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MAGNUM 44 (MAGNUM FORCE)

Segundo filme do personagem Dirty Harry (ou Inspetor Callahan) e muito melhor do que o primeiro, apesar de alguns dizerem exatamente o contrário, o que pode ser contestado veementemente no nível da razão (no da “emoção” é outro papo…). Produzido dois anos depois (1973), tem um roteiro muito mais consistente e com elementos de muito maior interesse, em uma trama que envolve vários vértices de ação e suspense, construindo uma história que cria tensão e expectativa, naturalmente tendo como foco central e inarredável a figura do inspetor e de sua lendária e letal pistola, que dá título ao filme. No caso, tentando decifrar a existência e os atos de uma quadrilha que parece ter como objetivo o de exterminar o lixo social.  Apesar disso tudo, o filme visto hoje em dia não pode ser equiparado às tramas que fazem sucesso nos melhores do gênero, inclusive nas minisséries que atualmente dominam o mercado e onde o estilo “policial” faz grande sucesso, demandando excelentes produções e roteiros espetaculares. Contudo, ainda é um marco no cinema pela continuidade da saga do heroi misterioso e implacável, criado a partir do primeiro filme (Perseguidor implacável). 8,0

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PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL

Pode ser que este filme de 1971 não tenha envelhecido bem e que na época tenha feito um grande sucesso, mas o fato é que não tem nada de mais, na verdade nada além dos filmes medianos que passam na sessão da tarde, exceto por um detalhe: Clint Eastwood. Aqui, na estreia de seu famoso personagem Harry Callahan, o Dirty Harry do título, munido com a famosa magnum 44 (título do segundo filme de uma série de cinco). Ele realmente faz a diferença, com seu carisma e sua pose de heroi durão, misterioso e infalível contra o mal, herdados dos tempos dos legendários faroestes de Sérgio Leoni e o único fator que fez com este filme tenha virado uma espécie de “clássico”. Porque tirando ele, o filme se reduz a um roteiro esburacado, um vilão ridículo (daqueles que esbugalha os olhos quando escondido na penumbra!) e algumas cenas boas – como as que escancaram a injustiça de um sistema que solta criminosos por deficiência nas provas – em meio a várias bisonhas e apelativas (como a das crianças). Curiosidade: perto dos 10 minutos de filme, vemos que está em cartaz em um cinema o filme também de 1971 Play Misty for me, que na verdade foi traduzido entre nós como Perversa paixão, estrelado por Eastwood e com a presença de Don Siegel como ator. Don é o diretor deste filme, assim como dirigiu o mesmo Eastwood em Meu nome é Coogan em 1968 e O estranho que nós amamos igualmente em 1971. 7,5

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A ÚLTIMA MISSÃO (THE LAST DETAIL)

Quando fez este filme, em 1973, Jack Nicholson já havia participado de muitas produções, porém o festejado Chinatown só viria um ano depois e um ano ainda mais tarde o premiadíssimo O estranho no ninho, que o consagrou definitivamente. Mesmo assim, para alguns este foi o seu melhor desempenho no cinema, o que pode ser tranquilamente aceito como verdade, porque sua atuação é efetivamente brilhante e não somente foi indicada ao Oscar de Melhor ator, como lhe rendeu merecidamente a Palma de Ouro em Cannes nessa categoria (1974). É muito bom mesmo esse Jack, com sua pré-calvície assumida – em uma cena ele parece fazer questão de ressaltar o fato, penteando-se demoradamente em frente ao espelho -, presença forte e carisma indiscutível e suas expressões características, com diversidades faciais e os típicos olhos semicerrados. Embora os demais do elenco orbitem em torno dele, também é boa a atuação de Otis Young e ótima a de Randy Quaid, que inclusive também foi indicado ao Oscar, como Coadjuvante. O filme, praticamente um road movie, também concorreu ao Oscar de Roteiro e ganhou o de Montagem. Aliás, seu editor foi o conhecido papa das montagens, Hal Ashby (Ensina-me a viver, Amargo regresso, Muito além do jardim). A história é muito interessante – e talvez surpreenda os que esperavam outro final…-, reunindo força com leveza, seriedade com humor e abordando temas importantes, com destaque para questões de grande humanismo, ao longo de uma jornada de muitos e inesperados acontecimentos e também de emoções; as quais fazem muitas vezes o riso “solto” transformar-se em “amarelo”. Em suma, algo que parece despretensioso, mas que alcança uma profundidade notável. 9,0

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AMOR À QUEIMA-ROUPA (TRUE ROMANCE)

Primeiro roteiro de Quentin Tarantino (que levou bastante tempo para ser aproveitado), dirigido por Tony Scott (Top gun, O sequestro do metrô, Fome de viver), este filme, de 1993, tem um elenco inacreditável. Vale a pena relacionar os nomes, embora já revelando que alguns terão presença “meteórica” dentro do enredo: Christian Slater, Patrícia Arquette, Gary Oldman, Dennis Hopper, Christopher Walken, Brad Pitt, Val Kilmer, James Gandolfini, Sanuel L. Jackson, Michael Rapaport, Saul Rubinek e Chris Penn, entre outros. É um filme divertido de ação e romance, com enfoques originais, tramas e trapaças, algumas ótimas cenas e diálogos e um desenvolvimento notável, inclusive pela ótima química dos protagonistas. Há personagens memoráveis, como o de Gary Oldman (atorzaço sempre) e o de Christopher Walken (ator também versátil) e um momento especial com cena e diálogo longos, entre pai e filho, com a participação icônica de Hopper. Boa e interessante diversão, que já vale só para se espiar o elenco, notadamente aqueles que estavam dando seus primeiros passos no cinema. 8,5

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AMORES EXPRESSOS

Este é um filme superestimado por alguns intelectuais (festejado até), mas é também subestimado por alguns outros. Na verdade, é um filme com partes frágeis, mas também com muitas virtudes. Cinema chinês, produção de 1994, tem bastante potencial para agradar, principalmente porque é original na forma (direção, fotografia e efeitos de câmera), tem um ótimo ritmo, uma trilha sonora muito atraente e sabe tratar seus temas com charme, leveza e uma certa poesia. Traz alguns conflitos e mensagens envolventes, embora na essência talvez não passe muito disso, deixando reticências que poderiam ser mais bem resolvidas, não necessariamente clarificadas por completo e tendo uma primeira parte com algumas lacunas que deixam o espectador insatisfeito e até um pouco entediado. Mas no seu conjunto é dinâmico e mantém o interesse até o final, embora em alguns momentos a espera por algo muito especial possa ficar parcialmente frustrada. 8,0

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MATAR OU MORRER (HIGH NOON)

Um faroeste clássico, certamente um dos grandes do gênero e que também se destaca pela originalidade, explorando com generosidade o lado psicológico principalmente do protagonista. Dirigido por Fred Zinnemann (A um passo da eternidade, O dia do Chacal, Júlia, Uma cruz à beira do abismo), foi estrelado pelo grande Gary Cooper, tendo como “mocinha” a bela e polêmica Grace Kelly, também apresentando Katy Jurado, Lon Channey Jr., Harry Morgan e dois atores que viriam a ficar muito conhecidos no cinema: Lee Van Cliff (vários faroestes, inclusive a famosa trilogia dos dólares, com Clint Eastwood, iniciada com a obra Por um punhado de dólares) e Lloyd Bridges (pai dos atores Jeff e Beau Bridges e que além de estrelar várias dezenas de filmes, também fez sucesso na TV, na série Aventuras submarinas dos anos 60). Em bela fotografia em preto e branco numa época em que o cinema já vibrava em fortes cores, apresenta uma trilha que mantém e acentua a tensão por todo o filme, já começando empolgante com a música-tema, que também ficou muito conhecida e que narra a história que será contada ao longo do enredo: a do terrível bandido que volta à cidade para se vingar do xerife, após ser absolvido pela justiça, e que chegará no trem do meio-dia (razão do título original). O roteiro aborda o velho Oeste mas sob um ponto de vista diferente do usual, explorando o lado negro e cruel da natureza humana, desmitificando o heroísmo e fazendo críticas sociais (até mesmo – sutilmente – ao Judiciário). Interessantes os argumentos que personagens secundários utilizam para se eximirem de suas presumíveis obrigações (…e o juiz foi o primeiro a fugir), mostrando que o tempo do uso da força para vencer a razão estava começando a cair em decadência ou pelo menos ser questionado. O roteiro igualmente mostra o vazio e a indiferença com os quais às vezes podem se defrontar os princípios e o senso de dever, na realidade sendo este filme uma poderosa metáfora da própria vida! Interessantes também a imagem repetida dos trilhos, intensificando a chegada do perigo e a própria cena da estação, que, incluída a gaitinha de boca, foi lembrada uma década e meia depois no filme Era uma vez no Oeste, provavelmente como uma homenagem feita a este filme por Sérgio Leone. Outro fato curioso e criativo é o tempo real coincidir com o tempo do filme, especialmente quando o relógio mostra a contagem regressiva para o seu momento crucial. Apenas a parte final do filme foi criticada por alguns, que a consideram muito “apressada”, se considerado todo o contexto anterior.  Produzido há mais de 60 anos (1952) é um exemplo de grande cinema e que, ademais, permanece atualíssimo! 9,5

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THE OUTFIT

Os mais antigos saberão identificar perfeitamente a elegância e a liturgia da atividade de alfaiate, muito comum antigamente e que depois foi trilhando o caminho da extinção. O personagem de Mark Rylance (ator que ganhou o Oscar em 2016 de Coadjuvante por Ponte dos espiões) esclarece as razões desse declínio, sem deixar de enobrecer a função, inclusive definindo sua arte não como a de um alfaiate, mas sim como a de um artesão, executando algo que vai além de meramente cortar e costurar tecidos.  E não há como negar tanto a nobreza dessa profissão, como o desempenho soberbo de Rylance, que incorpora um difícil personagem com todas as suas nuances e riquezas. Performance digna até de um Oscar. Mas na verdade todo o elenco é ótimo, com destaque para a recepcionista interpretada por Zoey Deutch e para o chefão desempenhado por Simon Russel (apesar da relativamente rápida aparição). Nesse ponto, o filme também revela seu fascínio, porque não só tem um elenco reduzido embora competente, como toda a ação se passa em um ambiente único e reduzido: dentro de uma alfaiataria, nos anos 50, em Chicago. Mérito do diretor do filme, Graham Moore, que também elaborou o excelente roteiro, ele que justamente pelo melhor roteiro foi premiado com o Oscar em 2016 pelo filme O jogo da imitação. O bem engendrado, inteligente e criativo texto, que às vezes parece um jogo de xadrez, apresenta várias reviravoltas, reservando algumas surpresas e mantendo sempre um clima de suspense no ar. A trilha sonora é maravilhosa, pontuando com total adequação os momentos sérios, de picardia ou de intenso drama (o tom não é pesado, mas há cenas densas e até violentas). Há muitas cenas ótimas – como o diálogo entre o chefão e o artesão, onde se faz um paralelo entre a vida do crime e a dos tecidos e das roupas – e impressiona o equilíbrio e a harmonia de todas as peças, que aos poucos vão aparecendo e dando sentido ao todo. Algo a ser realmente degustado, por sua qualidade, refinamento e originalidade. 9,3

 

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O SOLDADO QUE NÃO EXISTIU (OPERATION MINCEMEAT)

Cinema britânico de primeira linha. Um filme ambientado na Segunda Guerra, gênero drama de espionagem (inclusive com a participação e narração de Iam Fleming, que serviu na Segunda Guerra, além virar jornalista e ser o famoso autor da série 007), com muito suspense e principalmente em seu final também muita emoção. Tendo sempre presente o senso de humor e o jeito inglês de ser, desenvolve de forma exemplar uma trama repleta de detalhes e reticências, embora escape tanto do banal, quanto da prolixidade. Esse equilíbrio e a harmonia são fruto da excelente direção de John Madden (Shakespeare apaixonado, O exótico Hotel Marigold) e do competente elenco, capitaneado por Colin Firth (Kingsman, O discurso do rei, Simplesmente amor), Matthew Macfadyen (Sucessão, Orgulho e preconceito) e Kelly Macdonald (Onde os fracos não têm vez, Assassinato em Gosford Park). A história é absolutamente envolvente e tem seu foco em operações estratégicas secretas durante a segunda guerra mundial, repletas de incertezas, intrigas e até dissimulações. Mesmo assim, o filme explora algumas questões sentimentais, que, entretanto, orbitam discreta e sensivelmente em torno da trama central, com muita delicadeza. Baseado em fatos reais, que no encerramento do filme ficam clarificados, é um belo exemplo de cinema equilibrado e inteligente, mantendo o interesse do espectador do início até o final. Produção Netflix. 9,3

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CORRENTE DO MAL (IT FOLLOWS)

Este é um filme imprescindível para os fãs do gênero (thriller de terror), estando inclusive entre os melhores das últimas décadas. E isso sem que precise abusar de sustos e de sangue e apresentando uma forma original de abordar conceitos simples à primeira vista e já conhecidos, relacionados com fatos sobrenaturais, que aqui, é verdade, aparecem sem muitas explicações e definições sobre suas causas e origens, o que para este filme é um mérito, até porque o desconhecido e o vago acentuam o mistério e a tensão. Tensão, aliás, é o que não falta, sendo permanente durante toda a exibição do filme ao deixar o espectador sem fôlego e sem saber o que virá na próxima cena. O mal que parece estar sempre próximo realmente desperta o lado primitivo do cérebro de cada um de nós (aflorando medos represados) e parece inesgotável, o que inclusive justifica a aparente dualidade/ambiguidade da cena final. Esse clima continuado de suspense se agrega à forma admirável e original pela qual a história é contada: terror com arte e bem acabado e com uma nervosa e inquietante trilha sonora, que utiliza até mesmo sintetizadores. A ambientação é também singular, com especiais cenários de uma Detroit decadente e de adolescentes que parecem abandonados à própria sorte, embora vivendo uma vida absolutamente rotineira: o horror em meio ao banal. A direção (e edição) maravilhosa de David Robert Mitchell nos traz o perigo à espreita com enquadramentos caprichados de câmera e o elenco não é conhecido, mas é convincente, sendo comandado pela ótima atriz Maika Monroe. Este filme foi indicado a muitos prêmios e merecidamente ganhou inclusive alguns, sendo também por isso recomendável a todos aceitar o seguinte desafio, a fim de usufrui-lo de forma plena: assistir a ele com as luzes apagadas, com um ótimo som (o ideal, fones de ouvido) e sem qualquer interferência ou interrupções. E depois se tentar dormir bem…Dos muitos detalhes – propositais, naturalmente – que se podem extrair do filme estão a cor vermelha associada ao aparecimento da entidade e o rosto da velha e do homem da piscina, como membros da família da protagonista (vide fotos de família). 9,0

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RASHOMON

Um filme japonês de 1950 e que ficou na história porque elevou em muito o cinema nipônico e deu impulso definitivo à obra do diretor Akira Kurosawa (Kagemusha, Dersu Uzala, Os sete samurais). Foi em parte baseado em um conto de 1922 intitulado No matagal, que narra no Japão do século XI os acontecimentos envolvendo um samurai, sua esposa e um bandido, sob a ótica de quatro narradores diferentes: um lenhador, um monge, o bandido e o marido (por meio de uma médium). O fato de não se saber qual das narrativas é a verdadeira (ou se alguma delas o é) desafia a sagacidade e o intelecto do espectador. Mas o filme não parece dar uma resposta definitiva a esse fato, que até mesmo parece ser irrelevante diante da proposta, que seria a de provocar uma reflexão (pessimista no caso) sobre a natureza humana, ou no mínimo sobre a impossibilidade de se extrair a verdade quando existem várias versões sobre o mesmo fato ou conflitos no modo de ver as coisas. Ao que parece, em mais de uma língua, o termo “rashomon” se tornou aplicável em situações nas quais a veracidade de um fato é de difícil verificação, em razão justamente do conflito nos depoimentos das testemunhas. Esse aspecto do filme é efetivamente o seu grande ponto de atração e de originalidade e o texto inclusive indaga se os homens são todos mentirosos, se não se pode confiar em ninguém, se não existe um fio de esperança para a humanidade…nas imagens finais do filme, porém, essa esperança parece se descortinar, de forma clara, perfeita e iluminada. E a propósito dessa mesma imagem também podem ocorrer perguntas sobre sua relação com os fatos narrados envolvendo os dois homens e a mulher: esse pode ser ou não outro ponto interessante, havendo a possibilidade, entretanto, que na verdade seja algo meramente acidental. A história inicia e termina no chamado Portal de Rashomon e se passa em ambientes limitados, de modo que poderia até ser contada sob a forma de uma peça teatral, pela qual certamente faria o mesmo sucesso. O filme venceu o Festival de Veneza em 1951 (ganhando o Leão de Ouro) – dizem que inscrito sem ser pedida a autorização de Kurosawa -, ganhou em 1952 o Oscar e também o Globo de Ouro como Melhor filme estrangeiro, entre muitos outros prêmios. É estrelado pelo famoso ator japonês Toshiro Mifune. O lado negativo pode ser creditado a algumas fracas coreografias de lutas e à própria conduta dos personagens, meio espalhafatosa, meio pastelão, beirando a encenação, por ser dramática demais, o que parece ser uma característica de alguns filmes japoneses. De resto, um filme esteticamente bonito e bastante interessante em seu intrincado enredo, razão por que os americanos o refilmaram em 1964 (acrescentando pequenas variantes), com um belíssimo elenco, estrelado por Paul Newman (moreno e fazendo o papel de bandido !), Laurence Harvey, Claire Bloom, Edward G. Robinson e William Shatner. 8,8

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PARAÍSO PROIBIDO (SEPTEMBER AFFAIR)

Apesar do título bisonho em português, este filme tem o forte aroma dos clássicos românticos. Produzido em 1950, participou do Festival de Veneza daquele ano, sendo dirigido por William Dieterle (O retrato de Jennie, O corcunda de Notre Dame). É na realidade um drama de amor, mas com diversos elementos que o enriquecem. Como a trilha sonora – que inclui Rachmaninoff e principalmente a marcante música tema, a qual ganhou o Globo de Ouro (1952); e as interpretações de Joan Fontaine principalmente (Rebecca a mulher inesquecível, Suspeita), mas também de Françoise Rosay e Jessica Tandy (que já veterana estrelou Conduzindo Miss Daisy), sendo Joseph Cotten também um ator de respeito (O terceiro homem, Cidadão Kane), embora não seja um intérprete emocional; e as maravilhosas locações, mostrando esplendorosas paisagens e monumentos italianos, em Nápoles, Cápri, Florença, a cultura italiana, em geral. Porém, mais do que a “embalagem”, o conteúdo se destaca e surpreende, porque o que a princípio parece ser uma história bobinha e trivial, acaba derivando e evoluindo para temas importantes e interessantes e os aprofunda de uma forma até inesperada, que não apenas leva à emoção, mas também à reflexão, notadamente sobre os limites do amor, o que é a felicidade e o que todos nós buscamos, afinal, podendo até mesmo trazer a melancolia em alguns momentos. O final gerou algumas polêmicas, mas parece ser adequado, embora sua falha tenha sido a pressa aparente, portanto a falta de um melhor desenvolvimento, de um “acabamento” melhor. O que o restante do filme certamente mereceria. Um adendo final sobre a música tema September song, que em razão do filme virou líder das paradas de sucesso da época: prestando bastante atenção nela, pode-se até pensar que serviu de inspiração para outro tema que ficou famoso, no caso anos sete depois, com o filme An affair to remember (Tarde demais para esquecer). 8,8

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A NOITE DE 23 DE MAIO (MYSTERY STREET)

Um policial noir de 1950, dirigido por John Sturges (Sete homens e um destino, Fugindo do inferno) e ambientado em Boston. No elenco, gente muito boa e também conhecida, especialmente: Elsa Lanchester, que trabalhou em inúmeros filmes, Marshall Thompson, que viria a ser o protagonista da série de TV Daktari e com destaque Ricardo Montalbán, que quando veterano ficaria bastante famoso na TV como o anfitrião da série A ilha da fantasia. Ocorre que este filme não tem um roteiro comum, talvez sendo o único ou um dos poucos que abordem com tanta profundidade o lado científico das investigações criminais. Na verdade, o filme foi o precursor de outras produções e até de séries da TV que tratam das investigações dos peritos criminais, como a famosa e longeva série CSI. Aqui a polícia conta com o valioso auxílio do departamento de Medicina Legal da conceituadíssima Universidade de Harvard, para tentar elucidar um crime, a partir da identificação da vítima e depois do criminoso, iniciando com os detalhes científicos da reconstituição facial e passando pelo esqueleto, detalhes da anatomia, fios de cabelo etc, até chegar a detalhes imperceptíveis a olho leigo do próprio fato. O interessante aqui é que o espectador já sabe de tudo, mas acompanha com total envolvimento todos os acontecimentos, justamente pela curiosidade de saber de que modo o crime será inteiramente aclarado e desvendado. 8,4

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A MARCA RUBRA (BRANDED)

Um faroeste injustamente esquecido ou pelo menos não tão divulgado quanto mereceria, feito em 1950 e protagonizado pelo eficiente Alan Ladd, que em três anos estrelaria o clássico Os brutos também amam (Shane) e em alguns ângulos lembra vagamente – e com vantagem, ou seja, a versão clean – Robert Mitchum. Também participam do filme Mona Freeman, Charles Bickford, ator bastante conhecido em várias produções e o diretor é Rudolph Maté, mais conhecido pela sua qualidade de fotógrafo, o que, por sinal, vale como um ingrediente a mais desta produção. Este é um western diferente porque mais psicológico do que de ação e com uma temática contendo importante dilema ético-moral. Seu bom desenvolvimento faz manter o interesse até o final, embora existam algumas inconsistências que o impedem de ter o brilho que poderia: é inconcebível, por exemplo, o filho do chefe ser raptado por um bandido e na fuga ser alvo de tiros do seu próprio bando; e em sua parte final as coisas de repente parecem apressadas e certinhas demais, sem as necessárias conexões, quebrando o andamento anterior. Mas esses elementos negativos acabam na verdade se perdendo em meio aos seus méritos, que são bem maiores, principalmente no que se refere à questão da consciência moral, que se torna o ponto cardeal da trama, em uma história que, afinal, diverte e também emociona. 8,5

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FÚRIA SANGUINÁRIA (WHITE HEAT)

O título original deste policial noir – em preto e branco – de 1949 é uma boa metáfora, referindo-se à alta temperatura a que são submetidos os metais. Mas o nome em português também não mente, porque o que move o filme é o gângster-chefe interpretado pelo ótimo James Cagney, papel que o ator já havia desempenhado em vários filmes ((O inimigo público, Anjos de cara suja…). Esse ator, cuja fisionomia é lembrada vagamente pelo britânico Kenneth Branagh, desempenha aqui um personagem absolutamente alucinado, que parece um nervo exposto (a versão séria do popular “baixinho invocado”): Cody Jarret, um psicopata, acometido de problemas neurológicos e devoto a uma mãe possessiva e também criminosa. Difícil prever os limites do personagem, exposto com muita energia por Cagney, tendo provavelmente inspirado muitos personagens do cinema, inclusive famosos (vide o conhecido de Joe Pesci). Aqui se trata do mundo do crime, policiais versus bandidos, aqueles já usando a incipiente tecnologia de localização e estes com aqueles casacos estilo capa francesa de chuva de gabarbine, chapéu quando o caso, com vários temas inseridos no enredo, como o do policial infiltrado (de vital importância na história), cobiça/ganância, confiança/traição etc. O filme, dirigido pelo excelente Raoul Walsh (Seu último refúgio, O ídolo do público, O ladrão de Bagdá), ganhou o prêmio Edgar de Melhor roteiro e concorreu no Oscar 1950 a Melhor história original – prêmio este que foi extinto a partir de 1958. A trilha sonora também se harmoniza adequadamente com a ação e os personagens, principalmente o de Cody. Também se destaca do ótimo elenco o talento e a beleza da atriz Virginia Mayo (Os melhores anos de nossas vidas, Falcão dos mares), então com 28 anos. A parte final do filme reserva alguns momentos bastante empolgantes, representados por cenas muito bem realizadas/executadas, como nos melhores filmes do gênero. 8,7

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ESCRAVOS DA AMBIÇÃO (LUST FOR GOLD)

Um faroeste de 1949, cujo tema é a busca a uma mina de ouro perdida e, naturalmente, todas as ações humanas relacionadas, incluindo a cobiça, a avareza e a ambição. Tudo gira em torno de uma história, que não se sabe ser real ou lenda, envolvendo um mineiro holandês chamado Jacob Waltz, que teria encontrado uma jazida de ouro nas montanhas do Arizona. A partir daí, muitos tentam a sorte, mas sem êxito, havendo inclusive a suspeita de haver um atirador misterioso rondando as montanhas, para impedir o acesso aos supostos 20 milhões de dólares em ouro. Segundo consta, os acontecimentos retrados fazem parte da história desse Estado americano e se passaram no local denominado Superstition Mountain. O filme, em preto e branco, é estrelado por Glenn Ford e Ida Lupino, com a participação, entre outros, de Gig Young. Um filme interessante, de 1949, que entretém sem maiores responsabilidades, embora alguns o considerem um clássico da época. 7,8

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A CENA DO CRIME (SCENE OF THE CRIME)

Um drama policial de 1949, classificado como noir e estrelado por Van Johnson, ator que tem um desempenho dinâmico no papel do tenente Mike Conovan, às voltas com sérias investigações envolvendo o assassinato de um colega, corrupção e outras mazelas do mundo do crime organizado. O filme é movimentado, tem seus momentos românticos, o lado noturno de Los Angeles, mas predominam as ações policiais contrabalançando com as criminosas. Não é um filme memorável, o seu desenvolvimento muitas vezes peca, mas é um bom policial e tem diversos ingredientes interessantes e que o tiram por vezes do trivial, inclusive um aprofundamento um pouco maior do que usual do eterno dilema que vive uma “esposa de tira” (aqui interpretada pela bonita Arlete Dahl), ou seja, a difícil vida das mulheres dos policiais, que pela vida atribulada, sem dia ou horários de atuação, não permitem que vivam a plenitude da vida doméstica ou social. 8,2

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O HOMEM DA TERRA

Este filme americano de 2007, cujo título traduz o original ao pé da letra, vai agradar muito aqueles que gostam de temas mais intelectualizados ou filosóficos. Pode ser classificado como drama ou até como ficção científica, mas é um filme baseado essencialmente em seu texto. O roteiro, aliás, é excelente e nos traz surpresas (pelo menos duas delas impactantes, sendo uma inicial e a outra mais na parte final), deixando-nos cada vez mais interessados e intrigados a respeito dos fatos e dos acontecimentos que virão. O detalhe é que toda a história se passa em apenas um local, uma casa isolada, onde várias pessoas irão se reunir e dialogar sobre um tema que será o norte do enredo e é algo efetivamente inesperado, mas relacionado com a partida de um deles, que está se despedindo para uma viagem súbita e misteriosa. Mais do que isso seria spoiler, mas é algo original, criado provavelmente para defender um modo de pensar ou pelo menos as possibilidades diversas de pensamento, mas elaborado de uma forma muito atraente e que, afinal, redunda em uma bela obra, na verdade genial sob determinado ponto de vista, porque desmistifica, destrói ícones e talvez aí resida o fato pelo qual o filme não fez um sucesso maior, uma vez que bate frontalmente com aspectos essenciais do pensamento religioso. O elenco é muito bom, mas não muito conhecido, sendo estrelado pelo ator David Lee Smith. Pelo que contam, a história foi concebida nos anos 60, mas concluída apenas no leito de morte de seu idealizador: Jerome Bixby (em 1998). 9,0

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KING´S MAN – A ORIGEM (THE KING´S MAN)

Este é o terceiro filme da série, sendo os anteriores King´s Man Serviço Secreto (2014) e King´s Man O círculo Dourado (2017). Mas assistir a ele independe dos dois anteriores, porque, como o próprio nome indica, os fatos aqui retratados são os que deram início a tudo, em outras palavras, à agência internacional (e independente) de Inteligência de mesmo nome, que por sinal é o de uma alfaiataria de elite localizada em Londres. O filme é todo britânico, tendo como diretor Matthew Vaughn, o mesmo das produções anteriores da série, além de, entre outros, ser o responsável por X-Man Primeira Classe, Jogos, trapaças e canos fumegantes, Snatch porcos e diamantes e elenco com alguns rostos conhecidos, comandado por Ralph Fiennes (A escavação, O paciente inglês, O jardineiro fiel), acompanhado da carismática Gemma Arterton (Príncipe da Pérsia, O retorno de Tamara). Detalhe: quem interpreta o Rasputin é o ator Rhys Ifans, o mesmo que fez o personagem Spike, o todo desengonçado do filme Um lugar chamado Notting Hill.  E aqui temos realmente uma produção caprichada e podemos dizer até que o filme é surpreendente (positivamente) pelo que a princípio se espera dele, porque além de ser absolutamente enxuto (direção e edição), com um ritmo envolvente e entregando doses generosas de ação, aventura, suspense, e algumas cenas espetaculares à la filmes de James Bond (como a do avião, a do penhasco e a da sensacional e empolgante luta de espadas, em belíssima coreografia), também relata parte da história relacionada com a Primeira Guerra Mundial (didaticamente, ressalte-se) – incluindo a curiosidade dos três primos – e faz críticas sócio-políticas, inclusive veladas, a mais contundente delas se referindo ao colonialismo britânico na Índia. Diversão totalmente garantida, bem ao estilo “pipoca e guaraná”, sendo dentro do gênero realmente um filmaço. 9,0

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MORTE NO NILO

Quem assistiu a Assassinato no Expresso do Oriente há alguns anos (2017), do mesmo Kenneth Branagh e que aqui também faz o papel do famoso detetive belga Hercule Poirot, vai encontrar a mesma alta qualidade de produção, a mesma preocupação com os personagens, com a história, com detalhes e em tentar sintetizar em poucas horas a complexidade dos enredos da inigualável Agatha Christie. O filme é esteticamente muito bonito (maravilhosos cenários, mesmo com efeitos…), privilegiado por ser ambientado em um país repleto de imagens monumentais, fascinantes e icônicas e tem uma trilha sonora também caprichada, contando com um ótimo elenco, onde se destacam, para os homens, o talento e a beleza de Gal Gadot (a Mulher Maravilha) e, para as mulheres, de Armie Hammner (Me chame pelo seu nome). De resto, todos interpretam muito bem seus papéis – que em filmes do gênero exigem um “comportamento” especial -, sendo também sempre prazeroso ver atuar Annette Bening. O ponto negativo do filme é justamente o habitual: não há como reproduzir as cuidadosas e habilmente traçadas tramas dos livros da escritora para um filme de duração convencional ou de pouco mais que duas horas. São muitos os melindres, os detalhes, é extremamente bem elaborada a teia de armadilhas e pistas do livro para confundir o leitor, coisa que o cinema tem êxito em fazer apenas algumas vezes, mas nem sempre. Pelas próprias dificuldades naturais, não pela falta de talento de quem adapta Agatha Christie para a telona. De todo modo, quem não conhece a história, vai acompanhar fascinado os acontecimentos, tentando fazer as conexões certas, coletar as pistas possíveis e adivinhar quem matou… Para quem já conhece toda a resposta ao mistério (meu caso), boa parte do encanto do filme se desfaz, mais ainda restam bem vivos os demais detalhes já enaltecidos do esmerado trabalho (mais um) de Branagh. 8,5

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GRANIZO

Uma ótima comédia sentimental argentina, que tem como tema central a meteorologia, produção Netflix. Dizem alguns que é baseada em eventos reais. O protagonista e seu grande trunfo é Guillermo Francella, ator e humorista argentino (O roubo do século), que dá um banho de carisma, com sua natural simpatia e seus olhos luminosos. A atriz que faz sua filha, Romina Fernandes, também é ótima e ambos fazem marcantes cenas, com diálogos realistas, interessantes e profundos. Entre outros que merecem destaque, está o ator que faz o velho misterioso, personagem que traz uma boa dose de interesse e muda simplesmente o curso do filme, a partir de sua metade final. Não é uma produção para ficar na história do gênero, mas sim algo bem construído, com um roteiro de boa consistência embora seus momentos previsíveis, sendo bem agradável de ser assistido. Cinema de qualidade, com história passada em Buenos Aires e em Córdoba, leve, engraçado, às vezes terno, oferece belas mensagens, uma trilha sonora deliciosa, em suma, uma ótima – e às vezes emocionante – diversão. 8,8