permanente rotina de cumprir a missão e depois novamente partir, sem vínculos: “nós sempre perdemos”. Diversão garantida e um clássico, inclusive pela veneração aos astros aqui envolvidos, absolutamente simbólicos não apenas para o gênero, mas também para a própria história do cinema.  8,8

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JOHNNY GUITAR

Este faroeste de 1954, com alguns elementos diferentes do trivial, foi dirigido por Nicholas Ray, diretor polêmico, porque adorado por uns e execrado por outros. Estes, o acusavam de montar mal seus filmes, de se preocupar apenas com os sentimentos dos personagens e não com a história bem contada. Os admiradores, por sua vez, justamente enalteciam o foco essencial dado pelo diretor ao que mais interessava: as emoções; embora esses neguem os alegados defeitos na forma. De todo modo, este filme ficou famoso não só pelas polêmicas resultantes das opiniões divergentes, mas igualmente porque empresta grande relevo ao papel feminino, magistralmente desempenhado por Joan Crawford (e seus olhos verdes intensos), que na verdade é a protagonista da história (Vienna), sendo o elenco masculino mero acessório de seu brilho. Além disso, o filme tem um ou outro detalhe que o diferencia dos demais faroestes e um elemento notável, que é a música-tema, até hoje tocada e saudada como uma dos mais belos temas musicais do western e até do cinema. A música tem o mesmo nome do filme, sendo inicialmente tocada apenas nas cordas, também orquestrada e finalmente cantada (por Peggy Lee). E é linda e tocante, inclusive porque contém em sua letra exatamente a paixão que move grande parte do filme e que é responsável pela devoção de muitos, inclusive dos famosos cineastas François Truffaut e Martin Scorsese, fãs tanto do filme, como da direção de Ray. Minha opinião fica no meio termo: considero a música lindíssima, enxergo virtudes no filme, porém as vejo mais por conta da atuação de Joan Crawford (e do ineditismo do comando feminino em pleno Oeste) e de um ou outro detalhe, como o local da “casa de bebidas e jogos”, a historia da mina, o dilema da participação no assalto…Igualmente não constato, fora em Joan, destaque em ninguém mais do elenco, talvez com exceção do grande Ernest Borgnine. Não gostei da atuação de Sterling Hayden (Johnny), um ator com quase 2 metros e sem emoção alguma –basta ver as várias fotos dele nos vários filmes, para se constatar que está sempre com a mesma cara! Igualmente achei totalmente ridícula e caricata a personagem da atriz Mercedes McCambridge (Emma) -como inverossímel a ascendência que tinha sobre todos-, discordando de quem a considerou uma grande rival para Vienna, havendo abismos separando tanto as personagens, como a própria atuação de uma atriz e outra. Assim, não enquadro este faroeste como um dos grandes, nada vendo de novo em paixões do passado que ressurgem, em rixas e duelos etc e concordando com a falta de uma harmonia sem sobressaltos entre todas as cenas do filme. Lendo algumas opiniões positivas (e empolgadas) sobre o filme, constato que os críticos criaram exageradamente um mundo que era pretendido se mostrar (a escolha interna entre praticar o bem ou o mal, simbolizada pelo violão e o “mocinho” desarmado, o lado psicológico do filme, enfim…), só que na prática esse contexto todo foi apresentado com muitos defeitos . Na minha avaliação, portanto, um filme bom, com uma atuação memorável da grande e consagrada atriz, mas muito longe de poder figurar ao lado dos grandes faroestes de todos os tempos. Entretanto, não há dúvida de que os diferenciais já citados foram responsáveis por elevá-lo à altura dos clássicos do faroeste, nessa análise devendo ser considerada também a época em que foi produzido. E de que os debates vão continuar através dos tempos, motivo pelo qual é inclusive considerado atualmente como um “cult”.  7,9

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PSICOSE

Talvez o mais famoso filme de Alfred Hitchcock, pelo menos aquele em que teria dado mais susto nas pessoas e criado um gênero diferente de filme, com tensão e suspense permanentes, salpicados de momentos de quase terror. O fato é que Hitchcock tentou, naquele ano de 1960, ao máximo possível guardar a sete chaves as surpresas do filme e manter todo o suspense efetivamente guardado para o momento de projeção, no dia do lançamento. E os espectadores –que deixaram de ter o bom sono normal depois de ver o filme- acabaram contribuindo, ocultando dos que ainda iam ver as informações principais ou pelo menos os dois principais momentos do roteiro, que são as cenas do chuveiro (eterna) e da escada. A primeira tem além da curiosidade das diversas tomadas (sendo também vários os takes feitos para a segunda cena), a de que o diretor pretendia inicialmente filmá-la em completo silêncio, ficando convencido do contrário ao tomar conhecimento da música preparada para aquele momento por Bernard Herrmann (os estridentes acordes de violino), a qual acabou para sempre vinculada à cena na mente dos cinéfilos e na história do cinema. Em belo preto e branco e com o suspense desde o início acentuado pela bela trilha sonora, este filme constrói uma história com algumas lacunas, mas que se firma nas qualidades de seu suspense e de seu diretor, deixando marcas de estilo e pelas cenas já referidas. Hitchcock acabou sendo endeusado não só pelos fãs, mas também pelos colegas de profissão, incluindo os famosíssimos críticos da revista Cahiers du Cinema, François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol (responsáveis pelo importante movimento Nouvelle Vague). Interessante, também como marca do diretor, que o mesmo aparece rapidamente em uma das cenas de seus filmes, sendo um dos desafios do espectador o de descobrir esse momento, que em alguns filmes é fácil e em outros mais dissimulado. Neste filme, por exemplo, o diretor aparece rapidamente no início do filme, com um  chapéu de vaqueiro na calçada, no momento em que a personagem de Janet Leigh está entrando no escritório em que trabalhava. Aliás, nesse escritório sua colega de trabalho era a filha do cineasta, Patrícia Hitchcock (em rápida aparição). Janet pode-se dizer que era a “mocinha” do filme, tendo ganho o Globo de Ouro de Melhor atriz e sido indicada ao Oscar para o mesmo prêmio. Na época do filme tinha 28 anos e já havia feito alguns papéis importantes no cinema, como em A marca da maldade (1958) e muitos anos antes Houdini (1953), com Tony Curtis, com quem se casara em 1951 e teria como filha a futura atriz Jamie Leigh Curtis (nascida em 1958). O filme ficou famoso e o diretor ficou mais célebre ainda, inclusive pelas frases que costumava lançar à queima-roupa para a mídia, como a de que fazia filmes para deixar o espectador angustiado, fazê-lo sofrer…de que o maior terror é o dos fatos sugeridos e não o dos vistos. E assim por diante. Personagem vital no enredo é o desempenhado por Anthony Perkins, que acabou ficando estigmatizado por seu papel durante muitos anos. Trabalham também no filme Vera Miles (O homem errado, Rastros de ódio, O homem que matou o facínora), Martin Balsam (excelente ator, de mais de meia centena de filmes) e, entre outros, Simon Oakland (futuro chefe do Kolchak). Um filme que ainda hoje provoca alguns calafrios e que virou um ícone, servindo de inspiração para inúmeras outras produções, que de um modo ou de outro acabaram rendendo tributo ao grande mestre do suspense. 8,7

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MESAS (VIDAS) SEPARADAS (SEPARATE TABLES)

Um filme diferente, interessante e que já começa com uma abertura muito bonita, com uma música igualmente bela e bem interpretada (Vic Damone,- Frank DeVol e Orquestra). Trata-se de um hotel em período fora da temporada e dos dramas de seus hóspedes, alguns permanentes e outros transitórios. O tratamento e o comportamento são algo solenes (britânicos), mas embaixo do verniz haverá algumas surpresas. Ainda mais com a chegada de novos hóspedes, interpretados por Rita Hayworth e Burt Lancaster (ótimos). Um drama por excelência e que desfila histórias e personagens, um ou outro esnobe, uma filha oprimida (excelentemente interpretada por uma quase irreconhecível Deborah Kerr), relações calientes, encontros e desencontros, fatos perturbadores/escandalosos, que poderão provocar súbitas mudanças. Os personagens são ricos e cada um com seu perfil, de modo a não haver propriamente atrizes/atores principais e coadjuvantes. O convívio dos hóspedes durante as refeições (as mesas separadas) dá o nome do filme, que também tem um sugestivo duplo sentido. O roteiro é muito bem desenvolvido e na parte final reserva momentos bem especiais, que acabam desaguando em um ótimo desfecho. Produzido em 1958, o filme foi indicado a vários Oscar no ano seguinte: melhor filme, roteiro adaptado, atriz (Deborah Kerr), trilha sonora, fotografia, tendo ganho os de Melhor atriz coadjuvante (Wendy Hiller) e Melhor ator (David Niven). Achei forçados esses dois Oscar, embora David Niven tenha interpretado um papel difícil e bastante diferenciado em relação aos da sua carreira. O diretor do filme foi Delbert Mann, que ganhou o Oscar de Melhor diretor três anos antes com Marty.  8,7

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NO SILÊNCIO DA NOITE (IN A LONELY PLACE)

Oito anos depois de Casablanca (e quatro após À beira do abismo), Humphrey Bogart ainda muito em forma para interpretar um personagem de forte personalidade, machão, durão, de raciocínio e respostas rápidas, que atrai as damas. Só que aqui em um desafio maior, sob o ponto de vista dramático, porque se trata de alguém –um famoso roteirista de cinema- com temperamento violento e imprevisível, que ao mesmo tempo em que vive o descontrole, também o condena e de certa forma se martiriza com ele, a despeito de seu ego não permitir muitas desculpas para seus atos. Um personagem repleto de culpas e angústias e que teme ver desmoronar sua vida a qualquer momento, razão pela qual também tem uma insegurança, que tenta disfarçar a qualquer custo. Humphrey constrói muito bem esse personagem, a tal ponto de realmente sentirmos na pele sua dor e também o medo que provoca (as cenas no restaurante e principalmente na estrada são grandes exemplos!), além de encararmos como perfeitamente verossímeis as suspeitas que recaem sobre ele. A respeito do assassinato (todo filme noir como este, de 1950, tem um crime ao menos), passa a ser o grande mistério do filme e que naturalmente vai ser resolvido só no final, mas é o fio condutor dos vários dramas que se sucedem ao redor da investigação, todos muito interessantes, envolvendo casais, amizade inclusive com um policial e principalmente os relacionamentos mais íntimos (sem spoiler). Nesse ponto o roteiro é excelente, ao aprofundar as consequências no meio social e na vida das pessoas, pelo fato de serem suspeitas de um crime. Todos no elenco estão muito bem, incluindo a atriz –e cantora- Gloria Grahame (Os corruptos…) e a direção tem a assinatura do famoso e polêmico Nicholas Ray (Johnny Guitar, Juventude transviada…). 8,5

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EL DORADO

Um faroeste dos bons, muito melhor do que o antecessor do diretor (Rio bravo), mas mesmo assim é exagero colocá-lo entre os melhores da história do cinema (embora haja quem o faça). O diretor é o supertalentoso Howard Hanks (Jejum do amor, À beira do abismo, Rio vermelho -1948, Rio Lobo – 1970, Hatari…), que, contudo, perdeu a mão pelo caminho do filme.  Se ele tivesse continuado a “pegada” do início, talvez o resultado fosse um épico, mas a partir de certo ponto o roteiro se transformou em uma comédia e com isso perdeu força e atraiu inclusive muitos clichês. Pena. Howard Hanks foi um grande diretor e bastava seguir a mesma levada do início e teria um filme notável, um verdadeiro clássico. Porque elementos não lhe faltavam. As imagens são belíssimas, a história tem todos os ingredientes de perigo e violência dos westerns, há vários focos de interesse e o elenco é ótimo, sob o comando de Robert Mitchum e principalmente de John Wayne. Este, indubitavelmente o maior cowboy do cinema. Além de ser um homem imponente por sua envergadura física, John tinha carisma e total domínio de sua arte e das particularidades/necessidades do gênero: excelente cavaleiro, hábil com as armas, jeitão de bonachão e ao mesmo tempo corajoso, de leal aos amigos, poderoso contra os inimigos, atraente para as mulheres. O protetor ideal para os fracos e oprimidos. Embora aqui faça um papel extremamente parecido com o de Rio bravo, inevitável comparar. Mas a história do filme começa muito bem e empolgante, repleta de reticências e expectativas. Depois cai e não se recupera. Porque acaba praticamente um filme de sessão da tarde, conforme inclusive se vê claramente pelo comportamento dos personagens, entre eles James Caan, novíssimo, embora faça um papel importante. Ainda assim, é um filme divertido e interessante, embora não possa ser comparado aos grandes como Era uma vez no Oeste, Paixão dos fortes, O homem que matou o fascínora, entre outros. Também trabalha no filme, fazendo o papel do bandido da cicatriz e olho de vidro o conhecido ator Christopher George. Alguns, com razão, veem muitas semelhanças entre este filme, de 1966, e o citado Rio bravo, feito sete anos antes: além do papel de xerife para John Wayne, temos a mesma espécie de cidade, o xerife que tenta se curar do vício do álcool, o bando invasor (se bem que isso tem em todo faroeste!), o rapaz que de repente vira ajudante do xerife (vejam: em Rio Bravo esse ajudante era chamado de Mississipi; aqui, de Colorado) entre outros fatos que lembram o filme anterior, obviamente que de forma intencional. Só que este é muito mais bonito, criativo, mais bem dirigido, como se o anterior tivesse servido como uma experiência de amadurecimento. 8,4

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RIO BRAVO (ONDE COMEÇA O INFERNO)

Western dirigido em 1959 por Howard Hanks (fecundo diretor de filmes de vários gêneros), com John Wayne e Dean Martin como os xerifes, juntamente com o veterano ator Walter Brennan, que na época tinha mais de 30 anos de carreira, mais de 200 filmes entre televisão e cinema e 3 Oscar de Ator coadjuvante. Atuam no filme também o cantor e compositor Ricky Nelson (Colorado) e o ator Claude Akins (conhecido 20 anos depois como o Xerife-lobo na TV), mas este faz apenas uma pequena ponta. Sem comentários a respeito do título em português: Onde começa o inferno. Mais descabido, impossível (se bem que o original também não é dos mais brilhantes, já que se refere apenas a uma música, porque o filme não tem rio algum). O subtítulo é absurdo porque este faroeste tem alguns dos bons ingredientes do gênero, mas comparando com outros (inclusive com El dorado, a seguir comentado) é praticamente sem inspiração. Um filme sem muita criatividade. Até a metade, pouca coisa ocorre de atraente ou diferente da quase totalidade dos bang-bang. Claro que tudo é uma espera para acontecimentos com mais ação, que geralmente acontecem no final da história, mas mesmo assim a inspiração aqui andou escassa. A presença de Angie Dickinson é que felizmente dá um colorido para a história, que acaba girando com destaque em torno dela e do personagem de Wayne (a atriz tinha 28 anos na época e ficaria conhecida 15 anos mais tarde pela série Police Woman). O filme bate também em uma tecla já manjada no cinema, que é a do viciado que precisa se livrar da bebida para restabelecer a dignidade e aqui também a habilidade com as armas. O que se repetiria sete anos mais tarde em El dorado, dirigido pelo mesmo Hawks, com o personagem de Robert Mitchum (aqui é Dean Martin). E tem algumas cenas ruins, como a do desmaio do xerife depois de descer a escada quase no final, por exemplo (inconcebível diante do personagem e da situação). Entretanto, há instantes marcantes, como o do significado das músicas executadas pelo grupo mexicano no bar e principalmente o dos números musicais dentro da cadeia, com violão, gaita de boca e Dean Martin e Ricky Nelson –ambos mais famosos como cantores do que como atores- cantando típicas e bonitas canções (belíssimo momento). Uma curiosidade pouco comentada: John Wayne pode ser visto em muitos westerns com a mesma camisa avermelhada que usa neste filme. 7,8

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A MARCA DA MALDADE (TOUCH OF EVIL)

Este filme de 1958 é considerado o último produzido do gênero “noir”. Se assim foi, terá encerrado o ciclo com pleno êxito, porque é uma obra portentosa, de grande força visual e análise de personagem. Na verdade, o grande destaque aqui se chama Orson Welles. Que roteirizou, dirigiu e atuou. Tudo esplendidamente! Conta-se que ele iria apenas atuar no filme, uma vez que havia escrito o roteiro, mas que em razão da interferência (proposital ou não) de Charlton Heston acabou sendo o diretor. E que diretor! As cenas, as tomadas, os ângulos/enquadramentos de câmera (fotografia em belo preto & branco) são notáveis, com todas as características do cinema “noir”, além da perfeita adequação de figurino e trilha sonora (do famoso Henry Mancini). E edição, naturalmente, porque o ritmo é incessante e aliado aos diálogos sequenciais e alguns afiados ou cínicos fazem com que o espectador não desgrude os olhos. Mas também é destaque a atuação de Orson no papel do corrupto porém enigmático capitão da polícia (ambivalente na ação e na lógica moral): impressionante realmente o seu desempenho para um personagem complexo, uma aula de interpretação. A trama toda se passa na fronteira dos EUA com o México, onde ocorre um crime e a partir daí passam a acontecer diversos fatos, quase todos decorrentes das divergências de pensamento e método entre a autoridade mexicana (Charlton Heston, não muito convincente nessa nacionalidade) e a americana, no caso o personagem de Orson, o “xerife” Hank Quinlan, de forte ascendência sobre todos os demais, por sua personalidade e autoridade, embora permanentemente alcoolizado. A esposa de Ramon Vargas (personagem de Heston) é muito bem interpretada por Janet Leigh (que dali a 3 anos brilharia em Psicose), o sargento Menzies por Joseph Calleia e as famosas Zsa Zsa Gabor e Marlene Dietrich (cuja presença é sempre muito marcante) são convidadas de honra, cabendo a esta última, no final do filme, definir o personagem de Welles, com duas frases precisas. Akim Tamiroff está bem como o tio Joe, mas os sobrinhos são caricatos, embora ninguém ganhe nesse quesito do absolutamente ridículo personagem do recepcionista do hotel, que seria perfeitamente (e adequadamente) dispensável ao enredo. Um filme que enfoca temas fortes (como a corrupção policial), violento e que demonstra claramente que a inocência não tem lugar em determinados meios e cenários. Nesse ponto, apesar das boas intenções, o personagem de Charlton Heston deixou um pouco a desejar, mas a falha não é do roteiro e sim do ator, a quem faltou a dramaticidade necessária para brilhar. Talvez a presença intimidadora de Orson tenha contribuído para isso. Aliás, esse talentoso “camaleão” era certamente persona non grata em Hollywood, haja vista que este filme não teve nenhuma indicação para o Oscar de 1959, muito embora fosse um ano de grandes produções. Entretanto, pela sua qualidade, mesmo que não fosse como melhor filme, pelo menos a atuação e direção de Orson teriam valido dois Oscars, no lugar de David Niven (Oscar de Melhor ator por Vidas separadas) e Vincent Minelli (por Gigi), que foram os vencedores. Mas esses fatos acabam se somando à grande história da sétima arte, como os vários filmes do gênero “noir”, que só tiveram o seu reconhecimento muitos anos depois de apresentados. Eis outro exemplo.   8,8

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(RELÍQUIA MACABRA – O FALCÃO MALTÊS)

Um filme de 1941, cujo título melhor seria o original, ou seja, “O falcão maltês”, sem comentários para o que foi colocado pelas “mentes brilhantes comerciais” da época. Mas é um filme na minha opinião superestimado. Pois foi indicado a vários Oscar e às vezes é citado como um dos grandes do cinema noir e não vejo tanto merecimento. É um bom filme, tem ótima direção (John Huston), boa atuação do elenco (Peter Lorre inclusive), Humphrey Bogart já começava a consagrar o tipo de detetive que faria maravilhosamente bem anos mais tarde em “The big sleep”, um roteiro com certo dinamismo. Mas não apresenta uma história totalmente desenvolta e atraente, não tem a “femme fatale” (a atriz Mary Astor fica muito longe disso), o próprio Humphrey não é um Philip Marlowe e as ações dos personagens são cheias de idas e vindas sem muito sentido ou sem a devida emoção. Comparando com “À beira do abismo”, por exemplo, é um filme pobre. Comparando com outros do mesmo gênero, pode ser tido como um filme dentro da média. Um razoável passatempo. E nada mais do que isso. O roteiro foi baseado em texto de Dashiell Hammett, o pai do romance policial americano (inclusive o noir). Esse fato foi muito importante para a época, na qual possivelmente os efeitos de um filme como esse eram bem diferentes. Mas um filme clássico é aquele que tem seu encanto preservado com o tempo, como um “Casablanca”, por exemplo. Este filme ganhou fama a mais também por conta dos críticos, provavelmente. De qualquer forma, a presente opinião parece destoar da grande maioria deles e também da nota 8 no IMDb (banco de dados com opiniões populares sobre os filmes). 7,6

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À BEIRA DO ABISMO (THE BIG SPLEEP)

Este é um dos mais famosos filmes do cinema noir e tem realmente sua qualidade, além de ter feito história por alguns detalhes: o co-autor do roteiro é William Faulkner, um dos maiores romancistas do século XX e que três anos depois (1949) viria a ganhar o Nobel de Literatura; o roteiro é baseado na obra do famoso escritor e romancista Raymond Chandler; o detetive Philip Marlowe é interpretado pelo ator que foi considerado um dos mais influentes de Hollywood, em todos os tempos, inclusive talhado para esse tipo de papel: Humphrey Bogart, que 5 anos antes havia feito O falcão maltês, fora inúmeros outros filmes (Uma aventura na Martinica, O diabo riu por último, No silêncio da noite, A condessa descalça, O tesouro de Sierra Madre, Uma aventura na Àfrica – filme que lhe deu o Oscar de Melhor Ator…); a femme fatale –embora haja várias no filme- é Lauren Bacall, casada com Humphrey na época deste filme e que também participaria de muitos na história do cinema, entre eles Uma aventura na Martinica e Paixões em fúria; o diretor é o consagrado Howard Hanks, que dirigiu inúmeros filmes famosos, entre os quais Rio vermelho, Rio bravo, Scarface, Os homens preferem as loiras, Uma aventura na Martinica, Onde começa o inferno, Hatari e O esporte favorito dos homens. De fato, o filme tem muito mais qualidades do que defeitos, com todos os elementos fotográficos do cinema noir, uma bela trilha sonora e um ritmo incessante. Os diálogos são ácidos e saborosos e o detetive encarna o padrão que se espera dos heróis do gênero: másculo (bebidas, cigarro, revólver), durão, ágil no pensamento e na ação, palavras rápidas e afiadas (maliciosas) e atraindo todas as mulheres com sua maneira dominadora e ao mesmo tempo misteriosa e imprevisível. O roteiro é cheio de fatos que se intercalam e se emaranham, para alguns sendo um pouco complexo e até prolixo. Não achei tanto assim e considero a história criativa. Mas o ponto fraco do filme é falta de um elemento-surpresa, de algo que quebre os padrões e cause uma emoção autêntica. A história é interessante, prende a atenção, o filme sem dúvida está entre os bons do gênero noir, mas eu não o coloco entre os top de linha justamente pela falta desse componente a mais e que distingue os bons filmes das obras exponenciais. De todo modo, um ótimo passatempo e uma produção acima da média e que se destaca na galeria dos noir. 8,6

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A EMBRIAGUEZ DO SUCESSO (SWEET SMELL OF SUCCESS)

Um filme poderoso e de grande qualidade e beleza estética (incluído no gênero noir, inclusive entre os melhores), produzido em 1957 e muito bem dirigido por Alexander Mackendrick. O preto e branco é magnífico e os diálogos são incessantes e afiados, provocantes, irônicos e cruéis, em meio às luzes, neons e sombras de Manhattan. No centro da trama o jornalismo, mais propriamente o colunismo social, seu poder e seus bastidores. A corrupção em torno das notícias sociais (inclusive envolvendo a polícia), sendo o colunismo usado como uma arma para o poder e não para informar. A torpeza, o cinismo, a cegueira que o poder provoca, a bajulação, os jogos de interesse em que os honestos ficam sem ação. Tudo isso com muito ritmo e em fôlego invejável, provavelmente sendo o melhor filme a tratar desse tema, inclusive pelo fato de que o roteiro foi feito pelo autor do livro em que o filme se baseia, Ernest Lehman. A trilha sonora é notável e ao vivo se apresenta com destaque o quinteto de Chico Hamilton, formado a partir de 1955, depois que esse músico foi um dos membros do quarteto de Gerry Mulligan e tocou nos anos 40/50 com Lionel Hampton, Duke Ellington, Count Basie, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Sammy Davis Jr., Tony Bennet, Nat King Cole etc. Uma história muito bem contada, em um filme que na época não fez o sucesso esperado, mas que com o tempo ganhou o seu lugar na história do cinema. O elenco com Martin Milner (Rota 66, Família Robinson) e outros, é comandado magistralmente por Burt Lancaster e Tony Curtis (em um dos seus melhores papéis na carreira), que um ano antes haviam atuado juntos em Trapézio9,0

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I´M THINKING OF ENDING THINGS

Charlie Kaufman é um roteirista muito respeitado nos EUA e conhecido por criar teses sobre a consciência, a memória, os relacionamentos, sendo autor de obras originais e nada convencionais, como Quero ser John Malkovich e Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Mas aqui provavelmente ele apresenta seu trabalho –como roteirista e diretor- mais difícil de ser entendido, que mais deixa o espectador órfão de explicações. Embora o filme comece e transcorra um bom tempo dentro de uma lógica e com fatos perfeitamente inteligíveis, a partir de um certo momento as cenas vão exigir do espectador não só uma atenção especial, mas também sagacidade, percepção, inteligência e talvez sensibilidade culturalmente dirigida para entender perfeitamente o que está se passando, para absorver de forma satisfatória todas as mensagens. Embora se possa intuir –e até seja claro pelo curso da história, pelos fatos intencionalmente colocados e pelo próprio histórico do diretor- que o que vai sendo mostrado tem uma conexão lógica e que a história tem um sentido compreensível, na verdade se apreender esse sentido totalmente é uma tarefa árdua e ao alcance de pouquíssimas pessoas. Tanto, que existem inúmeros textos e vídeos na internet (!), destinados a tentar explicar o filme aos espectadores que –como eu- não conseguiram, afinal, entendê-lo. Se bem entendido, o significado verdadeiro e integral poderá nos trazer bastante tristeza e melancolia, pela dor da solidão e das decorrências dela e do passar do tempo. É possível talvez até se entender –nesse caso sob o ponto de vista das referências vinculativas do diretor em relação a seus filmes- a certa semelhança entre o ator principal e Philip Seymour Hoffmann, que fez personagem de outro filme. Encontradas as explicações satisfatórias pode-se, de fato, tanto compreender vários detalhes do enredo (que são muitos mesmo), como também se apreciar a obra como algo realmente genial! Entretanto, é algo ousado, com cores muito surrealistas e que depende da disposição e do gosto do espectador, porque quando as imagens passam a ser simbólicas em demasia, a tendência é o cansaço e a desmotivação. Portanto, ousadia também da NETFLIX patrocinar um filme dessa natureza. O elenco é todo ótimo: a atriz e cantora irlandesa Jessie Buckley, o americano Jesse Plemons (que fez um papel em Breaking bad), o britânico David Thewlis e a veterana e excelente atriz australiana Toni Collette (O sexto sentido, Pequena Miss Sunshine). O filme tem um texto sobre dança, cinema, literatura muito interessante, sendo exemplos algumas frases: “A primeira lei de Newton da emoção é permanecer em um relacionamento nocivo”, “A criança é o pai do homem”, “Quando se é criança, os porões são assustadores”. De todo modo, certamente o filme nos traz emoções, sensações e nos impacta, mesmo que seja pelos sentimentos que temos diante do desconhecido (ao nos deixar com aquela sensação de reticências permanentes…) e por esse motivo, para muito, já vale a pena a viagem sensorial, sentimental e intelectual, ainda que não ofereça a habitual segurança. 8,0

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O RELÓGIO VERDE (THE BIG CLOCK)

Este filme de 1948 bem poderia ter sido dirigido por Alfred Hitchcock, tendo um desenvolvimento de filme de suspense e alguns elementos de cinema noir. Porque tem um ótimo elenco e uma trama muito bem costurada, uma história repleta de fatos engenhosos, inteligentes, reviravoltas, mistério, com isso despertando grande interesse no espectador, principalmente quando o protagonista desempenhado por Ray Milland (Farrapo humano) assume posições totalmente antagônicas na mesma investigação, que é quando o filme apresenta seus momentos de maior tensão. O antagonista permanente desse personagem, George Stroud (o homem que precisa tirar férias), é seu chefe, o ambicioso e megalomaníaco personagem feito por Charles Laughton (Testemunha de acusação), marido de Elsa Lanchester, que também trabalha no filme, fazendo papel da pintora que vira testemunha. O ritmo do filme é eletrizante mas equilibrado, não havendo, de outro lado, queda na qualidade do roteiro. Não é de Hitchcock, conforme dito no início, mas é muito bem conduzido por John Farrow, pai de Mia Farrow e marido de Maureen O´Sullivan (a eterna Jane do Tarzan), a qual também está no elenco, como esposa de Stroud. Um filme indicado a vários prêmios e, segundo dizem, que inspirou um ou mais filmes mais recentes do cinema. Contudo, há opiniões bem diversificadas a respeito dele, havendo quem o tenha achado mal concebido ou mal adaptado do roteiro ou até mal dirigido. Polêmicas, à parte, o título em português desta vez não andou mal, tendo perfeito sentido com aspectos importantes do enredo. 8,7