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SUPERNOVA

Cinema polonês recente (2019) e de primeira qualidade, com um realismo espetacular, que nos faz sentir como se fôssemos espectadores dos fatos. E que são impactantes, ganhando muito peso pela excelente direção do novato Bartosz Kruhlik (seu primeiro longa-metragem) e pela também excelência do elenco, composto por atores profissionais e também por moradores locais. A história é baseada em fatos reais e pode também ser interpretada de forma metafórica, inclusive sob variados olhares, com ênfase provável para o aspecto político da Polônia (corrupção, diferenças sociais…). O roteiro torna crescente o suspense e a tensão chega a níveis quase insuportáveis (justamente em razão do grande realismo das cenas), mostrando tanto a fragilidade de um mundo meio perdido e de desigualdades, quanto a imprevisibilidade dos acontecimentos diante das reações em cadeia e da intensidade das manifestações (evidente o “poder do povo” e também o perigo de uma força descontrolada!). Na definição da astrologia, Supernova é a estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso, para depois ir perdendo lentamente o seu fulgor. Sem dúvidas, um filme explosivo e que vai abalar o espectador, representando com méritos o ótimo novo cinema polonês. 8,8

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A PAPISA JOANA

Talvez a pergunta surpreenda: a Igreja Católica já teve ou não uma Papisa em sua história? A resposta é insatisfatória, infelizmente: não se sabe ao certo. O que se conhece é que, embora não haja um registro oficial dentro dos escritos da Igreja (após ver o filme, todos dirão “obviamente!”), existem inúmeros relatos a respeito, feitos a partir do ano de 1200 e também muitas lendas espalhadas a partir da Idade Média, com diversas versões para os mesmos fatos. De qualquer modo, houve várias obras a respeito e uma delas foi escrita por Donna Woolfolk Cross (Pope Joan), na qual o roteiro deste filme de 2009 foi baseado, sendo uma produção teuto(alemã)-brítano-ítalo-espanhola, dirigida pelo cineasta alemão Sönke Wortmann. É um filme longo e que procura retratar com boa aproximação a chamada’ época das trevas” que foi a Idade Média, a história no caso concentrando-se no século 9, onde grassavam a miséria, as doenças, a violência sem contenção etc, a ponto de se imaginar hoje em dia como é que as pessoas conseguiram sobreviver à Idade Média, afinal. A história de Johanna aborda os tempos da época do seu nascimento e crescimento, principalmente os fatos aos que teve de se submeter sendo mulher, em uma época na qual as mulheres além de não terem qualquer “voz”, sequer podiam ser educadas ou mesmo aprender a ler e a escrever (sugere-se no filme que a cultura feminina provocaria uma redução do útero, até a infertilidade total). Para ela, que tinha sede de conhecimentos, poucas saídas existiam, a fim de conseguir sobreviver naquele mundo cruel, insensato, violento e masculino, onde era inclusive comum se castigar fisicamente, além dos filhos, a própria esposa. Johanna é interpretada muito bem pela atriz alemã Johanna Wokalek (O grupo Baader-Meinhof, Face Norte) e também trabalham no filme, de mais conhecidos, o australiano David Wenham (o Faramir de O senhor dos aneis) e o americano conhecidíssimo em muitos filmes John Goodman (O artista, Barton Fink, O Grande Lebowski), fazendo o papel do Papa Sérgio 2º. Após uma vida difícil mas voltada para o bem e para a caridade, Johanna teria sido papisa entre os anos de 856 e 858 DC, época em que os Vikings já estavam espalhando suas “conquistas” pelo mundo. É um filme que se desenvolve de uma forma bastante eloquente e interessante, sendo efetivamente superior à média das produções que enfocam temas da Idade Média. Há instantes de violência, alguns toques de aventura, suspense, até alguma leveza e romance, mas predominam os de horror e indignação para o espectador, não apenas ao contemplar como as pessoas viviam e se comportavam naqueles tempos, mas também diante dos complôs e das conspirações políticas, que certamente sempre existiram e em todas as esferas, não sendo obviamente a Igreja uma exceção: onde há poder, estão próximos a inveja, a ambição, a cobiça e o ódio…8,7

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NOMADLAND

Este filme acaba de receber o Globo de Ouro como Melhor filme de cinema (28/2/21) e sua diretora, Chloé Zhao, o de Melhor diretor(a), fato raro para uma mulher nessa premiação. Antes de falar do filme, imprescindível explicar que esta resenha serve também como veículo para que eu expresse os efeitos que os filmes me causam e dar a ele a nota coerente com sua qualidade e conforme atingiu os meus sentidos. Não dou nota, portanto, pelos comentários ou pela fama ou por outras circunstâncias que não sejam absolutamente pessoais. Mas este espaço também vale para que, independentemente da minha nota (fator ocasional), seja registrado o merecimento de certas obras cinematográficas, embora não tenham me atingido tanto, por um motivo ou outro. Este é o caso. Eu gostei apenas moderadamente deste filme, mas reconheço nele muitos méritos como obra perfeita e acabada e que tem a sua importância como registro de uma realidade americana, inclusive sob o ponto de vista histórico. Explico: o filme conta, por meio da personagem interpretada maravilhosamente por Frances McDormand (como sempre, aliás!), a trajetória de pessoas que inseridas ou não no mercado de trabalho (com todas as implicações decorrentes), de repente resolvem se aventurar e saem com sua Van pela América afora, descobrindo novas paisagens, encarando novos desafios e usufruindo de experiências diversas e do fato de conhecer novas pessoas. Passam a viver como ciganos. Como nômades, eis o título do filme. Esse estilo de vida é muitíssimo bem retratado aqui, com doçura e sensibilidade, porém também com as cores fortes do realismo que os fatos eventualmente exigem. Vemos imagens belíssimas e instantes que encerram grande beleza, alternando com outros que mostram que o nomadismo às vezes exige algumas provações e sacrifícios. É um filme muito bem realizado, transmite o que propõe e resgata uma realidade que já existe há muito no cenário americano e que parece a cada dia ampliar seus horizontes (e que seria a antítese do chamado american way of life), deixando talvez no espectador uma vontade de um dia também tentar essa opção. Parece que estamos vendo a realidade como espectadores e que o elenco não é de atores, embora também atue no filme, de mais conhecido, o excelente e carismático ator David Strathaim. Apesar disso – e agora vem o lado do conceito que dou ao filme neste blog -, nem sempre o espectador está a fim de ver em uma tela a realidade desfilar. Um dos papéis mais importantes do cinema é transportar o público para mundos de fantasia, mesmo que com isso não se afaste muito da realidade: o glamour da fantasia é uma das virtudes mais extraordinárias do cinema, muitos filmes tendo o mérito inclusive de mostrar a realidade, porém embalada com toques da magia que só o cinema possui, ao mostrar em cores vivas a própria imaginação. Desse modo, por mais bem feitos que sejam, filmes que poderiam ser até mesmo equiparados a documentários – pela sua excelente realização, apenas tendo um formato diferente-, não são digeríveis em todos os momentos e às vezes não agradam tanto ao coração, carente de outros voos. 8,5

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SORRISOS DE UMA NOITE DE AMOR

Não parece, mas é uma comédia romântica de Ingmar Bergman, que a roteirizou e dirigiu, com o esmero técnico de sempre (fotografia, montagem etc). O que ocorre é que entre 1952 e 1955 esse grande cineasta sueco produziu várias comédias e esta, feita em 1955, foi a que o tornou conhecido internacionalmente e permitiu que passasse a ter muito mais liberdade criativa e de direcionar sua arte para onde bem entendesse. Em seguida vieram O sétimo selo e Morangos silvestres. Aqui Bergman se inspirou en passant em Sonhos de uma noite de verão de Shakespeare, concentrando a história no final do século 19, com uma miscelânea de encontros e desencontros amorosos, múltiplos romances que se chocam e se alternam, mesclando os temas de casamento, adultério, ciúmes, tudo com inteligência e picardia, muita leveza e diálogos saborosíssimos, estimulantes e apimentados, um humor sensual que brinca com o amor e que respeita o espectador com sua seriedade mas também com sua leveza. A imoralidade é celebrada, desde que acompanhe as batidas do coração! Um Bergman inesperado e já irresistível e em um gênero bem diverso daquele que acabou consagrando-o. 8,8

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A CHAVE DE SARAH

Os franceses possuem um jeito particular e muito especial de contar os fatos da segunda guerra mundial, até porque sentiram na carne os efeitos do nazismo e eles mesmos tiveram que se submeter em vários sentidos às exigências do poder. Este drama enfoca duas épocas paralelas basicamente: os anos de 2009 (a atualidade, porque o filme foi feito em 2010) e de 1942 (quando os fatos que deram origem a tudo aconteceram). Com o recurso de flash backs muito bem utilizado, a presença sempre bela e magnética da atriz Kristin Scott-Thomas (multitalentosa e com dezenas de filmes) e um roteiro consistente e emocionante, o diretor francês Giles Paquet-Brenner nos transporta de uma época a outra, em idas e vindas, através das investigações feitas pela protagonista, uma jornalista que por determinada circunstância passa a se interessar pelo passado e se dispõe a vasculhá-lo, com foco na ocupação nazista de 1942: a obsessão pela busca do que de fato ocorreu acaba ensejando uma viagem reveladora e descortinando uma fascinante embora triste história, porém também com efeitos na vida pessoal e familiar da personagem. É um filme triste e melancólico, mas ao mesmo tempo muito belo, que vai derramar lágrimas dos sensíveis, mas também provocar a reflexão de todos, mais uma vez, sobre os absurdos da guerra e do ser humano e sobre quais os valores a serem efetivamente perseguidos. E por essas reflexões também virão resgates e fios de esperança que deverão sempre existir na busca dos homens pelos valores corretos e na tentativa de não repetir os erros antigos. De conhecidos no elenco, Niels Arestrup (premiado ator, roteirista e diretor francês) e Aidan Quinn (ator americano conhecido) e mais nada será aqui revelado, para que o espectador faça a viagem que merece e enfrente mesmo aquilo que o incomoda e comove profundamente, porque, como diz a certa altura a protagonista Julia Jarmond, “a verdade também tem seu preço”. Nada que já não tenha sido contado antes, mas aqui, mesmo em meio à brutalidade dos fatos, tudo se dá de uma forma muito delicada. 9,2

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OS 7 DE CHICAGO (THE TRIAL OF THE CHICAGO 7)

Produção Netflix e que acaba de ganhar o prêmio de Melhor roteiro em drama no Globo de Ouro de 2021. Provavelmente será um forte candidato a alguns Oscars. O filme foi dirigido esplendidamente pelo também roteirista Aaron Sorkin (aclamado) e enfoca o ano de 1968, que foi o dos assassinatos de Martin Luther King, Bobby Kennedy, da eleição de Nixon e principalmente da intensificação da luta pelos direitos civis e dos protestos contra a Guerra do Vietnã (o velho e doloroso espinho!). Nesse cenário, um protesto que deveria ter sido pacífico -com foco também na convenção democrata que acontecia- acaba virando um confronto violentíssimo com a polícia e daí resultou o fato que é objeto de todo o filme: o julgamento dos supostos líderes de movimentos organizados e antipatriotas (título original), que organizaram e estimularam a manifestação e a violência. O que vemos aqui é uma atuação soberba de todo o elenco, uma perfeita reconstituição de época, uma aula de direção e edição e também de história dos Estados Unidos, expondo o racismo institucional e gerando no espectador, ao longo da exibição, os mais variados sentimentos, principalmente os de absoluta indignação e revolta. É de se pensar que se os fatos ocorreram exatamente conforme mostrados (e ao que tudo indica, sim, até porque nos créditos finais ficamos sabendo o destino dos personagens), retratam um absurdo quase inimaginável dentro de um governo organizado e de um sistema jurídico que se definia como democrático e justo, protetor das liberdades individuais. O elenco é formado por Frank Langella (espetacular como o magistrado condutor do julgamento), Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen (surpreendente com sua atuação longe do humor escrachado), Jeremy Strong, Mark Rylance (excelente como advogado de defesa), Joseph Gordon-Levitt (também excelente como o promotor que mantém limites de conduta ética), Yahya Abdul-Mateen II (ótimo, sendo ele o oitavo homem – que seria o título original do filme), Alex Sharp, Michael Keaton, John Carrol Lynch etc. Não simpatizo muito com o ufanismo americano presente em tantos filmes, mas aqui o contexto permite aceitá-lo legitimamente e valorizar as emoções que se intensificam na parte final do filme, com um fecho realmente memorável.  9,3

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O ASSASSINO EM MIM (KILLER INSIDE ME)

Em primeiro lugar: este é um filme violentíssimo, com cenas proibidas para menores, que não traz nada de positivo para a vida cotidiana das pessoas, valendo apenas como obra artística: porque a vida é repleta de dramas, mortes, assassinatos, pessoas doentias que ameaçam os semelhantes e uma das funções da arte é expor esses fatos e essas pessoas. No caso, acaba sendo o estudo de um psicopata e dizem que o filme criou repulsa até no Festival de Sundance, normalmente bastante liberal (em 2010). Portanto, é um filme que não faz concessão alguma à sensibilidade do espectador (com cenas fortes de sadismo inclusive!), sendo efetivamente recomendado para quem gosta de obras pesadas e tem estômago para apreciar com os olhos adequados os acontecimentos policiais que habilmente são mostrados e muito bem interpretados por um ótimo elenco, integrado entre outros por Casey Affleck, Jéssica Alba, Kate Hudson, Ned Beatty, Elias Koteas, Tom Bower, Simon Baker e Bill Pullman. Mas é um roteiro interessante e bem elaborado, porque além de denso é imprevisível, mantendo um constante suspense e o filme apresenta uma inesperada, bela e variada trilha sonora (Mahler, Irving Berlin, Strauss etc), incluindo a tocante Una furtiva lagrima, da ópera L´elisir d´amore, de Donizetti (1832). Não é um filme de fácil digestão, mas quem o apreciar ficará grudado na tela até o fim, impactado com as ações (e a performance) de Lou Ford -aparentemente um pacato cidadão-, surpreso com um fato ou outro e na expectativa sobre a que fim todo o enredo levará. 8,5

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O DUBLÊ DO DIABO

Este filme americano de 2011 é baseado em obra literária e consegue ao longo de sua exibição fazer um retrato supostamente histórico-biográfico do psicopata que Uday Hussein, filho mais velho do ditador Saddam Hussein  -que aparece no filme, com um supremo poder evidente, mas até comportado (e com um dublê), exceto por uma cena específica, em que revela todo o seu lado selvagem-, além de deixar o espectador bastante impactado em vários momentos. Muitos já ouviram falar que grandes homens da história, sejam reis, sejam tiranos, contratavam e contratam dublês, a fim de se protegerem de eventuais ataques/atentados. É o caso de Uday, monstro sem quaisquer resquícios de moral ou humanidade, viciado em cocaína, alcoólatra, estuprador, inconsequente e que impôs, abaixo de seu pai mas com poderes (e opulenta riqueza), muitos horrores aos seus chamados “súditos”, ou a quem tinha a infelicidades de se colocar sob sua mira e/ou interesse. O filme é intenso e eletrizante, ao mostrar as loucuras e insanidades do primogênito de Saddam, mas também um quadro político do Irã no início dos anos 90 e as ações concentradas em Uday e no seu dublê, Latif, imposto para substitui-lo quando conveniente  -com requintes de procedimentos estéticos para igualar ambos, já parecidos por natureza. Justamente pelo fato de Latif ter escrúpulos, formação e regras éticas, os conflitos serão inevitáveis e irão acontecer sem concessões à violência de todas as forma. O ator britânico Dominic Cooper (Mamma mia) interpreta magnificamente os dois papéis, contribuindo, junto com o diretor neozelandês Lee Tamahori (007 – Um novo dia para morrer), para um clima de realismo e que vai chocar e emocionar durante todo o filme, em vários momentos em alta intensidade. Na verdade, um dos filmes mais violentos e impactantes dos tempos atuais do cinema. Ludivine Sagnier (Lupin) empresta ao filme sua beleza e talento, porém alguns momentos com ela, na parte final, causam um curto empobrecimento na ação, embora seja algo efetivamente rápido e de forma alguma comprometa o contexto e o resultado, que é esplêndido em termos de cinema de ação e também sob o ponto de vista histórico: na parte dos créditos finais, ganhamos alguns esclarecimentos para nos situarmos melhor dentro do painel de realidade da história e se realmente presenciamos fatos reais, são eles de uma barbárie tal, que se tornam quase inacreditáveis diante de um ponto de vista da civilização.  9,2

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O MOÇO DE FILADÉLFIA (THE YOUNG PHILADELPHIANS)

A Filadélfia é uma cidade tradicional, a maior do Estado americano da Pensilvânia, sendo conhecida também por sua rica história: ali foram assinadas a Declaração da Independência e a Constituição e em 1740 Benjamin Franklin fundou a Faculdade da Pensilvânia (que virou Universidade em 1765). Envolvendo famílias tradicionais e também mais humildes, este filme de 1959 (cujo cartaz é de péssimo gosto) é bem acima da média, com ótima direção e ritmo na condução de Vincent Sherman (ator e diretor, inclusive de séries de TV, como Os Waltons e Baretta), enfocando a origem e a trajetória do personagem interpretado por Paul Newman (supostamente de origem tradicional – mas esse é um segredo, mantido ao longo do filme, mas não do espectador), que deseja ser advogado e que enfrenta não apenas questões sociais e amorosas, como éticas da profissão ao longo do seu percurso. É um drama com toques românticos e desenvolve bem os personagens, quanto a seus caminhos, seus sonhos, suas obsessões e os referidos conflitos profissionais, tendo ainda as sempre empolgantes cenas de tribunal. Newman, jovem e já carismático e Bárbara Rush da mesma forma jovial e talentosa, estão no auge da beleza, sendo também ótimos intérpretes, o mesmo ocorrendo aqui com Robert Vaugh (O agente da UNCLE dali a uns anos), que inclusive foi indicado ao Oscar de Melhor ator coadjuvante, em um papel que começa sem muito destaque, mas que adquire relevância ao longo da história. O filme também teve mais duas indicações ao Oscar: Figurino e Fotografia em P&B. Brian Keith e o restante do elenco também desempenham muito bem e é de se registrar a presença meteórica de Adam West (futuro Batman da TV). É um roteiro dos chamados “bons tempos”, consistente, rico e imprevisível, portanto muito interessante para se degustar. 8,7

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GLOBO DE OURO – relação dos vencedores (28/2 – 1/3/21)

GLOBO DE OURO 2021

Cinema

MELHOR FILME – DRAMA

Nomadland

MELHOR FILME – MUSICAL OU COMÉDIA

Borat: fita de cinema seguinte

MELHOR DIRETOR

Chloé Zhao — Nomadland

MELHOR ATRIZ DE FILME – DRAMA

Andra Day — Estados Unidos vs Billie Holiday

MELHOR ATOR DE FILME – DRAMA

Chadwick Boseman — A voz suprema do blues (PÓSTUMO)

MELHOR ATRIZ EM FILME – MUSICAL OU COMÉDIA

Rosamund Pike —I care a lot

MELHOR ATOR EM FILME – MUSICAL OU COMÉDIA

Sacha Baron Cohen — Borat: Fita de cinema seguinte

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Daniel Kaluuya — Judas e o messias negro

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Jodie Foster — The Mauritanian

MELHOR ROTEIRO

Os 7 de Chicago

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

Minari – Em busca da felicidade — EUA

MELHOR ANIMAÇÃO

Soul 

MELHOR TRILHA SONORA

Soul — Trent Reznor, Atticus Ross, Jon Batiste

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

Io Si (Seen) (Rosa e Momo) — Diane Warren, Laura Pausini, Niccolò Agliardi

Televisão

MELHOR SÉRIE – DRAMA

The Crown

MELHOR SÉRIE – MUSICAL OU COMÉDIA

Schitts Creek

MELHOR SÉRIE LIMITADA OU FILME PARA TV

O Gambito da Rainha

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE – DRAMA

Emma Corrin — The Crown

MELHOR ATOR EM SÉRIE – DRAMA

Josh O’Connor — The Crown

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE – MUSICAL OU COMÉDIA

Catharine O´Hara —Schitt´s Creek

MELHOR ATOR EM SÉRIE – MUSICAL OU COMÉDIA

Jason Sudeikis — Ted Lasso

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE LIMITADA OU FILME PARA TV

Anya Taylor-Joy — O Gambito da Rainha

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE

Gillian Anderson — The crown

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE

John Boyega — Small Axe

MELHOR ATOR EM SÉRIE LIMITADA OU FILME PARA TV

Mark Ruffalo — I know this much is true.

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DO DESTINO NINGUÉM FOGE (THE LEFT HAND OF GOD)

A história é baseada no primeiro livro de uma trilogia e o filme foi exibido nos cinemas em 1955, com direção de Edward Dmytryk, cineasta canadense que dirigiu também A nave da revolta, Os deuses vencidos e Rancor, entre outros. Os intérpretes mais conhecidos são Gene Tierney (Laura, Amar foi minha ruína, O fio da navalha…), Humphrey Bogart (Casablanca, Relíquia macabra, Uma aventura na África, A condessa descalça, À beira do abismo, A nave da revolta, O tesouro de Sierra Madre etc etc), E. G, Marshall (12 homens e uma sentença, A nave da revolta…), Agnes Moorehead (Soberba, Belinda, Cidadão Kane etc., ficando bastante conhecida na série de TV A feiticeira pelo papel de Endora, a mãe de Samantha) e Lee J. Cobb (12 homens e uma sentença, Sindicato de ladrões, Meu nome é Coogan). Mas acaba sendo o elenco o verdadeiro destaque do filme (além da boa produção, com belos cenários), porque é um filme comum, que poderia bem passar em uma Sessão da tarde, despretensiosamente, não merecendo nenhuma especial menção na carreira de Bogart ou de Tierney, que, aliás, não apresentam em cena qualquer química que pudesse sequer levemente criar um sentimento de arrebatação para o espectador, que assiste a tudo praticamente impassível, sem vivenciar nenhuma emoção em especial. Assim, embora a mensagem do filme seja bonita, principalmente em seu final, efetivamente faltou um roteiro mais bem elaborado e que fizesse jus ao famoso par de protagonistas. 7,6

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A CONDESSA DESCALÇA (THE BAREFOOT CONTESSA)

Discordo de qualquer crítica que não coloque este filme de 1954 em um nível muito elevado ou abaixo de “ótimo”. Eu o considero excelente e um dos melhores produzidos não só naqueles famosos anos 40/50, como em toda a história do cinema. O filme é deslumbrante, em cenários, cores e figurino (as roupas da protagonista são maravilhosas, em especial a da noite do casamento, difícil de descrever em termos de beleza, considerado no conjunto com a também bela atriz). Basta ver alguns filmes de Ava Gardner, para se concluir que foi uma das grandes intérpretes do cinema e Humphrey Bogart dispensa comentários, pois foi realmente uma lenda. Ambos estão esplêndidos e um dos pontos mais fortes do filme são os diálogos, inteligentes, oportunos, em alguns momentos rápidos e cheios de picardia (bem ao estilo Bogart), mas sempre inteligentes, não raro brilhantes. Há uma cena especialmente marcante, em que os sentimentos ficam ocultos pelas palavras, embora latentes, que é a da conversa entre Harry e Maria na saída dele da festa de casamento. A história é muito interessante, com flashbacks perfeitos, iniciando em um enterro, mas não revelando a causa da morte, que só saberemos no final do filme, quando outra inesperada surpresa também será revelada. Uma belíssima história, um roteiro que merecia o Oscar, embora tenha sido indicado (perdeu para o de Sindicato de ladrões). A outra indicação do filme e na qual ganhou foi para Melhor ator coadjuvante, sendo reconhecido o ótimo trabalho de Edmond O´Brien. Quanto a Bogart, poderia muito bem ter sido indicado ao Oscar por este filme, mas no mesmo ano trabalhou em A nave da revolta (The Caine mutiny) e por ele foi indicado: mas ganhou Marlon Brando, também por Sindicato de ladrões. O filme é em boa parte narrado, mas de forma original tem três narradores, em momentos diversos. Filmado grande parte na Itália, também nele atua e muito bem Rossano Brazzi, famoso ator, roteirista, produtor e diretor italiano. O diretor é Joseph Mankiewicz (Quem é o infiel?, A malvada, Júlio César, De repente no último verão, Cleópatra etc).  9,5

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GIANT (ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE)

Um filme de longa-metragem, produzido em 1956, dirigido por George Stevens (Um lugar ao sol, Os brutos também amam…) e estrelado por Rock Hudson e Elizabeth Taylor (grandes amigos na vida real). Ele, galã na época (31 anos) e intérprete, entre outros, de vários faroestes e de Sublime Obsessão e Tudo que o céu permite; ela, uma beleza indiscutível já aos 24 anos, com seus famosos olhos violetas e já tendo atuado em Um lugar ao sol, mas antes de participar de sucessos que a consagrariam como a grande atriz que foi, como Cleópatra, Quem tem medo de Virgínia Woolf?, Gata em teto de zinco quente, Disque Butterfield 8, A megera domada…Também trabalham no filme, ainda bem jovens, Denis Hooper, Rod Taylor, Sal Mineo e Carrol Baker. E se destacam também as interpretações de Mercedes McCambridge (irmã do poderoso Bick Benedict) e de Chill Wills (como o tio Bawley). Deixei por último James Dean, porque apesar de ter sido elevado a ícone por Hollywood (já que morreu jovem e tragicamente com apenas 3 filmes feitos e uma imagem de rebelde que deixou gravada), era um ator que efetivamente nunca me convenceu, exceto em um ou outro momento cênico: fez nos únicos três filmes de que participou exatamente o mesmo tipo esquisito e irritante e só para fins chamativos (e não por razões do contexto dramático), sendo um tipo de ator que ao invés de crescer diante das câmeras, simplesmente encolhe e desaparece. De todo modo, a mídia, que transforma água em petróleo, petrificou o mito e ele inclusive foi indicado, junto com Rock Hudson, para o Oscar de Melhor ator no ano de 1957 (por este filme, obviamente), sendo a sua segunda indicação póstuma, único ator a ter essa honra (na verdade, as filmagens ocorreram em 1955 e o filme foi lançado no ano seguinte, portanto após a morte de Dean, que ocorreu no final de 1955). A esse respeito, este filme teve 10 indicações ao Oscar, sendo que além das duas citadas (de ator e que não ganharam), também as para Melhor filme, diretor (único que ganhou), atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), roteiro adaptado, montagem, trilha sonora, direção de arte em cores e figurino. É um filme com muitas virtudes e alguns defeitos, em suas mais de 3 horas de duração. Às vezes demonstra as dificuldades naturais de se adaptar uma obra literária, no sentido de serem dramatizados os temas principais e sem uma ruptura entre os fatos e épocas. Justamente aí residem alguns aspectos negativos do filme: a passagem do tempo, de uma época para a outra, sendo curioso que o filme tenha sido indicado ao Oscar de montagem, justamente uma de suas maiores falhas. Além disso, há algumas cenas mal ou não resolvidas e que necessitariam de uma maior lapidação. Em resumo, o filme poderia ter sido muito melhor do que é, se mais bem editado e talvez até dirigido, embora o Oscar para Stevens. Mas como é um filme grandioso, com belas imagens e mensagens, deixa em segundo plano suas poucas imperfeições, embora claramente prejudiquem o todo harmônico. Há instantes em que o filme fica até meio enfadonho em razão do que foi acima exposto. Mas as qualidades são muito e preponderam, enfocando com ênfase o caráter e o orgulho/os costumes dos texanos (uma espécie de gaúchos americanos…), inclusive o machismo e contando uma saga épica de várias gerações, ao mesmo tempo que a mudança dos conceitos e hábitos, com a vinda da busca desenfreada pelo petróleo (deixando pobres ricos da noite para o dia), em troca das antigas criações de animais. Dentro do tema e mostrando a grandiosidade e também as virtudes dos texanos e as transformações pelo progresso e pelo tempo, o filme também alfineta o preconceito social e racial, sendo poderoso em sua cena final justamente nesse aspecto, mostrando um paralelo humano inesquecível como fecho de sua mensagem. A parte final do filme é excelente, concentrando-se na ascensão, riqueza e poder, mas basicamente na rivalidade entre dois homens e suas consequências, escancarando também um segredo que se escondia sob as aparências. Um filme do tipo que não se faz mais, que ficou de certa forma como um clássico, mas que poderia ter sido uma obra-prima. 8,8

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VERNOST (FIDELIDADE)

Este é um filme russo e seu nome significa “lealdade”, embora o título possivelmente provisório- em português não seja ruim, dentro do contexto todo. Mas vendo o filme não encontramos indícios de ser uma produção russa, o que foi proposital acredito, porque lhe dá um alcance universal – o estilo do filme, na verdade, se parece com o do cinema alemão, pelo modo de contar a história e pelo realismo dramático (e das cenas de nudismo e/ou sexo). Mas a diretora é de formação russa, nascida no Tajiquistão (Nigila Sayfullaeva) e a bela protagonista de 32 anos é igualmente russa (Evgeniya Gromova). Aliás, ela é uma mulher lindíssima, o que se mostra também importante dentro do enredo, começando o drama com as suspeitas que ela passa a ter (por mensagens no celular, obviamente…nos dias de hoje…), de que o marido está tendo um caso extraconjugal, já havendo mostras de cansaço, no relacionamento que os dois estão tendo. A  tensão se acentua a partir daquele fato e da conduta que ela passa a assumir. É um filme lento, que não causa grandes arrebatamentos e dependente em muito das expressões faciais e corporais da atriz, que se dá muito bem e foi até premiada em festivais, ao contrário do ator que faz o marido, que efetivamente não me convenceu, mostrando uma interpretação instável, com bons e maus momentos (porém ao que parece não foi o que a crítica entendeu, pois o sujeito foi até indicado em premiação de melhor ator – não ganhou). Entretanto, é muito bem feito e o ritmo também faz parte das intenções do roteiro, embora esse andamento às vezes até arrastado tenha certamente sido responsável pelo acentuado número de críticas negativas. Mas não são totalmente justas, porquanto não é uma história já banalizada e se trata de um filme que a partir da primeira cena já denota um cuidado com a produção, com a fotografia especialmente (há algumas imagens belíssimas, tanto de paisagens como da própria protagonista), sendo bem feito em seu todo e com boas interpretações, principalmente de Gromova (com a restrição já feita ao ator que faz o marido) e passa com qualidade a mensagem pretendida. Não é algo memorável, mas é bom cinema e acima da média que anda por aí, notadamente por mostrar o nível elogiável atual do cinema russo.  8,5

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EU ME IMPORTO (I CARE A LOT)

Primeiramente, desejo registrar que discordo de todas as críticas negativas sobre este filme e até mesmo (com o perdão da arrogância forçada) acho que a razão de muitas pessoas não gostarem dele é porque o encararam de um modo sério, quero dizer, como a um thriller dramático comum. Mas este não é um drama sério e sim um drama cômico, discretamente satírico e certamente crítico, com suspense e ação, estilo policial e que faz essas críticas contra o sistema, especificamente voltadas a instituições de idosos e ao poder judiciário. Só que o faz nas entrelinhas de um roteiro bem elaborado, criativo e imprevisível, dando a impressão de que são meramente acessórias, quando na verdade são fundamentais: o duelo dos criminosos (cada um com suas facetas e estilo!) é uma delícia e um atrativo à parte, até porque não adivinhamos que fim terá. Isso graças também ao talento e à empatia do trio central, formado por Rosamund Pike (Garota exemplar e que aqui está simplesmente perfeita!), Peter Dinklage (o Tyrion em Game of thrones) e Dianne Wiest (veterana e excelente atriz, com meia centena de filmes, entre eles A mula e vários de Woody Allen). O filme estreou mundialmente no Festival de Toronto em setembro de 2020 e é mais uma produção Netflix. Um filme realmente interessante (inclusive em seu final), com belas interpretações e constituindo uma ótima distração tanto ao criticar o way of life americano, quanto ao roteiro, repleto de criatividade e alternâncias. Direção do inglês de poucos filmes Jonathan Blakeson. 8,8

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AEROPORTO

Este filme, baseado em fatos reais, é de 1970 e em razão do seu sucesso teve várias continuações: Aeroporto 75, Aeroporto 77 e Aeroporto 80 (O concorde, feito em 1979). É considerado o filme que inaugurou o gênero “filme-catástrofe” (ou “cinema-catástrofe”), vindo depois dele O destino do Poseidon, O Inferno na torre e vários outros. Aqui vemos os dramas rotineiros de um grande aeroporto, no caso do Aeroporto Lincoln, próximo a Chicago (fictício), com a abordagem de diversos assuntos que ainda hoje são discutidos, como a jornada fatigante dos controladores de voo, a necessidade do aumento dos terminais e de outras estruturas, inclusive humanas, o impacto sonoro dos aviões na vizinhança do aeroporto etc. Há obviamente dramas específicos com maior destaque, contemplando relacionamentos clandestinos, como os do diretor geral do aeroporto com sua secretária e de um piloto com uma das aeromoças, mas as questões mais urgentes ocorrem a partir de um bloqueio parcial de uma pista por um avião que manobrava para estacionar (com clima de nevasca), ficando, porém, preso no meio da manobra pelo acúmulo de neve…e de um voo específico, onde o centro nevrálgico da ação vai ocorrer, com uma miscelânea de pessoas dentro do avião, incluindo uma passageira clandestina/penetra e um homem com uma maleta especialmente suspeita. O drama vai se acentuar e o suspense tomar conta do roteiro e contagiar os espectadores: apesar de superados os efeitos especiais hoje em dia e de o suspense não alcançar os níveis que poderia mesmo naquela época, o filme foi muito bem feito e atingiu seus objetivos de entreter, informar e causar bastante tensão. Apesar de indicado para 10 categorias do Oscar (incluindo a de Melhor filme e sendo 2 atrizes para a de Melhor atriz coadjuvante: Helen Hayes – a velhinha e Maureen Stapleton – a senhora Guerrero), só ganhou justamente na de Atriz coadjuvante, premiando Helen Hayes. Entretanto, Maureen Stapleton ganhou, nessa mesma categoria,  o Globo de Ouro e o Bafta (o Oscar inglês). Trabalharam no filme também Burt Lancaster (o maior sucesso comercial de sua carreira, iniciada na década de 40 e que iria se prolongar por ainda muito tempo), Jacqueline Bisset (então com 26 anos e uma linda novata), Dean Martin, Jean Seberg, George Kennedy, Van Reflin, Barry Nelson e Lloyd Nolan. O diretor foi George Seaton. Curiosamente, os aviões que aparecem nas filmagens são todos 707 (primeira ordem naquela época) e o que foi usado como principal foi mais tarde adquirido pela Transbrasil para transportar carga e se envolveu em um grave acidente perto do aeroporto de Guarulhos em 1989, no qual morreram os 3 tripulantes e mais 22 pessoas em terra. A trilha sonora é do conhecidíssimo -9 Oscars- Alfred Newman (Suplício de uma saudade, A canção de Bernadette, A malvada, O pecado mora ao lado etc etc), que ganhou o Grammy pela música deste filme.  8,7

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UM ROSTO NA MULTIDÃO (A FACE IN THE CROWD)

Este filme, de 1957 e dirigido pelo grande Elia Kazan (A luz é para todos, Vidas amargas, Sindicato de ladrões, Terra de um sonho distante etc etc) tem um roteiro muito parecido com o de A grande ilusão (All the king´s men), que ganhou o Oscar em 1950. Mas e daí? Independentemente disso gostei muito dele e reconheci grandes méritos em vários sentidos, a ponto de julgar injustificável sua total ausência no Oscar de 1958. Nem diretor, nem ator foram indicados, apesar da performance espetacular de Andy Griffith, como o inesquecível Lonesome Rhodes -o ator, em sua carreira, foi ator, diretor, produtor, cantor gospel, escritor, tinha um programa de TV com o seu nome e recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade em 2005 do Presidente George W. Bush. E até Patrícia Neal, pela ótima interpretação, poderia ter sido lembrada, sem nenhuma injustiça. Ou Walter Mattau, que faz um belo papel (o filme tem ainda, entre outros, Anthony Franciosa e a bela Lee Remick, praticamente estreando no cinema com seus 22 anos e cinturinha de ampulheta). Talvez o único fato que justifique o filme não ter sido indicado em sequer uma categoria do Oscar seja os problemas da Indústria cinematográfica e de algumas pessoas com Elia Kazan, que por interesses pessoais ou ideológicos (seus amigos afirmam que Kazan agiu com total lisura e não como um delator ou para prejudicar colegas) acabou denunciado vários colegas de cinema, comunistas, ao Comitê de Investigações de Atividades Anti-Americanas. A esse respeito, Orson Welles teria dito: ele trocou a alma por uma piscina. Oscars à parte, trata-se de um filme que discute a questão da fama e do poder e sua vinculação com a corrupção e a vaidade. A certa altura, Marcia (personagem de Patricia Neal) diz a Lonesome Rhodes: você está cada vez mais parecido com aquilo que costumava atacar! O fato é que o filme constrói um fenômeno de popularidade, com todo o clima de sucesso, fãs histéricas etc e mostra todos os passos dessa construção e do percurso do personagem, no caso Lonesome Rhodes, à medida em que vai se tornando poderoso e responsável pelos altos índices de popularidade de suas apresentações. Discutem-se então várias temáticas, entre elas a dos fenômenos de massa e a manipulação desse público, a criação de falsos ídolos e toda a política envolvida, as camadas de fantasia criadas para vender os produtos, mas também a necessária relação do triângulo corrupção-poder-vaidade (“meu pecado preferido”, segundo o personagem de Al Pacino no filme “O advogado do diabo”) etc. O final não é muito criativo, embora seja totalmente coerente com o contexto e com o próprio patológico do personagem, que nos faz lembrar que ninguém é insubstituível e também de um famoso ditado latino: sic transiti gloria mundi (a glória do mundo é transitória).  8,8

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CLEÓPATRA

Um filme monumental, com mais de quatro horas de duração (e ainda foi reduzido das seis horas iniciais) e que quase levou a 20th Century Fox à falência. Além de ser uma superprodução e dos seus vultosos gastos inclusive operacionais, houve vários problemas durante as filmagens (com mudanças de diretor, elenco, cenários etc e o escândalo do romance entre Elizabeth Taylor -casada na época- e Richard Burton, que se casariam somente algum tempo após o lançamento do filme). Mas realmente é uma produção fabulosa. E não apenas pela sua exuberância visual, fotografia, trilha, figurinos (há cenas extremamente marcantes, como as da entrada de Cleópatra em Roma, da galé egípcia real navegando, do banquete de mil e uma noites no barco etc), mas também porque é um dos filmes épicos que mais bem retrata a realidade da história, de Roma, do Egito e da trajetória de Júlio César e Cleópatra, como encontramos nos livros e nos relatos feitos. É um dos raros filmes que mostra um Júlio César humanizado, mas poderoso, corajoso mas sensato, inteligente e estrategista, enfim, um “quase Deus romano” dotado de sensibilidade e prudência ao agir, notadamente nos conflitos de poder/autoridade com Cleópatra, que renderam ótimos diálogos e momentos do filme. Além disso, o filme mostra que César tinha um problema recorrente de saúde, sujeitando-se a fortes ataques que os historiadores discutem se de epilepsia ou de uma fortíssima enxaqueca. A história do filme começa com a derrota da legião de Pompeu (e sua fuga) para a de César e depois a ida deste último ao Egito (país grande produtor de trigo e por isso essencial foco dos interesses romanos), passa pelo incêndio de parte da Biblioteca de Alexandria por volta de 46 a.C. (a cidade era a capital do Egito na época, na qual vemos o famoso Farol em uma ponta: uma das Sete Maravilhas do mundo antigo), pelo assassinato de César, a assunção de seu braço direito Marco Antonio, o comando do império pelo herdeiro de César, Otávio, até a invasão do Egito pelos romanos e as cenas finais que ficaram famosas na história, envolvendo Cleópatra e Marco Antonio (e a áspide). Todo o elenco está excelente, principalmente Rex Harrison/Júlio César (indicado ao Oscar de Melhor ator), Elizabeth Taylor/Cleópatra (que poderia ter sido indicada perfeitamente), Richard Burton/Marco Antonio e Martin Landau/Rufio. Roddy McDowall não compromete no papel de Otávio, mas eu acho esse ator sempre meio caricatural: isso à parte e de todo modo, ele foi, na vida real, talvez o maior amigo de Liz Taylor, desde a juventude e até a morte da atriz, curiosamente sendo além de ator também ótimo fotógrafo e tendo tirado a única foto em que Taylor aparece nua, quando tinha cerca de 20 anos de idade, sendo tal foto vendida a um colecionador e divulgada apenas depois do falecimento da diva. O diretor foi o celebrado e prolífico Joseph Mankiewicz (Quem é o infiel, A malvada, Júlio César, A condessa descalça…) e o filme foi indicado a 9 Oscars, ganhando os de Figurino, Fotografia em cores, Direção de arte em cores (essa não tinha como não ganhar!) e Efeitos visuais e perdendo nas categorias de Filme, Ator (Rex Harrison), Edição, Trilha sonora e Mixagem de som. 9,0

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CADA UM VIVE COMO QUER (FIVE EASY PIECES)

Um filme de 1970 do qual não gostei muito, achando muito deprimente, aborrecido em muitos trechos e aspectos e sem uma coerência aceitável em determinados detalhes, além de datado, apesar de tratar justamente de um personagem perdido e à procura de algo que nem mesmo ele parece saber, despido de sonhos, de sentimentos e até de caráter. Mas o filme pode e deve agradar alguns (e até bastante, principalmente os intelectuais e os que gostam de filmes de arte – porque há um conteúdo a ser discutido) e tem algumas relevâncias, embora caiba a advertência de que são qualidades artísticas e de obra cinematográfica e não exatamente relativas a uma boa diversão. O filme efetivamente não é divertido. É seco e estranho, como o personagem de Jack Nicholson, que aqui sem dúvidas é um dos pontos positivos: o ator tinha 33 anos nessa época e já interpretava com destaque, principalmente um personagem difícil, como é o de Robert. Com ele inclusive há várias cenas no mínimo interessantes, como a do piano em cima do caminhão, a do acesso de histerismo/raiva dentro do carro e, claro, a cena final, que efetivamente tem total sentido dentro do contexto. Ele estava praticamente iniciando no cinema de sucessos que viriam depois em doses bem maiores (com Ânsia de amar, Chinatown, Um estranho no ninho, O iluminado, Batman etc) e antes deste filme havia participado apenas de seis ou sete produções, embora algumas importantes como A pequena loja de horrores, O corvo e Sombras do terror, mas principalmente Sem destino, de 1969, onde fez grande sucesso embora em papel secundário. Neste filme o personagem vive em conflitos, com mil mundos habitando sua cabeça e em permanente crise existencial, o que de fato passa certa angústia ao espectador, mérito também do diretor Bob Rafelson (Sem destino, O destino bate em sua porta, Sangue e vinho (todos com Jack), A última sessão de cinema, Despedida em Las Vegas, entre outros). É um drama melancólico, com tons deprimentes, todavia todo o clima que passa é evidentemente proposital, de modo que devem ser reconhecidas suas qualidades também nesse aspecto, sendo talvez a mais perturbadora a relação de Robert com Rayette, personagem esta que escancara a miséria humana da submissão feminina: apenas ela parece não perceber o absurdo e a infelicidade na qual vive com o companheiro opressor (e desinteressado por ela verdadeiramente) e agressivo, mendigando carinho e prostrando-se na inércia de quem não ter outra alternativa a não ser seguir sendo humilhada e tratada como objeto. Nesse sentido, palmas também para a atriz Karen Black, que faz Rayette e que foi indicada ao Oscar de Atriz coadjuvante pelo papel. O filme teve outras três indicações: Melhor filme, Melhor ator e Melhor roteiro original. Também trabalha no filme, entre outros, Susan Anspach, com quem, dizem, Nicholson tinha um relacionamento amoroso à época. Por fim, outro fator positivo é a trilha sonora, que mistura músicas clássicas (Chopin…) com as bem típicas dos anos 60/70, começando com Stand by your man -que inicia o filme e já antecipa as escolhas de Rayette…nesse sentido, seria a plácida submissão, mas existem os que defendem o sentido do amor verdadeiro! Essa canção (que alavancou a carreira de Tammy Wynette) e algumas outras são da própria Tammy e no caso de Stand by your man, é considerada uma das melhores músicas country de todos os tempos. 7,6

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SE MEU APARTAMENTO FALASSE (THE APARTMENT)

Uma comédia dramática romântica muito boa de assistir, produzida em 1960 e indicada a 10 Oscars, com Jack Lemmon e Shirley MacLaine estrelando, mais Fred MacMurray, Jack Kruschen (Dr. Dreyfuss) e grande elenco. Os Oscars ganhos foram os de Melhor filme, Melhor diretor (Billy Wilder), Melhor roteiro original, Melhor montagem e Melhor direção de arte em p&b. Os que não ganhou: Melhor atriz, Melhor ator, Melhor ator coadjuvante (Jack Kruschen), Melhor mixagem de som e Melhor fotografia em p&B. Apesar disso, Jack Lemmon e Shirley MacLaine ganharam nas referidas categorias o Globo de Ouro, o Bafta (Oscar inglês) e diversos outros prêmios. Esta é uma história com muita dinâmica e emoções de várias ordens, mostrando a vida difícil de um funcionário de uma grande seguradora, que para agradar as chefias acabava emprestando seu apartamento de solteiro para encontros amorosos. Jack Lemmon já havia feito alguns filmes antes deste, mas o seu grande destaque foi um ano antes em Quanto mais quente melhor, no qual fez um papel inesquecível, que inclusive protagoniza um dos melhores finais de filme (memorável realmente!) da história do cinema! Shirley MacLaine era praticamente uma iniciante quando realizou este filme, com 26 anos de idade, mas cinco anos antes já havia atuado, em O terceiro tiro, de Alfred Hitchcock. Fred MacMurray participou de inúmeras produções anteriores incluindo A nave da revolta (1954) e já era cinquentão na época deste filme, mas o que o tornou mais conhecido foi Pacto de sangue, em 1944, com Bárbara Stanwyck, também dirigido por Billy Wilder, que entre outros filmes conduziu também Farrapo humano, Crepúsculo dos deuses, A montanha dos sete abutres, Inferno nº 17, Sabrina, O pecado mora ao lado, Testemunha de acusação, Quanto mais quente melhor, Irma la douce. Este é um filme que emociona, faz pensar, mas tudo é muito leve e muito dinâmico e o tempo certo para a diversão, graças à segura direção e ao casal de protagonistas, ele com aquele jeito próprio que mistura bondade humana, ingenuidade, conformismo e generosidade, ora grandioso, ora com cara de miserável; ela, lindinha e meiga, respirando juventude e já mostrando talento de sobra, tendo ambos além disso uma boa química. Um retrato das relações humanas, repletas de facetas boas e ruins, com diálogos muito bons e bem dosados, como de resto todo o filme.  8,9