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DRAGGED ACROSS CONCRETE

Geralmente olhamos o cartaz de um filme ou inadvertidamente lemos a sinopse e já temos mais ou menos uma ideia de como será. Neste caso, cabe esquecer de tudo isso! O filme não é nada daquilo que superficialmente aparenta ser. A aparência é de uma coleção de clichês, com criminosos e policiais se digladiando no submundo do crime, diálogos superficiais, situações banais e conhecidas, tudo já massificado e adequado para uma sessão da tarde, talvez sessão da noite pela violência. Puro engano. O curso do filme vai mostrar que nada disso se confirma, que aqui existe um roteiro forte e consistente, que a história é contada com mãos firmes do diretor  – o americano S. Craig Zahler tem ótima bagagem cinematográfica, sendo também roteirista e músico -, explorando cada nuance do texto e a experiência e o carisma de Mel Gibson (excelente) para desenvolver algo de densidade inesperada. E com as ótimas atuações de Vince Vaughn, Tory Kittles e ainda a presença de Jennifer Carpenter. Um drama policial muito acima da média, violento, desenvolvido lenta, mas profundamente e carregado de realidade (atenção: é longa metragem, com pouco mais de 2h 30min). Exceto na sua parte final, pois, na minha opinião (pode ser que não seja a da maioria) o roteiro enfraquece nos momentos decisivos, apresentando inconsistências e concessões no comportamento de alguns personagens. Não é verossímil o que ocorre, tendo em vista o que houve até ali. É pelo menos o meu ponto de vista, mas esse fato não retira o grande mérito e a qualidade do filme no seu todo, que apresenta inúmeros momentos marcantes: como o discurso do personagem de Mel Gibson aos 50 minutos de filme, pungente e verdadeiro. Muito drama, suspense, ação mais na parte final e vários personagens, com diversos enfoques interessantes, algo imprescindível para os fãs do gênero.  8,8

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NUNCA DEIXE DE LEMBRAR (NEVER LOOK AWAY)

Este é um daqueles filmes que trazem variadas emoções e que nos dão a sensação de minissérie (até poderia ser uma, por exemplo, com 9 episódios de 20min cada), pois abordam fatos dramáticos através da história (a Segunda Guerra, as duas Alemanhas…), e vamos acompanhando o destino das pessoas ao longo de vários anos, como uma verdadeira saga. E no seu final sentimos uma intensa emoção e que perdura por um bom tempo ainda, como se vivenciássemos nossa própria história, sendo essa uma característica típica das minisséries. E esse, por paradoxal, é justamente um de seus poucos defeitos, porque há alguns fatos que mereceriam um maior aprofundamento, o que nas minisséries não ocorre. E além disso há um outro problema, a meu ver, que é o desempenho apenas regular do ator Tom Shilling em um papel que se interpretado por um ótimo ator certamente faria o filme crescer bastante em intensidade dramática. Inclusive também não é ideal a química entre o personagem dele e o da parceira. Mas o restante do elenco é ótimo, a começar pela bela Saskia Rosendahl, que a partir do início do filme e de cenas memoráveis (a primeira, já no museu, com o guia discursando sobre a inutilidade da arte moderna – depois a da buzina dos ônibus e a da nudez e da nota Lá no piano) já prenuncia sua importância para toda a história, projetando sua presença com profundo significado em diversos momentos até o emocionante final. Muito boa atriz também a igualmente bonita Paula Beer (que fez Franz), mas o destaque maior fica por conta do ator Sebastian Koch, que faz com maestria o implacável e gélido médico da SS, cuja caneta tem o poder de determinar o extermínio de pacientes. Aliás, a cena da escrita em vermelho é uma das várias impactantes do filme, belo também na fotografia e na trilha sonora. São vários momentos ao longo da história que afetam o espectador, mostrando a destruição das pessoas, das cidades, das famílias, das esperanças, ao longo dos horrores da guerra e do domínio nazista, bem como de cenas importantes também sob outros aspectos, no caso vinculados à arte: a invasão aérea de Dresden, a paciente sendo levada à força para ser esterilizada, o aborto, o parto, o discurso do professor no ateliê do aluno em busca do caminho artístico, os discursos sobre a arte, a criação do estilo, afinal, pelo jovem pintor, a do médico enfrentando as pinturas e seu significado, a entrevista ao final, na qual o criador nega qualquer vínculo com a criatura, embora o espectador se emocione por saber da verdade. Pelos defeitos já citados, não é um filme totalmente arrebatador; mas pelas qualidades, igualmente descritas, é uma bela “viagem” pelos dramas humanos e de guerra. Dirigido pelo grande Florian Henckel von Donnersmarck (que dirigiu o magnífico A vida dos outros e é grande também na altura, com 2,05m), o filme concorreu no Festival de Veneza e foi escolhido para representar a Alemanha no Oscar 2019.  8,9

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SUPREMA (ON THE BASIS OF SEX)

Se o roteiro deste filme – com lamentável título em português – for escrito de uma forma rápida e genérica, ele já terá sido visto dezenas de vezes. Os americanos seguem fórmulas padrão, aquelas de patriotismo, superação, ufanismo etc. Esse fato é enfadonho e às vezes até provoca repulsa, como um desrespeito à inteligência do espectador. Os clichês proliferam e parecem não cansar os realizadores dos filmes ianques. Entretanto, o truque é justamente o seguinte: a maneira de contar o filme, aliada à alta qualidade técnica e a experiência manipuladora (a música na hora certa, a heroína e o herói bonitos etc), fazem com que esqueçamos dos clichês em nome da emoção. E é o caso aqui, razão pela qual o filme – baseado na vida real – fica de fato interessante, emoldurado pelo carisma da atriz britânica Felicity Jones (A teoria de tudo, Sete minutos depois da meia-noite…). Constatar épocas de atraso da humanidade no que se refere à discriminação dos sexos, nas quais as mulheres só podiam, por exemplo, ter cartão de crédito em nome do marido, sendo figuras raras nos cursos de direito (e até mal vistas ou discriminadas nas rodas sociais) e a luta para modificar esse estado de coisas é algo que faz bem à alma. Nos indignamos com os fatos e ao mesmo tempo nos inflamamos com a luta. E é disso que trata o filme: a luta pela mudança da mentalidade e da própria lei vigente. Quebrar paradigmas como se diz modernamente. No caso, em cortes superiores dos EUA, onde precedentes orientam todo um comportamento ao longo de décadas, às vezes até de séculos. E, nesse contexto, a partir de certo ponto o filme empolga, quando traz à tona a beleza do Direito, o idealismo que alimenta os corações… e nesse sentido apela aos mesmos sentimentos de todos os demais filmes do gênero e comuns a todos nós: o ideal do bem e do justo, os ideais de justiça. Como não poderia deixar de ser, a parte do tribunal é ótima (quase todo filme que tem tribunal é bom!), com argumentos sendo muito bem expostos e contestados, inclusive pelos próprios membros da Corte, o que eleva o tema e deixa várias interessantes questões no ar. Ao final das alegações, principalmente quem milita no ramo jurídico vai sentir o peito estufar. E, nos créditos finais, a aparição da verdadeira Ruth e a história real dos personagens completa o impacto emocional do filme, nesse instante já totalmente bem recebido e assimilado.  8,7

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LORO

Um filme para adultos, tanto pelo erotismo, quanto pela temática, conduzido pelo original diretor Paolo Sorrentino (La Giovinezza, The Young pope…), que conta, como trunfo, com seu ator favorito, o brilhante Toni Servillo (A garota da névoa, Viva la libertá). Ambos já fizeram antes ótimos trabalhos, com destaque para As confissões e principalmente para o premiado A grande beleza. Aqui, em meio a festas e mansões milionárias, música, danças coreográficas, drogas e sexo, pessoas aparentemente bem sucedidas e felizes, com pleno acesso às coisas boas da vida, parecem exuberantes e donas de um sucesso incontestável. Entretanto, a fina ironia e o cinismo do diretor parecem emoldurar os fatos, como crítica social e para mostrar em parte a decadência dos costumes, da juventude e da própria sociedade italiana. E o personagem central ainda é o polêmico e controvertido empresário, político e bilionário Sílvio Berlusconi, milanês que em diversos períodos foi Primeiro Ministro Italiano. Tony está extraordinário no papel do personagem de várias facetas (e o ator faz um segundo papel também, que cabe ao espectador descobrir na hora), revelando-o ambicioso, pitoresco, manipulador, carismático, vaidoso, poderoso e fanfarrão, sendo notável a cena em que ele canta à beira da piscina, sob a atenção de todos os convidados, a música “Malafemmena”. O filme não é tão bom quanto os anteriores citados, mas os toques personalíssimos do diretor mantém vivas e estimulantes as suas marcas de originalidade, além de alguns diálogos bastante afiados e perturbadores, como o do personagem central com uma jovem de 20 anos, que expõe o que pensa da diferença de idades e da aproximação que ele impõe, de modo firme mas delicado definindo a situação como patética e o hálito dele como o de um velho. A fotografia e a trilha sonora também são grandes destaques neste filme que emerge como um cinema moderno, mas que ao mesmo tempo parece homenagear grandes mestres do cinema italiano. Sorrentino já está entre os grandes cineastas da modernidade, pelo fascínio e verdade que consegue transmitir e escancarar. 8,7

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SEU FILHO (TU HIJO)

Mais uma produção Neflix, aqui um filme pouco digestivo, que trata de temas difíceis, mas reserva momentos imprevisíveis e surpreendentes. Porém, é tenso, denso, lento, carregado de realidade e para públicos especiais, já que o tema não é fácil de ser enfrentado, ainda mais pelo sentido de realismo que norteia a história. Não concordo com quem diz que o final do filme é para que cada um tire a sua conclusão, porque achei o final óbvio. Embora inesperado para mim. E esse final adquire uma conotação bem mais impactante e relevante, na medida em que o personagem principal é um médico, ou seja, alguém situado em patamar alto na hierarquia sócio-econômica. O roteiro é muito bem elaborado e prende inteiramente o espectador, tendo também grande mérito o diretor Miguel Ángel Vivas (La casa de papel) e o excelente ator espanhol José Coronado (Contratiempo). Mas o elenco todo é ótimo, como exige este filme pesado e que nos coloca diante da violência que explode ao nosso lado (e de nossos filhos) e nos a refletir sobre a nossa capacidade de absorver fatos e administrar os nossos instintos e a nossa razão. Até onde poderá o homem moderno conviver com o remorso? Conseguirá domesticar para níveis aceitáveis o impulso da vingança com as próprias mãos? Em suma, um filme sobre os limites do ser humano, inclusive tanto na posição de protagonista, como na de vítima da insegurança e imprevisibilidade dos tempos atuais.  8,5

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MINHA OBRA PRIMA (MI OBRA MAESTRA)

Um drama/comédia diferente, envolvendo um pintor temperamental e já em fase decadente e seu amigo e dono de galeria, disposto a ajudar o protegido, mas sem muita certeza dos caminhos a tomar para valorizar as obras que no passado muito dinheiro renderam. O pintor Renzo, interpretado por Luis Brandoni (ator argentino de teatro, cinema e TV) está muito bem caracterizado em seu temperamento rústico, suas manias e explosões artísticas e o marchand Arturo da mesma forma, por Guillermo Francella (igualmente argentino, ator e comediante), em seu comportamento elegante, requintado mas às vezes duvidoso. O filme tem surpresas, de certa forma alfineta o mundo da arte e cria curiosidade pelo seu desenlace, que pode até ser considerado surpreendente, mais ainda pela crítica social, absolutamente ácida e atual, de seu desfecho. Sem compromissos maiores além disso, mas divertido e interessante, é dirigido pelo ótimo Gastón Dupra, que ganhou o Goya de 2017 pelo filme Um cidadão ilustre.   7,8

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DESTROYER

Um drama policial com suspense (qualificado pela trilha sonora), no qual convivem o passado – 17 anos antes – e o presente, em doses intermitentes, bem colocadas e editadas, o que valoriza o interesse e envolve o espectador. O ponto alto do filme sem dúvida alguma é o desempenho poderoso da atriz Nicole Kidman, inclusive no tempo presente praticamente desfigurada pelo envelhecimento/sofrimento e pelo uso do álcool. Ela concorreu merecidamente ao Globo de Ouro, perdendo apenas para um também magnífico desempenho de Glenn Close (A esposa). De todo modo, uma entrega marcante da atriz à difícil personagem que interpreta. A história trata de policiais infiltrados, de uma operação que não deu certo e do passado retornando para assombrar, paralelamente das dificuldades de adaptação da policial do presente, até mesmo para administrar as relações com a filha. O filme é denso e levado pela direção, edição, maquiagem, trilha e pelas interpretações, fundamentalmente de Nicole. De resto, atrai e mantém o envolvimento do espectador, mas não é arrebatador nem memorável, embora tenha trechos ótimos, inclusive seu desfecho. Nada semelhante, assim, às atrações descartáveis da sessão da tarde,  feito para públicos especiais.  7,8

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ESTRADA SEM LEI (THE HIGHTWAY MEN)

Este é um produto a mais da marca Netflix, empresa que fatura mais de 500 milhões de dólares por mês, produzindo e promovendo filmes e séries em profusão, de tal maneira que está praticamente monopolizando o mercado. E é um filme de qualidade, tendo Kevin Costner como seu principal protagonista (no papel de Frank Hamer, o mais famoso dos Texas Rangers) e também produtor executivo. O diretor é John Lee Hancock (Walt nos bastidores de Mary Poppins, Um sonho possível, Um mundo perfeito) e o parceiro de Kevin é Woody Harrelson, que faz o contraponto da seriedade, com algumas “tiradas” a título de alívio cômico (embora eu não goste muito dessas “piadinhas” em filme dito sério). Tem também Kathy Bates, para lembrar que o governo sempre é quem leva a fama, mas aparece pouco. Mas a atração mesmo são os dois “cobras” do elenco, embora a direção seja ótima, oferecendo um filme enxuto e sem excessos: fica claro que a experiência dos ex-Rangers, embora tidos como aposentados, consistia em uma vantagem sobre toda a força policial que estava atrás da famosa dupla de bandidos apaixonados, Bonnie e Clyde, que já viraram filme antes, mas não sob o foco dos perseguidores, com aqui. E assim vemos um filme investigativo, em que uma caça lenta e através dos Estados americanos é deflagrada, mas sem a certeza absoluta de se conseguir emboscar os foragidos, que parecem quase “fantasmas” nos jogos de gato e rato com a polícia. Aqui, felizmente, a ficção se apoia totalmente na realidade, tendo sido feito um ótimo trabalho de pesquisa e de reconstituição de época. Bonnie e Clyde de fato existiram e fizeram o terror da polícia nos idos de 1931 a 1934, quando finalmente foram mortos. E tinham legiões de fãs entre a população (20.000 pessoas foram ao velório de cada um), sendo tidos como uma espécie de Robin Wood, que rouba dos ricos (os Bancos) para vingar os pobres (o povo, roubado pelos Bancos) – aspecto que obviamente aumentava a fama e dificultava a localização da quadrilha.  Algumas características do casal também foram fielmente transpostas para a tela, como o apego à literatura e à poesia de Bonnie, o cigarro fumado por Clyde etc. Para quem sabe em qual Estado americano aconteceu a derrocada final, porém, o filme deixa de ser surpresa no final, mas só nesse ponto e embora já seja fácil imaginar o desenlace dos fatos. Obviamente a história do casal foi um pouco romantizada, porque tudo nos EUA pode virar lenda: todavia, o filme procura mostrar os fatos de modo fidedigno, inclusive exibindo fotos e reportagens autênticos nos créditos finais, para demonstrar a verossimilhança: a carta escrita por Clyde a Henry Ford, elogiando a qualidade do V8 que utilizava, realmente ocorreu. Chocante também é constatar o medo que a dupla inspirou ao longo dos anos e a amplitude atingida pela “lenda”, pela forma em que se deu a morte do casal: pelo número de policiais envolvidos e de balas disparadas, um verdadeiro absurdo, sendo que a esse respeito, no final, a própria atitude dos dois policiais demonstrou que realmente se tratou de um excesso, quase uma covardia. Um filme interessante, com alguns estereótipos aos quais os americanos não resistem (como, por exemplo, “todos os tiras são imbecis, menos os nossos heróis”), mas que não comprometem o conjunto, que, afinal, mostra uma realidade, valorizada por uma jornada instigante e bem construída. 8,0

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O MÉDICO E O MONSTRO (DR. JEKYLL AND MR. HYDE)

Esta é uma história que inúmeras vezes foi transposta para o cinema, do clássico literário de Robert Louis Stevenson. A presente versão foi a produzida em 1941, estrelada por Spencer Tracy, Lana Turner e Ingrid Bergman e dirigida por Victor Fleming (O mágico de Oz e Oscar de Melhor Diretor em 1940 por.. E o vento levou,.). Na Londres do século 19, um médico faz pesquisas científicas sobre a possibilidade de isolar a maldade humana ou o lado mau do homem. A história já é conhecida, mas com parcos recursos técnicos à época, o papel duplo acabou sendo desempenhado com maestria por Spencer Tracy graças a seus recursos pessoais e interpretativos, embora a maioria opine que o Mr. Hyde das versões anteriores era muito mais terrível e assustador. Contam que Ingrid Bergman, inicialmente escalada para fazer o papel da “mocinha”, fez questão de interpretar a prostituta, embora tal fato não tenha de modo algum ofuscado sua jovem e radiante beleza. Outro destaque do filme é a fotografia, mas de todo modo o elenco é muito bom, a direção segura e competente e o filme para muitos se tornou a versão definitiva do clássico.  8,3

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O CRÍTICO (EL CRÍTICO)

Primeiro filme do diretor argentino Hernán Guerschuny, aborda interessantes situações por que acaba passando um crítico de cinema renomado porém cético, com jeito de mal humorado e que vive uma vida pessoal reservada. O destino acaba envolvendo o personagem em um roteiro daqueles que ele mesmo costuma desprezar e o diretor mostra os fatos com bastante competência e humor, parodiando inclusive diversas obras conhecidas e de sucesso. A atriz Dolores Fonzi é excelente e carismática e sua presença dá um colorido especial ao filme, que assume vários tons de romantismo, embora o sisudo personagem masculino acabe surpreendentemente despertando no público também uma sincera simpatia (Rafael Spregelburd). Na verdade, o filme apresenta o mundo de clichês, dos quais alguns tentam fugir, mas que são indeclináveis, embora ao mesmo tempo aborde superficialmente alguns elementos a mais, envolvendo o próprio cinema e a vida dos que o criticam. Nada muito além disso, mas algo digerível e divertido e que foi o vencedor do prêmio da crítica do Festival  de Gramado de 2014.  7,8

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UN BAISER SI´L VOUS PLAIT (SÓ UM BEIJO, POR FAVOR)

Comédia francesa (2007), que acaba tendo alguns toques dramáticos, mas em que predomina o tom leve. As situações são românticas e de crise envolvendo casais e questionamentos sobre as relações atuais, novos amores surgindo, a dificuldade de se deixar alguém sem magoar, tudo em um emaranhado de fatos, mas descortinados engenhosamente por meio de uma história dentro de outra história. O diretor, roteirista é também o ator Emmanuel Mouret. Interessante constatar o modo de vida dos franceses, que se repete de filme para filme e por isso deve ser assim mesmo: eles são bastante racionais e enfrentam os sentimentos e as situações com realismo e bravura, bem diversamente do que ocorre com os latinos, que são altamente passionais e muitas vezes deixam a paixão, o instinto e a emoção dominarem tudo. Mas uma história gostosa, simples, despretensiosa e que deixa o espectador muito interessado no desenrolar da trama, que acaba tendo um bom final.  8,0

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A MULA

Os filmes de Clint Eastwood (um dos meus diretores prediletos) são muito equilibrados em todos os seus elementos. Depois que chegou a determinada fase da carreira e resolveu ser diretor, o eterno cowboy de alguns clássicos do western (Por um punhado de dólares, Cavaleiro Solitário, Os imperdoáveis…) demonstrou inegável competência na nova função, dirigindo, entre muitos outros, As pontes de Madison, Gran Torino, Menina de Ouro, Sniper americano, Cartas de Iwo Jima, Além da vida, The Jersey boys. E sempre com qualidade, com a dosagem certa de drama, suspense, lirismo, emoção, acompanhados de ótima trilha, edição, fotografia etc. Aqui a história não é sofisticada, mas simples, baseada em nota de jornal (situação inusitada envolvendo os atravessadores de drogas – geralmente para os cartéis -, o que justifica o título) e repetindo situações já vistas em outros filmes. Os diferenciais, porém, são dois: primeiro a maneira diferenciada de ser contada a história (a precisão, as nuances certas…), impregnada pelo talento e pela sensibilidade do diretor; e segundo, pela presença do próprio Clint, uma figura carismática e que ainda mantém intocável, apesar da idade (que ele assume no papel que faz), o velho charme que sempre o caracterizou como o sujeito durão, mas de caráter e bom coração (no caso, com doses reforçadas de remorsos…), o que torna o filme realmente especial. Ainda com a participação de Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Dianne Wiest, Andy Garcia e Alison Eastwood (filha do cineasta no filme e na vida real), entre outros, este drama em tons de comédia diverte e emociona sem cair na vulgaridade ou no excesso.  8,8

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STAN & OLLIE

Este filme é um belo e tocante tributo a uma das maiores duplas do cinema: Stan Laurie e Oliver Hardy, ou “O gordo e o magro”. Dois incríveis e leves personagens que revolucionaram a comédia cinematográfica (e depois a TV), demonstrando inclusive que fazer rir não dependia das palavras. E é impressionante a caracterização do Gordo pelo extraordinário ator John C. Reilly, como também surpreende a performance do Magro pelo ator Steve Coogan. Estão perfeitos, maravilhosos simplesmente, tendo inclusive sido indicados em várias premiações mundiais, incluindo John para o Globo de Ouro 2018. O filme revive cenas clássicas de filmes e sobretudo mostra os bastidores das produções e a vida pessoal (também matrimonial) e cumplicidade dos dois atores, que se tornaram também parceiros fora das telas; homenageia o importante trabalho de redação de Stan, escrevendo todos os textos  – e continuou escrevendo para a dupla, mesmo após a partida do partner e amigo -, a disciplina dos ensaios, bem como os problemas do dia a dia,  incluindo a vinculação a contratos que só eram vantajosos para os espertos e poderosos produtores. É uma obra que declara o monopólio da dupla nos anos 30/40, mas se concentra mais nos tempos que se seguiram aos grandes sucessos. E justamente por isso se torna às vezes um filme triste e melancólico, mostrando a passagem do tempo, a doença que sobreveio, a fama sendo superada pelos próprios fatos da vida, até pelos que vieram para substituir os ídolos perante o público (Abbot e Costello especialmente). Mas mesmo assim, há cenas memoráveis, de impagável humor e que eterniza a dupla, que à evidência não poderia de modo algum sobreviver separada: cada qual com sua graça, tanto se completavam, como pareciam às vezes ser uma só pessoa. Um filme muito bem realizado, de magistrais interpretações e que faz justiça a quem homenageia. Reverencia e emociona.  8,8

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A REVOLUÇÃO SILENCIOSA

Um belo e emocionante filme (adaptado de famosa obra literária) e com relevante conteúdo histórico. Porque quem assiste a ele mergulha nos fatos envolvendo a Guerra Fria, a política e os regimes vigentes no mundo e especialmente nas Alemanhas Oriental e Ocidental do pós-guerra – década de 50 (especificamente em 1956 -, em época que precede em cinco anos a construção do Muro de Berlim). O filme trata de ideologias, do livre-pensar, da coragem, da juventude e de seu desejo e ímpeto de mudar o mundo, de questões morais profundas, de passados secretos, mencionando em parte importante a contrarrevolução húngara contra o domínio soviético…e se baseia em acontecimentos reais. A partir de um episódio específico em sala de aula é que acabamos entrando nesse universo, extremamente valorizado pelos ótimos roteiro e trabalho de direção (Lars Kraume), edição e elenco. Mas a trilha sonora e a fotografia são também muito bons. Curiosamente o referido episódio tem relação (embora forjada) com o famoso jogador húngaro Puskas, considerado um dos melhores da história do futebol e comandante do  esquadrão da Hungria de 1954 (na Copa da Alemanha). Um drama forte, repleto de situações tensas e emotivas, com um ou outro momento novelesco (inclusive um específico, “plagiado” do cinema americano), mas que acaba não comprometendo a qualidade final. No epílogo, ficam estranhas sensações de vazio no ar, mas também a certeza de que às vezes certos fatos e atitudes acabam, frustradamente, não representando revolução política alguma: mas deixam marcas inesquecíveis e traçam fronteiras concretas – revolução nas mentalidades e conceitos – para que vidas novas sejam experimentadas. 9,0

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NO PORTAL DA ETERNIDADE (AT ETERNITY´S GATES)

Goste-se ou não de Willem Dafoe, o sujeito é um grande ator e faz grandes imersões nos papéis que representa. Esta composição de Van Gogh, quase no final do século 19, é dedicada e inspirada e valeu a ele uma indicação para o Oscar, o que não é pouco, principalmente considerando as inúmeras versões que são feitas contando a história do famoso pintor impressionista e que acabou insano, inclusive cortando uma das orelhas. A ótima direção de Julian Schnabel (O escafandro e a borboleta, Basquiat, Antes do anoitecer) aproxima o personagem de nós, bem como a época em que viveu, sendo difícil acreditar que esse gênio não só não era reconhecido, como desprezado pelos seus pares, tendo de mendigar para sobreviver. Mas, afinal, esse fato não foi tão incomum assim com relação a muitos artistas que somente foram valorizados na velhice ou após morrerem. O filme privilegia imagens campestres, com as cores de predileção de Van Gogh, mas como se trata de um personagem introspectivo e com vários sintomas de loucura (que avança, paralelamente às demais pressões), embora em sua arte dono de uma lucidez e originalidade inegáveis, é um filme meio deprimente e que não traz grandes novidades, afinal Dafoe é o filme e nele tudo se concentra. Mas é interessante acompanhar o pouco espaço de tempo em que ele teve uma produção absolutamente admirável, que foi a época em que mudou para o sul da França, a conselho de seu amigo e protetor – e também famoso pintor – Paul Gauguin.  7,8

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A.I. RISING

Este é um filme de ficção científica para adultos.  E surpresa: é sérvio! Um cinema que às vezes causa alvoroço. Acho que quem tiver paciência para saborear o filme até o fim, será devidamente recompensado. Mas cabe a advertência: é um filme de orçamento de 1 milhão de dólares, com dois personagens, cenário restrito à nave espacial, lento, repleto de sombras e efeitos coloridos…em suma, vai gostar quem com ele se identificar, os demais correndo o risco de achar tudo um tédio. Mas eu gostei demais! Fiquei emocionado, tenso, encantado com o roteiro e na derradeira cena, quando a câmera vai mudando o ângulo da visão da nave, minha vontade foi de aplaudir. E a trilha sonora achei espetacular, fora a história, que realmente testa os limites da natureza humana, conforme anuncia o cartaz. O tema, aliás, até lembra duas produções mais ou menos recentes: Ela e Ex machina, mas aqui são outros quinhentos e o roteiro é baseado em obra literária. Mas pela qualidade e temática, até se poderia imaginar tratar-se de um episódio da série Black Mirror. A viagem no caso é para Alfa Centauro, com apenas dois tripulantes: um macho humano (Sebastian Cavazza, ator esloveno) e uma fêmea androide (Stoya, atriz americana de filmes pornôs). E os desafios e limites que vão aparecendo nessa estranha relação desafiam a natureza do homem, fazendo emergir de forma inesperada desejos e anseios imprevisíveis. Como inesgotáveis parecem também os conceitos cibernéticos. O filme explora com grande sensualidade, sensibilidade e talento as possibilidades e expectativas da interação homem-máquina, inclusive sob a perspectiva da solidão, dos sentimentos humanos e dos instintos puros e selvagens da paixão. Do amor, por que não? Uma experiência rica, inclusive pela capacidade do diretor sérvio Lazar Bodroza (estreando) de jamais cair na vulgaridade. Vivenciamos o desespero para humanizar o que não é humano – para o homem é insuportável a falta de humanidade no androide – e a escravidão que a paixão e o amor podem proporcionar, trazendo o desenrolar do filme vários questionamentos interessantes e a partir de certa parte os fatos ficam bastante difíceis de prever. O final poderá lembrar obras imortais do cinema e da literatura, mas antes o espectador poderá perguntar até onde tudo será suportável? De quanta humanidade, afinal, o amor necessita para ser amor?  9,0

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A HISTÓRIA DE HEDY LAMMAR (BOMBSHELL – THE HEDY LAMMAR STORY)

Este é um documentário muito bem feito por Alexandra Dean, contando sobre a vida de uma atriz que se destacou por fatos muito mais importantes do que sua beleza, mas que foram reconhecidos apenas depois da carreira que teve no cinema. A bela atriz austríaca de origem judia e que interpretou Dalila no famoso filme Sansão e Dalila – que na época só perdeu em bilheteria para E o vento levou – começou a carreira gerando uma polêmica que depois tentou de todos os modos apagar: chocou o mundo do cinema ao aparecer nua em um filme de 1933 chamado Êxtase. Esse fato e muitos outros são contados, mostrando diversas facetas da vida da atriz, inclusive todas as dificuldades que teve, os vários casamentos, os sucessos e os fracassos, até o final melancólico (sempre) em que se tornou reclusa e quase uma caricatura após inúmeras plásticas, algumas mal sucedidas. Mas o filme mostra fatos interessantíssimos dessa mulher que foi mais de uma vez “esposa-troféu”, mas que sempre desejou ser valorizada por outros atributos que não a beleza, como sua integridade, inteligência e criatividade, pois era uma mãe carinhosa, feminista corajosa (na época não havia tal denominação, claro) – tendo até co-produzido filme, o que era impensável para uma mulher – mas incrivelmente uma inventora (chegando a ter cientistas pagos por Howard Hughues para ajudá-la em alguns inventos) e aqui reside um dos pontos principais do filme. Porque ela “projetou” um dispositivo baseado na teoria do “salto de frequência”, imaginando sua utilidade nos torpedos durante a segunda guerra, e que acabou sendo utilizado pela marinha americana e servindo de suporte para importantes inovações tecnológicas da atualidade. Mas ela desconhecia na época que havia um prazo para reclamar os direitos de patente e, como sempre, as homenagens e o real tributo à sua criação foram quase póstumas… 8,0

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O RETORNO DE BEN (BEN IS BACK)

Um drama doloroso de ver, porque aborda fatos que acontecem em nossa realidade, que são difíceis de resolver socialmente e aqui mostrados de uma maneira bastante realista pelos efeitos que provocam nas famílias. Um ótimo filme graças à competente direção de Peter Hedges e também à interpretação de Lucas Hedges (filho do diretor) e principalmente de Julia Roberts, que dá um show de talento como atriz, porque bastante difícil o seu papel neste filme (efetivamente uma atriz madura e que aceita grandes desafios). O amor incondicional da mãe, os problemas do filho para ficar livre das drogas, fatos que ocorrem à nossa volta e que vemos retratados todos os dias nos jornais. Só que a dose de realismo aqui é muito bem colocada e o filme tem o mérito de não tomar partido, apenas mostrando as dificuldades e o contexto do submundo dos drogados e do comércio. Mostra também – e bastante – os efeitos nas relações familiares do doente que tenta se recuperar, mas que encontra as dificuldades naturais, não só da própria droga, mas do meio em que vive. Mérito do filme, as informações a respeito do passado do personagem vão sendo construídas aos poucos, pelas ligações que teve (e que vamos acompanhando) e pelas consequências que seus atos provocaram. Um filme difícil de assistir justamente pelo mérito que tem, que é o de trazer um tema complexo, assim como nada simples é a sua solução, o que justifica plenamente o conteúdo da última e adequada cena.  8,0

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FREE SOLO

O desafio se chama El Capitan (El Cap), um rochedo localizado no Parque Nacional de Yosemite (Califórnia) e o desafiante é o americano Alex Honnold, que é o protagonista deste documentário vencedor do último Oscar (Melhor Documentário de Longa Metragem). Se alpinismo é um esporte dos mais difíceis, exigindo grande força física, mental, concentração, disciplina, técnica e planejamento, imagine-se o que é escalar uma montanha, uma parede quase vertical de mais de 900 metros de altura, sem usar qualquer corda ou utensílio, ou seja, sem qualquer equipamento, apenas as mãos, o corpo e a força muscular, agilidade e destreza. É esse o esporte radical que este filme contempla.  As cenas de altura são fantásticas e provocam até vertigem no espectador. As filmagens são feitas por câmeras comuns, especiais e por drones. O filme procura relatar o lado banal do personagem, suas relações e dificuldades de relações e a origem do que o levou a escolher os caminhos pelos quais optou. E em sua parte final, o documentário é simplesmente fabuloso e de tirar o fôlego, mesmo já se sabendo do resultado. E isso é o mais notável: ser a tensão quase insuportável, na mistura de imagens, sons com a trilha sonora em um excelente trabalho de edição e direção, mesmo já sabendo do final dos fatos. Não é à toa que ganhou o recente e merecido Oscar, mas ganhou muitos outros prêmios também, mais de duas dezenas, incluindo o Oscar inglês (BAFTA de Melhor Documentário, entre outros). Merecidamente.  9,0

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JORNAL 64

Na realidade o filme tem como base acontecimentos graves passados, mas é como se fosse um mero drama policial de ficção. Mas não é comum. Primeiro, porque é dinamarquês, um cinema que tem se notabilizado através dos anos por ótimas produções, principalmente no gênero, um policial que mantém o suspense o tempo todo: um thriller, portanto, mas com um formato totalmente diferente do cinema ianque. Segundo, porque, embora a trama vista no papel seja até corriqueira, está inserida em um filme da série do Departamento Q (setor da polícia encarregado de causas tidas como perdidas ou encerradas), o que significa qualidade e densidade, tendo como fatores principais os seus personagens. A personalidade de cada um é muito bem desenvolvida e aprofundada e esse elemento é o que dá a tônica do filme e o singulariza, valorizando-o também e colocando-o bem acima da média das produções concorrentes. E terceiro, porque também foi baseado em obra literária de grande sucesso na Dinamarca, sendo o quarto filme da série. Foram filmes anteriores, retratando os dramas do mesmo setor da polícia dinamarquesa e os mesmos agentes: Departamento QO guardião das causas perdidas, O ausente e Uma conspiração de fé. Todos com o mesmo tipo de atração, inclusive pelo personagem muito bem construído do detetive Carl Mork, circunspecto, solitário, meio neurótico e de seu colega quase totalmente oposto. Fotografia, trilha e direção ótimos também compensam qualquer lugar comum.  8,0