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GATILHO RELÂMPAGO (THE FASTEST GUN ALIVE)

No Velho Oeste o poder maior não era dado pelo dinheiro, mas pelo revólver e quem sacava mais rápido tinha lugar de rei e era respeitado e temido por todos. Essa certeza povoa grande parte dos filmes do gênero, mas nenhum como este aprofunda o conceito e mostra as consequências sociais dessa “habilidade”. Porque o desafio e o desejo do poder sempre moveu o homem. Inclusive o homem mau. E a fama, que a princípio só proporcionaria vantagens para os “gatilhos rápidos”, na verdade tem o seu lado perverso e que é bastante delicado e pesado. E que este filme explora muito bem. Aqui temos os cenários típicos da cidadezinha se formando em meio à vastidão territorial, a população e a igreja, perseguição aos criminosos pelo xerife e seus parceiros, o pistoleiro que tenta se regenerar para viver uma nova vida com a esposa, o bandido hábil, malvado e sem escrúpulos, duelos etc, mas o foco da história se concentra nos aspectos psicológicos dos personagens e na constatação do perigo representado pela fama de ser “o pistoleiro mais rápido da história do Oeste”. E torna tudo muito interessante e atraente. Filme em preto e branco de 1956/1957, estrelado pelo prestigiado astro Glenn Ford, que morreu aos 90 anos, após ter participado de mais de 200 filmes, sendo muitos deles faroestes e pelo menos um muito especial e que ficou na história do cinema: “Gilda”, com Rita Hayworth. Curiosamente, o ator era conhecido, entre todos os que faziam faroestes, como aquele que mais rápido sacava do revólver. Aqui também atuam Broderick Crawford e Jeanne Crain e o filme apresenta, como um destaque, um número de dança simplesmente extraordinário, pelo ator Rus Trambly. 8,7

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TREM-BALA

Talvez algumas pessoas não se identifiquem muito com o estilo do filme, que mistura escracho com violência e que tem muito humor non sense e personagens estranhos. E muita ironia em cima do jeito de ser e de viver no Japão, tudo se passando dentro de um trem. Mas dinamismo não falta (é um filme que pode se definido como frenético) e para os amantes do cinema-diversão e principalmente para os fãs de Quentin Tarantino, é algo simplesmente imperdível. Realmente poderia facilmente ser algo assinado pelo Tarantino, mas, não sendo, certamente é de um admirador e que além de absorver muito do estilo também inova, com um roteiro extremamente interessante, criativo e imprevisível, repleto de ação e adrenalina. O ritmo é frenético, impossível desgrudar os olhos da tela e vemos um desfile de personagens e fatos, que se entrelaçam, conflitam, interagem e simplesmente não sabemos o que vai acontecer no segundo seguinte. Tudo filmado das mais variadas maneiras possíveis, com um requinte de imagens (inclusive em câmera lenta – destaque para uma magnífica cena quase ao final) e uma trilha sonora simplesmente magnífica, que vai de um ritmo e outro, de um sentimento a outro, sendo o filme inclusive um palco formidável para pitadas críticas e cômicas sobre a cultura oriental (provérbios, metáforas, crenças, tecnologia, propaganda, redes sociais) e de suas máximas e costumes, assim como o roteiro não poupa inúmeras temáticas comuns, brincando com o próprio cinema. O elenco é capitaneado por Brad Pitt, que está excelente e deve ter se divertido muito fazendo o filme, assim como todo o elenco, que é coeso e é todo ótimo. Revelar todos os nomes seria dar spoiler, mas tem vários rostos conhecidos. A montagem foi feita por experts e a direção de David Leitch (Atômica, Deadpool 2, Velozes e furiosos de 2019) é perfeita, inclusive porque esse diretor já foi também dublê, inclusive do Pitt. Muita ação, inclusive acontecendo ao mesmo tempo, suspense, violência e um tom permanente de humor, mas também muito esmero no realismo das cenas, fazendo todos se impactarem (embora à velocidade da luz) e grudarem na tela até a última cena, que fecha o filme com o mesmo toque cínico-filosófico-bem humorado que predomina ao longo de toda a história. 8,9

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ROGUE AGENT

Embora variem os comentários sobre este filme, a maioria o coloca entre os patamares de médio e bom. Discordo dessas avaliações, pois para mim o filme está além disso, ficando entre “muito bom” e “ótimo”, se é que os dois conceitos não são sinônimos. É uma história muito interessante, baseada em fatos reais (já sabemos isso de início), envolvendo questões vinculadas ao IRA (Exército Republicano Irlandês) e ao MI5 (Serviço Secreto Britânico), que nos anos 90, surpreendentemente, recrutou espiões autônomos (free lancers) para investigar terroristas. Podemos dizer que o filme é um drama com suspense envolvendo espionagem e sua construção, bastante bem elaborada, apresenta alguns interessantes mistérios, que serão acompanhados atentamente e ao seu tempo desvendados pelo intrigado espectador. Por isso, qualquer spoiler aqui estragaria boa parte do filme. O roteiro é denso e exige um pouco de atenção, iniciando com uma sutil primeira cena, na qual já se apresenta um perfil dos espiões, pela narrativa de Alice, personagem de Gemma Arterton (Príncipe da Pérsia, O retorno de Tamara, João e Maria), que está cada vez melhor como atriz mais madura. Mas quem faz com muita propriedade um personagem bastante complexo é o ator James Norton (Mr Jones – A sombra de Stalin, Guerra e paz), que dá um show. Mais detalhes poderão estragar as surpresas, recomendando-se inclusive não se ler qualquer sinopse, pois as pessoas que as fazem não tem a mínima sensibilidade ou pudor quanto a revelar segredos importantes do filme. 8,7

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UM CERTO CAPITÃO LOCKHART (THE MAN FROM LARAMIE)

Conforme postagens anteriores, foram várias as parcerias entre James Stewart e o diretor Anthony Mann em faroestes. Todos os filmes com um nível no mínimo médio e, para a maioria, talvez sendo o melhor “Winchester 73”. Este foi o derradeiro filme, produzido em 1957. E, fato raro, o título em português é surpreendentemente ótimo, inclusive mais apropriado e criativo do que o original ! Aqui existem as reticências que movimentam a vida do protagonista, pelo seu passado algo misterioso, seus dilemas existenciais, bem como as paisagens de montanhas e a virtuose dos cavaleiros, galgando com destreza os difíceis relevos dos planaltos. As imagens são vistosas, muito embora o filme explore com maior destaque o lado intimista (psicológico) dos personagens, envolvikdos em intrigas, cobiça e vingança – e até direitos hereditários. Imagens belas, trilha sonora empolgante, direção segura e a interpretação com a categoria de sempre de Stewart são os pontos altos, juntamente com um roteiro que apresenta muitos elementos que fogem do lugar comum, embora também tenha muitos instantes mal ou apressadamente resolvidos e outros de corriqueiros clichês. Novamente atua com James o ator Arthur Kennedy, também sempre muito competente, mas acho que a mocinha e até mesmo o velho (contrariando a opinião de grande parte dos fãs) poderiam ser mais bem interpretados. Seja como for, é um faroeste acima da média e na última cena, propositadamente há uma situação a ser resolvida, mas sugerida com sutileza. 8,6

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A FERA (BEAST)

Um bom filme de aventura, ação e suspense, que se passa na África e tem como personagens principais um pai (Idris Elba), duas filhas e um amigo da família especialista em vida selvagem. É pena que não se possa exigir deste filme – pois não foi feito com tal concepção – a mesma qualidade dramática dos icônicos como A sombra e a escuridão (Val Kilmer e Michael Douglas), por exemplo. Porque ele teria qualidade para tanto, mesmo sabendo-se que todos os perigos foram produzidos em computador e o elenco encenou com inimigos imaginários. Para o filme ser muito melhor bastaria que não contivesse tantas cenas e momentos absolutamente inverossímeis, mantendo os mesmos elementos de ação e os mesmos maravilhosos efeitos especiais, responsáveis por grandes momentos de suspense, principalmente na primeira metade do filme. É algo muito violento para uma Sessão da Tarde, mas ao mesmo tempo peca pela falta de credibilidade em algumas cenas importantes, começando em um nível elevado, de construção interessante de enredo e de personagens e depois acaba caindo nos costumeiros clichês. Além de uma ou outra cena verdadeiramente absurda. Mesmo assim, guarda boas emoções e pelo menos uma ou duas cenas que nos fazem reagir até fisicamente, tal a perfeita realização, tendo boa fotografia, um ambiente convincente e uma trilha sonora que acentua o suspense mantendo o interesse do espectador até a cena final, que guarda uma bonita surpresa da natureza. Aliás, o fascínio da boa ou má convivência entre homem e vida selvagem é o que move o filme, que tem subtextos sentimentais, que basicamente movem a família protagonista. Uma boa diversão, mas que deixa um gostinho de que poderia ser muito mais bem acabado e realista e até mesmo ter se tornado um dos expoentes do gênero “aventuras africanas”, que nas épocas atuais tem pouquíssimos representantes. 7,9

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REGIÃO DE ÓDIO (THE FAR COUNTRY)

James Stewart, aos 48 anos de idade e um currículo maravilhoso (A felicidade não se compra, A mulher faz o homem, Núpcias de escândalo), no mesmo ano em que faria Janela indiscreta com Hitchcock (1954), realizou mais essa parceria com o grande diretor Anthony Mann. Com a presença da bela e elegante Ruth Roman e do indefectível Walter Brennan, ator que fazia geralmente o mesmo personagem de velhinho inofensivo (e muitas vezes encarregado do “alívio cômico”) e participou de dezenas e dezenas de filmes para cinema e depois TV, na verdade mais de 200 filmes. Não é um filme memorável, mas é um bom faroeste, com alguns instantes bem interessantes e bastante movimentados. Os fatos ocorrem a partir do noroeste dos Estados Unidos (Seatle etc), entrando Canadá a dentro, no transporte do gado em uma época em que eclodia a caça ao ouro, gerando muita cobiça, intrigas, mortes, quando ainda muitas posses de jazidas não estavam legalizadas e facilmente passavam de mãos esperançosas para outras inescrupulosas. Alguns dilemas, conflitos, em meio a exuberantes paisagens, predominantemente de inverno, tornando as imagens mais bonitas e misteriosas e no centro de tudo os seres humanos, com as suas mais variadas facetas, de amor, ódio, egoísmo e altruísmo. 8,0

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E O SANGUE SEMEOU A TERRA (BEND OF THE RIVER)

Um dos melhores westerns da década de ouro dos faroestes (de 50), dentro da parceria do competentíssimo diretor Anthony Mann com o fabuloso ator James Stewart. Aqui, de forte cunho psicológico, embora sem perder de vista a aventura, a ação e os tradicionais embates físicos típicos do gênero. Filme de 1952, também traz no elenco Arthur Kennedy, o muito jovem e ainda sem carisma Rock Hudson (26 anos) em um de seus primeiros filmes e a bela Julie Adams. Um filme intenso, tenso em muitos momentos, rico em acontecimentos e nas abordagens (barco a vapor, corrida do ouro, civilização e capitalismo se instalando, ganância, pioneiros) e que, talvez como nenhum outro, mostra de forma bastante realista as dificuldades oferecidas pela própria natureza, bem como de transporte e locomoção das caravanas pelos difíceis trajetos de longa distância, na travessia de rios, de terrenos inóspitos e pedregosos etc (a cena da troca da roda da carroça é simples, mas muito significativa). Além das belíssimas e selvagens paisagens, valorizadas pela linda fotografia, transitam pelo enredo os indispensáveis valores humanos e seus conflitos: entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, trazendo a lição de ser possível ao homem a qualquer momento se redimir do passado e mudar seu trajeto, por mais difícil que seja essa jornada (remissão do passado). Um filmaço e certamente indispensável para os fãs dos faroestes ou do magnífico James Stewart. 8,9

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SÓ A MULHER PECA (CLASH BY NIGHT)

Drama noir de 1952, dirigido por Fritz Lang (Metrópolis, Os corruptos, Um retrato de mulher, A gardênia azul) e interpretado por Barbara Stanwyck, Paul Douglas, Robert Ryan e Marilyn Monroe (entre outros), esta última em um dos seus primeiros trabalhos. Trata-se de um drama em que as atuações (de todo o elenco) e o imprevisível são seu ponto forte. Cria-se uma situação a partir do retorno ao lar de Mae Doyle (Stanwyck) e as consequências vão modificando a vida das pessoas e tornando a situação sem controle e até perigosa, sendo destaque os contornos feministas inseridos no roteiro. Na parte final do filme a tensão chega ao seu limite máximo e o espectador vira refém do enredo, que tanto pode caminhar em uma direção, quanto na outra. Não se sabe realmente o que vai ocorrer e quais serão os limites experimentados pelos personagens centrais. Mesmo assim, existe uma sensação em vários momentos de que estão faltando algumas conexões e um sentido mais harmônico. Com um título ridículo em português (pra variar) e feito só para atrair público, talvez não esteja entre os melhores da sua época, por um detalhe ou outro (incluindo a luta muito mal encenada), mas seu polêmico final enseja uma discussão importante sobre escolhas, arrependimento e principalmente sobre a necessidade de em nome de algo muito maior o homem dominar a sua vaidade e o seu próprio instinto de preservação. Méritos também na direção de Lang, em alguns diálogos afiadíssimos e na atuação de uma das maiores atrizes que o cinema já teve e que seguiu uma carreira invejável – inclusive incluindo as séries de TV Big Valley e Pássaros Feridos -, tanto em qualidade, quanto em longevidade (1932 a 1983): Miss Barbara Stanwyck. 8,4

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DIABO NO CORPO (DIAVOLO IN CORPO)

Filme produzido e dirigido por Marco Bellocchio em 1986 e desaconselhável para menores. Revelou a belíssima atriz Marushka Detmers, que protagonizou aqui cenas que a tornaram famosa e que, segundo consta, também foram responsáveis pelas dificuldades que passou a ter na carreira. Ela é o filme e o carrega nas costas, dada a exuberância de sua personagem, ao mesmo tempo encantadora e imprevisível/problemática. O filme não tem uma história original na essência, mas seu mérito é a maneira de ser contada, inclusive explorando alguns aspectos psicológicos e escancarando de um lado o poder feminino e de outro a perplexidade do lado masculino, notadamente diante da conduta sensual de Giulia. De fato, o próprio espectador às vezes fica tão desconcertado quanto Andrea, personagem do ator Federico Pitzalis, que surpreendentemente não teve sequência na carreira de galã. O diretor, que sempre teve fortes tendências políticas em sua cinematografia, explora aqui com intensidade outros elementos, embora a política esteja presente de forma acessória no drama. Esses elementos passeiam pela psiquê e criam às vezes uma complexidade difícil de decifrar, exatamente pelas reações e limites dos personagens, muitos dos quais desconhecidos deles mesmos. Como, por exemplo, a cena emotiva dos minutos finais do filme, cuja explicação pode ou não ser simples diante de um contexto nem sempre claro em seus significados. Um filme de estranha consistência, intenso erotismo e com uma trilha sonora esquisita ao longo de todo o enredo, logicamente proposital para – provavelmente – retratar justamente os aspectos emocionais e psicológicos já referidos. 8,5

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O PREÇO DE UM COVARDE (BANDOLERO !)

James Stewart estava com 60 anos quando fez este filme (em 1968), mas atuou com a categoria e a energia de sempre. E que era conhecida de todos, principalmente do diretor Andrew V. McLaglen, que já havia trabalhado com ele e que além deste western dirigiu vários outros, como Quando o homem é homem, com John Wayne, Sete homens sem destino, com Randolph Scott, além de também diversos filmes de guerra. Também participam do filme Raquel Welch, que havia “estourado” como mito sexual dois anos antes com Mil séculos antes de Cristo, Dean Martin, o cantor que gostava de atuar, principalmente como partner do humorista Jerry Lewis e George Kennedy, o grandalhão da voz grave e que faria dezenas de filmes como coadjuvante ao longo de uma longa trajetória cinematográfica. De negativo, chama a atenção a despreocupação na época com a verossimilhança quanto à aparência principalmente de Welch, que após semanas cavalgando na poeira e nas vastidões das montanhas e desertos mantinha impecáveis seu cabelo, sobrancelhas e unhas. A história aqui por certo não é sofisticada, mas tem suas qualidades e seus lances dinâmicos e até bem interessantes, ocorrendo vários dramas paralelamente: assalto a Banco, prática do enforcamento, perseguição obstinada, reflexões do homem sobre o seu destino (a paz que se deseja), cobiça, disputa da atenção feminina, bandoleiros, tiros, conflitos internos, irmãos…Um faroeste típico, mas com alguns tons de comédia, como os da ótima cena do “elegante” assalto de Banco (vide a música que embala a cena) e com um final movimentado e surpreendente, fechando a trama com uma melancólica música e deixando ainda certas reticências. 8,2

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UM LUGAR BEM LONGE DAQUI (WHERE THE CRAWDADS SING)

Com imagens esplendorosas, acompanhadas de uma trilha sonora perfeita para elas, a abertura do filme nos localiza onde tudo vai se passar (e de certa forma nos prepara): nos pântanos da Carolina do Norte. Mas já de início adverte: “O brejo não é um pântano. O brejo é um lugar cheio de luz…” E vamos ser iluminados por essa luz, embora também impregnados pelas sombras, da violência, do ódio, da rejeição, do egoísmo, da intolerância, do preconceito. Estamos diante da história da “Menina do brejo”, adaptada do best seller popular de mesmo nome, escrito por Delia Owens e que vendeu mais de 12 milhões de exemplares. A direção da americana Olivia Newman é segura e competente. E deve ser registrada a participação do grande ator David Strathaim , assim como a atuação satisfatória da atriz Daisy-Edgar-Jones, como protagonista. De negativo, pena que a bela música “Carolina” da Taylor Swift não tenha ganho o destaque que mereceria, nos pontos vitais da trama. Às vezes também se sente alguns vazios de roteiro ou falta de um melhor desenvolvimento de situações e de alguns personagens, que poderia haver mais cenas de natureza, maior dramaticidade da protagonista em alguns momentos. Mas pode ser de fato o que geralmente ocorre em face das dificuldades de se adaptar um longo texto literário para o cinema. Todavia, as oscilações de romance para drama, de drama para mistério acabam mantendo o interesse e o melodrama na grande parte das vezes consegue ser habilmente evitado/contornado. E algumas imagens (inclusive dos belíssimos livros ilustrados) enaltecem com majestade o poder e a beleza da natureza, principalmente quando a ela se integra o ser humano, amoroso e respeitoso. Os clichês aqui trabalham em sua maioria a favor do drama e a história é construída com algumas reticências em torno de um mistério maior, que acaba sendo o foco central de toda a sua parte decisiva. Que é quando, subitamente, tudo se intensifica e sobressai a força do texto. E sentimos como se esse epílogo extraordinário redimisse qualquer defeito anterior. É um final espetacular tanto nas palavras, quanto nas imagens: belíssimas plasticamente, surpreendentes, tocantes (e isso inclusive nos leva a imaginar como será especial a leitura do livro) ! É um fecho feito a caráter para emocionar, meio novelesco até, porém tem efetivamente o mérito de nos causar o impacto das grandes obras: aquela sensação do indefinido ou do aperto no peito, que perdura ainda por um bom tempo depois que o filme termina. 8,9

 

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O DECLÍNIO

Netflix. O título original é “Jusqu’au déclin”, que significa “Até o declínio”. Um título estranho, mas um roteiro diferente e interessante (que aborda preocupações atuais da humanidade, envolvendo as crises globais) e que principalmente no início nos coloca diante de um mistério que só dali a instantes iremos decifrar. Mesmo assim, este thriller de 2020 tem um ritmo ágil e os fatos ocorrem de um modo intenso, prendendo nossa atenção até a última cena. Muita tensão, suspense, mas também ação. Não é um roteiro complexo, nem muito sofisticado: é, ao contrário, simples, porém muito bem elaborado e realizado (ótima edição). As virtudes do filme são ser muito bem produzido, apresentar belas e interessantes locações típicas canadenses (florestas de coníferas com neve), ter um enredo com fatos da realidade, mas momentos absolutamente inesperados/surpreendentes, ótimas interpretações e um realismo acirrado e que faz questão de ser assim. Exatamente em razão disso, de sua violência, forte e nua/crua, é que cabe alertar que se trata de filme desaconselhável para determinado tipo de público. A produção é canadense de Quebec, terra do ótimo diretor e também roteirista Patrice Laliberté, sendo também muito bom e harmônico todo o elenco. Duas frases: para viver tem que primeiro sobreviver e a irônica da última cena (câmera se distanciando e o texto falando dos homens civilizados que buscam objetivos comuns), que fecha muito bem todo o contexto, retratando com fidelidade o caos social vigente. 8,7

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O PREÇO DE UM HOMEM (THE NAKED SPUR)

Este faroeste de 1953 é alvo das mais variadas opiniões e críticas, inclusive sobre o seu final. Há quem o considere um dos grandes faroestes da história, o ápice da carreira do ótimo diretor Anthony Mann e há outros – nos quais eu me enquadro – que o tem apenas como um regular ou bom western, com qualidades, mas também com alguns defeitos. O filme tem linda fotografia, apresentando belíssimas imagens do Colorado, onde a história se passa, logo após o término da Guerra Civil americana. Várias cenas têm como foco um magnífico rio e o enredo é uma espécie de road movie adaptado para o Velho Oeste, envolvendo poucos personagens e muitos momentos psicológicos. Os conflitos emocionais/existenciais acontecem principalmente para o protagonista desempenhado pelo sempre ótimo James Stewart e muitos são provocados pelo bandido calculista, interpretado pelo eficiente ator Robert Ryan. Claro, há também para a extensa cavalgada uma mocinha, interpretada pela então muito jovem Janet Leigh (que no mesmo ano faria Houdini com Tony Curtis e mais tarde seria a protagonista de Psicose de Hitchcock). O filme transcorre morno e quase sem novidades até a metade e depois acentua seus dilemas, redundando em um final que para muitos soa como inverossímil, considerado todo o contexto. De todo modo, as qualidades superam os defeitos e é um dos bons filmes da intensa parceria entre Mann e Stewart, que iniciou com o ótimo Winchester 73, alguns anos antes. A música-tema curiosamente é uma das mais tocadas em faroestes e foi composta por Stephan Foster durante a própria Guerra Civil: Beautiful Dreamer. 8,0

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OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (SHANE)

Este faroeste de 1953 é um dos mais famosos do gênero. Na verdade é tido como um “clássico” e está em terceiro lugar na relação dos melhores westerns do American Film Institute, perdendo apenas para Rastros de ódio e Matar ou morrer. Entretanto, eu estou com aqueles que não o colocam entre os melhores faroestes da história, embora concorde a respeito de suas inúmeras virtudes e que seja tido como um “clássico”, justamente por sintetizar, em um só filme, todos os elementos do gênero. Isso é realmente verdadeiro, porque na chamada “década de ouro” dos westerns poucos rivalizaram com ele em diversos aspectos e pelo conjunto deles, podendo ser destacados: para começar, a fotografia do filme é magnífica (época do início do CinemaScope) e as locações são deslumbrantes (vastos cenários); a tocante música incidental Beautiful dreamer (em gaitinha de boca e por poucos momentos) homenageia Stephen Foster, que a compôs por volta de 1860, mas sua música-tema é por si só marcante e permanente, pontificando intensamente ao longo de todo o enredo (“The Call of the Far-Away Hills“ de Victor Young); há o misterioso homem solitário, cuja primeira imagem vai-se formando ao fundo, em uma cena inicial de grande beleza, onde em primeiro plano aparecem o menino, um cervo e as águas que emolduram o rancho da família, próximo ao sopé das majestosas montanhas – homem esse, que a partir dali será o seu herói; há o contraste entre os que resistem às transformações do Oeste selvagem em civilizado (em outras palavras: deixar de se fazer justiça pelas armas) e os que desejam fixar suas raízes na terra, plantar, criar, constituir família e progredir; há o congraçamento de famílias e amigos dentro do pequeno núcleo constituído; há o armazém onde todos compram e o saloon onde ficam, bebem e jogam inclusive os malfeitores, há as brigas, os tiros, além, é claro, do pistoleiro vilão, muito bem representado pelo estereótipo do mal, na figura do carrancudo ator Jack Palance, com seu rosto “esculpido” em maldade, suas vestes escuras e dois ameaçadores revólveres. E, de quebra, tem a história da idolatria do menino pelo estranho que sabe atirar e também a da reprimida atração da esposa devota pelo mesmo valente e generoso herói (e deste por ela), embora haja os freios da decência e até da amizade. São protagonistas Alan Ladd (no grande papel de sua carreira), Jean Arthur (atriz que se notabilizou em comédias nas décadas de 30 e 40), Van Heflin (experiente ator de muitos filmes) e o garoto, então, com 11 anos, Brandon DeWilde (que continuou carreira por muitos anos, até morrer tragicamente em um acidente de automóvel). O diretor é George Stevens (Um lugar ao sol, Assim caminha a humanidade) e foi indicado no Oscar 1954, assim como o filme concorreu também nas categorias de Melhor filme, Melhor ator coadjuvante (dupla indicação: Palance e DeWilde), Melhor roteiro adaptado e Melhor fotografia, sendo vencedor apenas nesta última. Por tudo isso, é considerado “o faroeste por excelência” e, portanto, um clássico (vamos esquecer do patético título em português…). Entretanto, apesar de seu lado técnico que ainda hoje deslumbra, das qualidades que possui e de algumas ótimas cenas (como a da luta que não aparece e sim se adivinha e acompanha pela reação dos animais em torno), suas linhas mestras acabaram, com o tempo, ficando clichês e ficaram sedimentados os seus personagens como sem nuances ou camadas (ou seja, “maniqueístas”), o que na época de modo algum soou como demérito mas hoje pode ser considerado fato relevante no aparente paradoxo de um “clássico” não estar entre os melhores faroestes da história, conceito de alguns, embora não seja compartilhado ao que parece pela grande maioria, formada por fãs ardorosos. 8,9

 

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BOA SORTE, LEO GRANDE

Um filme de atriz e ator. E diretora. Um texto que poderia ter lugar no teatro, pois a história se passa quase toda em um só local: um quarto de hotel. Mas primeiramente deve ser dito que qualquer restrição anterior que alguém tenha com relação à britânica Emma Thomson deverá acabar com este filme. Porque ela apresenta simplesmente uma performance maravilhosa e mostra definitivamente a grande atriz que sempre foi, principalmente pelas dificuldades de transmitir as corretas nuances de uma personagem bastante difícil de retratar, pela sua própria complexidade e riqueza e também da temática. Mas seu partner, o irlandês Daryl McCormack, também é ótimo e o filme na realidade se resume à atuação dos dois, impecáveis no retrato de figuras humanas, verossímeis, sanguíneas, imersas em conflitos existenciais, estruturados por diálogos inteligentes, interessantes e instigantes em uma relação que extrapola os limites do usual. O roteiro vai seguindo caminhos mais ou menos uniformes, embora sempre muito bem construído e com muita delicadeza, mérito também da direção da australiana Sophie Hyde, que poderia pelo tema tratado facilmente enveredar por caminhos banais, mas em momento algum o faz. E ocorre então, subitamente, a quebra de toda aquela linha sem grandes sobressaltos e somos levados por caminhos inesperados. Deliciosamente imprevisíveis, de belas e maiores descobertas. E a formidável reviravolta além de nos tocar profundamente e de nos colocar frente a frente com uma realidade, também confirma do filme as suas virtudes, bem como enaltece sua generosa porção de humanidade. 8,8

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SETE HOMENS SEM DESTINO (7 MEN FROM NOW)

Este western foi feito em 1956 e iniciou a célebre parceria do ator Randolph Scott (na época com 58 anos) com o diretor Budd Boetticher. Dizem que foi um renascimento na carreira de Scott. O vilão é feito pelo também famoso Lee Marvin, especialista em tipos malvados – e que os faz brilhantemente, diga-se. Temos aqui a repetição em parte das velhas fórmulas dos faroestes, incluindo a mulher bonita, a busca pelo vil metal, cavalgadas nos belos desfiladeiros e nas paisagens áridas e exuberantes (belas locações) do centro-oeste americano, perseguições, tiros, ambição, gestos nobres e covardes, muita ação, tensão psicológica, mas com uma ou duas surpresas e aquele diferencial dado pela direção de Budd e pela presença singular dos personagens de Scott: repletos de coragem, mas também de virtudes, sendo capaz de abdicar de valores altos por aquilo em que acredita. Muito bons o roteiro, a trilha e a edição. E a exemplo do que ocorreu em Comanche Station (Cavalgada trágica), uma cena final surpreendente e de grande efeito! A mocinha do filme, realmente muito bonita, é a atriz Gail Russell, que infelizmente tinha problemas com bebidas e que acabaram encerrando precocemente sua carreira. Belo western, simples sem ser vulgar, inteligente sem ser intelectual, com muitas histórias escritas nas entrelinhas, para quem quiser ou puder ler. 8,8

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CAVALGADA TRÁGICA (COMANCHE STATION)

Curiosamente, este faroeste de 1959 também tem como título em português “Emboscada fatal”, tão ruim quanto o que prevaleceu. O original, como quase sempre, seria melhor: “Estação Comanche”. Até porque os índios comanches estão no centro de todos os acontecimentos, os que são vistos e os ocultos, que aqui têm grande importância, porque temos o mistério de um pistoleiro que busca resgatar mulheres brancas raptadas pelos comanches, oferecendo em troca tecidos, mantimentos, quinquilharias e temos também o mistério de uma recompensa de 5 mil dólares pelo resgate de uma determinada mulher, mas o marido apenas oferece o preço e não participa das aventuras da busca. São pequenos detalhes, mas que se tornam importantes, principalmente no final surpreendente do filme. Na verdade é um western simples, mas muito agradável de se ver e dotado de diversas virtudes: um pistoleiro sem grandes arroubos, mas sério, decente e seguro de si e de sua missão, interpretado pelo consagrado Randolph Scott, um ator de 1,90m e que foi um dos destaques do gêner western; um simpático, dissimulado e, pois, potencialmente perigoso bandido, interpretado por Claude Akins, ator que ficaria famoso anos mais tarde por interpretar na série de TV o Xerife Lobo; pistoleiros com alguma consciência do certo e do errado e, moldurando tudo isso, as vastidões do Velho Oeste, terras dos comanches, com o admirável domínio dos cavaleiros sobre os cavalos e grandes e admiráveis cavalgadas, inclusive em difíceis terrenos montanhosos. Filme enxuto, simples, mas eficiente em sua mensagem e com a emoção na medida certa, apresentando um panorama muito maior do que a princípio permitiria seu tempo de exibição. Aliás, dizem que a década de 50 foi o paraíso para os fãs de faroestes e na segunda metade da década Randolph Scott e o diretor Budd Boetticher (especialista no gênero e nas mensagens sintéticas mas poderosas) fizeram, fora esta, mais seis parcerias, todas econômicas quanto à duração, mas generosas quanto ao conteúdo: Sete homens sem destino (Seven men from now), O resgate do bandoleiro (The tall T), Entardecer sangrento (Decision at sundown), Fibra de herói (Buchanan rides alone), O homem que luta só (Ride lonesome) e Um homem de coragem (Westbound). 8,6

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O TELEFONE PRETO (THE BLACK PHONE)

Um thriller com momentos de drama e até de horror, passado em Denver e que envolve um misterioso criminoso que aterroriza a cidade, aparentemente um serial killer de crianças. O filme constrói bem a trama, desenvolve a história de forma a construir eficientemente o mistério e o suspense, propiciando até o final bons momentos de tensão, com vários toques sobrenaturais (um deles justificando o título, inclusive). Destacam-se o bom elenco juvenil, capitaneado pelo jovem Mason Thames (na época com 14 anos) e o papel inusitado desempenhado pelo ator Ethan Hawke, cujo rosto inclusive não aparece de um modo completo. Não é algo que ficará na memória cinematográfica em termos gerais, mas sem dúvidas é um filme acima da média dentro do gênero e que vai agradar principalmente aos fãs. Porém, também vai divertir aqueles que apreciam um trabalho bem elaborado, embora utilize elementos já conhecidos. Principalmente por toda a “atmosfera” construída e que torna tudo atraente e apto a prender a atenção do espectador do começo ao fim. 8,3

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ELVIS

O diretor australiano Baz Luhrmann (Moulin Rouge, O grande Gatsby, Austrália, Romeu e Julieta) novamente imprime seu estilo visual, sonoro e rítmico (em narrativa, que lembra Moulin Rouge) para fazer mais uma obra marcante na história do cinema. A narrativa, mesclada com a trilha e o som e as imagens já propiciam um início apoteótico ao filme, com um trabalho de edição que vai se revelar primoroso do começo ao fim. E a história fascinará o espectador, tanto nos momentos da origem e das influências que forjaram o mito Elvis Preasley, quanto na sua ascensão ao apogeu e no seu declínio, que é a parte melancólica do filme e que guarda um final com momentos mágicos embora tristes, onde vemos imagens reais do ídolo mescladas com as das performances do espetacular ator Austin Butler e um dos números musicais mais emocionantes da carreira de Elvis, cantando ao piano Enchained Melody, no mês de agosto de 1977, mesmo mês em que veio a falecer. Esse momento do filme é simplesmente dilacerante! O filme mostra um painel histórico do artista que ousou cantar o que só os negros cantavam, influenciado pelas canções de blues, jazz e soul que ouvia quando criança e adaptando sua juventude e rebeldia com uma dança que além de revolucionar a música, também causou grande choque nos costumes e nos conservadores naturalmente (tanto, que a carreira foi interrompida por um oportuno serviço militar). Mas o filme não é só uma biografia de Elvis, talvez sendo muito mais a do seu polêmico empresário, conhecido como Coronel Parker. Portanto, o enredo também e principalmente aborda a ambição e como ela influenciou e limitou os caminhos do artista, talvez causando em grande parte seu destino. O filme é repleto de referências, tanto das origens do blues na pessoa de Arthur “Big boy” Crudup (que impressionaram o Elvis criança), que teve algumas músicas regravadas por Elvis, como de legendas a exemplo de B.B. King Little Richard, Mahalia Jackson (música negra de Nova Orleans) e a presença de artistas como Hank Snow, que representava o tradicionalismo que existia antes da “revolução Preasley”. Claro, o filme naturalmente cita Beatles e Rolling Stones, como marcos da década de 60. Há também referências históricas: embora algumas só sejam citadas, o filme mostra diversos momentos de grande comoção nacional como o assassinato de Martin Luther King (a poucos quilômetros de Graceland, Memphis, Tennessee, onde está a mansão onde morou toda a família de Elvis), do senador Ted Kennedy, da atriz Sharon Tate. Este é realmente um filmaço e faz um merecido tributo ao ídolo, mostrando também várias facetas pouco conhecidas ou até romanceadas, sendo que o odioso e inescrupuloso empresário é tão bem feito por Tom Hanks, que chega a despertar raiva de quem assiste ao filme. Agora, o protagonista dá um verdadeiro show de interpretação. Uma performance merecedora de um Oscar, havendo momentos em que não conseguimos distinguir o ator do verdadeiro cantor, tal a perfeição do trabalho! Um magnífico trabalho, que homenageia o ídolo, conta algo de sua história, revela fatos diversos e espantosos (como por que Elvis não fez excursões pela Europa) e talvez desperte a curiosidade daqueles que não conhecem sua arte e a importância que teve na revolução musical dos anos 50/70. Na HBO Max. 9,5

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NEM UM PASSO EM FALSO (NO SUDDEN MOVE)

Este thriller policial de 2021 se passa na Detroit da década de 50 e tem um roteiro em parte complexo. No começo não é difícil de entender, mas à medida em que a história avança aparecem várias “reticências”, assumindo às vezes uma prolixidade que poderia ser evitada. Mas o fato é que foi intencional e só por isso não é para todo tipo de público, a explicação mais importante sendo dada na última cena e havendo muitas lacunas que o espectador terá que preencher com percepção/inteligência ou vai acabar deixando em aberto. É, portanto, um roteiro denso, intrincado, mas consistente, nada ocorrendo por acaso. Algo, portanto, digno de ser bem degustado e com ótimo elenco: Don Cheadle, Benício del Toro (ator recorrente do diretor), Brendan Fraser (quase irreconhecível pela forma física), Ray Liotta, David Harbour, Jon Hamm (de Mad man) e Matt Damon, de mais conhecidos. O diretor é o festejado e às vezes polêmico Steven Soderbergh (Erin Brockovich, Magic Mike, Onze homens e um segredo, Sexo mentiras e vídeotape, Insônia, Longe do paraíso, Boa noite e boa sorte), cujo estilo transparece nas homenagens aos filmes noir e nas “pitadas” de humor cínico, como a última fala do personagem de Harbour. HBO Max. 8,4