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YESTERDAY

O britânico Danny Boyle, o mesmo diretor de Quem quer ser um milionário, vencedor do Oscar, traz agora uma deliciosa e irresistível fábula/comédia romântica (e musical), estrelada por Himesh Patel (ótimo ator e cantor, gravando ao vivo suas interpretações no filme) e a bela e adorável Lily James (Cinderela, Little woods, Mamma mia…) filme que acaba sendo, na verdade, um tributo aos Beatles e à própria música pop inglesa, em sua importância e amplitude mundial. O filme tem um ritmo gostoso, leve, irresistível e a partir de um determinado fato sobrenatural (de cuja aceitação obviamente depende todo o encantamento do filme) se transforma em uma viagem maravilhosa, divertida e comovente, que passeia sobretudo sobre o trabalho de Paul McCartney e John Lennon (pelas belíssimas e sensíveis músicas que os dois compuseram), fazendo com que os mais velhos revivam a magnitude e a riqueza da obra dos Beatles e com que os mais novos a conheçam e/ou a reafirmem. O roteiro foi escrito principalmente por Richard Curtis, que tem muita experiência e competência nesse tipo de comédia, pois é autor de Simplesmente amor, Quatro casamentos e um funeral e Um lugar chamado Nothing Hill, entre outros. E se tudo parece orbitar em torno da música, desde o início (embora em tom de comédia, com algumas ótimas piadas), existem bons sentimentos e exemplos permanentemente à volta de todos -e da própria obra homenageada, coroada pelo encontro na casa à beira da praia- e o sentimento principal é o que acaba coroando e dando um sentido maior à procura do verdadeiro caminho, fazendo com que o filme termine envolvendo a todos em suas emoções e ao som de uma das mais belas canções já feitas e que ecoa no compasso dos corações: Hey Jude.  9,5

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ALLADIN (ALADIM)

Verdade seja dita: depois da computação gráfica, qualquer mundo é possível! Mas mesmo assim, o faz de conta deve sempre predominar. Ou seja: a gente deve fingir que não existem os tais efeitos especiais e entrar no sonho, afinal, quem não gosta de um conto de fadas? Aladim desenho foi algo extraordinário e agora o filme é também marcante, com muita qualidade técnica, magia e o carimbo “Disney” escancarado. Nos detalhes dos desenhos, nas músicas (o tema icônico !), na condução da história, no figurino e na cenografia, nos interessantes personagens…No encantamento, enfim. Das fábulas. Como não se deixar levar e se emocionar com personagens que povoaram nossa infância, repleta de príncipes, princesas, grão-vizir, gênio da lâmpada, sultões, reinos maravilhosos? E que vemos agora, ampliados, aperfeiçoados? Como não se tocar pelos ideias de justiça que o filme traz, de beleza, de harmonia, de equilíbrio, amor e paz? É a essência de todos os desenhos e filmes dessa espécie mostrar o desequilíbrio e logo após nos trazer de volta, em um retorno que sensibiliza nossos corações e nos reduz aos valores essenciais! Bem provável que os mais românticos se sentirão especialmente tocados, evocarão as histórias da infância e os voos no tapete mágico das 1001 noites! Claro que a história é a de sempre –aqui, o desenho fidelizado-, mas quem não quer navegar por esse mundo todo de fantasia e quem não deseja, mesmo que secretamente, um final feliz? Quem não se afeta por exemplos de nobreza, caráter, coragem, força, generosidade? E aqui, com um forte toque feminista (a música cantada pela princesa a quase 1h 40min de filme é realmente empolgante), vemos muitíssimo bem personificados Ali e Jasmine, o par central da trama. As cenas com o gênio, magnificamente composto por Will Smith, são muito dinâmicas e divertidas. Tudo para manter com graça e competência a tradição e plenamente vivas as lendas!  9,0

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PROJETO LAZARUS (REALIVE)

Um filme de ficção científica de 2016, com tríplice produção: franco, belga e espanhola. O ator é Tom Hughes e a história aborda um tema bastante interessante: a criogenia aplicada ao ser humano, ou seja, o fato de alguém congelar seu corpo para em um futuro distante ser submetido ao processo inverso. Só que aqui com dois diferenciais: em primeiro lugar, a forma se assemelha à dos filme de arte, porque a direção é daquelas mais herméticas, o andamento tem uma dinâmica mais contida, assim como o próprio personagem principal, havendo cenas ótimas e também algumas estranhas; segundo, o roteiro não apresenta o que comumente vemos nos filmes em que o personagem se congela e acorda dezenas de anos no futuro: aqui existem dificuldades para que simplesmente ocorra o processo, que esbarra em restrições tanto orçamentárias, quanto científicas e de conveniência, assim como físicas e fisiológicas no processo da perfeita do paciente que se sujeitou ao procedimento. Tudo isso em meio a dramas diversos, memórias lançados na tela, inclusive também de forma simbólica etc. Ressurreição e imortalidade são discutidas em um contexto interessante, envolvendo dramas existenciais. Não é para todos os públicos, mas para quem gosta do tema e de filmes menos comerciais, uma boa viagem embora tivesse elementos para ser extraordinária.  8,0

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NO FINAL DO TÚNEL

Com o ator argentino Leonardo Sbaraglia (Neve negra, Plata queimada, Relatos selvagens…), uma co-produção argentina-espanhola de 2018, resultando em um bom filme, estilo policial com suspense (thriller), com ótimo elenco, incluindo também, em papel sensual, a atriz espanhola Clara Lago. O filme é muito bem acabado visualmente, tem muito suspense -mérito da direção e da trilha sonora excelente, que eleva a tensão a níveis importantes- e um roteiro interessante e com surpresas, que deixam o espectador com muitas dúvidas e consideráveis expectativas, não só quanto ao desenvolvimento, mas principalmente no tocante ao desenlace. Daquelas produções com baixo orçamento, mas com uma história bem costurada, atraente e que apresenta situações criativas que prendem quem está assistindo. Aliás, as cenas que precedem o desfecho são inteligentes e palpitantes e envolvem alguns diálogos inesperados e criativos (deixando os bandidos desconcertados e criando um impasse saboroso). Um agradável passatempo cinematográfico dirigido por Rodrigo Grande. 8,5

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O REVERSO DA FORTUNA

Um filme de 1991, dirigido pelo iraniano Barbet Schroeder, e que merece ser visto/revisto. Com diz a sinopse, o aristocrático Claus Von Bullow é suspeito da tentativa de assassinato de sua esposa e contrata um escritório conceituado de advocacia (Ron Silver é o condutor dos trabalhos da equipe que busca defender o milionário) para recorrer da decisão que o condenou inicialmente. O personagem de Jeromy Irons é realmente desconcertante. Enigmático. Ele interpreta aquele inglês típico, todo afetado, fleumático, empombado, arrogante, parecendo distante das emoções (pois as esconde), temperamento que ajuda a desconcertar o espectador quanto aos fatos e onde está a verdade dos fatos. Ele flutua nas cenas e entre os diálogos, deixando todos em estado de permanente suspense e dúvidas. As investigações, o passo a passo, tudo é interessante e intriga. A mesma perplexidade toma conta da equipe de advogados contratados e a interpretação de Jeromy conquistou o Oscar 1991 de Melhor Ator. Glenn Close também não fica muito atrás, desempenhando com maestria o papel da esposa e que de modo muito original acaba sendo a narradora in off. A fotografia é ótima e em algumas cenas primorosa, igualmente sendo muito bem cuidada. Atua também no filme, entre outros, a bela Annabella Sciorra (Amor além da vida, A mão que balança o berço, Justiça cega, Febre da selva). A última cena, na banca de jornais e variedades, é um achado, irônico e cínico, para talvez desfazer/confundir algumas impressões anteriores sobre o personagem e deixar algumas reticências… 8,8

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CASAL IMPROVÁVEL (LONG SHOT)

Tão improvável quanto o casal formado pelo estranho Seth Rogen e a ótima e belíssima atriz Charlize Theron, é o sucesso desta comédia repleta de críticas sociais e políticas, inclusive à política americana, abordando diversas questões de vários ângulos diferentes, sob o fundo do humor gratuito, mas que, afinal, esconde tiradas muito boas e finas, em meio a outras menos sutis e elaboradas (inclusive envolvendo as alardeadas fake news). Mas o improvável muitas vezes é o que acontece e o filme tem agradado a grande parte do público. Porque é leve, entretém e vai-se acompanhando os fatos sem saber bem para onde vão levar (embora não seja tão difícil prever…), com a motivação em parte pelo próprio roteiro e em grande parte pelo par central: ele, enigmático nos limites da loucura, do sarcasmo e da ternura; ela, com alguma sobra de mistério e muitas doses de beleza e classe, em uma mistura no mínimo inusitada e por isso interessante, justamente o que dá base ao enredo e justifica o seu desfecho. Um passatempo gostoso e divertido.  7,8

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THE TIME ELEMENT

A TV já produziu várias séries que com mistério e suspense (e à vezes horror) tratam do “desconhecido”, de questões de ficção científica, envolvendo tempo e espaço e que despertam o interesse e instigam o espectador: Quinta Dimensão, Alfred Hitchcock apresenta, mais recentemente Black Mirror…porém a mais famosa delas foi a que durou de 1959 até 1964, com 5 temporadas e 156 episódios: “The twilight zone” ou “Além da imaginação”. Este filme precedeu a série e teve o roteiro escrito pelo mesmo Rod Serling (responsável pela série), porém foi comprado e inicialmente rejeitado pela CBS, que o guardou por um ano até que acabou sendo aproveitado por uma exibição de 1958 do seriado Desilu Playhouse  – após o final do filme há uma “quebra” e nos sentimos vendo a TV dos anos 50, com a exibição de uma longa propaganda dos patrocinadores, anunciando o moderno refrigerador com freezer. Mas o filme foi um grande sucesso e a partir dele Serling foi autorizado a produzir a série com episódios semanais. Portanto, embora “The time element” não seja um “piloto” da série, pode até ser considerado como seu “episódio zero”. Uma história que tem a participação do conhecido Martin Balsam, a direção de Allen Reisner e que aborda aqueles temas maravilhosos e atraentes que envolvem os paradoxos temporais (viagem no tempo etc). No caso, focados em Pearl Harbor. Para os fãs do gênero, visão obrigatória.  8,7

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A CORTE

Um filme francês de grande qualidade (2015), a começar pelo duplo sentido do título (excelente e quem assistir a ele vai entender). Depois, tem um roteiro simples mas premiado porque muito bem construído e interessante, não apenas por dar suporte a um filme “de tribunal” (que em  geral é um gênero bastante atraente), mas por apresentar os bastidores de um julgamento, mostrar os fatos que ocorrem longe dos olhos do público, envolvendo o juiz, os funcionários, os jurados, a hierarquia, a linguagem, o protocolo… Por fim e com vital importância, esse elegante filme conta com uma marcante atuação de Fabrice Luchini, que com esse papel ganhou o prêmio de Melhor ator no Festival de Veneza: o de um magistrado rígido, sério, compenetrado nas funções, mas que de repente reencontra alguém do passado e se sensibiliza com essa presença (a da ótima atriz dinamarquesa Sidse Babett Knudsen, inclusive agraciada com o Cesar, Oscar do cinema francês), que causa mudanças em sua rotina e se mistura com diversos elementos em um contexto pessoal complexo (separação recente, dever, moral…). O fato é que o desenlace parece menos fundamental do que os detalhes e as reticências, que são inteligentemente colocados no enredo e que, como observou brilhantemente um crítico, fazem com que “mesmo a rápida presença de um vestido branco, na conclusão, se transforme numa pérola de significados latentes”.  9,0

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LUGAR NENHUM NA ÁFRICA

Este filme alemão, com aroma de épico, ganhou o Oscar de Melhor filme estrangeiro no ano de 2003. E merecidamente. É uma história maravilhosamente bem contada, baseada na autobiografia da jornalista Stefanie Zweig (que passou a morar na África quando criança) e que mistura com inteligência, delicadeza e emoção diversos ingredientes abordando a natureza humana e sua capacidade de refletir, de adaptação, de superação, de imaginação, sua bravura e tenacidade. Na iminência da Segunda Guerra Mundial e já com a ameaça real do nazismo (1938), uma família alemã se muda para o Quênia, região onde todo o filme acontece. E ali, essas pessoas acostumadas a uma vida aristocrática e sem carências, são obrigadas a se integrar e a se adaptar aos costumes, à natureza, enfim a todos os elementos de transição e também aos conflitos que o novo mundo vai trazer. Alguns terão maior dificuldade. Outros, como a menina Regina (a atriz Lea Kurka), vão se integrar de forma fácil e feliz e nesse ponto aparece um dos principais e mais interessantes personagens do filme, que é o cozinheiro Owuor. As paisagens fascinantes da África (emolduradas na bela fotografia), o clima, as imagens, cores, diferenças de hábitos, a viagem interior dos personagens, tudo é muito bem cuidado e conduzido pela diretora Caroline Link e pela atuação do elenco, sendo belíssima e comovente também a trilha sonora. Um filme praticamente perfeito, que não cai em clichês e que, sem maiores pretensões mas com muita competência, traz paz, beleza e profunda emoção. 9,5

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YELLA

Um filme alemão de 2007 e que pode ser enquadrado como “filme de arte”, porque é lento, diferente, imprevisível, com muito suspense e sobretudo estranho…Esses dois últimos fatores são bastante valorizados pela direção de Christian Petzold, pela trilha sonora e pela atuação perfeita da bela atriz Nina Hoss (Wolfsburg, Partículas elementares, Anônima –uma mulher em Berlim, Bárbara…). O diretor Christian Petzold é bastante premiado, inclusive tendo ganho o Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 2012 com o filme Bárbara (também com a mesma atriz, com quem já realizou inclusive várias parcerias). Este filme gira em torno de uma fuga em busca de uma vida melhor e sem problemas, mas que não mostra precisamente os caminhos que vão sendo seguidos, ficando sempre algo a desvendar. O diretor é muito hábil em manter o mistério, inclusive ao não mostrar os fatos ao mesmo tempo em que são captados pelos personagens…sempre vamos percebendo com algum atraso o foco principal de algumas cenas mais tensas, o que intensifica o suspense e nos deixa inquietos, sempre sentindo que existe algo muito estranho pairando em torno do universo corporativo que vai sempre mostrado. Só no final descobrimos, em desenlace inesperado, a chave do enredo ligada a uma informação que nos foi omitida em parte do filme: mas que além de ser interessante e atraente, não causa tanto desconforto quanto poderia, justamente pela competente construção de todo o roteiro e pela marcante performance de Nina.  8,7

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EL REINO (THE REALM)

Mais um filmaço do cinema espanhol, que hoje é um dos melhores do mundo. Aqui novamente juntos –antes em Dios nos perdone–  o diretor Rodrigo Sorogoyen e o excelente ator Antonio de La Torre, que nos brinda com uma atuação espetacular, em papel difícil. O elenco todo é excelente, trilha sonora, fotografia etc. Um thriller que ganhou sete prêmios Goya 2019: melhor Diretor, Ator, Ator Coadjuvante (Luis Zahera), Roteiro Original, Edição, Som e Música. A história aborda e denuncia a política corrupta, os meandros do poder, das negociatas, a obsessão cega…só que, de forma muito original e intensa, o ponto de vista é o acusado, em um roteiro bem amarrado, tenso e imprevisível e que mostra todas as consequências dos atos marginais à lei, inclusive psicológicos e na vida privada, até os limites possíveis: quase que o horror. Ação e tensão mostrados com maestria, em um filme poderoso politicamente falando e que termina de forma absolutamente inesperada e com extraordinárias reticências (antes do final uma cena também chocante). Impactante, assim como a chamada do filme: os reis se vão, mas os reinos permanecem9,3

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TEEN SPIRIT

Eu vi este filme motivado principalmente pela atriz Elle Fanning (Galveston, O estranho que nós amamos, Mary Shelley…), de quem sou fã. Ela é excelente em todos os papéis que desempenha –apesar de só ter 21 anos!- e aqui o fato se confirma, inclusive com a tarefa nem sempre fácil de se interpretar o papel de uma cantora. O filme não tem lá quaisquer novidades no roteiro, repisando uma história já conhecida e exaustivamente contada. Entretanto, acima da superfície dos fatos corriqueiros (e com a boa história paralela da amizade), a interpretação dela (e com a ótima parceria com o ator croata-dinamarquês Zlatko Buric) valoriza em muito o filme em suas nuances e o tornam intenso e emocionante, principalmente na parte final. Agnieszka Grochowska, atriz polonesa, também faz um papel interessante, embora pequeno. O título diz respeito a uma competição de jovens talentos e que é a meta a ser atingida: em razão disso, somos brindados com diversas belas músicas e vários números bem coreografados, embora sempre com o ritmo vertiginoso da modernidade, que atenua um pouco a emoção, embora tenha sempre o mérito de ocultar eventuais defeitos cênicos (a famosa estética “vídeo-clip”). A fotografia é ótima, misturando diversos enfoques/temas com habilidade. Em suma, algo que poderia ser apenas um passatempo, mas que acaba sendo mais do que isso pela emoção dos momentos emoldurados pelo talento da jovem e já exponencial atriz. 8,4

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O PROJETO HUMMINGBIRD

Este é um filme que segue inicialmente um ritmo e lento e um tanto desanimador, embora seja bem produzido em sua totalidade. Só que a partir de certo ponto ocorre uma grande “guinada” e o filme se transforma de algo morno em bom suspense, com ação e emoção. Os temas e conflitos apresentados e as variantes fazem o interesse retornar e até convincente o ator Jesse Eisemberg, pelo natureza do papel que interpreta (embora eu sempre o veja como ator limitado e que parece sempre interpretar ele mesmo em todos os papéis). Estão também no elenco Alexandre Scarsgard e Salma Hayek (em papel clichê). O roteiro envolve sujeitos espertos, rivalidades, a bolsa de valores e ambições, principalmente a de se levar vantagem no acesso a informações e com isso naturalmente atrair muito dinheiro, no caso envolvendo  a instalação de um cabo de fibra ótica por uma grande extensão geográfica -bem como as dificuldades de um projeto desse quilate- e a busca pela  velocidade de comunicação cada vez maior. 8,4

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DEADWOOD (DEADWOOD O FILME)

Este excelente western tem tudo a ver com a premiada série de 2004 a 2006 da HBO, que ganhou 8 Emmy e 1 Globo de Ouro, embora possa ser apreciado sem que se faça a vinculação. Mas o título em português (“O filme”) já faz a referência, porque o roteiro apresenta uma continuação dos fatos, vários anos depois, inclusive com os mesmos personagens principais. Lá, os acontecimentos contemplavam o ano de 1876 na Dakota do Sul antes de ser anexada ao Território de Dakota e aqui o filme (da mesma HBO) aborda o ano de 1889,  época da fundação do Estado. O filme começa com a chegada de Calamity Jane à cidade e além dessa referência histórica há outras, sendo, por exemplo, Wild Bill Hickok personagem muito importante na primeira temporada da série, que também menciona Wyatt Earp e Búfalo Bill entre outros. O diretor Daniel Minahan (condutor de vários episódios de Six feet under, Game of thrones, True Blood, além da própria série Deadwood) faz um trabalho excepcional, inclusive quanto às tomadas e ângulos de câmera, fotografia, direção de arte, reconstituição de época etc…aliás, todos os elementos do filme são perfeitos, inclusive os personagens que se repetem já mais maduros, como os interpretados por Paula Malcomson (a prostituta), Timothy Olyphant (o delegado), Brad Dourif (o médico) e Molly Parker (a das posses): por esse motivo são aprofundados e criam vida palpável. Porém, o grande destaque do filme, assim como foi da série, é o ator Ian McShane, que ganhou anteriormente vários prêmios por sua marcante performance. O filme foi escrito por  David Milch, o mesmo que criou e dirigiu a série e também muito premiado na época. O roteiro dispensa maiores comentários porque realmente de excelência (inclusive nas questões políticas e éticas tratadas, abordagem do racismo, homossexualismo…). Como disse um amigo, “diálogos inteligentes num mundo cão”.  Um painel fascinante da época em que a barbárie do Oeste pouco a pouco ia cedendo vez à modernidade (telefonia incipiente, povoação mais intensa das cidades, fiscalização mais ativa e organizada da lei…), mas em que a violência e os instintos primitivos ainda tinham forte presença, fato que o filme também explora -e opõe-  ao demonstrar que determinadas condutas inerentes ao ser humano não desaparecem apesar da passagem do tempo e da aparente evolução da humanidade.  9,2

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ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

Este é um drama forte e envolvente e que desenvolve profundamente os personagens, que se defrontam com fatos imprevisíveis, muitos deles causadores de muita dor e desespero. Nem sempre os planos acontecem de acordo com as expectativas e desde o início do filme entendemos isso – por um fato específico e dá origem a tudo – e vamos então acompanhar as consequências na vida dos diversos personagens. Qual a razão de o ser humano optar por determinados caminhos? Quais os limites da crueldade ? E da consciência? Sidney Lumet é um renomado diretor americano e que tem no seu currículo “12 homens e uma sentença”, “Rede de intrigas”, “Sérpico” e “O veredito”, entre outros, dirigindo aqui mais uma obra com notável maestria.  Philip Seymour Hoffman é um ator de primeira grandeza, precocemente falecido, mas que deixou inesquecíveis trabalhos cinematográficos, como em “O mestre” e em “Capote”. E que neste filme se entrega totalmente ao papel, em uma interpretação inesquecível. O filme também tem Marisa Tomei e Albert Finney (e o caricato Ethan Hawke…mas há muitos que gostam dele!), mas principalmente um roteiro muitíssimo bem construído, consistente e verossímil e que mergulha nas profundezas do ser humano de uma forma avassaladora de causas e efeitos. Sem nenhuma concessão ou pudor. Não é filme para todos os gostos pela densidade e talvez pelo tema, mas para quem aprecia o gênero, cinema de primeira grandeza.  9,0

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O MISTÉRIO DE HENRI PICK

Este filme pode ser tido como uma síntese do ótimo cinema francês e talvez seja mais bem aproveitado se o espectador conhecer um pouco de literatura, embora não seja um ingrediente estritamente necessário: direção e elenco impecáveis, um roteiro perfeito e delicioso, com suspense, humor, ironia, algum drama…e grande vitalidade/vivacidade, nas ações e no ritmo dos diálogos, tudo compondo uma história de mistério e que é contada de uma forma absolutamente irresistível, emoldurada por cativantes personagens. Algo que aparenta ser uma fraude acaba desencadeando pistas inteligentes e uma investigação começa, com características policiais e que vai também provocar a reflexão sobre a arte, sobre a literatura especificamente, a mídia, bem como sobre a própria estrutura/instituição literária…O filme é dirigido por Rémi Bezançon e tem muitas frases e “tiradas” interessantes (e rápidas), como “tem mais escritores do que leitores na França”. Embora todo o elenco seja ótimo (Camille Cottin etc), o grande condutor do enredo é o brilhante ator Fabrice Luchini, veterano, mas que parece ser como os bons vinhos.  9,2

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MINHA FAMA DE MAU

O título do filme faz referência ao cantor Erasmo Carlos, o homenageado principal com esta biografia, assim como presta tributo à Jovem Guarda, movimento musical da década de 60 e liderado por Roberto Carlos, que a partir de certo momento e após a efervescência seguiu carreira solo. O forte do filme não são seus aspectos técnicos, nem a caracterização dos personagens (quem por sinal, em nada lembram os artistas em questão), mas a nostalgia que provoca ao reviver o Teatro Record, o movimento e a loucura que se propagou em torno dele, com as fãs incontroláveis (como ocorria com The Beatles), auditórios cheios e barulhentos e os novos ídolos cantando belas e inocentes músicas de iê-iê-iê (saídas do rock in roll, paixão comum dos artistas da época), com trajes e adereços coloridos e às vezes bizarros, acompanhados de conjuntos-base. O jeito de vestir e de se comportar e principalmente as belas e empolgantes (e eternas algumas) músicas acabam sendo a razão principal do filme, vale dizer, a emoção! Há algumas cenas ruins, falta de unidade, mas o filme mostra com ótimo ritmo a fase áurea do programa de TV comandado por Roberto e dos sucessos todos, bem como também aborda a época difícil por que passou Erasmo, a chegada concorrente e esvaziadora da Bossa Nova (até se menciona uma crítica de Elis à Jovem Guarda) e, depois de tudo, encerra com uma cena memorável entre os dois que viriam a ser uma dupla inseparável de amigos: Roberto e Erasmo Carlos (muito bom o ator Chay Suede), sintetizando o que o filme tenta mostrar, embora se saiba que os fatos podem não ter ocorrido bem dessa maneira…Mas, como dito, o que manda aqui (e na nota do filme) é só a emoção de reviver esse movimento, suas cores e sua música! Quem se deixar levar apenas pelo coração (e talvez tiver a idade certa…) vai apreciar!  8,9

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O PROFESSOR (RICHARD SAYS GOODBYE)

Uma “comédia séria”, reflexiva, filosófica, triste, melancólica, positiva, tudo misturado e em doses bem colocadas, emoldurada por uma bela direção, trilha, edição, mas principalmente por Johnny Depp protagonizando (ele é ótimo em tudo o que faz!). E coadjuvado por Danny Huston e com a performance sempre ótima de Rosemarie DeWitt (adoro essa atriz). Um filme que faz a gente pensar na vida e tentar colocar o foco no que realmente importa, ou seja, na mortalidade e na necessidade de extrairmos de nosso curto espaço no mundo as experiências mais enriquecedoras que pudermos. Um filme muito bonito na sua essência, comovente, envolvente e que é bem cuidado em todos os seus detalhes. Entretanto, pelo conteúdo, existe grande probabilidade de que gostar dele dependa da idade ou da experiência/maturidade do espectador, como também de seu modo de encarar a morte. Porque se pode observar a existência de muitas polêmicas em torno do filme e os conceitos variam, de uma até quatro estrelas, o que não é muito comum. De minha parte, gostei bastante e nem me fixei ou me aborreci com eventuais imperfeições do contexto. Comédia é comédia, embora a temática séria, e reconheço total liberdade para variados voos, os quais também aprecio. E achei tudo plausível, como cada um reage diante do inesperado. Além do quê, a última cena é realmente inesquecível, na sua aparente simplicidade.  8,8

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STOCKHOLM (ESTOCOLMO)

O filme reconstitui tão bem a época (1973), que se pensa ser uma obra antiga, da própria década, quando na verdade é produção recente. Com Ethan Hawke, Noomi Rapace e Mark Strong, entre outros, mostra um acontecimento entre vários do mesmo tipo que ocorreram na cidade de Estocolmo (Suécia) na mesma época, sendo que este mostrado aqui teria dado origem ao termo “Síndrome de Estocolmo” – expressão que acabou ficando mundialmente conhecida dois anos depois, quando ocorreu o sequestro de Patty Hearst. O enfoque aqui é de comédia, mas daquelas que envolvem temas sérios, ou seja, um drama com reltiva leveza de abordagem. O filme não tem muitas variantes e os próprios personagens não possuem muitas alternativas, mas se torna interessante por algumas situações específicas (notadamente as relativas à síndrome) e por trazer o fato que deu origem ao termo, que segundo a Enciclopédia Britânica “…tem o instinto de sobrevivência em seu coração…as vítimas vivem em dependência forçada e interpretam atos raros ou pequenos, de gentileza, no meio de condições horríveis, como um bom tratamento”.  7,7

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THE PROFESSOR AND THE MADMAN (O GÊNIO E O LOUCO)

Este é um filme de muitas virtudes, incluindo sua qualidade e equilíbrio: produção, direção, edição, trilha, arte, elenco e também a história, muitíssimo interessante e que tem uma temática central, mas em torno dela fatos que se transformam no fio condutor dramático e permitem inclusive ao ator Sean Penn apresentar talvez o maior desempenho de sua carreira. Ele está brilhante. O tema original diz respeito à realização de um ousado projeto na Londres do século 19, que foi o da elaboração do dicionário Oxford da língua inglesa (fatos reais, confirmados nos créditos finais). Talvez antes de ver o filme não tenhamos pensado em tudo aquilo que é necessário para se fazer um dicionário: simplesmente reunir em uma só coleção de livros todas as palavras possíveis de um idioma, com todos os contextos de sua existência, ramificações, origem, significados etc, com ilustrações e tudo o mais. Um universo de fatos a serem coletados e que a equipe encarregada –  da qual participou o professor James Murray, personagem de Mel Gisbon, também com ótimo desempenho – se propôs a coletar, usando como artifício de pesquisa a próprio população, que acabou colaborando para a compilação e organização do trabalho. De todo modo, são fatos muito interessantes de serem conhecidos e acompanhados e que faz com que todos nós certamente passemos a valorizar mais ainda o trabalho daqueles que constroem um dicionário de línguas. Entretanto, o lado mais obscuro e forte do filme envolve o personagem de Sean, o qual que acaba tendo uma conexão com os fatos acima. Em função dele, a história nos revela, então, cores intensas, sombrias, doentias, corajosas, idealistas/obsessivas, surpreendentes (a culpa, a redenção e impotência)…sentimos ao longo do filme uma mescla muito grande e diferenciada de emoções, viajando por caminhos inesperados e sendo brindados por personagens absolutamente humanos e reais, interpretados por um elenco muito competente, onde também brilham Natalie Dormer (Margaery Tyrell de Game of thrones), Jennifer Ehle e Eddie Marsan e por um texto também muito rico, que valoriza e dá acabamento à obra. O diretor é o iraniano Farhad Safinia (Apocalipto). Emocionante, original, denso, superlativo.  9,5