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OSCAR 2021 – RESULTADOS                                                                     Vencedora do bolão (15 acertos de 20): Bárbara Roberta Pereira (Itajai/SC)

1)MELHOR FILME

Nomadland

2)MELHOR DIREÇÃO

Chloé Zhao – Nomadland

3)MELHOR MONTAGEM

O Som do Silêncio

4)MELHOR ATOR

Anthony Hopkins – Meu Pai

5)MELHOR ATRIZ

Frances McDormand – Nomadland

6)MELHOR ATOR COADJUVANTE

Daniel Kaluuya – Judas e o Messias Negro

7)MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Yuh-Jung Youn – Minari

8)MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Bela Vingança

9)MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Meu Pai

10)MELHOR FOTOGRAFIA

Mank

11) MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO (DIR.ARTE)

Mank

12)MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste – Soul

13)MELHOR FIGURINO

A Voz Suprema do Blues

14)MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

A Voz Suprema do Blues

15)MELHOR SOM

O Som do silêncio

16)MELHORES EFEITOS VISUAIS

Tenet

17)MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

Fight for You” – Judas e o Messias Negro

18)MELHOR FILME internacional

Druk: Mais uma Rodada (Dinamarca)

19)MELHOR ANIMAÇÃO

Soul

20) MELHOR CURTA metragem

Two distant strangers

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RADIOACTIVE

Produção britânica (Netflix) de 2019, que apresenta um importante conteúdo histórico-biográfico, mostrando tanto a vida científica, quanto a pessoal da laureada cientista polonesa-francesa Marie Curie, aqui interpretada pela ótima Rosamund Pike (atriz que brilhou recentemente no filme “Eu me importo”). Marie e seu marido Pierre (Sam Riley) ganharam juntos o Prêmio Nobel de Física em 1903 (mas só ele foi na cerimônia sueca), descobrindo elementos da radioatividade e ela continuou nas pesquisas, sendo novamente vencedora do Nobel em 1911, dessa vez em Química, fato raro inclusive para uma mulher. Aliás, a condição de mulher cientista é mostrada no filme como um desafio pessoal, em um mundo e um tempo de predomínio masculino, sendo no final do filme exibida uma foto em que a cientista está cercada de dezenas de homens e só ela de mulher: mas a emoção dessa foto não reside apenas nesse fato e sim também na presença de um personagem muito especial! O filme mostra Marie como uma cientista inovadora, corajosa e que tinha um  temperamento às vezes difícil, mas a exata noção de suas capacidades e pioneirismo, mostrando as dificuldades que ela teve de enfrentar, mesmo após o seu reconhecimento científico, bem como as contribuições de suas descobertas, não apenas nos tratamentos do câncer (inclusive modernos), mas desde a Primeira Guerra Mundial, quando uma quantidade inacreditável de soldados foi beneficiada pelos raios-x móveis manuseados pela própria Marie nos campos de batalha, com a ajuda da filha (que crescida é interpretada pela também notável atriz Anya Taylor-Joy (O gambito da rainha) – entretanto, vemos que não foi tão fácil assim conseguir o orçamento para a compra das ambulâncias e de todo o material imprescindível para evitar amputações desnecessárias na frente da guerra. Mas há instantes bastante chocantes e até comoventes quando o filme demonstra na prática o perigo que o próprio casal Curie previu (ao contemplar o lado negativo das suas descobertas), fazendo um paralelo entre os acontecimentos do início do século na vida da cientista e os os relacionados com Hiroshima e mais tarde Chernobyl. Um filme muito bem interpretado e muito bem dirigido por Marjane Satrapi (iraniana e autora do romance gráfico que resultou na premiada animação Persépolis), cuja maneira de contar a história e andamento podem não agradar a todos, pois os fatos são relatados de um modo que muitas vezes não permite que as emoções se manifestem com toda a profundidade e com um ritmo que eventualmente parece rápido demais. Seja como for, um filme bastante interessante e o suficientemente fiel à realidade para mostrar aspectos desconhecidos do grande público a respeito da vida profissional e também particular de uma das maiores cientistas que o mundo já teve e que de certa forma já no início do século 20 impactava o mundo masculino com seu intelecto e sua produção científica que beneficiaria toda a humanidade. 8,6

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O HOMEM QUE VENDEU SUA PELE

Este filme representa a Tunísia no Oscar 2021, concorrendo a Melhor filme internacional, atual denominação da categoria Melhor filme estrangeiro. É um filme muito bem acabado, com tema já conhecido, mas que tem uma nova roupagem. E mesmo abordando assuntos já tratados em outros filmes, essa maneira de apresentá-los permite que essas questões aflorem de maneira mais eloquente, principalmente quando no tratamento da temática do ser humano, comparado a mercadoria e no momento em que a crítica enfoca a contemporaneidade dos costumes e dos valores, que elevam alguns menos importantes do que outros, que são desprestigiados. Fotografia e direção de arte impecáveis, um filme nada previsível e que nos leva por caminhos muito interessantes e bem articulados, falando dos limites do homem, da arte e da liberdade. Apesar disso tudo e da originalidade do título, que lembra obviamente outros ícones do mundo do cinema e literatura, o filme tem alguns momentos de queda e não apresenta um todo uniforme e que desperta as emoções que poderia, exceto em alguns momentos. É um candidato de certo modo forte ao Oscar, sem dúvidas respeitável, porém não chega ao nível de um Drunk, por exemplo. 8,4

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ANÔNIMO (NOBODY)

Este é um filme estilo drama policial, mas com tons de comédia, um thriller, algo de gênero meio indefinido, mas que transita no mundo da criminalidade, da violência e do submundo. Com ótimas cenas de ação, por sinal (excelente coreografia). É um filme bastante divertido, na medida em que é imprevisível, sendo que já de início ficamos perplexos e indefinidos quanto ao seu protagonista, no sentido de quem realmente ele seja e quais são os seus reais propósitos e “poderes”. Porque ao contrário dos heróis costumeiros, o personagem desempenhado pelo reconhecidamente talentoso ator Bob Odenkirk (de Breaking Bad e principalmente Better call Saul) bate nos bandidos, sim, mas apanha muito também, nesse sentido o filme adotando um realismo bem diferente do que costuma acontecer corriqueiramente. Em resumo, é uma diversão muito boa, que conduz o espectador por caminhos difíceis de prever (considerando a vida familiar e o lado “oculto” de ex-agente do FBI do personagem) e que também apresenta brinda a todos com muita leveza (o diretor é Ilya Naishuller), apresentando a conhecida atriz Connie Nielsen (Advogado do diabo, Gladiador…), e a sempre carismática presença do já veterano ator Christopher Lloyd, o conhecidíssimo Doutor Emmet Brown da série De volta para o futuro, aqui já passando dos seus 80 anos de idade. Diversão sem compromissos e sem maiores pretensões, mas muito bem realizada, atingindo plenamente os seus propósitos. 8,5

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SLEEPERS

Com as devidas escusas, eu me recuso a colocar o nome do filme em português, que é um descalabro e uma falta de respeito. E sugiro que aqueles que não sabem qual é esse título, não o procurem e também não leiam qualquer sinopse deste filme, pois assim tudo será muito melhor. Um filme de 1996 e que não teve a fama que merecia. Não apenas pela sua qualidade cinematográfica, mas pelo elenco estelar: Robert De Niro, Brad Pitt, Dustin Hoffman, Kevin Bacon, Vitório Gassman, Jason Patric, Minnie Driver, entre muitos outros, sendo que os jovens são todos muito bem interpretados, na verdade o trabalho dos adolescentes é digno de nota. Pessoalmente, só não gostei muito de Patric, entendendo que o papel dele mereceria uma maior intensidade dramática e achei que em uma determinada parte, lá pela metade, o filme cai um pouco. O diretor foi Barry Levinson, o mesmo de Bom dia Vietnã, Rain man, Assédio sexual…É um filme muito bem produzido e dirigido e que conta uma história que atravessa décadas (começando em Hell´s Kitchen, Nova Iorque, anos 60), envolvendo uma sólida amizade que avança pelos anos e também pelas mudanças que ocorrem na vida dos personagens, algumas delas bastante dramáticas. O elenco é maravilhoso e o roteiro nos transporta, nos revolta, nos causa dor, nos emociona, mexe com nossos sentimentos e sentidos, principalmente se nossa sensibilidade admitir que os fatos que vemos poderiam refletir uma realidade. Aliás, essa é a afirmação feita pelo escritor Lorenzo Carcaterra nos créditos finais, embora os principais envolvidos sempre o tenham negado. O que se conta é que mais tarde Carcaterra admitiu que se tratou de um golpe de publicidade: isso porque não foram encontrados quaisquer registros dos fatos mostrados no filme em qualquer tribunal americano de qualquer época. De todo modo, não se pode negar que o que vemos pode perfeitamente ter acontecido e pior: ainda acontecer. 9,0

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BOLÃO DO OSCAR

Dicasdecinema.net-BOLÃO-DO-OSCAR

 

BOLÃO DO OSCAR 2021 (25 de abril de 2021)

Regulamento (leia com muita atenção):

1) sou o organizador do bolão, mas nada vou receber por isso e o valor de cada aposta é de R$ 10,00 e alguns centavos, sendo permitida apenas uma aposta por pessoa;

2) para participar, preencha o gabarito, coloque seu nome e mande o gabarito (pode ser uma foto dele) para o e-mail “cnsouza@gmail.com”;

3) recebido e conferido o gabarito, quem mandou receberá na resposta o valor e os dados bancários para depositar, sendo que esse valor depende da ordem das apostas – por exemplo, o primeiro que apostou pagou R$ 10,01, o segundo pagou R$ 10,02, o terceiro R$ 10,03 e assim por diante;

4) apostar rápido pode ser importante porque é o segundo critério de desempate, ou seja, quem apostou primeiro (sendo validada a aposta com o depósito do valor na minha conta);

5) o primeiro critério, caso haja empate, é desempatar na ordem das categorias, conforme constam deste Bolão, a partir da 1 e até a 20 (ficaram de fora três categorias, por questões de logística);

6) o gabarito deverá ser enviado a mim até o dia 22 de abril, sendo que às 21h serão encerradas as apostas – se o gabarito chegar corretamente até o dia e hora acima, não importa que o pagamento ocorra depois, pois será validado desde que feito logo que o apostador receba o e-mail com o valor e os dados da conta;

7) portanto, HAVERÁ APENAS UM VENCEDOR DO BOLÃO, que será divulgado para todos no dia 26 de abril e contatado nesse dia para transferência do valor total das apostas para a sua conta;

8) todas as apostas serão divulgadas a todos antes do início da cerimônia do dia 25 de abril, inclusive a minha naturalmente;

9) os casos omissos e dúvidas serão resolvidas por mim, com o uso do bom senso e da lógica, preservando sempre o caráter salutar da brincadeira. Boa sorte

10) hoje é dia16 de abril de 2021 e este bolão já iniciou há três dias, havendo neste momento três apostas validadas.

.OSCAR 2021 – CATEGORIAS

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.1)MELHOR FILME

a)Meu Pai

b)Judas e o Messias Negro

c)Mank

d)Minari

e)Nomadland

f)Bela Vingança

g)O Som do Silêncio

h)Os 7 de Chicago

2)MELHOR DIREÇÃO

a)Thomas Vinterberg – Druk: mais uma Rodada

b)David Fincher – Mank

c)Lee Isaac Chung – Minari

d)Chloé Zhao – Nomadland

e)Emerald Fennell – Bela Vingança

3)MELHOR MONTAGEM

a)Meu Pai

b)Nomadland

c)Bela Vingança

d)O Som do Silêncio

e)Os 7 de Chicago

4)MELHOR ATOR

a)Riz Ahmed – O Som do Silêncio

b)Chadwick Boseman – A Voz Suprema do Blues

c)Anthony Hopkins – Meu Pai

d)Gary Oldman – Mank

e)Steven Yeun – Minari

5)MELHOR ATRIZ

a)Viola Davis – A Voz Suprema do Blues

b)Andra Day – The United States vs. Billie Holiday

c)Vanessa Kirby – Pieces of a Woman

d)Frances McDormand – Nomadland

e)Carey Mulligan – Bela Vingança

6)MELHOR ATOR COADJUVANTE

a)Sacha Baron Cohen – Os 7 de Chicago

b)Daniel Kaluuya – Judas e o Messias Negro

c)Leslie Odom Jr. – Uma Noite em Miami

d)Paul Raci – O Som do Silêncio

e)Lakeith Stanfield – Judas e o Messias Negro

7)MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

a)Maria Bakalova – Borat: Fita de Cinema Seguinte

b)Glenn Close – Era uma Vez um Sonho

c)Olivia Colman – Meu Pai

d)Amanda Seyfried – Mank

e)Yuh-Jung Youn – Minari

8)MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

a)Judas e o Messias Negro

b)Minari

c)Bela Vingança

d)O Som do Silêncio

e)Os 7 de Chicago

9)MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

a)Borat: Fita de Cinema Seguinte

b)Meu Pai

c)Nomadland

d)Uma Noite em Miami

e)O Tigre Branco

10)MELHOR FOTOGRAFIA

a)Judas e o Messias Negro

b)Mank

c)Relatos do Mundo

d)Nomadland

e)Os 7 de Chicago

11) MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO (DIR.ARTE)

a)Meu Pai

b)A Voz Suprema do Blues

c)Mank

d)Relatos do Mundo

e)Tenet

12)MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

a)Terence Blanchard – Destacamento Blood

b)Trent Reznor e Atticus Ross – Mank

c)Emile Mosseri – Minari

d)James Newton Howard – Relatos do Mundo

e)Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste – Soul

13)MELHOR FIGURINO

a)Emma

b)A Voz Suprema do Blues

c)Mank

d)Mulan

e)Pinóquio

14)MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

a)Emma

b)Era uma Vez um Sonho

c)A Voz Suprema do Blues

d)Mank

e)Pinóquio

15)MELHOR SOM

a)Greyhound

b)Mank

c)Relatos do Mundo

d)Soul

e)O Som do silêncio

16)MELHORES EFEITOS VISUAIS

a)Love and Monsters

b)O Céu da Meia-Noite

c)Mulan

d)O Grande Ivan

e)Tenet

17)MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

a)“Fight for You” – Judas e o Messias Negro

b)“Hear my Voice” – Os 7 de Chicago

c)“Husavik” – Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars

d)“Io Sí” – Rosa e Momo

e)“Speak Now” – Uma noite em Miami

18)MELHOR FILME internacional

a)Druk: Mais uma Rodada (Dinamarca)

b)Better Days (Hong Kong)

c)Collective (Romênia)

d)O Homem que Vendeu Sua Pele (Tunísia)

e)Quo Vadis, Aida? (Bósnia)

19)MELHOR ANIMAÇÃO

a)Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica

b)A Caminho da Lua

c)Shaun, o Carneiro, o Filme: A Fazenda Contra-Ataca

d)Soul

e)Wolfwalkers

20) MELHOR CURTA metragem

a)Feeling through

b)The letter room

c)The present

d)Two distant strangers

e)White eye

GABARITO

Nome do apostador:

Categorias/

Alternativas

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

a

b

c

d

e

f

g

h

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O HOMEM MOSCA (SAFETY LAST)

Este filme de 1923, naturalmente em preto e branco e naturalmente sem som, é um dos ícones do cinema mudo (comédia). E Harold Lloyd, seu genial criador e intérprete, comparado com ele a dois outros grandes nomes: Charles Chaplin e Buster Keaton. Keaton já fazia seus filmes à época, mas o que o tornou mais famoso, A general, foi produzido em 1926; Chaplin até 1923 fez incrivelmente perto de 100 (!) filmes curtos e longos, sendo The kid, outro ícone, datado de 1921: mas a partir de Em busca do ouro de 1925 é que realizou suas obras mais notáveis e famosas. Mesmo assim, Lloyd não fica muito atrás do gênio de Chaplin, embora seu personagem, ótimo, não possa ser comparado a um Carlitos. Harold Lloyd era um talento criativo, um ótimo e inteligente ator (que se diverte e brinca em cena) e que aqui produziu o seu trabalho mais notável, em todos os sentidos. Para começar, a criatividade (que nos encanta e nos faz rir) começa na primeira cena e termina na última, tudo em um clima leve e repleto de ação, envolvendo trejeitos, malandragens, os costumes da época e do próprio cinema de humor dos anos 20. Depois, embora seja evidente que em filmes mudos a trilha sonora é de vital importância (embora as legendas, obviamente), aqui é mais do que isso, pois a trilha em filmes desse tipo e com tal ritmo e criatividade precisa ser superlativa. E é isso que ocorre, em uma perfeita adequação das músicas à ação: é algo espetacular e realmente impressionante, nos fazendo sentir intensamente todo o ritmo/clima e emoção do filme. É uma história simples, de alguém que quer passar à noiva uma imagem de prosperidade que não existe (e que seria o requisito para o casamento) e que por isso se mete em muitas confusões. A noiva é a atriz Mildred Davis, que acabou realmente se casando com Lloyd logo após as filmagens. O diretor, Fred C. Newmayer, que com muita competência orienta a astuciosa movimentação de câmeras (vide cenas iniciais, parecendo uma prisão e uma forca) e transforma em diversão todos os encontros, desencontros, picaretagens etc e que nas cenas finais mostra sem dúvida um talento muito especial. Para captar cenas simplesmente antológicas. Aliás, o clímax do filme é um episódio à parte, sendo justamente uma de suas cenas a que figura nos cartazes do filme e que o tornou eterno: a cena do relógio (o personagem pendurado no ponteiro de um relógio no alto de um edifício), filmada em meio a uma sequência de momentos simplesmente inacreditáveis para aquela época e que até hoje intrigam sobre seus efeitos limitados em meio a muitos fatos reais. Lembrando que o nome original do filme é “Segurança por último”, esse final efetivamente coroa todo um contexto harmônico, que permanece desde o início e coroa o entretenimento com o inegável selo de qualidade. 9,0

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UM LUGAR AO SOL

Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, mais a ótima Shelley Winters, dirigidos por George Stevens em uma história de amor, de dor, policial, no ano de 1951. Com 9 indicações para o Oscar de 1952, ganhou em 6 categorias: Melhor diretor, roteiro adaptado, edição, trilha sonora, fotografia em p&b e figurino. Perdeu nas de filme, atriz (Winters) e ator (Clift). Lembrando que o diretor George Stevens é o mesmo de Os brutos também amam e Assim caminha a humanidade. E da presença no filme do ator Raymond Burr, fazendo o papel do detetive Frank Marlowe (esse ator ficaria famoso alguns anos depois pelas séries Perry Mason, de 1957 a 1966 e Têmpera de aço, de 1967 a 1975). Tudo isso forma um conjunto quase irresistível, reconheçamos e o filme fez muito sucesso na época, inclusive com uma Liz Taylor belíssima no frescor de seus 19 anos – e não era seu primeiro filme e já havia feito sucesso juvenil em Lassie. E Clift com sua beleza introspectiva, ao estilo James Dean. Entretanto, vendo o filme hoje me inclino para as críticas minoritárias (que existem e várias), ficando longe das empolgadas, que inclusive acham o filme uma obra-prima. Se foi, está desgastada e não vejo nem metade dos méritos que lhe foram reconhecidas pelos Oscars ganhos. Não discuto a trilha, a fotografia, a edição…nem Shelley Winters, que provavelmente entregou aqui a melhor interpretação de sua carreira. Mas a meu ver o grande problema do filme está no ator Montgomery Clift, que acho ruim e muito aquém da intensidade do que o papel necessitava e pedia. A atuação dele é fraca e carrega com ele parte do filme, pois repousam nele as principais ações e que definiriam a consistência ou não da história. Aquele jeito repetido dele (igual em todos os papéis) e que acho que James Dean imitou não combina com o que deveria ser um jovem interessante e atraente, ainda mais para despertar sentimentos tão intensos e à primeira vista! Com o tempo também, a história deixou de ter qualquer surpresa e a parte final, do tribunal, poderia ter sido mais bem explorada. Em suma, um bom filme, com qualidades, mas nada além disso e jamais será memorável ou andará juntos com os clássicos do cinema, que são aqueles cuja força permanece através dos tempos (Casablanca sendo talvez o maior exemplo). 8,0

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BAD LUCK BANGING OR LOONY PORN

Este é um filme romeno, estilo “de arte” e absolutamente desaconselhável para menores. Basicamente pelas cenas dos primeiros minutos, que são explícitas. Na verdade é um filme para adultos que apreciam coisas diferentes. Esse “diferente” é no modo de passar mensagens político-sócio-filosóficas. Na verdade, somente após a metade do filme é que reconhecemos tanto as intenções do cineasta (Radu Jude, romeno), quanto seu mérito, porque até então o filme é excessivamente moroso, parecendo querer mostrar (e de fato) apenas como é a vida atual no país, a aparência e os costumes dos romenos, onde convivem tradições com modernidade (como roupas, Iphone etc). Com o desenrolar do filme, em sua parte final, vamos constatar de forma intensa os contrastes ainda existentes, resíduo dos regimes e das revoluções, em todos os sentidos, por que passou o país ao longo de sua história. Até a metade o filme é enfadonho, não parece levar a lugar algum e a vontade do espectador é até de desistir. Mas a persistência – que se dá também por alguns lampejos indicando vida inteligente – vai trazer recompensas. Uma das divisões anárquicas do filme traz um dicionário irônico, contundente e contestador, onde as palavras vão se alternando e cenas e frases são postas de forma chamativa, contando a história, trazendo filosofias (algumas parecendo fúteis/baratas), mas já mostrando que o filme tinha intenções outras, que não as que pareciam de início. Aliás, tanto as cenas iniciais como outras e alguns diálogos, tiveram claramente o intuito provocativo, tudo dentro do espírito anárquico do diretor. Na parte que precede o epílogo (onde criativamente somos colocados diante de três finais possíveis!), ocorrem as cenas principais do filme, onde haverá diálogos e discussões a respeito dos fatos que levaram uma professora a um impasse limite, mas os temas aqui serão de uma amplitude inesperada e levarão o espectador a uma viagem de conceitos, preconceitos, intolerância, homofobia, misoginia, misturados com alguma racionalidade, respeito e bom senso. Essa porção do filme o redime por completo de qualquer enganosa percepção inicial e é muito interessante e envolvente. Existes muitos diálogos afiados, inteligentes e até mesmo atrevidos, textos lidos pelos personagens e a título de exemplo extraí um deles, que conclui a história contada no filme, de Perseu, herói grego (semideus), que ao enfrentar a Medusa, sob a orientação da deusa Atena ( deusa grega da sabedoria, justiça e artes – para os romanos Minerva), tomou  todo o cuidado para não olhar diretamente para a rainha das górgonas, pois se o fizesse viraria pedra. Perseu, então, refletiu todo o mal vindo da Medusa com seu escudo polido e a derrotou. E a frase que advém dessa história é de que “A tela de cinema é o escudo polido de Atena”. Em outras palavras, o Cinema, ou a Arte, é o veículo colocado à nossa disposição para olharmos para os horrores do mundo de uma forma que de outro modo não conseguiríamos assumir. Um filme provocador, ousado e original, por um cineasta sem temor de criticar profundamente o presente e o passado da história sócio-política de seu país. O filme ganhou o prêmio máximo (Urso de Ouro) do recente Festival de Berlim (março de 2021). 8,6

 

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MEU PAI

Embora não seja um filme que banalize sentimentos e chantageie sentimentalmente o espectador, seu tema é doloroso, principalmente para quem tem ou já teve na família casos semelhantes de demência (doenças da memória ou do esquecimento, como o Mal de Alzheimer). E o roteiro de fato não tem como não ser dramático, porque acompanha a realidade de uma pessoa que pouco a pouco vai perdendo o contato com a realidade que sempre conheceu e que sempre foi tida como normal pela sua família. Mas embora triste, o filme retrata com fortes cores exatamente o que é real e de uma forma bastante sensível e competente: a direção é realmente ótima de Florian Zeller (O que eu fiz para merecer isso?), que tem o mérito de em muitas cenas mostrar os acontecimentos sob a ótica do doente, ou seja, o espectador vê o que o personagem está vendo e não o que está efetivamente acontecendo. Também grande mérito da direção é a condução das cenas que se passam – praticamente todas – em ambiente interno. Mas aqui, o grande trunfo do filme e o enorme prazer da plateia é efetivamente desfrutar da interpretação de Sir Anthony Hopkins, que novamente dá um “baile” de performance. Desta vez muito bem acompanhado pela fabulosa Olívia Colman (atriz de sucessivas indicações a vários prêmios, ao longo dos últimos anos), estando ambos obviamente indicados ao Oscar, ela de coadjuvante. Também atua no filme a ótima Olívia Williams. Além das duas indicações citadas, o filme também concorre nas categorias de Melhor filme, montagem, roteiro adaptado e direção de arte. Uma produção anglo-francesa, muito bem cuidada e com um refinamento especial nos colocar diante de algo que já conhecemos ou que teremos que, cedo ou tarde, enfrentar. 8,6

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O SILÊNCIO DOS INOCENTES (THE SILENCE OF THE LAMBS)

Este filme fez um estrondoso sucesso na época (1991), inclusive tendo alcançado o raro feito de ganhar os considerados 5 principais Oscars: Filme, diretor (Jonathan Demme), ator (Anthony Hopkins), atriz (Jodie Foster) e roteiro, tendo Hopkins e Foster ganhado inúmeros outros prêmios por suas inesquecíveis interpretações (Jodie ganhou inclusive o Globo de Ouro e Bafta, Oscar inglês). Na história dos Oscars, apenas mais dois filmes ganharam o five de ouro: Aconteceu naquela noite (de 1934, com Clark Gable) e Um estranho no ninho (de 1975, com Jack Nicholson). Este filme, de fato, é superlativo dentro do gênero e cinematograficamente falando tem qualidades indiscutíveis, além de cenas inesquecíveis (conta-se que a própria Jodie Foster ficava impactava com os locais de filmagem, principalmente de visita ao Dr. Lecter), ser muitíssimo bem produzido e um protagonista que causou muitos pesadelos, fruto da atuação soberba de Anthony Hopkins, na pele do personagem do Dr. Hannibal Lecter. Além da também marcante atuação de Foster, também atua magnificamente bem o ator Ted Levine (Buffalo Bill) e está ótimo Scott Glenn no papel de chefe de Clarice. Obviamente não é um filme para qualquer tipo de público, sendo comparado em gênero aos ótimos Seven e O colecionador de ossos, com os quais se equipara dentre os melhores do estilo serial killer. É um filme forte e sombrio, que explora o lado escuro da alma humana e tem cenas, tanto criativas, quanto chocantes e violentas, inclusive em seu acentuado aspecto psicológico. Seu suspense, notadamente em certas cenas, é simplesmente fabuloso e há momentos memoráveis, como os das conversas de Clarice com o canibal, o da nova prisão deste último (e dos fatos que ali sucedem, incluindo a cena do elevador), o da campainha tocando e a do escuro quase ao final . Os diálogos entre a detetive e o Dr. Lecter são brilhantes, afiados, inteligentes, de um lado uma esperta porém noviça policial e de outro um sádico manipulador: alguém que procura entrar na mente das pessoas e explorar seus traumas e suas fraquezas, sendo incrível como ele consegue transformar em frágil a firme e valente Clarice, acaba se tornando vulnerável a seus incisivos e habilidosos questionamentos. O roteiro do filme também mostra de modo sutil o machismo na polícia, sendo, enfim, um conjunto perfeitamente harmônico, do qual também faz parte a imprescindível ótima direção de Demme. Como curiosidade, no cartaz do filme, a imagem que aparece nas costas da mariposa não é a de uma caveira e sim a fotografia surrealista de uma obra de Salvador Dali (In voluptas mors), que representa sete mulheres nuas, que agrupadas acabam se assemelhando a um crânio humano. 9,5

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MINARI

Este é daqueles filmes que a gente assiste, acha bom, sensível, bonito, com boas interpretações, mensagem edificante, coisa e tal, mas ao tomar conhecimento da quantidade de indicações a prêmios, principalmente ao Oscar, fica totalmente surpreso. Até abismado. É um total exagero indicar este filme aos Oscars de Melhor filme, direção, ator, atriz coadjuvante, roteiro original e trilha sonora e digo isso sendo um admirador da cultura coreana em muitos dos seus aspectos (inclusive relacionados com a natureza – fato exaltado no filme, inclusive). A meu ver um total absurdo, fruto das políticas de Hollywood e só compreendi o fato quando observei que o nome de Brad Pitt consta dos créditos, na retaguarda e não no elenco. É um filme bem feito, a avó é muito boa atriz, o pai e o menininho bons atores (a trilha sonora, sim, é muito bonita e se destaca), mas não tem nada de novo, o andamento é lento, não há absolutamente nada que nos atraia ou nos arrebata. No caso, uma família, coreana, migra para os EUA em busca de uma vida melhor (pai, mãe e um casal de filhos), tendo o filho pequeno um sopro no coração, a mãe da mãe vindo posteriormente morar com eles e o filme mostra as lutas do dia a dia com as várias intercorrências da sobrevivência, inclusive as consequências no relacionamento do casal, na vida das crianças e mesmo após a vinda da avó, que tem aspectos positivos e negativos. E um final que já foi visto, pelo menos em seu contexto, em dezenas de outras produções. Um bom filme, bem dirigido, mas nada além disso e qualquer Oscar além da trilha sonora já será um dos absurdos que essa premiação não raro comete. 7,7

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ADIEU LES CONS

Quem vê este filme, incluído nos catálogos como comédia dramática, já nos primeiros momentos não tem a menor dúvida de que se trata de um filme francês. No caso, uma comédia francesa. Porque só os franceses fazem filmes assim, tão típicos e ao mesmo tempo tão diferentes. Que misturam gêneros e tornam o roteiro um enigmático mas atraente caminho, que vai sendo pouco a pouco saboreado pelo espectador, encantado com muitas cenas e por outro lado desconcertado com alguns fatos, justamente pela miscelânea de emoções derivada da “salada” de gêneros. E que além disso (os filmes franceses deste estilo) têm muita criatividade na direção e toques singulares e interessantes também em sua trilha sonora. No caso, o filme transcorre com leveza, mas com momentos dramáticos e também de humor (inclusive escrachado), romance e até suspense. Tudo isso, a meu ver, formando um conjunto irresistível, notadamente porque dirigido com sensibilidade e interpretado com competência; entretanto, tais fatos podem ser justamente o que talvez farão com que o filme desagrade alguns. De todo modo, ele teve doze indicações no recém realizado 46º Cesar (março de 2021) – Oscar francês –, tendo sido o vencedor nas categorias de Melhor filme, realizador/diretor, roteiro, ator coadjuvante, direção de arte e fotografia. O seu ator principal é a mesma pessoa que o escreveu e dirigiu: o conceituado e premiado Albert Dupontel, com vasto currículo na cinematografia francesa e que, por exemplo, protagonizou os excelentes Nos vemos no paraíso e En équilibre. O ator coadjuvante premiado no Cesar é Nicolas Marié, que faz um personagem muito divertido e que inclusive provoca aqueles sobressaltos de espanto no espectador, quando, por exemplo, em meio a uma cena séria acaba, por ser cego, tendo um “acidente cômico”. Diga-se que ele está bem acompanhado por Virginie Efira, muito boa atriz. Um filme a ser visto e degustado e que em sua parte final simplesmente nos inunda de boas emoções (especialmente em uma cena específica, muito especial que o roteiro nos reserva), tendo um final também não previsível e que pode até ser objeto de boas discussões. Seja como for, não há dúvidas de que é uma ótima diversão e, mais – e quem assistir ao filme concordará com isso –, de que o título original é o melhor e o mais perfeito e se espera que seja assim mantido quando os distribuidores brasileiros resolverem lhe dar o nome em português. 8,8

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UMA NOITE EM MIAMI

Uma produção Prime com ótimo elenco, feliz estreia na direção de Regina King e que foi indicado ao Oscar 2021 nas categorias de Ator coadjuvante, Roteiro adaptado e Música. O ator coadjuvante é Leslie Odom Jr., que faz o papel do cantor e compositor Sam Cooke, que por muitos é considerado o “inventor” ou “propulsor” da soul music (é dele, por exemplo, a bela e pungente Tennesee Waltz). E que no filme brilha de forma especial -e faz o filme brilhar também, a partir desse momento- cantando a espetacular A change is going to come. O roteiro foi escrito por Kemp Powers, que é o autor da peça teatral na qual o filme se baseou e que mostra um inusitado encontro entre quatro personalidades da década de 60 e que se tornaram muito famosas. E a música que foi indicada para o Oscar é Speak now, composta pelo próprio ator Leslie Odom Jr. e que toca durante os créditos finais, fato que já virou moda no cinema (a música que toca no fim concorrer ao Oscar). Ao personagem de Sam Cooke, juntam-se os de mais três figuras ilustres, cujo encontro tem o seu ápice em um quarto de hotel, em uma noite fictícia em Miami nos idos de 1964: o maior peso-pesado de todos os tempos do box, Cassius Clay (Mohammad Ali), o ativista Malcolm X e o então jogador de futebol Jim Brown. Todos tinham em comum a luta e a participação nos movimentos civis dos negros que naquela época era mais do que efervescente e o roteiro tem essa originalidade, de reunir tais figuras importantes da história, debatendo suas ideias e metas de ação e nos fazendo recordar do doloroso retrato daqueles anos, de permanentes conflitos raciais e de violência desmedida: muitas foram as mortes, diversos os assassinatos, entre eles de Martin Luther King Jr. e dos próprios Malcolm X e Sam Cooke (1964/1965). Malcolm X é interpretado por Kingsley Ben-Adir, Cassius Clay por Eli Goree e Jim Brown por Aldis Hodge – Jim foi jogador de futebol profissional e depois seguiu carreira de ator, participando de inúmeros filmes, inclusive de sucessos como Os doze condenados. Este filme começa bastante chato/pedante (pelo roteiro meio vago de informações, que deixa o espectador meio perdido), mas cresce bastante nos momentos do quarto de hotel e seus dez minutos finais são simplesmente eletrizantes e fazem com que tudo valha muito a pena. A partir do momento em que a canção de Cooke nos dilacera com seu significado e emoldura a cerimônia pela qual Clay passou a adotar o nome islâmico de Mohammad Ali (e outras cenas são mostradas), o filme nos envolve totalmente, atinge seu ápice, desperta intensas emoções e entrega de modo intenso e completo seu recado., fechando então com Speak now nos créditos finais.  8,6

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RELATOS DO MUNDO

Tom Hanks já conquistou seu lugar nos mais elevados patamares do cinema. Sua contribuição como ator já é mais do que conhecida, podendo-se citar alguns de seus filmes: À espera de um milagre, Náufrago, Forrest Gump, Código Da Vinci, O resgate do soldado Ryan…Ator e empresário dos mais prestigiados em Hollywood, também produziu diversos filmes de sucesso e pode-se dizer que atingiu hoje um nível de qualidade e que consegue mantê-lo em todos os projetos em que se envolve. Tudo com ele é muito bem feito, muito bem cuidado, cada detalhe da produção e técnico e aqui não se foge à regra e tudo acontece sem exageros, de uma forma equilibrada, com doses bem distribuídas de ação, suspense e emoção, embaladas pelas belas trilha sonora e fotografia exuberante. Não é à toa que esta produção Netflix vai concorrer no próximo dia 25 de abril aos Oscars de Melhor fotografia, direção de arte, som e trilha sonora. É um filme realizado com o capricho de quem ama o cinema. E que além disso é um ótimo ator. A história que nos conta, baseada na literatura, é de um veterano da guerra civil americana e suas aventuras em viagens pelo Texas, exercendo a profissão de “leitor de notícias interessantes dos jornais atuais” para a população das cidades por onde passa. Ganhando uma companhia inesperada nessas aventuras, por esse motivo tem adicionados um ingrediente e um destino a mais. Trata-se da atriz revelação Helena Zengel, jovem e talentosa atriz alemã de 12 anos e que contribuirá com sua atuação para o brilho do roteiro. O filme se enquadra no gênero western, mas não é um faroeste daqueles típicos, estilo “bang bang”, e sim do gênero drama de aventuras, contando uma bonita história, repleta de acontecimentos, de ação, suspense, perigo, algumas surpresas, muito embora tudo realmente se passe nos tempos e nas vastas paisagens do velho oeste (que vemos em doses generosas), onde ainda existem conflitos entre brancos e índios. O roteiro, muito bem elaborado, também tem o mérito de habilmente nos esconder alguns aspectos da vida particular do personagem e que terão importância fundamental no final do filme. Tom Hanks trabalha maravilhosamente bem, em um rico papel cheio de alternâncias, inclusive emotivas, sendo bem acompanhado pela atriz Zengel e o filme transcorre com um ritmo e um andamento totalmente agradáveis e que mantém o interesse do espectador até o final, méritos também da direção firme e sensível de Paul Greengrass, diretor britânico de filmes como A supremacia Bourne, O ultimato Bourne e que dirigiu Hanks em Capitão Phillips. A arte de saber contar histórias! Além das indicações já citadas para o Oscar, foi indicado em diversas categorias nas mais variadas premiações do cinema de 2021 (Melhor filme, ator, atriz, atriz iniciante etc). 8,8

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CHAGA DE FOGO (DETECTIVE STORY)

Mais uma vez um título em português dramático e exagerado, quando poderia simplesmente ter traduzido literalmente o original, que é perfeito. Porque este filme de 1951 se passa em uma delegacia de Nova Iorque e em um dia apenas, mostrando sua rotina e a dos seus policiais/detetives, frente a diversas ocorrências e vários tipos de pessoas, incluindo perigosos assaltantes, criminosos ocasionais e repórteres. Vemos diversos dramas acontecendo (um ou outro não muito bem resolvido, talvez), mas o mais contundente é o que transita na intimidade do protagonista, um detetive que odiou o pai a vida toda e seguiu uma carreira respeitando rigorosamente as regras, em outras palavras, um tira severo e com “tolerância zero”, para quem a lei deve ser cumprida sem flexibilidade, sem exceções e o coração nada tem a ver com as questões envolvendo o dia a dia da delegacia: bandido é bandido, não importa o crime e o seu dever, como guardião da lei e protetor do povo, é zelar pelo irrestrito cumprimento das normas. Esse protagonista, que vai acabar sendo defrontado com sensível (e decisiva) questão de natureza particular, além da ética, é magnificamente bem interpretado por Kirk Douglas, que bem poderia ter ganho o Oscar por esse papel, porém não foi sequer indicado. Por se tratar de um roteiro que exige dinamismo/ritmo em um espaço limitadíssimo, não há como se deixar de reconhecer o belo trabalho do diretor William Wyler (A princesa e o plebeu, Da terra nascem os homens, O morro dos ventos uivantes…), além de todo o elenco, com destaque para Eleanor Parker (indicada ao Oscar por este filme e a Baronesa em A noviça rebelde, anos mais tarde), Lee Grant (indicada ao Oscar de coadjuvante por este filme, atriz de teatro, cinema e TV), William Bendix e Joseph Wiseman, entre outros. É um filme com ótima fotografia, ótimo roteiro e tido como dos belos “noir” da década de 50. Foi indicado a inúmeros prêmios de filme, roteiro, ator, atriz…Talvez o final apenas seja discutível, por ser simplista demais. 8,6

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MY SALINGER YEAR

Este filme de 2020 eu conceituaria como bom apenas e não ótimo ou excelente. A meu ver os conceitos muito elevados sobre o filme são decorrentes da empolgação de sua parte final. Explico. Até mais de sua metade, é um filme chato, com roteiro mal construído, mal dirigido e mal editado. Além disso, extremamente frio, embora o elenco seja muito bom e as duas protagonistas ótimas: a veterana e sempre excelente Sigourney Weaver e a novata e de belo rosto Margaret Qualley. Existe até mesmo o risco de alguém simplesmente parar de ver o filme, diante de um material valioso (que é a história e seus detalhes) totalmente desperdiçado. Acontece que subitamente o filme muda. Não só existem guinadas existenciais, não apenas vemos ações e atitudes que muito tem a ver com a vocação, a busca pela realização dos sonhos etc, mas uma verdadeira mudança na própria direção. Parece que mudou o diretor a partir de uma parte do filme e passamos a ver um filme muito interessante, que nos coloca diante de fatos instigantes e emocionantes. Tudo também relacionado à literatura, ao surgimento de novos talentos, à indústria dos livros e girando em torno da legendária figura do escritor que dá título ao filme: J. D. Salinger, autor do famoso “The catcher in the rye” (O apanhador no campo de centeio, de 1951 e que vendeu mais de 70 milhões de exemplares), foi um dos escritores mais cultuados do século 20 e ficou muito tempo recluso (50 anos), tornando sua existência um mistério permanente e que ajudou a construir o mito (terá sido esse afastamento proposital para valorizar seus escritos e catapultar sua fama?). Ele morreu em 2010, aos 91 anos e vale a pena pesquisar sobre ele e sobre o livro, que precisa hoje (pelas obras escritas depois com o mesmo tema) ser recolocado no contexto da época. Voltando ao filme, sua parte final acaba sustentando o filme e fazendo valer a pena ter sido tolerado/suportado além de sua primeira hora, mas no todo obviamente não pode conceituado da mesma forma que são os regulares e bons em sua totalidade. 7,8

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LIÇÕES DE PERSA (PERSIAN LESSONS)

Um filme de 2020, sobre a segunda guerra (embora com poucos tiros), que praticamente se passa todo dentro de um campo de prisioneiros e que foi indicado pela BieloRússia para concorrer a uma vaga na disputa do Oscar 2021, obviamente na categoria de Melhor filme estrangeiro, embora tenha sido co-produzido pela Rússia e pela Alemanha. O tema: um judeu, sagaz e se aproveitando de maneira bastante arguta de uma chance de sobreviver em situação crítica, inventa uma bela farsa, que vai ter que manter, inclusive perante um dos oficiais do referido campo e com ela se manter vivo. O interessante é que o embuste pode ser a qualquer momento desmascarado, embora isso também não seja tão fácil, em razão de sua natureza. E assim o filme evolui, mostrando algumas relações, a aspereza dos comandos alemães, a rigidez da disciplina, o pouco caso em relação aos prisioneiros judeus e o sofrimento a que foram compelidos pela crueldade dos opressores e da própria guerra, tudo fazendo com que o espectador acaba bastante envolvido, curioso e intrigado pelo rumo dos acontecimentos. Uma improvável amizade acaba se sustentando em um mentira e por isso permanecendo como se todo o tempo estivesse se equilibrando sobre o fio de uma navalha. Apesar de poucos momentos mais contundentes em termos de violência, não somos poupados dos horrores da guerra e podemos senti-los ao longo de todo o filme, apenas pela observação dos acontecimentos dentro do campo de concentração. Pelo que consta, o filme foi baseado em fatos reais e destacam-se com mérito as interpretações de Nahuel Pérez Biscayart (Gilles) e de Lars Eidinger (Koch), embora todo o elenco seja de qualidade. Dirigido por Vadim Perelman, trata-se de um drama que conta muito bem mais uma história envolvendo o holocausto, mas com elementos originais e que despertam vários tipos de legítima emoção. O final do filme é algo que merece especial menção, pois, inesperado, é simplesmente emocionante e espetacular, dando inclusive um maior significado ao filme e resgatando qualquer deslize de roteiro. A derradeira cena (na verdade a penúltima) é uma pérola surpreendente e inesquecível, que coroa de profundidade atemporal esta bela obra!  8,8

 

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A MINHA VERSÃO DO AMOR (BARNEY´S VERSION)

Sem falar (ainda) no roteiro, este filme ítalo-canadense de 2010 traz um presente especial para quem gosta de cinema: Dustin Hoffman (Rain man, Tootsie…), Paul Giamatti (Sideways…) e Rosamund Pike (Garota exemplar…). É muito prazeroso vê-los atuar, se bem que Minnie Driver também é ótima. O primeiro já se consagrou com um dos maiores atores e ícones do cinema e de todos os tempos, apresentando desempenhos magistrais e alguns que ficaram históricos, embora evidentemente passe longe de ser um galã. O segundo, é daqueles atores que se destacam a cada papel que representa, mas que nem sempre é lembrado quando se menciona os grandes da profissão, talvez isso ocorrendo, infelizmente, por sua aparência, não enquadrável como de um símbolo sexual (bem ao contrário),  E a terceira, é uma ótima atriz, com talento e muita classe e elegância, que conheço desde Fugitive pieces (filme pouco conhecido porém maravilhoso!) e que participou de dezenas de filmes, mas só recentemente teve o seu talento reconhecido, pelo menos de um modo oficial, com a indicação de seu nome a vários prêmios por sua performance em Eu acredito, inclusive ao Oscar, agora em abril. As atuações desse trio são realmente um prêmio para o espectador, mas não são isoladas do contexto, porque todo o elenco é coeso e sobretudo o roteiro é muito interessante, embora até possa ser criticado pela mistura aparentemente confusa de gêneros, inclusive o humor e o suspense, terminando com acontecimentos dramáticos e comoventes. É uma história imprevisível e por esse motivo também acaba sendo atraente, com segura e sensível direção de Richard J. Lewis (que dirige mais TV, como CSI e Westworld e neste filme também atua, como o médico patologista). É um filme com tons de comédia, mas também com vários assuntos sérios e que propicia ao espectador variados tipos de emoção, inclusive aquela nostalgia típica de quando o personagem, como aqui, relembra fatos de seu passado: o homem de 65 anos contando a história de sua vida, de uma forma bem pessoal, porém tocante e imprevisível. Não deixa de ser um filme estranho, pela já referida superposição de gêneros, como por uma ou outra surpresa e por cenas que isoladas seriam meio bizarras, mas que no contexto funcionam: como a morte “gloriosa” de um dos personagens, para exemplificar! Mas é, afinal, atraente, pelo conjunto, inteligência, sensibilidade e originalidade. 8,7

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O MERCADOR DE ALMAS (THE LONG HOT SUMMER)

O título ridículo em português que foi dado a este filme de 1958 entra para a galeria das “bizarrices dos exibidores”, não tendo qualquer explicação ou sentido. O título original é óbvia e absolutamente pertinente e coincide com o da bela música que embala o seu início, quando vemos navegar uma barca no Mississipi e que dará origem a toda a trama, baseada, na realidade, em várias histórias e contos do famoso escritor americano William Faulkner (1897-1962) e não em apenas uma obra. Se olharmos apenas para o lado da originalidade, o filme talvez mereça algumas críticas, pois apresenta um enredo sem grandes novidades e seus tipos são aqueles repetidos à exaustão, em diversos filmes que retratam personagens sulistas dos EUA (inclusive havendo alguns sotaques “forçados” nesse sentido, inclusive de Orson Welles). Entretanto, apreciando a obra por alguns de seus encantos e sob o enfoque da diversão e dos bons tempos do cinema de histórias belas e dramáticas, pode perfeitamente ser incluído na categoria dos “filmaços” de antigamente. Pelo prazo que vê-lo nos proporciona.  A fotografia e a linda trilha sonora são de primeira qualidade, tendo o filme um belo colorido e uma ótima dinâmica, além da beleza das locações e do elenco, principalmente Lee Remick (linda, com seus 23 anos e em seu segundo filme), Joanne Woodward (com 28 anos) e Paul Newman (com 33 anos e conhecido na época como “Apolo”), que naturalmente deveria ter no contrato uma cena obrigatória em que aparece sem camisa (como outros galãs nos tempos atuais…). Mas o elenco não é só belo, como competente, também integrado por Angela Lansbury, Anthony Franciosa, Richard Anderson (que viria a ser na TV o chefe do Homem dos seis milhões de dólares e da Mulher biônica), embora o nome forte, o furacão, tivesse o nome de Orson Welles. A força física e interpretativa desse ator é algo impressionante e fora de discussões! Conta-se inclusive que foram grandes os problemas na produção, originados pelo temperamento do ator, principalmente ao se opor às ideias do diretor Martin Ritt (que ficou anos “de castigo” e sem trabalhar, por ter sido colocado na lista do Macartismo) e à conduta das “estrelas” de formação no Actors Studio e que por esse motivo tinham um estilo específico de interpretação (Stanislawski), caso de Newman, Woodward e Franciosa. Dizem também que houve um incidente entre o diretor e Welles, pelo qual este foi levado por aquele até um local ermo e lá deixado, tendo que voltar a pé o longo caminho, como castigo pelo seu comportamento e rebeldia…Mas, verdadeiras ou não essas histórias paralelas, não há dúvidas de que quando Welles entra em cena faíscas aparecem (no bom sentido da força de atuação), havendo ótimos momentos dele inclusive com as filhas e com Ben, o personagem de Newman: realmente sendo prazeroso ver Orson Welles e Paul Newman contracenando, instantes efetivamente marcantes do cinema. Também merece destaque o belíssimo (e tocante) discurso de Joanna no pic-nic forçado (sorteado) com Ben. O filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes de 1958 e Paul Newman ganhou o prêmio de melhor ator. Sobre ele e os bastidores, foi logo depois que as filmagens terminaram e antes da estreia mundial do filme, que se casou com Joane Woodward, que seria sua companheira por 50 anos, até a morte de Paul. Interessante notar, mais para o final do filme, que as cenas entre os dois personagens parecem denotar nas “entrelinhas” o romance que havia na vida real. O final do filme poderia ser melhor, é certo, mas o conjunto todo vai agradar em cheio os mais diversos públicos, principalmente se confrontado com a pobreza que reina atualmente em nossos cinemas. Com equilibradas doses de ação, suspense, romantismo, humor, sensualidade e uma leveza típica dos filmes da época, uma ótima diversão. 8,8