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QUANDO HITLER ROUBOU O COELHO COR-DE-ROSA

Este é um filme quase “politicamente correto” e esse aspecto, até mesmo enaltecido por alguns como uma virtude, pode muito bem ser utilizado contra ele, como um defeito: o de ser igual a dezenas de filmes com tema parecido, porém sem qualquer originalidade ou ousadia, pisando e repisando em lugares-comuns. Isso certamente vai afastar muitos espectadores em potencial. Porém os que se aventurarem não vão sofrer grandes abalos e talvez até o apreciem, afinal. De fato, é uma história suave, sem violência, sem cenas de guerra ou qualquer coisa parecida. Os fatos ruins ficam apenas nas falas e nas reticências. Não são mostradas cenas degradantes ou a pobreza. a miséria e o medo em suas cores reais; e tudo, pode-se dizer, flui com inesperada leveza, em se tratando da fuga de uma família judia do regime nazista, que estava se instalando na Alemanha de 1933. Entretanto, sua narrativa é delicada, baseada em sucesso literário semiautobiográfico, tem ótima trilha, fotografia e elenco (sendo um destaque a atriz de 11 anos que interpretou Anna), além de passar uma mensagem positiva, com visão otimista sobre mudanças, sobrevivência e esperança no futuro. A seguir alguns spoilers…O adequado título do filme –o mesmo do livro em que se baseou- faz referência justamente ao fato de, na fuga da Alemanha, na mala da menina só caber um bichinho de pelúcia: e ela escolheu o presente novo, deixando para trás o coelho cor-de-rosa, que era mais antigo. O livro em que o filme se baseou foi escrito por Judith Kerr em 1971 e é considerado um clássico da literatura juvenil, tendo sido traduzido para 20 idiomas. Judith, que morreu aos 95 anos em 2019, conta no livro a sua história (que vemos no filme) e na vida real acabou estudando arte após a guerra e virando ilustradora de livros infantis. Fato também marcante é que seu irmão Michael se tornou o primeiro juiz estrangeiro no Tribunal Superior de Justiça da Inglaterra. A diretora do filme é a famosa alemã Caroline Link, premiada com o Oscar de Melhor filme estrangeiro em 2003, com Lugar nenhum na África. Não é um filme memorável, mas pode muito bem ser visto com algum prazer e emoção, como mais um a contar as histórias difíceis da guerra e a deixar algumas lições de humanidade.  7,6

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A COSTELA DE ADÃO (ADAM´S RIB)

Para começar, o título deste filme de 1949 –que felizmente teve tradução literal!- é genial, porque seu tema é a chamada guerra dos sexos e inclusive o personagem masculino se chama Adam (Adão). Temos aqui, então, um estudo sobre as batalhas entre homens e mulheres, estas formadas a partir da costela daqueles, segundo a Bíblia, é claro. A temática é a desigualdade sexual e social, cujas características são debatidas ao longo do filme pelo casal central, que se opõe tanto no ambiente do lar, quanto do tribunal, pois se trata de um promotor público e de uma advogada. O que também é uma feliz criação do roteiro para levar adiante os seus propósitos duelísticos. Ainda mais sendo o referido casal interpretado por Spencer Tracy e Katharine Hepburn (quem melhor para fazer o papel de uma feminista aguerrida?), que dispensam maiores comentários (vide resenhas anteriores) e que vão nos fazer rir, emocionar e nos propiciar deliciosos momentos ao longo de todo o filme, com alguns situações inclusive bizarras, como a que ocorre no tribunal com o promotor e a que se dá com o revólver, em uma cena bastante inusitada. O filme flui com leveza e um tom contagiante de bom humor, apesar do tema árido e impressionantemente atual. Além da excelência do par central, o restante do elenco é ótimo, a fotografia muito bem cuidada, a trilha sonora perfeita a cargo de Miklós Rózsa e ainda foi composta especialmente para o filme a música Farewell Amanda, por Cole Porter. É um filme com um ritmo delicioso e qualidade também na montagem, méritos que se somam ao da direção para George Cukor, que já havia dirigido Katharine nove anos antes (Núpcias de escândalo) e legou ao cinema grandes obras, como À meia luz, Nasce uma estrela e My fair lady. A qualidade do ótimo roteiro foi reconhecida pela indicação do mesmo ao Oscar 1951.  8,8

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A MULHER DO DIA (WOMAN OF THE YEAR)

Difícil explicar o título em português, quando bastava repetir o original em inglês, que tem o mesmo significado e uma concepção mais universal. Mas como sempre não é fácil entender o cérebro dessas pessoas que dão nome aos filmes distribuídos no Brasil e também o título brasileiro não é um absurdo. De outro lado, o cartaz do filme constitui realmente um spoiler incontornável, embora nesse tipo de filme em poucos minutos o espectador já perceba que rumos o roteiro seguirá. Resta dizer que o par central  é formado pelos consagrados Spencer Tracy e Katharine Hepburn, esta inclusive indicada ao Oscar por sua –mais uma!- destacada atuação. Mas fora os dois, não vejo nada de especial no filme, fora uma cena ou outra, sendo seu atrativo maior, na verdade, o que ocorreu nos bastidores, pois foi fora de cena (ou não?) que o casal se conheceu e pelo que contam se apaixonou instantaneamente, passando a haver daí um relacionamento sólido de mais de 25 anos, embora clandestino (com Hollywood toda sabendo…) porque Tracy continuou casado legalmente com outra mulher. A história tem alguns enfoques interessantes envolvendo inicialmente uma rivalidade superficial entre dois repórteres e depois o conflito da vida profissional atribulada com o relacionamento pessoal e as lições que se retira de tudo para que a busca, afinal, do equilíbrio, mas na maior parte do filme não há grandes emoções ou acontecimentos. O diretor é George Stevens, com trabalhos bastante respeitáveis no cinema, como em Um lugar ao sol, Os brutos também amam, Assim caminha a humanidade etc e, ao contrário da opinião deste articulista, muitos gostaram deste filme, inclusive a Academia, que o premiou com o Oscar 1943 de Melhor roteiro. 7,6

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ADIVINHE QUEM VEM PARA O JANTAR?

Há alguns filmes que são importantes dentro de um contexto ou de uma época. Há outros cuja importância se vincula à própria história do cinema (às vezes até a questões técnicas ou tecnológicas). Entretanto, neste blog esses fatores são apenas complementares na avaliação dos filmes, porque a importância maior é dada ao conjunto das mensagens, reflexões, conhecimento e emoções que o filme traz. No caso deste filme, ele tem os dois méritos: a qualidade como obra cinematográfica em si e o contexto histórico em que foi realizado, em 1967, considerando o tema tratado, que é o da discriminação racial. Embora de forma leve, com tons de comédia, o filme trata de frente e seriamente sobre as questões do racismo e nesse sentido os diálogos são realmente primorosos. Sem dúvidas, a década de 60 foi uma das mais importantes da história, com movimentos (liberação sexual, pílula, hippies), revoluções, fatos políticos relevantes, assassinatos, guerras etc e se os conflitos raciais são assunto ainda pulsante na atualidade, imagine-se naquela época e nos EUA! Além disso, o filme é protagonizado por Katharine Hepburn e Spencer Tracy, dupla consagrada em Hollywood e que estrelou diversos filmes anteriores, entre os quais A mulher do dia (quando ambos se conheceram, em 1941), A mulher absoluta e A costela de Adão. Katharine é uma lenda em Hollywood, tendo sido considerada pelo American Film Institute como a maior atriz de todos os tempos. Foi indicada 12 vezes ao Oscar e ganhou 4 vezes (um recorde), a primeira delas em 1934 (Manhã de glória) e a última em 1982 (Num lago dourado), o que demonstra sua longa e exitosa carreira. Spencer Tracy –que faleceu no mesmo ano do filme- não fica muito para trás, em talento e em referências, tendo sido indicado 9 vezes ao Oscar (mesmo número de indicações de Laurence Olivier) e ganhado 2 vezes, em 1938 (Marujo intrépido) e em 1939 (Com os braços abertos). Além da dupla mencionada e do elenco absolutamente coeso adiante nominado, o filme teve como diretor Stanley Kramer, famoso por vários filmes, como O vento será tua herança, Julgamento em Nuremberg, Matar ou morrer, A nau dos insensatos, Deu a louca no mundo e O selvagem. Este filme e foi indicado a 10 Oscar: filme, diretor, ator (Spencer Tracy), atriz (Katharine Hepburn), ator coadjuvante (Cecil Kellaway), atriz coadjuvante (Beah Richards), roteiro original, montagem, trilha sonora e direção de arte. E ganhou os de Melhor Roteiro e de Melhor Atriz. Também estão no filme Roy E. Glenn Senior, Isabell Sanford e com grande destaque Sidnei Poitier, que coincidentemente também trabalhou naquele mesmo ano no filme que acabaria ganhando o Oscar: No calor da noite. Apresentando também uma ótima fotografia (belíssimo colorido realmente), o filme é impecável em todos os sentidos, roteiro, ritmo sem excessos, tendo realmente alcançado uma “leveza com profundidade (na jugular)” que só os grandes diretores e intérpretes conseguem. É um filme muito gostoso de se ver, que causa muitas e variadas emoções e que também faz pensar.  E, para finalizar, um fato também muito importante, que relaciona o filme com a vida real e que talvez seja até uma motivação a mais para vê-lo (uma certa cena quase ao final…). Conforme narra em um texto muito bonito e bem escrito (de 2003) o amigo cinéfilo Clauir Luiz Santos, “Katharine confirmou em uma entrevista o que tudo mundo sabia, ou seja, que manteve um relacionamento amoroso de mais de 30 anos com Spencer Tracy. Disse que ele foi o homem de sua vida e que só não casaram por ele já ser casado e pela sua condição de católico, o que o impedia de se divorciar da esposa. Também afirmou ter sido uma mulher extremamente feliz ao lado dele e que se fosse para fazer tudo de novo, repetiria da mesma forma, sem pestanejar.” Prossegue Clauir, contando ainda que Katharine, falando especificamente sobre este filme, cita um momento das cenas finais (as quais ela disse que simplesmente não conseguiu assistir!), em que Tracy sai do script e improvisa, aparentando falar um texto restrito ao enredo do filme, mas na verdade dirigindo a Katharine todas as palavras, sobre a relação dos dois: “Spencer fala isso olhando sempre para Katharine e quando a câmara gira buscando a expressão dela, vemos um rosto emocionado, em prantos pela declaração do parceiro. É uma cena de arrepiar pela sinceridade de Spencer e pelo olhar de amor marejado de Katharine, o qual explica a sua resignação em suportar ser a outra e a sua abnegação em cuidar da doença e do alcoolismo dele. Dias depois, Spencer morreria na casa de Katharine.”  9,5

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PÉRFIDA (THE LITTLE FOXES)

Este filme de 1941 tem um roteiro acima da média. Mas às vezes é um pouco prolixo demais (muitos e rápidos diálogos), embora realmente seja bem elaborado e tal fato não prejudique a compreensão, que mais tarde virá de forma clara. O problema aqui é o estereótipo, porque apesar de Bette Davis ser uma grande atriz e de a personagem ter o mérito do feminismo em uma época machista e em que só os homens eram herdeiros das famílias (final do século 19), a personificação de malvada fica muito evidente, explícita demais: desde as feições, passando pelo comportamento, pelo cabelo, pela maquiagem, tudo forma o perfil de uma vilã. Esse é um defeito de certo modo relevante em um filme muito bem construído e com personagens e trama bem interessantes, que intercala situações familiares com interesses financeiros e um panorama bem definido da sociedade da época. O título original, produto da inteligência, justifica-se pelo teor da citação que aparece na introdução do filme e que também é repetida a certas alturas pelo personagem Horace (o marido). E o título em português, produto do comércio, identifica o caráter da personagem de Bette. Dois anos antes da produção do filme a peça de mesmo nome e tema fez muito sucesso, inclusive três atores e uma atriz de seu elenco participando do filme: Dan Duryea, Charles Dingle, Carl Bento Reid e Patrícia Collinge. Esta última, no papel de Birdie, foi indicada ao Oscar como coadjuvante, também sendo indicada para a mesma categoria a atriz Teresa Wright, que fez o papel de Alexandra (seu primeiro papel no cinema). O diretor foi William Wyler, que já havia dirigido Bette em Jezebel e A carta e conta-se que ambos em todas as produções tiveram muitas divergências de opiniões em vários assuntos e momentos, a ponto de, segundo Bette, “cada dia ser uma batalha”. O filme concorreu a 9 Oscar e não ganhou nenhum: filme, direção, atriz (Bette Davis), atriz coadjuvante (Teresa Wright e Patrícia Collinge), roteiro adaptado, montagem, direção de arte em p&b e trilha sonora. Por fim, cabe o registro dos últimos minutos do filme, do diálogo de mãe e filha e dos instantes depois: um primor de fotografia e direção, trilha sonora e interpretação. 8,5

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A CARTA

A primeira cena já mostra um assassinato –por isso o belo cartaz do filme não dá spoiler!-, cujos desdobramentos vão ocorrer ao longo do filme, com algumas surpresas, sendo o primeiro mistério o do próprio nome do filme (que é fiel ao original): que carta é essa e onde está? Mas o mistério não vai muito longe e a partir da solução dele ficam outras dúvidas e o filme segue, dramático, com alguma tensão e a ótima interpretação, como sempre, de Bette Davis. O diretor consegue imprimir bom ritmo e uma roupagem nobre ao filme, sendo ele William Wyler, que dois anos antes havia dirigido Jezebel com a mesma Davis e que nos anos seguintes daria ao cinema grandes filmes, entre os quais O morro dos ventos uivantes, Rosa da esperança, Os melhores anos de nossas vidas, A princesa e o plebeu e Ben Hur. O filme tem alguns detalhes interessantes, mantém um certo suspense, mas uma ou outra performance não tem o brilho que deveria e o seu desenvolvimento deixa um pouco a desejar, por questões talvez do próprio roteiro, sendo na verdade um filme apenas assistível, quando poderia –talvez com alguns toques de inteligência e criatividade no enredo- ser um fascinante filme noir. Em resumo, embora não seja de se desprezar, por instantes interessantes do roteiro, pelo diretor e principalmente pela ótima atriz, o filme é meramente um bom filme dos anos 40, com uma história que a rigor poderia perfeitamente ser exibida em uma das sessões da tarde. Não foi assim, entretanto, que entendeu a Academia de Hollywood, indicando o filme a sete categorias no Oscar 1941 (embora não tenha vencido em nenhuma): Filme, Diretor, Atriz, Montagem, Fotografia em p&b, Trilha sonora e Ator coadjuvante. De fato, o ator James Stephenson foi o destaque do filme juntamente com Bette Davis, compondo muito bem o difícil personagem do advogado, que acaba envolvido (e atormentado) em problemas éticos.  7,7

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ROSA E MOMO (LA VITA DAVANTI A SÉ/THE LIFE AHEAD)

Nesta produção Netflix, a premiada atriz italiana Sophia Loren é dirigida pelo seu filho Edoardo Ponti (suiço, 47 anos) e corajosamente se despoja de toda e qualquer vaidade, para aos 86 anos interpretar uma velha e peculiar senhora,  em um papel na verdade maravilhoso, neste filme sensível mas nada piegas, que aquece os corações e enaltece belos valores humanos, como a amizade, a generosidade e o amor, que acabam surgindo, afinal, como a única solução para que ganhem voz criaturas invisíveis que povoam a sociedade, embora muitas delas marginalizadas e carentes. Ela, Sophia, é Rosa, uma mulher idosa e sofrida, que já foi prostituta, que já viveu o holocausto e que já aprendeu a agasalhar pessoas. O título do filme significa mais ou menos o mesmo, seja em inglês, seja em italiano, como “a vida pela frente”, ou “a vida que está diante de nós”, mas título brasileiro, “Rosa e Momo”, faz referência aos dois protagonistas, ela interpretada por Sophia e ele pelo extraordinário e tocante ator mirim Ibrahima Gueye. Mas além deles, o restante do elenco também é ótimo. O filme emociona em vários momentos, tratando de uma realidade difícil e incômoda, inclusive sobre o tema da infância e da juventude exploradas, em um mundo de drogas e de desproteção. Fala também da finitude e sua trilha sonora nos conduz em vários momentos sensíveis, enaltecendo o fato de que uma pessoa boa e generosa pode mudar o destino da outra. A música, que traz um momento especial e muito alegre do filme (“Malandro”, cantada por Elza Soares e que absurdamente não consta dos créditos), também o finaliza, inclusive na voz de Laura Pausini (“Io sì”), deixando a mensagem de que a única solução -e ao mesmo tempo a esperança- para os invisíveis da sociedade é, pelas virtudes de alguém, serem  de repente verdadeiramente vistos.  8,7

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JEZEBEL

Esta produção de 1938 concorreu no Oscar 1939 a Melhor filme, Melhor trilha sonora, Melhor fotografia, mas ganhou nas categorias de Melhor atriz (Bette Davis) e Melhor atriz coadjuvante (Fay Bainter). Bette Davis realmente está maravilhosa, principalmente na parte final do filme, que é a que concentra os melhores e mais emocionantes momentos da história. Um drama feito um ano antes de E o vento levou e que tem alguns elementos que lembram este filme, como a circunstância de os fatos se passarem em Nova Orleans e sobretudo em época que respira a guerra civil americana. Aqui, porém, o enredo se desenrola bem antes da guerra, embora já existisse uma clara animosidade entre o norte e o sul, que o filme deixa evidente. Mas o aspecto que acaba sendo o mais decisivo e impactante não é a guerra da secessão e sim outro (sem spoiler !), que acaba definindo o destino da trama e dos personagens. Este foi um dos primeiros filmes desse grande diretor de cinema chamado William Wyler, que ficou ainda mais famoso pelas produções dos anos seguintes, como O morro dos ventos uivantes, Rosa da esperança, Os melhores anos de nossas vidas, A princesa e o plebeu e Ben Hur. Todo o elenco está ótimo, mas Henry Fonda, ainda bem jovem, destaca-se especialmente, compondo a dupla central de protagonistas. O filme tem o mérito de nos levar de volta a uma época, reconstituindo com maestria costumes, figurinos e principalmente os dramas sociais (a cultura escravagista povoa grande parte das cenas). O filme tem cenas absolutamente marcantes e maravilhosas, como a cena do baile (magistralmente filmadas) e as cenas finais, mérito também do estilo do diretor, que sabia muito bem como contar uma história, dentro de um contexto de perfeita sincronia entre todos os seus elementos, técnicos e humanos. Este é um filme dramático, histórico e bastante tocante, que rendeu merecidamente a Bette Davis um dos dois Oscar que ganhou em sua carreira repleta de prêmios. Tem uma ou outra cena questionável, mas na realidade o que faz é mostrar como se sentiam os sulistas dos EUA, com sua suposta superioridade sobre o norte e suas celebrações (bailes suntuosos), rituais e tradições (como a de as moças solteiras vestirem branco nas festas).  8,8

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DESTINOS CRUZADOS (RANDOM HEARTS)

Este é um filme de 1999, adulto e muitíssimo bem feito: “redondo”, harmônico em todas as suas linhas, interessante, instigante, com ótimo roteiro, elenco, fotografia etc, fatos que denunciam a ótima montagem e sobretudo a excelente direção, no caso de um nome consagrado. Sidney Polack (Tootsie, Entre dois amores, A firma, A intérprete, Sabrina, De olhos bem fechados etc) que dirige e também atua no filme, sendo também um eficiente intérprete. E, claro, um bom roteiro e um bom diretor necessitam de um elenco consistente. E aqui esse belo elenco (que conta com Paul Guilfoyle, Richard Jenkins e Dennis Haysbert, entre outros) é capitaneado por uma dupla que interage com inegável química e talento: o par central é interpretado pelo indiscutivelmente carismático Harrison Ford e pela bela e talentosa atriz inglesa Kristin Scott-Thomas (que tem uma bela clássica, embora singular/original, estando maravilhosa neste filme), que conduzem a trama com muita competência e também sensibilidade e emoção. Trata-se de um drama salpicado de suspense, que faz com que o espectador acompanhe todo o drama/thriller com redobrada atenção: no início tentando desvendar os fatos paralelos e depois assumindo a crescente tensão do enredo, tentando adivinhar os acontecimentos. É um filme de dor, de surpresas, de elementos policiais, de humanidade, um filme de amor diferente, com um tema dolorido, mas sem dúvida, apesar de tudo, sua maior qualidade é a delicadeza. Delicadeza no tratamento do tema, na interpretação e na direção. E que é enaltecida de uma forma absoluta e pungente pela belíssima trilha sonora, que a exalta ao pontificar a melancolia nos acordes jazzísticos do sax e do piano.  8,8

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A LUZ É PARA TODOS (GENTLEMAN´S AGREEMENT)

Um filme premiado, feito em 1947 e co-roteirizado e dirigido com muita competência por Elia Kazan, que nessa época ainda estava no começo de sua carreira, a qual foi consolidada definitivamente alguns anos depois com grandes filmes, como Um bonde chamado desejo, Viva Zapata, Sindicato de ladrões, Vidas amargas, Clamor do sexo. Kazan ganhou o Oscar e o Globo de Ouro pela direção, o mesmo ocorrendo com o filme (ou seja, ambos os prêmios) e com a atriz coadjuvante Celeste Holm. Além disso, o ator Dean Stockwell foi premiado com o Globo de Ouro, como melhor ator jovem. Concorreram ao Oscar o ator Gregory Peck, a atriz Dorothy McGuire, a atriz coadjuvante Anne Revere, além do roteiro e da montagem. Realmente é uma bela obra, com bela fotografia em p&b, harmônica atuação de todo o elenco, um roteiro interessante e os prêmios já dizem bastante sobre a sua qualidade. Apenas alguns momentos do filme são levemente arrastados e alguns diálogos um pouco truncados ou complexos ou desnecessários, ou seja, existem alguns senões em seu desenvolvimento,  mas esses fatos acabam sendo superados pelo tema de enorme abrangência social e pelos sentimentos e mensagem que deixa no seu final. O título original, “Acordo de cavalheiros”, faz referência ao trabalho jornalístico assumido em segredo pelo protagonista e que justamente dá origem ao tema principal do filme, que não é o trabalho em si, mas os reflexos dessa “missão jornalística”, devastador nas atitudes de preconceito que provoca e que reflete uma condição social, que infelizmente pode ainda ser observada nos dias de hoje. O filme investiga e denuncia o preconceito e a discriminação racial, tendo sido realizado dois anos após o final da segunda guerra mundial. Pelo que consta, foi o primeiro filme com essa temática nas telas do cinema, fato que amplia ainda mais a força de seu texto e justifica ainda mais a premiação que recebeu. Baseado em obra literária, denuncia de um modo original o antissemitismo (preconceito, rancor ou ódio contra os judeus), mesclando naturalmente (pela época) a linha mestra do roteiro com toques de romantismo. Na verdade, seu tema acaba sendo universal e até mesmo gera uma questão ética envolvendo o jornalismo, na pessoa do jornalista que aceita e cumpre uma missão “sigilosa” e que exige uma falsidade de conduta, fato que mais uma vez remete ao título original do filme.  8,7

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FANNY

Este é um filme leve, divertido, com um belíssimo colorido, ótima trilha, elenco delicioso e saboroso roteiro, que ainda por cima se passa em local original, que é o porto de Marselha, com suas peculiaridades de pessoas (personagens interessantes), comércio, cheiros, clima e cenários. Uma comédia, com toques de drama, estrelado por Leslie Caron (Lili, Gigi, Sinfonia de Paris), Horst Buchholz (de Sete homens e um destino), Charles Boyer e Maurice Chevalier, patrimônios da dramaturgia do cinema. O filme é muito bem interpretado e estruturado (embora talvez algumas pequenas quebras), com ótimo ritmo e toques de romantismo, sobre a família, o casamento, a amizade, a generosidade, a compaixão, muito embora seja às vezes meio teatral, novelesco, o que retrata em parte o estilo da época e talvez combine com tons da própria trama. O diretor foi o texano Joshua Logan, que deu ao cinema obras como Sayonara, Férias de amor, Nunca fui santa e Os aventureiros do Ouro, entre outros e que aqui faz um trabalho elogiável e agradável.  Concorreu a cinco Oscar em 1962 e não ganhou nenhum: Melhor filme, ator (Charles Boyer – o dono do bar), montagem, trilha sonora e fotografia em cores. 8,5

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EDEN LAKE (SEM SAÍDA)

Estamos em um mundo no qual vivemos em permanente inquietude e perplexidade. Medo da violência e espanto diante de sua ocorrência, às vezes com requintes de crueldade, às vezes quando menos se espera. Em relação a essa violência, vemos incrédulos, todos os dias na mídia, cenas quase inacreditáveis de covardia, de insensatez, de animalidade mesmo, presenciando o total desprezo de algumas pessoas pela vida humana, por quaisquer valores da civilidade,  como se estivessem ali animais, com o agravante de que não praticam o crime para matar a fome e sim para saciar instintos raivosos. Vendo a violência que está em nossa volta e que muitas vezes nos aterroriza, sentimo-nos impotentes e até podemos perfeitamente perder um pouco a fé na humanidade, ao constatar que certas situações são irremediáveis e que determinadas pessoas jamais serão dignos de serem chamados de humanos, aproximando-se mais das bestas irracionais e implacáveis em seus atos de selvageria. Ficamos achando mesmo que não há solução para tal tipo de gente e por decorrência para alguns tipos de crimes. Este é um dos filmes de suspense (e terror) mais realistas dos realizados no gênero e que nos faz pensar sobre os fatores acima expostos. Mas já fica a advertência de que haverá sustos (muito bem feitos), mas principalmente um conteúdo adulto e com cenas de intensa violência, que exigem certo preparo do espectador. Um filme desaconselhável para grande parte do público, portanto, mas que deve ser visto pelos que apreciam o gênero e fatos fortes, até como um meio de alerta e também de reflexão sobre inúmeros os fatos sociais, sobre a nossa realidade. Porque visto como algo não banal, o filme será entendido na mensagem que pretende passar e que também nos fará pensar sobre nossa conduta e as medidas que devemos adotar em nosso dia a dia para não nos sujeitarmos a tais possibilidades. E talvez concluir realmente que há pessoas sem qualquer padrão de moral ou de humanidade, de quem deveremos manter sempre a prudente distância. Trata-se de um filme incomum dentro do modelo, que geralmente é superficial, nas cenas, nos sustos, nas mensagens e até mesmo na direção e nas interpretações. Porquanto aqui, ao contrário, é algo muito bem elaborado, dirigido e montado, que mostra uma realidade para a qual muitos viram as costas, mas que existe diante de nossos olhos. O filme choca, incomoda, discute inclusive a educação, a criminalidade envolvendo a menoridade penal, entre outros contextos. E, embora com roupagem de filme B (e alguns clichês e até pequenos exageros para o bem da mensagem), tem todos os ingredientes que o qualificam, incluindo com o roteiro a excelência dos seus protagonistas, que são classe A, como a ótima atriz britânica Kelly Reilly (Bonecas russas) e o renomado e excelente ator Michael Fassbender (Shame, A luz entre oceanos). O diretor é James Watkins (A mulher de preto) e este thiller de 2008 acabou além dos fãs do gênero agradando também a crítica, sendo bastante elogiado.8,6

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CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS (THE PUMPKIM EATER)

Este filme merece destaque em vários aspectos, embora pudesse ser bem melhor, a despeito de ser um drama realmente pesado, em razão de sua temática. Esses pontos de destaque são alguns momentos da direção de Jack Clayton, diversos instantes do roteiro (ora meio confuso, ora muito bem elaborado pelo Prêmio Nobel de 2005 Harold Pinter, também ator, poeta e dramaturgo) e principalmente a estupenda atuação da atriz Anne Bancroft, três anos antes de fazer a famosa Mrs. Robinson no filme que lançou Dustin Hoffman para o cinema (A primeira noite de um homem), tendo a dita personagem inclusive sido eternizada pela música de Simon & Garfunkel. Aqui Anne Bancroft esbanja, além do talento, uma beleza incontestável (muito explorada pela belíssima fotografia), enfrentando um papel dificílimo, com uma personagem bastante complexa. Foi inclusive indicada ao Oscar (perdeu para Julie Andress, por Mary Poppins) e ganhou tanto o Globo de Ouro, quanto o Bafta (Oscar britânico), sendo também a vencedora em Cannes. Merecidamente. Este é um drama pesado e dolorido, que fala sobre casamento e filhos e expõe as vísceras das questões mais profundas e tormentosas que angustiam um casal, inclusive envolvendo as crianças, razão do apropriado (!) título em português. Peter Finch também enfrenta muito bem a complexidade do personagem, porém James Mason está totalmente desconfortável em um papel surpreendentemente muito ruim que recebeu. O fato é que o filme dá a impressão de que ou o roteiro está manco em vários pontos (afinal, Pinter ficou famoso também com o Teatro do Absurdo…!) ou a direção/montagem foi realmente instável, quebrando a harmonia do conjunto em várias cenas, fragmentando ou cortando abruptamente momentos importantes, deixando o filme realmente estranho em muitas oportunidades (como estranho é o personagem de Mason!). Em outras mãos teria sido um filme magistral, embora mesmo assim, pelo que apresenta, por sua imprevisibilidade e notadamente pelas emoções que nos propicia, acabe deixando ainda fortes sensações de qualidade. 8,2

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FILHOS E AMANTES (SONS AND LOVERS)

Não é  tão fácil adaptar um romance. Ainda mais quando se trata de um livro complexo e com temas difíceis e, além disso, censuráveis. Notadamente quando se trata de um escritor proibido e polêmico quanto D.H. Lawrence, que tanto foi considerado um nome importante para a literatura inglesa, quanto questionado e criticado por suas ideias de apoio ao fascismo e ao nazismo: escreveu vários livros, sendo os mais famosos justamente os dois que foram proibidos por muitos anos, “Mulheres apaixonadas” e “O amante de Lady Chatterley”. Interessante que o romance que dá título a este filme foi escrito em 1913 e o filme foi feito em 1960, havendo um abismo aparente de tempo separando a moralidade dos dois períodos. Igualmente curioso que o título do filme não significa exatamente o que aparenta (apesar de Lawrence…), embora sugira efetivamente um relacionamento doentio e que fica próximo ao incesto, isto é, o “aprisionamento”, em todos os sentidos, do filho pela mãe excessivamente protetora. E tanto a adaptação do romance foi bem sucedida, que o roteiro do filme foi indicado ao Oscar, assim como o foram o próprio filme, o diretor Jack Cardiff, o ator Trevor Howard, a atriz coadjuvante Mary Ulse (surpreendente a indicação!), a direção de arte em p&b e a fotografia, que acabou ganhando o seu único Oscar. Em termos de atuação, o destaque efetivamente vai para o casal central, cujos conflitos servem para tanto explicar todos fatos em sua órbita, como para suscitar inquietações e discussões a respeito dos relacionamentos e de suas consequências, envolvendo sonhos, esperanças, jovialidade, em oposição à realidade que o tempo traz, ainda mais quando se trata de uma família pobre. A esposa, interpretada muitíssimo bem por Wendy Hiller e o marido, trabalhador das minas de carvão, na talvez maior interpretação da carreira do excelente ator Trevor Howard. São várias as temáticas que perspassam pelos personagens, incluindo os impasses da juventude (impulsos x moralidade), o medo da perda da liberdade, a incerteza de ser o casamento a melhor resposta para o futuro, sendo satisfatório nesse sentido o desempenho do jovem e frágil ator Dean Stockwell. O filme apresenta ótimos e francos diálogos sobre a real essência dos homens e das mulheres, fazendo um painel bem próximo do que chama de “espírito” e de seu oposto, findando inesperada e subitamente, embora com a definição de um caminho sem retorno a ser seguido.  8,4

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CARLINHOS E CARLÃO

Primeiramente: com um cartaz desses é quase impossível não dar spoilers. De qualquer maneira, a expressão “sair do armário” vai assumir no filme várias conotações, inclusive de fantasia, nesta comédia nacional daquelas que se enquadram como “despretensiosas”. Ou seja: é algo leve, pra fazer rir sem compromisso, abusar de lugares-comuns etc. Entretanto, não é bem assim, porque inserida na alegria toda está uma mensagem séria e que acaba sendo o foco mais importante do filme. Mas para passar essa mensagem, o tom é de pura leveza e diversão, com um talentosíssimo ator (Luis Lobianco) à frente de um ótimo e afinado elenco (que tem Otávio Augusto, Thati Lopes e Thiago Rodrigues entre outros), bem dirigidos por Pedro Amorim. O ritmo é muito bom, a trilha sonora não poderia ser melhor e mais apropriada para cada momento (com músicas da Gretchen, I will survive etc – lembrando, em alguns momentos, “Será que ele é?”, uma ótima comédia americana com Kevin Kline) e as alfinetadas no preconceito acontecem naturalmente, o que torna o filme além de divertido, também emocionante, propiciando algumas reflexões, a respeito da forma pela qual vemos o mundo e também as pessoas e como as tratamos efetivamente. Talvez o único ponto negativo -sendo, talvez muito rigoroso com o gênero- seja o exagero nos atos e falas machistas do início, mas isso pode ser perdoado diante do claro objetivo, que era o de formar depois o contraste. Está disponível no PRIME e cumpre o que promete: fazer rir, “desopilar o fígado” e oferecer algo leve ao espectador, nestes tempos difíceis. Mesmo assim, conforme ressaltado acima, é um retrato divertido de uma realidade que de fato não deveria ser motivo de riso, de modo que com muitas, cores, música, alegria e irreverência, mostra os fatos mas também com muito jeito (embora às claras) lança uma importante crítica social à homofobia, tanto passando pelo comportamento familiar, quanto contemplando, depois, toda uma sociedade organizada. Ótimo entretenimento e apesar de seu lado sério, algo muito apropriado para  termos a agradável companhia da guaraná e da pipoca. 7,8

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O HOMEM DOS OLHOS FRIOS (THE TIN STAR)

Para alguns, este faroeste em preto e branco de 1957 está entre os clássicos do gênero. Talvez realmente mereça. Porque embora não seja memorável por não trazer nenhuma novidade propriamente, é o exemplo de um filme perfeito e acabado e que “desce redondo”, deixando o espectador plenamente satisfeito, não apresentando exageros nem falhas e causando bons sentimentos ao final, além dos temas destacados no final deste texto. Conta uma história com vários clichês (SPOILER nos parêntesis…homem já descrente na raça humana, mas pistoleiro experiente e caçador de recompensas, chega em uma cidadezinha em que o xerife é inseguro e sem experiência, mas com muita vontade de crescer e fazer a lei, conhecendo também uma viúva com seu adorável filho, com quem faz amizade, como se fosse um pai ou padrinho do garoto), entretanto o faz de um modo muito harmônico e competente, sob a direção equilibrada e enxuta de Anthony Mann (Winchester 73, O pequeno rincão de Deus, Música e lágrimas), trilha sonora de Elmer Berstein (as músicas acompanham e induzem as emoções de cada cena) e ótimo elenco, capitaneado pelo dito pistoleiro interpretado pelo sempre excelente Henry Fonda e por um correto Anthony Perkins. Fonda, já cinquentão, é sempre carismático e sabe tornar o personagem cativante (mesmo em tese sendo alguém de moral questionável) e misterioso. Perkins, um ator limitado (e de quem eu não gosto muito), entretanto aqui faz um papel adequado e o conduz muito bem. Também participam do filme o ator Neville Brand –que foi soldado na segunda guerra e 8 anos depois ficaria conhecido pela série de TV Laredo-, o ator Lee Van Cleef -que alguns anos depois ficaria famoso, principalmente nos filmes de Sérgio Leone e com Clint Eastwood-, o ator John McIntire -aqui o Doutor e com carreira de meia centena de filmes, muitos deles westerns- e o jovem ator Michel Ray, na época com 13 anos -mas já em seu segundo filme! Ums  curiosidade insólita em relação a esse menino é que atualmente ele não é ator, mas é um dos homens mais ricos do Reino Unido. Também integra o elenco a atriz Betsy Palmer, que no futuro seria a mãe de Jason na série Sexta-feira 13. Em suma, o filme proporciona boas emoções e embora reprise (com eficiência) os necessários estereótipos do bom faroeste, também aborda dois temas bem interessantes. O primeiro faz referência à situação dos mestiços, no caso, aos índios e a discriminação e preconceito existente contra eles (o filme inclusive repete de forma contundente a conhecida frase “índio bom é índio morto”) e o segundo aborda a necessidade de andarem de mãos dadas a evolução/civilidade com a legalidade, ou seja, o progresso reprovando cada vez mais a chamada “justiça com as próprias mãos”, tema inclusive tido como nobre em alguns filmes do mesmo gênero.  8,8

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ALMAS EM LEILÃO (ROOM AT THE TOP)

Drama britânico de 1959, em preto e branco, baseado em livro de mesmo nome e cujo título original faz alusão à ambição e à ascensão pessoal/profissional. O título brasileiro – comercial, mas aqui não tão inoportuno como costuma acontecer- alude à ganância, que dispõe o ser humano a negar valores ou fazer sacrifícios para subir na vida e na carreira a qualquer custo. É um filme com temática universal, não original, mas aqui com esse tema muito bem explorado pelo ótimo roteiro, pela direção e com um elenco coeso: a luxúria, a cobiça, a ambição são aqui mostrados de uma forma bastante instigante e madura, inclusive para a época. O diretor foi Jack Clayton (Os inocentes, Crescei e multiplicai, O grande Gatsby), que, segundo consta, foi especialista em adaptar obras literárias para o cinema. No caso, fez isso de forma muito competente e eficiente, tanto que foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor. Aliás, o filme também concorreu a outros Oscar: Melhor filme, Melhor ator (Laurence Harvey), Melhor atriz coadjuvante (Hermione Baddeley), sendo o vencedor em duas categorias: Melhor roteiro adaptado e Melhor atriz, Simone Signoret, a conhecida francesa, que foi esposa do também ator francês Yves Montand, além de ativista política na França (juntamente com o marido). Este foi o primeiro filme britânico de Signoret –que na verdade nasceu na Alemanha- e com ele já foi agraciada com o Oscar, sendo a primeira atriz francesa a ganhar tal honra (na época ela tinha 38 anos e era casada há 8 anos com Montand). E aqui merecidamente, pois realmente apresenta uma bela e sensível atuação. O filme e Signoret também foram premiados, nas respectivas categorias, no BAFTA, Oscar britânico. Um filme muito bem realizado e que tem nos dois protagonistas efetivamente o seu ponto forte e em torno do qual acabam orbitando as demais questões, principalmente as no final vão se mostrar as mais relevantes. 8,7

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SAYONARA

Este drama pós segunda guerra, feito em 1957, foi o que teve mais indicações no Oscar de 1958: filme, diretor, ator, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, edição/montagem, mixagem de som, direção de arte e fotografia. Ganhou nas categorias de mixagem de som, direção de arte, ator coadjuvante (Red Buttons) e atriz coadjuvante (Miyoshi Umeki, em seu primeiro papel no cinema). Estes dois últimos formam o casal de amigos do protagonista, interpretado de forma como sempre diferenciada pelo ator Marlon Brando, que é realmente é algo à parte: em certos momentos ele parece brincar de interpretar, mas em outros simplesmente magnetiza o espectador, apresentando cenas impressionantes do grande ator que sempre foi. Também trabalha no filme o conhecido ator James Garner (Maverick da TV). Os fatos se passam no Japão, na época em que ainda havia muitas feridas não cicatrizadas e e mágoas não resolvidas, por parte tanto dos japoneses, quanto dos americanos (principalmente). À parte do que é mais profundo na temática do filme, todavia, ainda somos brindados com uma aula muito rica a respeito da cultura japonesa, em todos os sentidos e em toda a sua amplitude. Até por esse motivo, o filme em sua primeira metade não provoca grandes emoções, ao contrário apresentando até mesmo alguns momentos de tédio. Principalmente para quem não aprecia a arte japonesa, principalmente a musical-teatral, com aqueles instrumentos estranhos. Vemos com muito prazer, entretanto, detalhes da educação dos japoneses, de sua cultura geral, de sua culinária, da história preservada e que acaba conquistando a simpatia, a afeição e a empatia. Assim como também faz o filme em sua segunda metade, quando as situações dramáticas acabam acontecendo e ocorrem os fatos e as críticas ao exército americano -e por extensão a toda a política americana-, por suas atitudes racistas, segregacionistas e por sua hipocrisia, fatores que acabam inclusive por definir o destino de diversos personagens, colorindo o filme com ares de tragédia. Mas vemos também a bondade, a delicadeza e a beleza da comunhão das raças e culturas, sendo fato que em 1956 mais de 10 mil soldados americanos violaram as regras e se casaram com mulheres japonesas. Com bela trilha, figurinos e também fotografia, o diretor Joshua Logan (Férias de amor, Nunca fui santa) apresenta um trabalho coeso e em parte audacioso, que critica violentamente a intolerância da política americana, mas ao mesmo tempo e no final das contas celebra o amor, no encontro -e surpreendentemente também no desencontro -das diferenças.  8,7

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A CALDEIRA DO DIABO (PEYTON PLACE)

Este ótimo e interessante filme, produzido nos EUA, foi indicado a 9 Oscars e incrivelmente não ganhou nenhum! Não por lhe faltar qualidades, mas pela excelência das produções no ano de 1957, como A ponte do rio Kwai, Sayonara, Testemunha de acusação, Os 12 condenados, Tarde demais para esquecer, As três faces de Eva, Cinderela em Paris. Mas poderia ter ganho qualquer dos Oscar a que concorreu, desde Melhor filme, diretor, roteiro adaptado, passando por atriz, atriz coadjuvante, ator coadjuvante e fotografia. A soma deu sete, porque houve duas indicadas para atriz coadjuvante e dois indicados para ator coadjuvante, totalizando, assim, nove indicações. Em qualquer delas o filme poderia ganhar, sendo ótimos o diretor, Mark Robson, a atriz principal Lana Turner (na época com 36 anos), os dois atores coadjuvantes Arthur Kennedy (Lucas) e Russ Tamblyn (Norman) e as atrizes coadjuvantes Hope Lange (Selena, sendo que a atriz ficou mais conhecida pelo seriado Nós e o fantasma, de 1968 – a senhora Muir) e Diane Varsi (Allison, que é a narradora do filme). Não se pode também deixar de enaltecer a bela atuação de Loyd Nolan, ator que alguns anos depois interpretaria o papel de médico na série Júlia. O filme se passa em 1941 em uma cidade fictícia da Nova Inglaterra, tem um maravilhoso colorido e apesar de longa metragem não se torna cansativo,  sendo até a sua metade mais ou menos algo mais de costumes, paisagístico e narrativo, da vida pacífica, contemplativa, conformada, conservadora etc de uma cidadezinha típica americana. Nada parece fora do figurino. Entretanto, o equilíbrio existente começa a ser abalado por segredos revelados e por diversos fatos graves que ocorrem (e que o rompem definitivamente) e que formam tanto um universo típico da vida interiorana onde reina o comodismo mas também certa pobreza de espírito, quanto uma severa e mais do que eloquente crítica a todo esse sistema, que tem seu momento culminante durante o julgamento (no discurso). O filme em sua segunda metade exprime e explode, assim, toda a energia represada em sua primeira parte, propiciando grandes emoções para o espectador (e tem até tribunal), que se enternece (relembrando os belos momentos da adolescência) e se compadece, mas também se indigna e experimenta variados sentimentos, conforme os diversos temas enfocados, entre eles a dependência afetiva e intelectual dos jovens, o aborto, o incesto, o suicídio, o sexo como matéria pedagógica, temas efetivamente corajosos para a época e que de repente podem até ter prejudicado o filme no aspecto das premiações. O início do filme encontra nas últimas cenas um fecho perfeito e também emocionante (falando das quatro estações e também da quinta, que inicialmente é um mistério…), deixando sensações e sentimentos que perduram por um bom tempo após o The end, o que comprova se tratar de uma bela obra, que, aliás, foi um grande sucesso de bilheteria a partir de seu lançamento, em dezembro de 1957. De aspecto negativo, certamente o título em português, que se pode até se compreender vendo o filme, mas sem dúvidas é de extremo mau gosto e nenhuma empatia provoca com relação à ótima e harmoniosa -embora aguda- história contada. 9,0

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MEU PECADO FOI NASCER (BAND OF ANGELS)

Um drama com aventura e romance, que se passa em Nova Orleans e regiões próximas na época da guerra civil americana, enfocando a realidade do sul, principalmente envolvendo os escravos, que eram mais ou menos explorados (conforme seus “donos”) e vendidos em leilão. O filme foi produzido em 1957 e o galã de E o vento levou, Clark Gable já era quase sessentão na época, mesmo assim sendo o protagonista ao lado da ótima atriz Yvonne De Carlo, que sete anos depois ficaria ainda mais conhecida com a série Os monstros. Sidney Poitier está ótimo no papel de escravo, aqui mais ou menos no início de sua carreira (tinha 30 anos quando fez este filme e a partir dele consolidou sua carreira dali para frente). O diretor é Raoul Walsh (O nascimento de uma nação, O ladrão de Bagdá, Bando de renegados, Sua única saída), competente na coordenação das ações, valorizadas pela mais uma vez destacada trilha sonora de Max Steiner. Entretanto, o filme sofre alguns problemas de harmonia no roteiro, principalmente na sua primeira parte, tendo alguns momentos ótimos e outros sem expressão ou até desnecessários. A verdade é que à medida em que o filme avança, vai adquirindo maior consistência. E é impossível não lembrar de E o vento levou, tanto pelo tema da Guerra da Secessão, como por Clark Gable e pelo enfoque da escravidão, embora aqui pareça que antes da referida guerra os escravos não eram maltratados como se alardeava e todos viviam em paz com suas vidas e prosperidade e que os ianques foram os cruéis invasores daquele mundo ideal. Seja como for, o gosto de “coisa já vista” embora não desmereça algumas das qualidades do filme, certamente não o fazem algo memorável, embora seja algo a ser assistido.  7,8