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O ÍDOLO DO PÚBLICO (GENTLEMAN JIM)

Um filme de 1942, muito bem dirigido por Raoul Walsh (O ladrão de Bagdá, O intrépido general Custer, Seu último refúgio), delicioso de se assistir, com ótimo ritmo e um elenco afinado, capitaneado pelo galã da época Errol Flynn (O capitão Blood – e a partir dali mais 7 filmes com Olívia de Havilland-, A carga da brigada ligeira, As aventuras de Robin Hood, O gavião do mar, O intrépido general Custer, entre muitos outros). A “mocinha”, que não é exatamente isso porque o romance paira no ar, mas não é um filme romântico, é Alexis Smith, atriz canadense (O moça da Filadélfia). Flynn, neste filme com 33 anos e sem o bigodinho que o caracterizou (apesar de estar com, na maioria dos cartazes do filme) era na verdade australiano e justamente nesse ano se naturalizou americano. O ator na vida real era boêmio, polêmico, teve muitas aventuras e morreu aos 50 anos, de ataque cardíaco e problemas com alcoolismo, deixando sua marca e cerca de meia centena de filmes de vários estilos, embora tenha ficado famoso pelo gênero “capa e espada”. Este filme tem como tema central o boxe e em torno deles questões sociais, mostrando São Francisco no final do século 19 e um tempo em que era luta de rua e cercado de apostas, por esse motivo proibido pela polícia e alvo de constantes “batidas”. Vemos a divisão de classes, o desejo de ascensão social, mas também o surgimento das primeiras regras civilizadas para esse esporte, quando passou a se tornar oficial o tempo de 3min para cada assalto, com descanso de 1min e a contagem ate 10 para se declarar o nocaute. A família do protagonista é muito divertida, muito “festeira” e até mesmo fornece um divertido “mote”, repetido inclusive na parte final. Muita agilidade de ação, ótimas coreografias nas lutas (com exceção de uma das primeiras) e enaltecido o lado positivo do boxe: na verdade trata-se de uma biografia do famoso boxeador Jim Corbett, nos primeiros tempos desse esporte. O único ponto de desacerto para mim, apesar da boa cena de um amigo defendendo o outro por princípios, é o personagem Lowrie, totalmente dispensável e interpretado de modo forçado e caricato, tornando-se desarmônico com os demais. De resto, uma ótima diversão e uma frase dita por Victoria define bem a trajetória e a personalidade de Corbett: “ se ele continuar assim, em uma semana será o dono do clube”. 8,7

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SER OU NÃO SER (TO BE OR NOT TO BE)

Este filme confirma o excelente cineasta que foi Ernst Lubitsch (diretor dois anos antes de A loja da esquina), estando incluído entre as 100 melhores comédias do cinema, do American Film Institute. O trágico foi o falecimento da atriz Carole Lombard em um acidente de avião, logo após as filmagens e antes mesmo do lançamento do filme em março de 1942. O ator principal é Jack Benny e também trabalha no filme Robert Stack, em início de carreira (com 23 anos, em seu segundo filme) – ele ficou famoso ao fazer o papel de Eliot Ness na série de TV Os intocáveis (1959 a 1963). A história se passa supostamente em Varsóvia, capital da Polônia e a ousadia é que trata da ocupação alemã, justamente pouco tempo depois da época da invasão nazista e enquanto a ideologia de Hitler se espalhava pela Europa e a Segunda Guerra estava em pleno curso!!! Como é uma comédia, na verdade uma sátira refinada, esse fato serviu de argumento para os mais diversos comentários negativos que o filme recebeu à época do lançamento, tanto do público, quanto da crítica, que não aceitaram a declaração de Lubitsch, de que na verdade satirizou no filme a ideologia ridícula dos nazistas. O grande valor artístico do filme somente foi reconhecido, portanto, algum tempo depois e se firmou através dos anos. E de fato é um filme de inegável qualidade, com um roteiro sólido e inteligência nos diálogos, muitas vezes maliciosos ou de duplo sentido. O autoritarismo está perfeitamente caracterizado e inclusive representado no deboche aos personagens de “Schultz” e de seu superior. O nome do filme é o mais perfeito possível, pois tanto faz referência ao fato de o enredo envolver uma trupe de artistas de teatro (evocando o famoso dito de Hamlet, na peça de Shakespeare), como a um dos momentos mais engraçados do filme, quando a frase to be or not to be serve como uma espécie de senha romântica. O filme foi indicado apenas pela trilha sonora, o que é muito menos do que merecia, mas certamente o fato deveu-se à já citada não aceitação de uma comédia tratando de uma ameaça real, que os nazistas representavam. Uma crítica antinazismo bem humorada, inteligente e atemporal. 9,0

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A LOJA DA ESQUINA (THE SHOP AROUND THE CORNER)

Uma brilhante e deliciosa comédia de 1940, estrelada pelo excelente James Stewart e dirigida por Ernst Lubitsch, cineasta alemão que se naturalizou americano a partir de 1922. Stewart nos dois anos anteriores havia feito grandes filmes com Frank Capra: Do mundo nada se leva e A mulher faz o homem e Lubitsch dirigiu também o ótimo Ser ou não ser e o famoso Ninotchka (que na verdade só tem fama, porque é um filme fraco, embora a presença de Greta Garbo). Junto com James Stewart, um grande elenco, incluindo Margaret Sullavan (que naquele mesmo ano fez com ele Tempestades d´alma), Felix Bressart, entre outros. Se Stewart, com sua interpretação espontânea e carismática, faz a diferença, o fato é que neste filme a ótima direção e o roteiro muitíssimo bem elaborado (baseado em peça teatral e com diálogos ótimos) também são essenciais para a composição de um filme absolutamente enxuto, algo romântico/ sentimental, muito agradável de se ver e que supostamente se passa na capital da Bulgária, Budapeste no pós Primeira Guerra e próximo ao Natal. O interessante aqui é que toda a história se passa em uma loja de variedades (bolsas, malas, utensílios…) e envolvendo pessoas simples (com problemas e sonhos cotidianos), mas esses fatos não impedem a consistência do roteiro, a boa trilha sonora e fotografia e também a riqueza dos personagens, todos muito bem delineados. “A loja da esquina” é algo simples, mas marcante e que merece ser descoberta, assim como seu diretor.  9,0

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O CIRCO

Mais uma obra de Charles Spencer Chaplin, neste caso datada de 1928. Este filme foi feito três anos antes de Luzes da cidade e três anos depois de Em busca do Ouro e é interessante assistir a ele após ver Luzes para verificar o quanto Chaplin evoluiu. Não que o filme seja ruim (ao contrário), mas Luzes é superior. Mesmo assim, era época do cinema mudo (Harold Lloyd e Buster Keaton aparecendo com destaque), pantomimas, cenas criativas, diferentes estilos de comédia, sentimentos, está tudo aqui, inclusive o personagem do Vagabundo e a “mocinha” indispensável (Merna Kennedy). Também algumas cenas de realização muito difícil e até complicadas de se explicar para a época, como a do leão, a do equilíbrio nas alturas e dos macacos (inclusive mordendo o nariz do ator), enfim, a genialidade presente, bem como os bons exemplos de decência, nobreza, de inocência até. As cenas na sala de espelhos do início também são memoráveis e no caso são magistrais (inclusive a sequência da dupla perseguição, com a câmera acompanhando a corrida dos dois, em paralelo, fugindo dos policiais). Em suma, é um filme muito acima da grande maioria produzida na época e só perde conceito se comparado com outros do próprio gênio Chaplin. Quatro curiosidades: a primeira é que Chaplin, que como sempre compõe a trilha sonora de seus filmes, aqui aparece cantando na introdução do filme; a segunda é nos créditos iniciais, ao invés de constar em algarismos romanos (como sempre era feito nos filmes para mostrar o ano da produção) o ano de 1928, constou erradamente o de 1968 (MCMLXVIII); a terceira curiosidade é que este filme sempre foi algo que Chaplin não citava muito, não mostrava orgulho e não falava sobre ele em entrevistas e na sua própria biografia: a explicação dada é a de que o problema são muitos acontecimentos ruins na vida do cineasta e que aconteceram justamente na época de um filme conturbado e que ao invés de 6 meses acabou demorando 2 anos para ser produzido: problemas de produção, incluindo desabamento de um circo, incêndio e problemas na vida pessoal de Chaplin (divórcio e receita federal), fora a imprensa “incendiária”; a quarta curiosidade diz respeito ao fato de que já no 1º Oscar da história, em 1929, havia “politicagens” e “favorecimentos”: o filme havia sido selecionado previamente para concorrer a quatro Oscars, mas após uma reunião a portas fechadas, comandada por Louis B, Mayer (chefão da MGM), foram retiradas as quatro indicações e Chaplin ganhou apenas um prêmio honorário, que mais tarde -conta-se- acabou virando peso de porta, já que ele ficou sabendo do complô contra ele e achou essa maneira de manter acesa a lembrança, ao mesmo tempo ironizando-a com o devido peso. 8,5

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LUZES DA CIDADE

Esta é uma obra-prima do Cinema e Charles Chaplin foi um dos seus maiores gênios. Não só pelos filmes que fez, mas pelo seu talento múltiplo, acumulando as mais diversas funções no que produziu: atuando, dirigindo, roteirizando, editando e ainda compondo as músicas da trilha sonora (belíssimas, como as do presente filme e também as célebres Smile e Luzes da ribalta, por exemplo). E incrivelmente foi “esnobado” por Hollywood quanto aos Oscars que deixou de ganhar, além de ter ficado afastado involuntariamente dos EUA pela acusação de comunista. Mesmo assim, seu reconhecimento artístico acabou sendo mundial e permanente e recebeu já velho um prêmio por sua obra, ocasião em que o Oscar presenciou uma das maiores ovações de sua história. E em 1975 recebeu da Rainha Elizabeth II o título de Sir. Antes deste filme, Chaplin já havia feito dezenas e dezenas de outros, a maioria curta-metragens e foi em 1915 que introduziu o personagem Carlitos (no filme O vagabundo), que acabou ficando famoso e do qual ele não quis se separar neste filme, mesmo já na era do cinema falado: seria realmente o fim do personagem. Mas mesmo em 1931, quando foi feito City Lights, ainda o cinema mudo de Chaplin produzia efeitos maravilhosos, enaltecendo o poder maravilhoso da figura engraçada, peculiar mas humana do vagabundo de bengala, chapéu côco e bigodinho, que tanto provoca muitos risos, como reflexões e emoções. De fato, é um personagem extraordinário, carismático e sem dúvidas deve ter sido dolorosa a separação (quando não houve mais lugar para o cinema não-falado). No tempo do nascimento de Carlitos inclusive foi que Chaplin fundou sua própria produtora, junto com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D.W. Griffith: a United Artists. E ao longo de sua carreira, destacou-se por grandes e inesquecíveis obras, tais como O Vagabundo (2015), O Garoto (1919), Em Busca do Ouro (1925). O Circo (1928), Luzes da Cidade (1931), Tempos Modernos (1936), O Grande Ditador (1940), Monsieur Verdoux (1947), Luzes da ribalta (1952), Um rei em Nova Iorque (1957) e A condessa de Hong Kong (1967). Mas este talvez seja o filme mais perfeito que Chaplin realizou, em todos os sentidos, sendo inclusive o favorito de muitos, incluindo Orson Welles. E é de fato um filme extraordinário, em todos os seus detalhes, no desenvolvimento, no ritmo, nos momentos cômicos, nos instantes sentimentais, na trilha sonora, na música que emociona nos momentos certos. E também em diversas cenas, algumas antológicas, começando pela da inauguração da estátua, passando pelas do baile (uma dinâmica difícil de explicar), do limpador de rua olhando com espanto um elefante passar (e pensando no trabalho que teria), pelas fabulosas cenas do boxe (desde a desistência do “amigo combinado”), havendo no filme ainda uma criação/situação absolutamente impagável: a do homem que só reconhece o amigo quando está bêbado! E todo um manancial de talento e criatividade deságua, em seu final, em uma das mais belas cenas do cinema, com a participação da ótima atriz Virgínia Cherryl! Sendo também importante destacar que o roteiro do filme não se resume à inocência das pantomimas, pois está o tempo todo presente e marcante a crítica social, a exposição dos abismos de classes e da sociedade elitista e soberba. Uma curiosidade: na estreia, Albert Einstein assistiu ao filme junto com Chaplin. Enfim, um filme atemporal, atual após quase 100 anos de sua realização e que deve ser tido como de visão obrigatória por todos, das mais variadas idades, credos e raças, pois sua mensagem é imediatamente reconhecida como irresistivelmente universal. 10,0

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CLUBE DA LUTA

Este é um filme que não é nada do que aparenta ou sugere seu título. Só parece ser um drama simples e ter como título algo que remete a um fato previsível banal. Na verdade, este filme de 1999, dirigido por David Fincher – que recentemente dirigiu Mank e antes O curioso caso de Benjamin Button, A rede social, Garota exemplar e Seven, entre outros – e baseado no livro de Chuck Palahniuk, é algo bastante anárquico, subversivo até. E quando lançado, o filme foi criticado por tais motivos e também pelo seu conteúdo violento, fracassando nas bilheterias. Foi só após o seu lançamento em DVD, que passou a ser visto de uma forma diferente e especialmente analisado sob um enfoque mais amplo e com atenção para a riqueza de seu conteúdo: foi a partir daí que bateu recorde de vendas, tornou-se um filme cult (da mesma forma o seu diretor) e passou a ser considerado por alguns como uma autêntica joia rara do cinema, sendo cultivado pelos fãs e que a cada ano se multiplicam, sobrevindo inclusive novas análises e diferentes interpretações de seus significados. Trata-se, de fato, de um texto provocador e inquietante, muitíssimo bem conduzido e interpretado, além de ter uma trilha sonora admirável. Seu conteúdo é muito bem amarrado e a cada passo o espectador vai sendo submetido a choques e surpresas. “Abaixo a sociedade de consumo”! A frase é antiga, mas esta  roupagem é original e na verdade e em síntese, o filme pode ser definido como sendo a prática da anarquia como única forma de transformação social. O filme começa por uma cena de sua parte final e a partir daí iremos apreciar os fatos, voltando no tempo e até chegarem àquela situação e, curiosamente, não aparece no filme o nome do protagonista interpretado pelo ótimo Edward Norton. O outro protagonista é Brad Pitt, também com ótima atuação, aliás ele se dá bem em filmes não convencionais (como Os 12 macacos, por exemplo). Também participa do filme com destaque Helena Bonham Carter e de conhecido temos ainda Jared Leto. Não é um filme de fácil digestão, mas certamente é inteligente e bastante provocativo, merecendo ser apreciado com atenção.  8,7

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ATRAÇÃO FATAL

Este é um filme de 1987 (portanto, de há 34 anos) que visto hoje ainda causa impacto. Na época, então, foi uma verdadeira comoção, em razão de sua temática forte, de cenas memoráveis (algumas antológicas, como a do coelho e as finais), dos próprios papéis masculino e feminino abordados (e terceira pessoa) e das interpretações, principalmente de Glenn Close, que aqui talvez tenha desempenhado o seu maior papel no cinema: ela está simplesmente magistral! Inobstante isso e a opinião geral, surpreendentemente e em um dos maiores absurdos da história do Oscar, o prêmio de melhor atriz foi para Cher, pelo filme Feitiço da lua. Inexplicável e nem vale a pena perder tempo com isso, pois certamente se tratou de uma manobra meramente política, pois o merecimento era de Glenn Close, sem qualquer sombra de dúvida. Seu parceiro no filme foi o aqui ótimo Michael Douglas, que ganhou o Oscar naquele ano de 1988, mas por outro filme em que brilhou: Wall Street. Mas ainda sobre interpretações, a atriz Anne Archer concorreu ao Oscar de melhor coadjuvante. Na verdade, o filme concorreu aos Oscars de Filme, Atriz, Atriz coadjuvante, Roteiro adaptado, Montagem e Diretor e não ganhou nenhum. O diretor, ótimo também, foi Adrian Lyne, responsável, entre outros, pelos filmes Flashdance, Nove e meia semanas de amor (dois anos antes deste), Lolita e Proposta indecente. Este filme causa realmente várias emoções no espectador, que acompanha fatos aparentemente sem consequência, mas que vão redundar em desdobramentos inesperados. O suspense e a tensão são ótimos, tudo é muito bem calibrado e repentinamente um drama comum passa a ter contornos de filme de suspense, policial ou até de terror. É considerado por alguns como um grande destaque na história do cinema. Por outros, entretanto, como meramente novelesco. Na verdade, as duas correntes estão parcialmente certas, mas o filme certamente tem muito mais qualidades do que defeitos e merece ocupar um lugar bem destacado dentro do gênero.  8,8

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PROFILE

Este filme trata de um tema contemporâneo utilizando recursos modernos. Seu tema envolve terrorismo, Islã, investigação jornalística entre outros, mas sua narrativa ocorre de uma forma original, pois totalmente pela tela de um computador, conectado basicamente ao Facebook e ao Skype. Mas de modo algum esse fato torna o filme enfadonho, muito pelo contrário: todas as conexões e fatos são absolutamente ágeis e a destreza da usuária imprime um ritmo fabuloso à trama, que justamente necessita desse fato para, afinal, nos envolver em um enredo com muita tensão e suspense. Uma conexão inesperada dá início a uma trama cujo final parece inesperado e o caminho extremamente delicado e perigoso. E o espectador é imediatamente envolvido e não consegue mais desgrudar os olhos da tela, repleta de informações que se sucedem em uma velocidade espantosa e o coloca no meio da ação. Embora alguns considerem fraco o roteiro, principalmente a partir de sua metade, não compartilho dessa opinião e me coloco ao lado daqueles que gostaram muito do filme, ficando impactados e até assustados com a temática e com o desenrolar dos fatos: pois estão à nossa janela!!! Ainda mais tendo sido o filme baseado em fatos reais, especificamente no livro The skin of a jihadist de Anna Erelle. O diretor é o casaquistanês Timur Bekmambetov (O procurado), a protagonista é a atriz irlandesa Valene Kane (ótima) e seu partner o ator britânico Shazad Latif. Algo diferente que pode não agradar alguns e até mesmo decepcionar outros no minuto final, quando seu desenlace talvez não seja o esperado. 8,5

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DUAS VIDAS (LOVE AFFAIR)

Este filme de 1939 dirigido por Leo McCarey (O bom pastor) foi indicado a vários Oscars. Curiosamente, a refilmagem de 1957 também foi dirigida pelo mesmo McCarey, tendo exatamente a mesma história, inclusive repetindo alguns diálogos (haveria ainda outra versão em 1994). A adaptação de 1957, com Cary Grant e Deborah Kerr, tem a vantagem da canção, que é uma das mais belas do cinema e que tem como nome o título do próprio remake: An affair to remember. Mas aqui a história é bem contada (o final é mais elaborado) e a dupla de protagonistas tem também uma boa química: Charles Boyer e Irenne Dunne interpretam muito bem os seus personagens, valorizando o enredo, que é simples, mas de fato uma autêntica história de amor. Portanto, um drama com fundo romântico e que tem na referida dupla um toque de muita classe, complementado pela direção. Foram seis as indicações ao Oscar e embora não tenha ganho nenhum, o fato de ser indicado já foi uma vitória para o filme, pois em um ano onde concorreram obras de grande peso no cinema como E o vento levou, O morro dos ventos uivantes, O corcunda de Notre Dame, A mulher faz o homem, O mágico de Oz, No tempo das diligências, Adeus Mr. Chips, Ninotchka, Intermezzo e Beau Gest. Um bom filme romântico, com momentos bastante emotivos e do qual os mais sentimentais com certeza irão gostar. 8,3

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O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (WUTHERING HEIGHTS – 1993)

Esta é a versão feita em 1992/1993, baseada no livro do mesmo nome, havendo ao longo da história do cinema, com títulos variados, cerca de dez filmes inspirados no clássico de Emily Brontë, escritora inglesa que morreu aos 30 anos de tuberculose e deixou essa única obra, mas suficiente para causar grandes polêmicas a partir de seu lançamento em 1847, pela temática de amor, crueldade e ódio, pelos aspectos sobrenaturais do romance, pelo caráter duvidoso dos protagonistas, entre outras razões de época e estilo. O primeiro filme baseado no livro data de 1920 (época do cinema mudo) e o mais famoso é o de 1939, com Lawrence Olivier. Esta talvez seja a melhor de todas, mas na verdade todas elas são insatisfatórias, inclusive a de 1939, que concorreu a inúmeros Oscars. Nenhum dos filmes faz jus à grandeza da obra literária, aliás, todos ficam deixando a desejar, sendo adaptações fragmentadas e com muitas lacunas.  Aqui os protagonistas são Ralph Fiennes e Juliette Binoche, ele com 30 anos, estreando no cinema e com belíssima atuação e ela com 28 anos, poucos filmes no currículo e já começando a se firmar como uma grande estrela. Entretanto, por mais que o filme apresente às vezes algumas boas cenas, uma boa trilha sonora, um clima místico e desenvolva razoavelmente os personagens, o fato é que peca pelo desenvolvimento manco e inconsistente, parecendo uma grande colcha de retalhos ou algo mal editado. Essa falta de um desenvolvimento adequado de fatos e personagens, faz inclusive com que o espectador no final perceba a maravilha que poderia ter sido com um roteiro mais bem elaborado e consistente. De todo modo é um filme importante e que não deixa de agradar em parte, razão pela qual está neste blog, entretanto pela falta de um todo coerente e abrangente da obra recebe a nota mínima, deixando realmente a sensação de que a grandiosidade do livro ainda faz por merecer um filme que efetivamente seja arrebatador, em todos os sentidos, fato desafiador mas de modo algum impossível de ser alcançado. 7,5

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LITLE FISH (MEMÓRIAS DE UM AMOR)

Dirigido pelo irlandês Chad Hartigan e tendo como protagonistas os ótimos Olívia Cooke e Jack O´Connell, ambos britânicos, este é um filme original, intimista, melancólico, triste, mas ao mesmo tempo celebra o amor e suas dificuldades. No caso, diante de fatores externos imprevisíveis e poderosos, que aparecem como um grande risco de desconstruir/desfragmentar relacionamentos. Não fossem os tempos atuais que vivemos, este belo e singular filme poderia ser enquadrado no gênero da ficção científica, porém diante da pandemia e dos perfis do século 21, trata-se de um drama simplesmente. Mas não é simples. É um filme complexo, porém competentemente elaborado, com seguras e emocionais interpretações e uma trilha sonora às vezes impactante mas sempre adequada aos sentimentos de cada cena, dando-lhes estranheza, mas também um certo caráter enigmático. Com o seu desenvolvimento e com a proximidade dos perigos, o espectador é afetado e vai ficando incomodado e sendo envolvido, sem saber exatamente onde tudo vai desaguar: se no pessimismo que permeia o enredo ou na popular luz do fim do túnel. Seja como for, não é um filme para divertir, para rir, para deixar o dia feliz e sim para ter suas virtudes apreciadas e sobretudo promover uma boa reflexão, a respeito de nós mesmos, de nossas relações e também sobre os tempos em que vivemos. O título do filme e o cartaz merecem também destaque, pela sua mais do que perfeita adequação. 8,5

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AMERICAN TRAITOR: THE TRAIL OF AXIS SALLY

Este é um filme interessante porque narra um episódio singular da Segunda Guerra (e logo após), mostrando uma personagem pouco conhecida da História. O mundo todo conhece a música Lili Marleen, que tornou a cantora Lale Andersen (nome artístico) musa dos soldados alemães, ecoando pungente pelas rádios nos campos de batalha da Segunda Guerra e se transformando em uma espécie de hino de motivação e recolhimento. Mas poucos sabem a respeito da história de Mildred Gillars, uma americana obrigada a se tornar alemã e que transmitiu pela rádio, também durante a Segunda Guerra Mundial, propaganda nazista. Ela ficou conhecida pelos soldados americanos como Axis Sally (provocando amor e ódio ao mesmo tempo) e o filme conta parte de sua importância e de seu envolvimento com a guerra, de como ela estimulou de início os americanos a não participarem, de como ela, depois, tentou persuadir os EUA a deixarem a guerra de lado sob o argumento de que o exército alemão seria invencível e assim por diante, tudo fazendo parte da poderosa engrenagem da máquina de propaganda alemã, representando aqui o lado psicológico da guerra. Não é um roteiro brilhante e o espectador certamente poderia ser mais envolvido se fosse mais consistente. Entretanto, como dizem os sábios, existe aqui um elemento de destaque: o filme tem Al Pacino! E tendo Al Pacino, pode até ser um roteiro médio que ele o eleva. E assim aqui ocorre. Não fosse ele, seria um filme pálido até, compatível com uma sessão da tarde. Com Pacino desempenhando o papel do advogado de Axis, no julgamento que se seguiu ao final da guerra (ocorrido em Washington), o filme acaba fazendo com que o espectador se emocione e também reflita sobre o veredito dado e inclusive sobre aquele a que chegaria se fossem apreciados todos os detalhes e todas as circunstâncias, inclusive cabendo lembrar neste caso, como cruciais, as questões abordadas pela filósofa política e escritora alemã Hannah Arendt quando tratou da “banalidade do mal”, o que no caso, em palavras simples, traria à discussão a existência ou não de culpa de alguém comum que pratica o mal por estar sujeito à coerção/coação relativas ao cumprimento de ordens e sob severa ameaça, com total abandono (ou não) das convicções e da própria dignidade pessoal. 8,2

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A MULHER FAZ O HOMEM (MR. SMITH GOES TO WASHINGTON)

Frank Capra foi um dos mais prestigiados diretores de Hollywood de seu tempo e teve sucesso na repetição de fórmulas que deram certo. Tanto em relação ao elenco recorrente, como à própria filosofia de suas obras. Neste filme de 1939, por exemplo, Capra repetiu a dupla de protagonistas que fez sucesso no ano anterior com Do mundo nada se leva: James Stewart e Jean Arthur. A propósito, Capra também escalou em vários filmes os atores Edward Arnold e Thomas Mitchell. E foi galã também recorrente o ator Cary Grant. Quanto ao espírito das obras, sempre foi o do bem contra o mal, o Homem vencendo os desfios que vão aparecendo, o da virtude prevalecendo sobre o vício, no sentido amplo. A honra, a integridade, o patriotismo, o idealismo, a honestidade, são elementos comuns e enaltecidos em todos os filmes de Capra, que nunca abriu mão do sentido de família, de pátria, de lealdade. Temas universais e seus filmes têm muito ritmo e empatia. Aqui, o campo é fértil para se tratar desses elementos (e da chamada “perda da inocência”), pois o filme emvolve a política americana e se passa praticamente todo no ambiente do Senado. E nas cenas iniciais do filme já temos uma boa aula da história dos EUA e de alguns de seus vultos mais importantes, venerados pelos seus feitos e pelos seus mais altos ideais patrióticos (Jefferson e Lincoln principalmente). Depois, são muito instrutivas e bastante importantes as lições sobre o processo legislativo e o enredo se desenvolve em um ambiente onde claramente existe um costume já sedimentado de corrupção, favoritismos, conchavos, manobras etc, dentro de uma realidade da política americana mostrada há 80 anos mas que possui contornos atuais (a propina, explicada em detalhes, nos é muito familiar, infelizmente!). Muito oportuno o roteiro também quando expõe a imprensa e suas amplas influências, assim como são interessantes os meios encontrados para ocorrer o contraponto em face do jogo de interesses, na luz tênue da esperança que se instala, porque em certos momentos parece realmente impossível se vencer a “máquina”. Em um ou outro instante até aparecem saídas e é quando entendemos o título em português (a princípio limitado e sem conexão com o original e sua eloquência), mas após as impressionantes cenas que precedem o epílogo, parece realmente não haver mais uma solução possível para a vitória do bem e do justo. Em resumo, ao final do filme o espectador fica com o peito repleto de emoções e talvez com valiosas lições a serem apreendidas ou pelo menos pensadas. James Stewart mais uma vez demonstra a razão de ser o ator preferido do diretor, em uma atuação brilhante e repleta de significados. Em um ano em que E o vento levou polarizou boa parte dos prêmios (inclusive Melhor roteiro original), este filme ganhou o Oscar 1940 de Melhor história original (categoria que posteriormente foi extinta). 9,0

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O CORCUNDA DE NOTRE DAME (THE HUNCHBACK OF NOTRE DAME)

Uma imponente produção de 1939, com bela reconstituição de época (para logo após a Guerra dos Cem Anos – que na verdade durou 116 anos, entre França e Inglaterra), belas cenas e falas (a que encerra o filme, por exemplo!), mas que, sob o ponto de vista de prêmios, levou o azar de ter sido feita no mesmo ano de E o vento levou, O morro dos ventos uivantes, A mulher faz o homem, No tempo da diligência e O mágico de Oz. O resultado é que o filme teve duas modestíssimas indicações para o Oscar e não ganhou nenhum: Mixagem de som e Trilha sonora, parecendo até indicações de consolação. Naquela época não existia ainda Oscar para maquiagem, porque certamente o filme seria merecedor, já que a caracterização do Corcunda está perfeita e impressionante! Aliás, a interpretação de Charles Laughton mereceria certamente uma indicação. Esse excelente ator, com 40 anos à época, já tinha renome e algumas referências importantes em seu currículo, como O grande motim de 1935. Maureen O´Hara, por sua vez, a “mocinha” do filme e que trabalharia nos anos seguintes em várias produções de John Ford (e com John Wayne, inclusive), estava então com 19 anos e foi o seu segundo ano no cinema: dois anos depois faria o inesquecível Como era verde o meu vale. Aqui, essa bela atriz irlandesa fez o papel nada mais nada menos do que de Esmeralda, a cigana que rouba corações e provoca conflitos desde a plebe até a nobreza e o clero! O filme tem uma excelente fotografia e direção de arte, mostrando de forma crua e muitas vezes chocante o submundo -e as sombras- de Paris, em meio à convivência de classes e ao mesmo tempo à ignorância e miséria de uma época na qual estava no início a chamada Idade Moderna (a história se passa em 1482). Mas o filme não beira a perfeição. Existem personagens mal desenvolvidos (como Gringoire e Fleur-de-Lys) e algumas lacunas de roteiro que comprometem um pouco a unidade, além de cenas mal acabadas ou insatisfatórias, como as dos assassinatos de Phoebus e de Frollo; mas no todo é um bom filme, embora fique devendo bastante, obviamente, à monumental obra de Victor Hugo (sob o título “Notre-Dame de Paris”), que a escreveu no início do século 19 e com a intenção inicial de um romance histórico sobre a Paris medieval e a necessidade de preservação da Catedral de Notre-Dame. Muitas adaptações da obra viriam depois, inclusive sob o nome de “O corcunda de Notre-Dame” (que se popularizou) e até mesmo em desenho animado, bem como no grande sucesso musical que estreou em Paris em 1998, com o nome original do livro, estrelado por Garou, Lavoie e Flori e que ganhou enorme notoriedade por décadas, tal a sua força dramática e a qualidade de suas músicas e intérpretes.  8,3

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BLOW THE MAN DOWN (AFUNDE O NAVIO)

Um filme singular de 2019, dirigido por Bridget Savage Cole e Danielle Krudy (cineastas independentes), que se passa em uma cidadezinha de pescadores do Maine e mistura fatos policiais (com mistério e suspense) com drama antigos e recentes das moradoras, envolvendo antigas histórias e velhos segredos, alguns com ares comprometedores. O filme segue o ritmo do vilarejo, ou seja, lento e o espectador vai sendo envolvido aos poucos em um enredo do qual não se adivinha a resolução. O roteiro é efetivamente original e acaba sendo instigante e envolvente, convergindo para um final absolutamente inesperado porque súbito, deixando muitas situações simplesmente nas reticências. Mas não se pode negar para o epílogo do filme um caráter de inteligência para solucionar os vários imbroglios, coroando com um certo bom humor negro todo um contexto de hipocrisia social. Interessante também o vocal de pescadores, que, fora do enredo, interpreta inclusive a música que introduz o filme, justamente a que dá seu título original (porque o nome em português é infeliz, para variar). De mais conhecida apenas a atriz Margo Martindale, mas o elenco é muito bom, assim como a fotografia e a beleza das locações. Entretanto, efetivamente não é um filme empolgante ou propriamente divertido e seu caráter criativo e as qualidades que possui trazem a impressão de que as coisas poderiam ter ido mais longe e de forma mais aprofundada. Produção Amazon Original (Prime).  8,0

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PREPARAÇÕES PARA ESTARMOS JUNTOS POR UM PERÍODO INDEFINIDO DE TEMPO (PREPARATIONS TO BE TOGETHER FOR AN UNKNOWN PERIOD OF TIME)

Um filme para ser bom não necessita muitas vezes ser totalmente compreendido, muitas vezes podendo ser valorizado pelos sentimentos ou pela curiosidade que desperta no espectador ou então por alguns de seus méritos cinematográficos. É o caso. Porque aqui se trata de uma obra que claramente é bem acabada e tem um sentido proposital, a partir de certo ponto passando a exigir do espectador que reflita e tente entender ou decifrar determinados mistérios. São questões provocantes e estimulantes, havendo uma espécie de quebra-cabeças que se pressente inteligível, mas que nem sempre vai resultar na descoberta de seu todo. Em outras palavras, o mérito deste filme está no seu mistério e no estímulo que provoca para que o espectador pense, sinta e encontre a solução de seus enigmas, que aparentemente são simples por envolver questões amorosas, mas que justamente por esse motivo se tornam relativamente complexos. Porque nem sempre o que se vê é a realidade, sendo pródiga a mente humana em fabricar fantasias e ampliá-las conforme se deixa navegar e servindo o cinema também como veículo de tais devaneios. O caso aqui é de um filme intencionalmente complexo em sua forma e que no final vai deixar grande parte do público com um grande ponto de interrogação, notadamente pela última cena, embora talvez pequena parte do público consiga entendê-lo perfeitamente. Mas para a mensagem que, afinal, deve se retirar do filme dentro das intenções da diretora Lili Horvát talvez essa perfeita compreensão seja irrelevante e o fundamental mesmo seja não o destino final, mas o prazer da viagem. O filme foi o representante da Hungria entre os candidatos a Melhor filme estrangeiro no Oscar de 2021, sendo um filme difícil e enquadrado como cinema de arte, mas não deixando de ser palatável se visto como uma interessante e original obra cinematográfica.  8,3

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VIDAS EM JOGO (THE GAME)

Um filme produzido em 1997, lançado no Brasil dois anos depois, e estrelado por Michael Douglas, Sean Penn e alguns rostos conhecidos, com direção de David Fincher (Zodíaco, A rede social, Garota exemplar, Seven, Clube da luta, O curioso caso de Benjamin Button). É um thriller com muitos mistérios e no mínimo instigante, do começo ao fim. O filme realmente envolve com um roteiro absolutamente imprevisível e que nos faz grudar os olhos na tela para acompanhar todos os fatos e sem perder nenhum detalhe, tentando adivinhar onde tudo o que vemos vai dar. Acompanhamos as ações como se fôssemos um dos personagens! O ritmo do filme é pulsante e tirando um ou outro “excesso” ou “momento bisonho” vemos um todo harmônico e uma história redonda até quase o final. A parte derradeira do filme é a única que pode merecer censura, apesar de o desfecho final ser satisfatório. Existem algumas pontas soltas, algumas amarras insatisfatórias, de repente certos caminhos ficaram muito fáceis ou resumidos, enfim, ficamos meio perplexos no desenlace dos fatos, entre surpresos e um pouco descontentes, mas o resultado final é positivo e não obstante determinada crítica que provavelmente se mostra justa pela parte derradeira da história, o conjunto acaba valendo a pena e é, afinal, um filme de suspense muito criativo e bem acima da média. Em suma: um ótimo filme de suspense e mistério, que num pix surpreende o espectador com reviravoltas, mas com ressalvas à sua porção final, que pode agradar alguns, mas certamente vai desagradar a muitos. A esse respeito e sobre um ou outro detalhe menos coeso, alguém definiu muito bem este filme, como “uma confusão que dá certo”! 8,5

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ANON

Um thriller policial futurista, de ficção científica e estilo “noir”, que vagamente lembra Blade Runner, o que não é pouca coisa nos dias de hoje, em que tão poucas opções cinematográficas nos fascinam e mostram o mínimo de criatividade. Alguns críticos de certa forma “detonaram” o filme, qualificando o roteiro de fraco, de decepcionante etc. Sugiro esquecer esse  mau humor e assistir ao filme, para se ter uma fascinante experiência num mundo em que a privacidade dos cidadãos não mais existe para o Estado, que, assim, combate a criminalidade de uma maneira muito mais fácil e eficaz. Entretanto, existem os riscos e a sombra dos hackers e a estabilidade pode ser subitamente abalada. A partir daí e de um matador misterioso, o filme passa a ser fascinante e apresenta uma belíssima concepção desse mundo em que todos (quase) têm suas vidas sondadas e em que as memórias podem ser compartilhadas. O drama se mistura à busca policial e tudo fica fascinante, no mínimo instigante. E a partir do momento em que determinados poderes passam a ser utilizados, o filme se torna mais imprevisível ainda e realmente espetacular. Emoções e surpresas surgem a cada instante e o espectador fica totalmente refém da história. Pode-se admitir, comparando com Matrix e outros afins de alto nível, que este filme poderia tomar rumos mais complexos; entretanto, desejou optar por uma linha menos densa, embora não menos interessante, até porque afinal a densidade desde o início já se revelou de bom tamanho, plenamente satisfatória e muito acima da média de produções do gênero. Um belo filme, de 2018, a ser descoberto na Netflix, estrelado por Clive Owen (Closer, Rei Arthur, Filhos da esperança…) e pela também ótima Amanda Seyfried (Mank, Cartas para Julietta, Mamma mia…). O diretor é Andrew Nicoll (O terminal, Simone, O show de Truman etc). 9,0

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ILHA DO MEDO (SHUTTER ISLAND)

Este thriller policial, definido na pt.wikipedia como um filme de suspense psicológico neo-noir estadunidense, foi produzido em 2010, baseado em romance de 2003 de Dennis Lehane e dirigido por Martin Scorsese (Os bons companheiros, O lobo de Wall Street, Os inflitrados, Cassino, Taxi Driver, A invenção de Hugo Cabret, Touro indomável etc). Os fatos se passam em 1954, em uma prisão-psiquiátrica localizada em uma ilha (como o título em português indica) e o elenco é estupendo: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams, Patrícia Clarkson, Emily Mortimer, Max Von Sydow e John Carrol Lynch, entre outros. O filme integra as mais diversas listas dos melhores filmes do gênero e em 2010 foi escolhido como um dos melhores filmes do ano, pelo National Board of Review. E de fato é um filmaço, inclusive sendo imprescindível para os fãs do gênero, com um roteiro muito bem construído, instigante, um suspense permanente, situações de tensão, complexidade e reviravoltas e muitas envolvendo temas da psiquiatria, como lobotomia, projeção, psicodrama, catarse etc. Forte, tenso e chocante, tem cenas espetaculares, valorizadas pela ótima trilha sonora, com excelente direção de arte, destacando-se as cenas nos penhascos, de tempestade e as no interior da Ala C, que são realmente impressionantes. A partir de uma grande surpresa na parte final, o filme segue despertando toda a atenção e a capacidade de entendimento do espectador, subitamente sobressaltado e que poderá ter dúvidas também quanto à última cena, de todo modo ficando no ar, depois de tudo e de forma palpitante a frase: se é melhor viver como um monstro ou morrer como um homem bom?  9,4

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NUNCA TE AMEI (THE BROWNING VERSION)

Apesar do título ridículo e sensacionalista em português, trata-se de um drama sério, envolvendo um tradicional colégio inglês, seus alunos e professores. Especialmente dois deles que estão “se aposentando”: o jovem e estimado professor atleta, ídolo de criquet e o antigo e temido professor de latim, conhecido como uma espécie de Hitler pelos estudantes. A escola é daquelas tradicionais inglesas e o mestre mais velho – muito bem interpretado por Albert Finney – não menos austero, tendo ali permanecido e se dedicado ao longo de 20 anos, os quais ao que parece não serão reconhecidos, quer pelo corpo docente, quer pelo discente.  Os fatos envolvendo a “aposentadoria” desse professor das antigas são tratados junto com dois temas paralelos: o do relacionamento dele com a esposa, interpretada pela bela e também muito boa atriz Greta Scacchi e o dos significados/sentimentos. O que para ele significou o tempo de dedicação sem retorno, o que significou para ele ensinar uma matéria que considera indispensável para a vida mas que está ficando ultrapassada, o que significa para ele saber como os alunos o veem, o significado de seu casamento…O especial significado de um livro traduzido por Browning é que dá nome ao filme, em que também atuam Matthew Modine e Julian Sands. O diretor é Mike Figgis, que faria no ano seguinte Despedida em Las Vegas e alguns anos mais tarde Justiça Cega e Timecode. O filme, de 1994, traz questões importantes e interessantes, porém muitas delas foram muito mal desenvolvidas, havendo várias lacunas que deixam o filme “manco” e com aquele gosto de “que pena”, porque aqui se perdeu a oportunidade de se fazer um filme que poderia ser  até mesmo marcante na história do cinema. O adultério está mal desenvolvido, a estima entre os professores (o antigo e o novo) idem, da mesma forma o relacionamento do professor com o aluno, com a esposa, o bullyng que o filme mostra e simplesmente esquece de um minuto para o outro, a esposa meramente decorativa do professor Frank, o diretor do colégio sem qualquer comando plausível. E também não é crível que o professor mais novo não tenha sabido da inversão da ordem dos discursos, entre outros pequenos fatos que não “fecham”.  Em suma, um bom filme, com bela fotografia e uma bela história que poderia ser muito mais bem aproveitada, se tivesse um roteiro à altura de seus intérpretes.  8,0