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GUERRA CIVIL

As críticas deste filme são tão surpreendentemente oscilantes, quanto o filme foi surpreendente para mim. Variam entre 1 e 5 estrelas, ou seja, entre os que o detestaram (boa parte da crítica) e os que o adoraram. Eu gostei muito e fui até surpreendido, porque esse tipo de superprodução geralmente subestima a inteligência do espectador e é apelativa, repleta de chavões, chantagens sentimentais, efeitos especiais e de ação, sem se ater a um mínimo de bom senso e ao desenvolvimento dos personagens. Aqui, ao contrário da expectativa, tirando uma ou outra situação que foge do contexto, no geral o filme é um espetáculo visual, mas bastante equilibrado em todas as suas engrenagens, trazendo um ótimo desenvolvimento para o roteiro, ao construir de forma interessante e instigante a difícil abordagem de uma guerra civil nos tempos atuais e nos EUA, com suas consequências físicas e emocionais. Estados americanos separatistas, caos por todo o lado, terrorismo, forças armadas, violência disseminada, desolação em várias cidades e o horror acontecendo de forma intensa e descontrolada, inclusive em grandes centros, como Nova Iorque e Washington. As cenas são muito bem feitas e os personagens desenvolvidos muito mais profundamente do que geralmente ocorre em filmes desse gênero. O elenco é coeso e comandado por Kirsten Dunst e o brasileiro Wagner Moura, contando também com as boas performances de Stephen Henderson, Caille Spaene e a rápida mas perturbadora participação de Jesse Plemons. Na verdade um road movie em sua maior parte, explorando até com coragem alguns pontos vulneráveis da época em que vivemos, expondo medos e fragilidades no imprevisível trajeto em meio a cidades e pessoas abandonadas, cercadas por dor, morte e a incerteza quanto ao futuro. Interessante também o aspecto envolvendo o papel da imprensa no cenário geral, que permeia todo o filme. O diretor é Alex Garland, o mesmo do excelente Ex machina e a produção é anglo-americana de 2024, drama, ação e ótimo suspense. 8,9

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XEQUE MATE (JOUEUSE)

Não confundir com outros filmes de mesmo nome. Na verdade, o título original desta produção significa “A jogadora”, mas é baseado em livro de nome “A jogadora de xadrez”, que seria o mais adequado aqui, embora o filme também seja conhecido como “Queen to play” ou “Mate da Rainha”, que nem existe no mundo do xadrez. Este é um filme francês de 2009, ambientado na bela Córsega e que participou do Festival Varilux de 2011, no qual foi homenageada a festejada atriz francesa Sandrine Bonnaire, hoje com 57 anos e que ostenta na bagagem mais de meia centena de filmes. Um drama leve, tom de comédia, com alguma fantasia e pitadas de romance, envolvendo o jogo de xadrez. Detalhe irônico: só que aqui, ao contrário do que acontece em alguns filmes famosos que abordam esse jogo, como O sétimo selo e também em séries importantes, como House of Cards, o tabuleiro sempre está montado corretamente, isto é, com a torre da casa branca à direita do jogador. O que do contrário seria uma heresia para os apreciadores do esporte-jogo-ciência-arte? O filme tem de muito bom a maravilhosa atriz, com um partner à altura, o grande Kevin Kline (que, dizem, teve alguns problemas com a língua francesa, entretanto), além da participação da bela Jennifer Beals (em personagem inspirador para a protagonista) e um desenvolvimento absolutamente prazeroso, repleto de detalhes, sutilezas, uma ótima trilha sonora e algumas belíssimas cenas e lições, como as que se extrai da frase: “Quando você arrisca, pode perder às vezes; quando não arrisca, perde sempre”. Mas o tema central efetivamente se concentra na questão de ser a dama a peça mais forte e importante do tabuleiro. Há algumas situações e cenas pouco verossímeis, mas a clareza da fantasia experimentada no torneio deixa claro que o filme propositadamente envereda por tais caminhos e tudo se torna absolutamente lírico e aceitável. É o primeiro trabalho da diretora Caroline Bottaro e existem polêmicas sobre detalhes da obra, até mesmo em torno do belo momento em que mãe e filha dançam lindamente. No todo, um trabalho apreciável, que diverte, entretém e emociona. 9,0

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O PACIENTE INGLÊS (THE ENGLISH PATIENT)

Este filme de 1996, no ano seguinte ganhou simplesmente 9 Oscars: Filme, diretor, atriz coadjuvante, direção de arte, fotografia, figurino, montagem, som e trilha sonora. O diretor foi Anthony Minguella, o mesmo de O leitor, Desejo e reparação, Cold mountain, O talentoso Ripley. A atriz oscarizada foi a sempre ótima Juliette Binoche, mas o elenco é de respeito, contando com astros de primeiro calibre, como Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Willem Dafoe, Colin Firth. É um épico de aventuras, ação, suspense e romance, que se desenrola a partir de um encontro em um monastério abandonado (bombardeado) no Norte da Itália, no final da Segunda Grande Guerra e com diversos flash backs. Um filme com assuntos de guerra, imagens majestosas (colhidas na Itália e na Tunísia) e também líricas e um relacionamento proibido como tema central. Entretanto, pelo menos sendo visto nos dias de hoje, parece que algumas coisas não estão em sintonia perfeita, com as idas e vindas da narrativa muitas vezes obscura, o próprio desenvolvimento que, assim, fica também prejudicado e até quanto à química do casal. Contudo, é um filme que continua aprazívei e com algumas imagens e momentos absolutamente marcantes, valendo a pena mesmo que seja por isso e por algumas performances (e beleza) individuais. 8,9

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INSTINTO MATERNO (DUELLES)

Há vários filmes com este título, mas pode-se afirmar que este é o melhor deles, embora haja também uma adaptação da mesma história feita pelo cinema americano e estrelado pelas grandes Anne Hathaway e Jessica Chastain. Atrizes de respeito. Mas esta adaptação, belga, de 2018, é difícil de superar ou mesmo de igualar, envolvendo inclusive um texto da obra literária de Barbara Abel muito difícil de transformar em filme: mas aqui todos os elementos são potencializados e se harmonizam para a realização de uma bela obra, notadamente a excelente direção de Olivier Masset-Depasse e as  interpretações maravilhosas das duas atrizes, Veerle Baetens (Alice) e Anne Coesens (Celine), que apresentam uma impressionante composição de personagens, em papéis ricos de emoções complexas. A trama é fascinante e envolta em um mistério que perdura durante todo o filme. Dor, culpa, raiva, sentimentos em conflito, evidências e sombras nos fatos que interagem mas que ficam envoltos em uma escuridão construída com rara competência. E, assim, o suspense chega a um ponto em que se torna quase insuportável. A história vai se delineando por caminhos, imprevisíveis e que por isso deixam o espectador em estado permanente de inquietação e expectativa, tendo separar o real da fantasia. Um trabalho de fôlego, cinema de qualidade e que Hitchcock certamente aprovaria. 9,0

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A FILHA DE RYAN (RYAN´S DAUGHTER)

David Lean dirigiu filmes notáveis, como Grandes esperanças, A ponte do Rio Kwai, Oliver Twist, Doutor Jivago, Lawrence da Arábia, Passagem para a Índia, mas este filme está certamente entre as suas obras-primas. Da primeira à derradeira cena, um filme perfeito, já chamando a atenção inicial pela exuberante fotografia (que predomina durante todo o filme) e consolidando sua qualidade por um roteiro consistente e de notável riqueza e pelas interpretações superlativas. A cena da sombrinha no início (a do cartaz aqui publicado) daria certamente uma bela tela de Monet. Apesar de ter ganho apenas os Oscars de Melhor ator coadjuvante (para o extraordinário John Mills) e de Melhor fotografia, mereceria muito mais, pois todas as atuações são memoráveis, o roteiro é espetacular e complexo e há diversos personagens que se destacam de um modo absolutamente marcante, interpretados por Sarah Miles, Trevor Howard (magistral como o padre irlandês) e Robert Mitchum, entre outros. Fora a singular e bela música-tema. Inesquecíveis as performances e os variados personagens em uma história ricamente construída, embora se passe em uma minúscula aldeia à beira-mar na costa da Irlanda –  no tempo da Primeira Guerra Mundial, em 1916, quando a população simpatizava com os rebeldes e até com os alemães, tal a aversão que sentia pelos dominadores ingleses: há cenas espetaculares a respeito desse tema, aprofundado também de uma forma proverbial. Como exuberante é a natureza que o filme mostra, inclusive em cenas inesquecíveis, tanto de cenários paradisíacos, como das facetas selvagens da natureza, envolvendo águas bravias e implacáveis, castigando homens e coisas em um momento fundamental do enredo. O filme tem vários enfoques, trazendo romantismo, lirismo, beleza, poesia, mas também crueldade, realismo, pincelados por inesperados momentos de lucidez e tudo se desenvolve com maestria, embora geralmente sem pressa. Extraordinária a forma inteligente e sutil pela qual o “bobo” revela para todos o segredo do casal! Os temas se entrelaçam e se dissolvem, se misturam e parece que se resolvem, provocando toda a gama de emoções no espectador, que ao final ainda ficará com um dilema ou um ponto de interrogação, como se já não fossem suficientes todos os momentos intensos experimentados ao longo de uma metragem inclusive acima do padrão. Britânico, produzido em 1970, cinema de altíssima qualidade, um filmaço, simplesmente inesquecível. 10,0

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CISNE NEGRO (BLACK SWAN)

Um drama com muito suspense e terror psicológico, produzido em 2010 e que concorreu aos Oscars de Melhor filme, diretor, atriz, edição e fotografia. Ganhou o de Melhor atriz Natalie Portman, com uma atuação memorável, realmente espetacular inclusive pelas dificuldades do papel. Um filme adulto, repleto de mistério e emoção (com momentos de horror e esquizofrenia) e que tem como pano de fundo a dança (incluindo aqui as dores e sacrifícios da profissão, as rivalidades etc), basicamente representada pela adaptação do espetáculo O lago dos cisnes: a obra de Tchaikovsky conta a história de uma princesa transformada em um cisne branco e da filha do vilão, cisne negro, que seduz o príncipe, sendo certo que a maldição só poderia ser quebrada pelo amor verdadeiro. No filme, o desafio é a mesma bailarina interpretar simultaneamente o cisne branco e o cisne negro e tudo se torna então perturbador, inclusive pela busca desenfreada da bailarina pela perfeição. Nota-se uma plena harmonia de todos os  elementos cinematográficos (incluindo a trilha sonora e a excelente edição), certamente com grande mérito do competente e experiente diretor Darren Aronofsky, o mesmo de Noé, Réquiem para um sonho e A baleia, entre muitos outros. Ótimas atuações também da veterana Bárbara Hershey, de Mila Kunis, de Vincent Cassel (sempre ótimo) e en passant de Winona Ryder. Não é algo para todos os gostos, mas certamente deixará os fãs do gênero plenamente satisfeitos, sendo nesse particular uma obra de grande destaque. 9,4

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FAMINTAS DE AMOR (UNTIL THEY SAIL)

Uma produção de 1957 dirigida por Robert Wise (O dia em que a terra parou, Quero viver, Amor sublime amor, A noviça rebelde), que, aliás, foi o motivo pelo qual Paul Newman aceitou fazer este filme. E apesar do ridículo título em português, é um daqueles intensos dramas das décadas 40 e 50, com romance, momentos dolorosos, guerra, grande elenco, sendo que além de Paul (o que já seria bastante) atuam as celebradas Jean Simmons e Joan Fontaine e ainda Piper Laurie e Sandra Dee, esta em sua estreia na sétima arte. O drama se passa na Nova Zelândia, quando os homens das famílias saíram para a guerra e o país se viu subitamente “invadido” (no bom sentido) pelas tropas americanas, sendo que o enredo orbita em torno de vários fatos que ocorrem com as irmãs, já se sabendo desde o início que haverá circunstâncias que redundarão em cenas de tribunal. Um melodrama que explora questões morais e éticas durante a guerra e que ao final poderá molhar os olhos do público mais sensível. 8,7

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GODZILLA MINUS ONE

A época dos fatos envolvendo o monstro japonês Godzilla é logo após o término da Segunda Guerra Mundial e mais de um filme já foi feito sobre o tema. Recentemente houve um lançamento antes deste filme, mas ocorreu por motivos estratégicos, porque se viesse depois seria totalmente desinteressante. Porque esta é para muitos a melhor versão de todas. Tanto por seus efeitos especiais (deixando muito atrás aqueles bisonhos efeitos do cinema japonês do passado), quanto por seu roteiro, incomumente consistente e muito bem construído, com a harmonia da direção e edição, das interpretações e da trilha sonora impactante. O som do filme também é de impacto e tudo, enfim, torna-se um conjunto bastante harmônico e perturbador, principalmente na parte final do enredo, quando predomina, à margem da intensa ação, o emocional. Como um senão, achei o desempenho da atriz na última cena efetivamente muito ruim, destoando de todas as performances ao longo de todo o filme, embora não passem despercebidos alguns clichês, provavelmente influência do cinema americano. Em suma, uma superprodução, diversão garantida e algo que não se limita às imagens e aos efeitos, mas que também tem algum conteúdo e uma alma pulsante que, por sinal, dá mostrad de que ainda não chegou ao seu ponto final. Um filme vibrante, que disputa com o de 2014 o título de o melhor Godzilla de todos os tempos, apresentando além de grandes momentos de ação e emoção, uma pungente crítica ao posicionamento do Japão na Segunda Guerra e à existência de dogmas e costumes milenares, que a modernidade tornou obsoletos e desumanos, como o dos kamikazes. 8,8

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OS COLONOS

Um filme que poderia ser incluído no gênero “faroeste latino americano ou sul americano”, mas que na verdade se insere mais como um filme “de arte”. Porque tem pretensões históricas, é lento, mas estranho embora desenvolvido com profundidade e propósitos e só a partir de certo momento passa a despertar sentimentos mais intensos: passa a ser incisivo, violento e mostrar as atrocidades dos colonizadores do início do século 20, na região chilena chamada de Terra do Fogo. Impressiona no filme a rudeza dos personagens, a violência selvagem (e uma ou outra cena mais crua), os vastos locais de uma longa trajetória e visceralmente a trilha sonora que de forma incisiva pontua os momentos de maior emoção. O diretor chileno Felipe Gálvez Haberle apresentou essa chamada viagem ao coração das trevas em Cannes – concorrendo em 2023 ao Un Certain Regarde – sendo sua primeira produção e que ao que consta durou muitos anos até ser finalizada: trata-se da epopeia que envolveu a conquista da Terra do Fogo, na verdade algo que passou a constar como uma ferida aberta da história chilena. Que nos é contada basicamente pela tríade de protagonistas (o guia mestiço, o capataz do fazendeiro e o mercenário), na massacrante colonização: como costuma acontecer, o que ocorreu com os indígenas que viviam na Ilha Dawson é comum a quase todas as conquistas na história da humanidade, sendo submetidos os conquistados à vontade e violência dos conquistadores. Diz o diretor que “existem bonecos (selknam) para colocar no berço do filho, sorvete, chocolate, vinho… Eles os transformam em lembrança do país, sem assumir o genocídio, sem contar a história”, complementando que “Ao mesmo tempo, houve indenizações no Chile para muitos povos indígenas, que as merecem, mas sem o reconhecimento dos selknam como povo, conforme já ocorre na Argentina”. Fatos que ampliam a importância desta obra cinematográfica, estendendo-a para um contexto histórico fundamental. Para públicos especiais, mas um trabalho de fôlego e que vai a fundo na gênese dos fatos que deram origem à Nação chilena e ao que dela foi amputado. 8,8

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O VENTO SERÁ TUA HERANÇA (INHERIT WIND)

Um filme com um grande elenco e que, produzido em 1960, ficou muito famoso, não só pelas performances e porque foi dirigido por Stanley Kramer (Adivinhe quem vem para jantar, Deu a louca no mundo, O selvagem), mas principalmente pela temática e por ser baseado em fatos reais. De fato, o tema até hoje pode ser considerado palpitante e atual, inclusive no Brasil, pois envolve a liberdade de pensamento e de expressão: e a história do filme (baseado em peça teatral) diz respeito ao famoso Julgamento do macaco, ocorrido em 1925 no Tennesse, no qual um professor darwiniano (teoria da evolução de Darwin) foi acusado e julgado por infringir uma lei estadual que proibia qualquer ensinamento que negasse a origem do mundo sob a ótica da Bíblia. O filme foi bastante premiado e tem instantes bastante intensos, principalmente no debate do tribunal, em que atuam na acusação Fredric March e na defesa Spencer Tracy, ambos com destacada atuação e que dispensam apresentações, como atores consagrados. Além deles, atuam Gene Kelly, Dick York (o James do seriado A feiticeira) e entre outros Claude Akins. Apesar de todas as qualidades do filme e da atualidade do tema, há que ser reconhecida a acentuada parcialidade do roteiro, que claramente divide os contendores em “mocinhos” e “bandidos”: aqueles, os evoluídos e que defendem Darwin ou, na essência, o direito e a liberdade de expressão e estes últimos os retrógados, arcaicos e fanáticos, que são os que tacanhamente não aceitam evoluir mentalmente e repetem tal qual papagaios teorias já ultrapassadas e impostas pela Igreja. De todo modo, um filme bastante interessante e com valor evidente no âmbito cinematográfico. 8,9

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TARDE DA NOITE COM O DIABO (LATE NIGHT WITH THE DEVIL)

Um filme australiano de 2023, que tem a grande virtude do desenvolvimento sem pressa e muito bem cuidado: está incluído no gênero “terror” (porque aborda assuntos sobrenaturais, aliás como o próprio título indica), porém é construído com paciência, seriedade, inteligência, criatividade e competência, de modo que vai despertando o interesse e a empatia do espectador, que cada vez mais mergulha na história, instigado com os acontecimentos, mas desejando se envolver para participar do resultado, que tentará a todo momento antever. Tudo é muito bem elaborado e fica permanentemente envolto em grande suspense e mistério, que apenas encontrarão seu ponto culminante na parte final do filme, quando então efetivamente se justificará o gênero em que se insere e que para alguns é o horror, mas para outros o suspense intenso e até na maior parte do tempo psicológico. Imperdível para os fãs do gênero e para os demais traços fortes de um cinema de qualidade, enfim, uma ótima diversão. Estrelado por David Dastmalchian e dirigido por Cameron e Colin Cairnes. 9,0

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O CONFESSIONÁRIO (SURVIVING CONFESSION)

Daqueles filmes que bem poderiam vir de uma peça de teatro ou virar uma (e de grande sucesso): toda a trama, com reduzidos personagens, se passa em um único local, no caso, um confessionário, onde o protagonista (o padre) convive com várias pessoas e diversas histórias e problemas. O drama, envolto em dilemas e reflexões, tem tons de comédia, que se acentuam com o recurso da conversa direta com o espectador, em variados momentos. Mas o que predomina é realmente o tom dramático e a história, que possui conotações complexas, aparentemente se reduz a algo bastante simples, embora elogiável pela execução, no caso, direção, edição e ótimos interpretes. Contudo, na parte final haverá surpresas para o espectador e no fim das contas o fecho será mais denso do que se percebia ou esperava, revelando um trabalho revestido de simplicidade, porém também de inesperada profundidade, em sua mensagem e filosifia, com elevado conteúdo de humanidade. Um filme americano de 2019, de baixa produção e conceituado como mediano pelo público votante do IMDb, mas que para alguns poderá ser uma muito grata surpresa. Tem no Prime. 8,7

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QUE NINGUÉM DURMA (QUE NADIE DUERMA)

Uma excelente performance de atriz Malena Alterio (que até mereceria o Goya), assim como segura e ótima direção do espanhol radicado nos EUA, Antonio Méndez Esparza, em um filme muitíssimo interessante, fruto de um roteiro afinado e muito bem construído, que já começa muito feliz pelo título do filme, que tem relação visceral com a temática central, fazendo dupla referência, sendo uma delas à busca da personagem e outra à arrebatadora ária de “Turandot”, ópera criada por Giácomo Puccini em 1926. Filme espanhol de inegável qualidade, predominando o drama, mas com tons de comédia e leveza em meio ao caos do cotidiano e da intensidade das emoções mais legítimas do ser humano. O que de fato aqui ocorre é que o diretor tem em mãos uma história bem costurada e à sua disposição uma intérprete que a valoriza e intensifica a cada cena, construindo uma obra perfeitamente acabada e que em seu final vai certamente surpreender (favoravelmente) o espectador, inclusive elevando o nível da trama, que se passa inteiramente na bela Madri, aqui vista em diversos ângulos. 9,0

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JOGADA DE AMOR (CORRO DA TE)

Uma comédia romântica italiana de 2022, com o conhecido ator Pierfrancesco Favino (Aqui em casa tudo bem, Nostalgia, O último beijo) e grande elenco, destacando-se também a ótima e bela Miriam Leone. Este é um daqueles filmes a que se assiste várias vezes ao longo do tempo, pela temática e pelos encantos que possui, porque é uma mistura muito bem dosada de comédia, romance e drama, com deliciosa trilha musical e cenas marcantes, tanto no aspecto da beleza e da leveza, quando no de situações dramáticas e impactantes, algumas das quais imprevisíveis, assim como pontos no desenvolvimento do enredo. Embora siga mais ou menos padrões já conhecidos, o filme possui uma personalidade própria e toques especialíssimos em um roteiro muito bem elaborado. Mérito também, é claro, do diretor Riccardo Milani. Divertido, rico em emoções das mais diversas, um filme que nos deixa com o coração repleto de sentimentos por vários minutos depois de seu término. No Max (ex-HBO Max). 9,0

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PIEDADE HOMICIDA (AN ACT OF MURDER)

Este não é um filme perfeito, mas é emocionante e espetacular sob certos aspectos. Não é perfeito, porque simplifica demais certas coisas e toma atalhos discutíveis em seu roteiro; mas é emocionante e espetacular porque conta uma história tocante e ao mesmo tempo interessante e de forma maravilhosa, tendo excelência na direção, fotografia e interpretações maiúsculas e convincentes de todo o elenco. Além de discutir questões filosóficas e jurídicas de alta relevância. O lado emocional é tratado com muita competência, mas com muito realismo também, o que acentua o impacto natural que provoca. O diretor é Michael Gordon (de Cyrano de Bergerac, Confidências à meia-noite, Viciada) e o elenco comandado por Fredric March (o único ator da história premiado com 2 Oscar e 2 Tony, símbolos máximos do Cinema e do Teatro), Florence Eldridge, Geraldine Brooks e Edmond O´Brien, com a presença também marcante de Stanley Ridges. Grandes momentos de emoção e tensão são de responsabilidade das belas performances desses atores e atrizes, valorizados pela importante trilha sonora. Um filme de 1948, classificado como “filme de tribunal” e também como “noir”, mas que ainda hoje mantém sua força e seu impacto, o que demonstra serem seus temas efetivamente atemporais. 9,0

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OSCAR 2024 – vencedores – 10 de março de 2024, das 20h às 23h

OSCAR 2024 – VENCEDORES

Melhor filme

  • Oppenheimer

Melhor diretor

  • Christopher Nolan – Oppenheimer

Melhor ator

  • Cillian Murphy – Oppenheimer

Melhor atriz

  • Emma Stone – Pobres Criaturas

Melhor ator coadjuvante

  • Robert Downey Jr. – Oppenheimer

Melhor atriz coadjuvante

  • Da’Vine Joy Randolph – Os Rejeitados

Melhor roteiro original:

  • Anatomia de Uma Queda— Justin Triet, Arthur Harari

Melhor roteiro adaptado:

  • American Fiction – Cord Jefferson

Melhor canção original

  • What Was I Made For? – Barbie

Melhor trilha original

  • Oppenheimer

Melhor filme internacional

  • Zona de Interesse

Melhor animação

  • O Menino e a Garça

Melhor documentário

  • 20 Days in Mariupol

Melhor design de figurino

  • Pobres Criaturas

Melhor maquiagem e penteados

  • Pobres Criaturas

Melhor design de produção

  • Pobres Criaturas

Melhor som

  • Zona de Interesse

Melhor edição

  • Oppenheimer

Melhor fotografia

  • Oppenheimer

Melhores efeitos visuais

  • Godzilla Minus One

Melhor curta

  • The Wonderful Story of Henry Sugar

Melhor curta animado

  • War Is Over! Inspired by the Music of John & Yoko

Melhor documentário curta

  • The Last Repair Shop
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POBRES CRIATURAS (POOR THINGS)

Difícil descrever este filme, mas desconfio que seja do tipo “ame-o ou odeie-o”, sem meio termo. É uma história de ficção científica e fantasia, que rejeita a visão realista das coisas e se desenvolve com muita criatividade e inteligência segundo o ponto de vista da personagem principal a partir do seu surgimento e amadurecimento – o que justifica as cenas em preto e branco: Bella é interpretada magnificamente por Emma Stone, na melhor performance da sua carreira (aliás, repleta de ótimas atuações). O papel aqui é absolutamente insólito e desafiador e mesmo assim a atriz está totalmente à vontade, tão descontraída quanto é inocente e espontânea Bella, ao ir descobrindo o mundo e as coisas. Emma não venceu no Sag Awards nem no Globo de Ouro, mas ganhou o Critic Choice Awards e o Bafta (Oscar britânico). Ela merece ganhar o Oscar, sendo na minha opinião um destaque totalmente diferenciado em relação às demais atrizes, embora as concorrentes também tenham tido ótimas atuações, principalmente Lily Glastone e Sandra Hüller. A história se passa na Inglaterra vitoriana e vários países aparecem estilizados, assim como a própria visão da câmera (com lentes especiais em algumas cenas), havendo imagens notáveis e de grande efeito, além de conotações futuristas e humanas. A forma é bela e até o que é bizarro assim soa. Trata-se de um roteiro ousado – muitas vezes engraçado (eventualmente melancólico), sarcástico -, anticonvencional, corajoso e riquíssimo em conteúdo e referências. Também brilham no filme Willem Dafoe (grande ator e sempre esquecido por Hollywood) e Mark Ruffalo. Ganhou o prêmio de melhor filme no último Festival de Veneza (Leão de Ouro 2023), o Globo de Ouro e tem a maravilhosa direção do grego Yorgos Lanthimos (que dirigiu anteriormente Emma em A favorita). Aliás, considerando o currículo desse cineasta (O lagosta, O sacrifício do cervo sagrado) não se poderia esperar mesmo nada de convencional, embora este seja seu trabalho superlativo. Um filme realmente genial e que merece, por todos os seus muitos méritos, ganhar diversas estatuetas no próximo dia 10 de março de 2024. 9,7

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QUARTOS VERMELHOS (LES CHAMBRES ROUGES – RED ROOMS)

Um drama canadense de 2023 (falado em francês, pois se passa em Montreal), gênero que envolve também crime, tribunal e muito mistério e suspense, com grande atuação da atriz Juliette Gariépy e também espetacular direção do canadense Pascal Plante. O filme começa como uma trivial história de um julgamento, embora se trate de crimes brutais e cometidos contra adolescentes, os quais repercutiram de um modo avassalador junto à mídia e à população – sendo acusado um sujeito de nome Ludovic Chevalier – pois foram assassinatos brutais, envolvendo sequestro, abuso sexual, mutilações, desmembramentos etc e transmitidos pela internet “black”. O título do filme se deve justamente ao fato de que o criminoso transmitiu seus atos bárbaros nos chamados “quartos vermelhos”, localizados na dark web (submundo da internet), de difícil e oneroso acesso, para indivíduos com gostos e desejos especiais (leia-se “doentios”), onde dão vazão aos seus fetiches e a seu voyeurismo. Ocorre que o chamado “Demônio de Rosemont” é acusado de três assassinatos, de meninas de 12 a 15 anos, mas a apenas dois vídeos a Justiça teve acesso e em nenhum deles o criminoso aparece com clareza, embora exista por parte da maioria da população e da mídia a certeza de ser ele o assassino, inclusive em razão de certos indícios e provas. Mas o filme, que poderia ser mais um daqueles denominados “de tribunal”, em pouco tempo de seu desenvolvimento já vai mostrando que é feito de matéria incomum e especial. Principalmente pela atmosfera que vai sendo construída e por uma personagem que deixa o espectador cada vez mais intrigado: quem é ela realmente? O que ela faz, afinal? O que ela pretende? Por que ela parece tão envolvida no caso e quais as razões das atitudes que toma? E junto com vários pontos de interrogação, a história vai-se tornando claustrofóbica, o suspense fica realmente perturbador e até o medo se instala, diante do desconhecido e do horror psicológico muitíssimo bem construído, inclusive com sagacidade e inteligência. Também com o mérito de não vermos qualquer cena de violência, mais uma vez valendo a lição do grande Hitchcock, que dizia que o que causa mais terror no espectador não é aquilo que é mostrado, mas o que é deixado a cargo da imaginação. O filme se torna, então, rico e atraente, discutindo os vários horrores e vulnerabilidades da vida moderna e mantendo várias indagações para além dos créditos finais. Também com uma trilha sonora à altura do suspense que se instala e perdura, uma experiência digna de nota e bastante intensa, na mente e no espírito do espectador. 9,0

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SAG AWARDS – Prêmios entregues em 24-02-24

Prémios Screen Actors Guild – Wikipédia, a enciclopédia livre   “The actor”

VENCEDORES:

Oppenheimer

Cillian Murphy, Emily Blunt, Florence Pugh, …

Cast in a Motion Picture

Lily Gladstone

Killers of the Flower Moon

Female Actor in a Leading Role

Barbra Streisand

Life Achievement Award

Da’Vine Joy Randolph

The Holdovers

Female Actor in a Supporting Role

Cillian Murphy

Oppenheimer

Male Actor in a Leading Role

Robert Downey Jr.

Oppenheimer

Male Actor in a Supporting Role

Mission: Impossible – Dead Reckoning Part One

Stunt Ensemble in a Motion Picture

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BAFTA (British Academy Film Awards – Oscar inglês) – vencedores (18 de fevereiro de 2024)

Mia McKenna-Bruce
Astro em Ascensão
Samantha Morton
Prêmio Fellowship
Cillian Murphy
Oppenheimer
Melhor Ator
Oppenheimer
Christopher Nolan, Emma Thomas, Charles Roven
Melhor Filme
Emma Stone
Pobres Criaturas
Melhor Atriz
Da’Vine Joy Randolph
Os Rejeitados
Melhor Atriz Coadjuvante
Robert Downey Jr.
Oppenheimer
Melhor Ator Coadjuvante
Zona de Interesse
Jonathan Glazer, James Wilson
Melhor Filme Britânico
20 dniv u Mariupoli
Mstyslav Chernov, Raney Aronson-Rath, Michelle Mizner
Melhor Documentário
Christopher Nolan
Oppenheimer
Melhor Direção
Jellyfish and Lobster
Yasmin Afifi, Elizabeth Rufai
Melhor Curta-metragem
Zona de Interesse
Jonathan Glazer, James Wilson
Melhor Filme Estrangeiro
Oppenheimer
Ludwig Göransson
Melhor Trilha Sonora Original
O Menino e a Garça
Hayao Miyazaki, Toshio Suzuki
Melhor Animação
Pobres Criaturas
Tim Barter, Dean Koonjul, Simon Hughes, …
Melhores Efeitos Visuais
American Fiction
Cord Jefferson
Melhor Roteiro Adaptado
Zona de Interesse
Johnnie Burn, Tarn Willers
Melhor Som
Anatomia de uma Queda
Justine Triet, Arthur Harari
Melhor Roteiro Original
Holly Waddington
Pobres Criaturas
Melhor Figurino
Crab Day
Bart Stanislawek, Ross Stringer, Aleksandra Sykulak
Melhor Curta-Metragem de Animação
Shirley O’Connor
Earth Mama
Melhor Estreia de Argumentista, Realizador ou Produtor Britânico
Savanah Leaf
Earth Mama
Melhor Estreia de Argumentista, Realizador ou Produtor Britânico
Medb Riordan
Earth Mama
Melhor Estreia de Argumentista, Realizador ou Produtor Britânico
Os Rejeitados
Susan Shopmaker
Melhor Elenco
Pobres Criaturas
Mark Coulier, Nadia Stacey, Josh Weston
Melhor Maquiagem e Cabelo
Jennifer Lame
Oppenheimer
Melhor Montagem
Pobres Criaturas
Shona Heath, Zsuzsa Mihalek, James Price
Melhor Direção de Arte
Hoyte van Hoytema
Oppenheimer
Melhor Fotografia
June Givanni
Melhor Contribuição Britânica para o Cinema