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ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

Este é um drama forte e envolvente e que desenvolve profundamente os personagens, que se defrontam com fatos imprevisíveis, muitos deles causadores de muita dor e desespero. Nem sempre os planos acontecem de acordo com as expectativas e desde o início do filme entendemos isso – por um fato específico e dá origem a tudo – e vamos então acompanhar as consequências na vida dos diversos personagens. Qual a razão de o ser humano optar por determinados caminhos? Quais os limites da crueldade ? E da consciência? Sidney Lumet é um renomado diretor americano e que tem no seu currículo “12 homens e uma sentença”, “Rede de intrigas”, “Sérpico” e “O veredito”, entre outros, dirigindo aqui mais uma obra com notável maestria.  Philip Seymour Hoffman é um ator de primeira grandeza, precocemente falecido, mas que deixou inesquecíveis trabalhos cinematográficos, como em “O mestre” e em “Capote”. E que neste filme se entrega totalmente ao papel, em uma interpretação inesquecível. O filme também tem Marisa Tomei e Albert Finney (e o caricato Ethan Hawke…mas há muitos que gostam dele!), mas principalmente um roteiro muitíssimo bem construído, consistente e verossímil e que mergulha nas profundezas do ser humano de uma forma avassaladora de causas e efeitos. Sem nenhuma concessão ou pudor. Não é filme para todos os gostos pela densidade e talvez pelo tema, mas para quem aprecia o gênero, cinema de primeira grandeza.  9,0

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O MISTÉRIO DE HENRI PICK

Este filme pode ser tido como uma síntese do ótimo cinema francês e talvez seja mais bem aproveitado se o espectador conhecer um pouco de literatura, embora não seja um ingrediente estritamente necessário: direção e elenco impecáveis, um roteiro perfeito e delicioso, com suspense, humor, ironia, algum drama…e grande vitalidade/vivacidade, nas ações e no ritmo dos diálogos, tudo compondo uma história de mistério e que é contada de uma forma absolutamente irresistível, emoldurada por cativantes personagens. Algo que aparenta ser uma fraude acaba desencadeando pistas inteligentes e uma investigação começa, com características policiais e que vai também provocar a reflexão sobre a arte, sobre a literatura especificamente, a mídia, bem como sobre a própria estrutura/instituição literária…O filme é dirigido por Rémi Bezançon e tem muitas frases e “tiradas” interessantes (e rápidas), como “tem mais escritores do que leitores na França”. Embora todo o elenco seja ótimo (Camille Cottin etc), o grande condutor do enredo é o brilhante ator Fabrice Luchini, veterano, mas que parece ser como os bons vinhos.  9,2

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MINHA FAMA DE MAU

O título do filme faz referência ao cantor Erasmo Carlos, o homenageado principal com esta biografia, assim como presta tributo à Jovem Guarda, movimento musical da década de 60 e liderado por Roberto Carlos, que a partir de certo momento e após a efervescência seguiu carreira solo. O forte do filme não são seus aspectos técnicos, nem a caracterização dos personagens (quem por sinal, em nada lembram os artistas em questão), mas a nostalgia que provoca ao reviver o Teatro Record, o movimento e a loucura que se propagou em torno dele, com as fãs incontroláveis (como ocorria com The Beatles), auditórios cheios e barulhentos e os novos ídolos cantando belas e inocentes músicas de iê-iê-iê (saídas do rock in roll, paixão comum dos artistas da época), com trajes e adereços coloridos e às vezes bizarros, acompanhados de conjuntos-base. O jeito de vestir e de se comportar e principalmente as belas e empolgantes (e eternas algumas) músicas acabam sendo a razão principal do filme, vale dizer, a emoção! Há algumas cenas ruins, falta de unidade, mas o filme mostra com ótimo ritmo a fase áurea do programa de TV comandado por Roberto e dos sucessos todos, bem como também aborda a época difícil por que passou Erasmo, a chegada concorrente e esvaziadora da Bossa Nova (até se menciona uma crítica de Elis à Jovem Guarda) e, depois de tudo, encerra com uma cena memorável entre os dois que viriam a ser uma dupla inseparável de amigos: Roberto e Erasmo Carlos (muito bom o ator Chay Suede), sintetizando o que o filme tenta mostrar, embora se saiba que os fatos podem não ter ocorrido bem dessa maneira…Mas, como dito, o que manda aqui (e na nota do filme) é só a emoção de reviver esse movimento, suas cores e sua música! Quem se deixar levar apenas pelo coração (e talvez tiver a idade certa…) vai apreciar!  8,9

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O PROFESSOR (RICHARD SAYS GOODBYE)

Uma “comédia séria”, reflexiva, filosófica, triste, melancólica, positiva, tudo misturado e em doses bem colocadas, emoldurada por uma bela direção, trilha, edição, mas principalmente por Johnny Depp protagonizando (ele é ótimo em tudo o que faz!). E coadjuvado por Danny Huston e com a performance sempre ótima de Rosemarie DeWitt (adoro essa atriz). Um filme que faz a gente pensar na vida e tentar colocar o foco no que realmente importa, ou seja, na mortalidade e na necessidade de extrairmos de nosso curto espaço no mundo as experiências mais enriquecedoras que pudermos. Um filme muito bonito na sua essência, comovente, envolvente e que é bem cuidado em todos os seus detalhes. Entretanto, pelo conteúdo, existe grande probabilidade de que gostar dele dependa da idade ou da experiência/maturidade do espectador, como também de seu modo de encarar a morte. Porque se pode observar a existência de muitas polêmicas em torno do filme e os conceitos variam, de uma até quatro estrelas, o que não é muito comum. De minha parte, gostei bastante e nem me fixei ou me aborreci com eventuais imperfeições do contexto. Comédia é comédia, embora a temática séria, e reconheço total liberdade para variados voos, os quais também aprecio. E achei tudo plausível, como cada um reage diante do inesperado. Além do quê, a última cena é realmente inesquecível, na sua aparente simplicidade.  8,8

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STOCKHOLM (ESTOCOLMO)

O filme reconstitui tão bem a época (1973), que se pensa ser uma obra antiga, da própria década, quando na verdade é produção recente. Com Ethan Hawke, Noomi Rapace e Mark Strong, entre outros, mostra um acontecimento entre vários do mesmo tipo que ocorreram na cidade de Estocolmo (Suécia) na mesma época, sendo que este mostrado aqui teria dado origem ao termo “Síndrome de Estocolmo” – expressão que acabou ficando mundialmente conhecida dois anos depois, quando ocorreu o sequestro de Patty Hearst. O enfoque aqui é de comédia, mas daquelas que envolvem temas sérios, ou seja, um drama com reltiva leveza de abordagem. O filme não tem muitas variantes e os próprios personagens não possuem muitas alternativas, mas se torna interessante por algumas situações específicas (notadamente as relativas à síndrome) e por trazer o fato que deu origem ao termo, que segundo a Enciclopédia Britânica “…tem o instinto de sobrevivência em seu coração…as vítimas vivem em dependência forçada e interpretam atos raros ou pequenos, de gentileza, no meio de condições horríveis, como um bom tratamento”.  7,7

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THE PROFESSOR AND THE MADMAN (O GÊNIO E O LOUCO)

Este é um filme de muitas virtudes, incluindo sua qualidade e equilíbrio: produção, direção, edição, trilha, arte, elenco e também a história, muitíssimo interessante e que tem uma temática central, mas em torno dela fatos que se transformam no fio condutor dramático e permitem inclusive ao ator Sean Penn apresentar talvez o maior desempenho de sua carreira. Ele está brilhante. O tema original diz respeito à realização de um ousado projeto na Londres do século 19, que foi o da elaboração do dicionário Oxford da língua inglesa (fatos reais, confirmados nos créditos finais). Talvez antes de ver o filme não tenhamos pensado em tudo aquilo que é necessário para se fazer um dicionário: simplesmente reunir em uma só coleção de livros todas as palavras possíveis de um idioma, com todos os contextos de sua existência, ramificações, origem, significados etc, com ilustrações e tudo o mais. Um universo de fatos a serem coletados e que a equipe encarregada –  da qual participou o professor James Murray, personagem de Mel Gisbon, também com ótimo desempenho – se propôs a coletar, usando como artifício de pesquisa a próprio população, que acabou colaborando para a compilação e organização do trabalho. De todo modo, são fatos muito interessantes de serem conhecidos e acompanhados e que faz com que todos nós certamente passemos a valorizar mais ainda o trabalho daqueles que constroem um dicionário de línguas. Entretanto, o lado mais obscuro e forte do filme envolve o personagem de Sean, o qual que acaba tendo uma conexão com os fatos acima. Em função dele, a história nos revela, então, cores intensas, sombrias, doentias, corajosas, idealistas/obsessivas, surpreendentes (a culpa, a redenção e impotência)…sentimos ao longo do filme uma mescla muito grande e diferenciada de emoções, viajando por caminhos inesperados e sendo brindados por personagens absolutamente humanos e reais, interpretados por um elenco muito competente, onde também brilham Natalie Dormer (Margaery Tyrell de Game of thrones), Jennifer Ehle e Eddie Marsan e por um texto também muito rico, que valoriza e dá acabamento à obra. O diretor é o iraniano Farhad Safinia (Apocalipto). Emocionante, original, denso, superlativo.  9,5

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EXTREMELY WICKED, SHOCKINGLY EVIL AND VILE

Ted Bundy foi um dos mais famosos serial killer dos EUA, acusado de diversos atos violentos e assassinatos em vários estados americanos. A diferença deste filme em relação aos demais é que aqui a história é narrada a partir do ponto de vista da namorada, interpretada pela atriz Lily Collins, de modo que além de não presenciarmos as cenas de violência, igualmente ficamos sem ter certeza da culpa, uma vez que o acusado negou ter sido o autor dos crimes até o final de seus dias. E tomamos contato com um lado aparentemente inofensivo, doméstico, até supostamente apaixonado do personagem. Esse é um mérito da obra, sem dúvidas, porque se trata de um ângulo novo sobre fatos já vistos em diversos outros filmes. O ator Zac Efron está ótimo no papel e no final do filme, quando exibidas cenas reais, esse fato se confirma com louvor. Também atuam no filme Jim Parsons, Dylan Baker e John Malkovich, além de Haley Joel Osment, que é o ator que quando menino fez o famoso papel no filme O sexto sentido (…vejo pessoas mortas…).  8,0

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O ÓDIO QUE VOCÊ SEMEIA (THE HATE U GIVE)

Um tema já explorado, mas que aqui é apresentado de forma extremamente cuidadosa e com muita força interpretativa, o que compensa plenamente aquele fato. Impecável direção e coeso elenco, roteiro bem construído com muito realismo – escancarando o racismo, a a realidade dos negros, traz inclusive uma explicação bem verossímil sobre a causa e origem do  tráfico de drogas – além de cenas bastante densas. Um filme para sentir alguns apertos no coração e refletir sobre a vida e a humanidade em si. Adaptação para o cinema do famoso livro de Angie Thomas, a história apresenta a personagem central – muitíssimo bem interpretada por Amandla Stenberg – morando na periferia mas estuda em um colégio rico, por esse motivo adotando comportamentos diferentes em cada meio. Esse fato e os contrastes de ambientes ajudam a acentuar as diferenças e os conflitos sociais, provocando importantes reflexões e conduzindo o filme ao amadurecimento súbito e provocado da personagem a partir de um fato específico e que vai exigir uma tomada de posição, com absoluto envolvimento e coragem. Em uma cena se sugere que o sistema é invencível, na medida em que o racismo é praticado por um negro contra outro negro. A trilha sonora é mais um destaque, sendo contundente e bastante a frase citada no filme e atribuída a Nélson Mandela: “ninguém nasce odiando alguém pela cor de sua pele. Para odiar, a pessoa tem que aprender. E se ela pode aprender a odiar, também pode aprender a amar.”  8,8

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BEM-VINDO A MARWEN

Este é um filme que surpreende, pois é bastante original e vamos aos poucos compreendendo a sua essência. E no final, após sermos relembrados de que tudo foi baseado em fatos reais (antes dos créditos finais), é que acabamos entendendo por que o filme lembra tanto os da Disney como os de Steven Spielberg: foi dirigido por Robert Zemeckis, especialista em efeitos especiais, diretor de obras como Tudo por uma esmeralda, O expresso Polar, De volta para o futuro, A morte lhe cai bem, Náufrago, Forrest Gump, e parceiro habitual de Spielberb, que inclusive foi o produtor de muitos de seus filmes. Desse modo, obviamente não ficamos sem técnica e sem emoção ao longo da história, que também evidentemente inclui uma bela e adequada trilha sonora, além de caprichada animação de alta qualidade para dar vida à fantasia do personagem, muita sensibilidade e poesia, instantes dramáticos e divertidos, um filme que também faz pensar sobre as várias facetas do ser humano, em uma interpretação extraordinária do ator Steve Carell, que cada vez mais abandona as comédias, para mostrar sua competência como ator dramático.  8,8

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CLARA

Que história diferente, maravilhosa e fascinante ao mesmo tempo. Algo totalmente não convencional, invadindo o mundo da ficção científica, mas que em um instante toca Bob Dylan e no outro Beethoven (adoro e sempre me emociono com Moonlight Sonata), deixando as emoções à flor da pele. Porque a busca dos personagens é fascinante. Um filme meio mágico, meio exótico, com mistério, dramas, que nos deixa sempre na expectativa de algo -, pois navega na busca do desconhecido, mas sem escapar das amarras dos amores e das dores da vida terrena. Um filme original, atraente, que desperta a sensibilidade e causa diversas emoções no espectador. E que mesmo após o seu final deixa rastros de muitas coisas indefiníveis e que perduram por muitas horas, o que é sinal de algo especial e que sai do lugar comum. Um filme canadense com diretor desconhecido e que deixa pairando no ar, como as estrelas, as inquietações que provoca: se somos pó, se somos únicos…se há algo maior, que dê razão ao existir, à dor, à felicidade, a tudo (assim me disse um amigo após assistir a ele).  9,0

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DRAGGED ACROSS CONCRETE

Geralmente olhamos o cartaz de um filme ou inadvertidamente lemos a sinopse e já temos mais ou menos uma ideia de como será. Neste caso, cabe esquecer de tudo isso! O filme não é nada daquilo que superficialmente aparenta ser. A aparência é de uma coleção de clichês, com criminosos e policiais se digladiando no submundo do crime, diálogos superficiais, situações banais e conhecidas, tudo já massificado e adequado para uma sessão da tarde, talvez sessão da noite pela violência. Puro engano. O curso do filme vai mostrar que nada disso se confirma, que aqui existe um roteiro forte e consistente, que a história é contada com mãos firmes do diretor  – o americano S. Craig Zahler tem ótima bagagem cinematográfica, sendo também roteirista e músico -, explorando cada nuance do texto e a experiência e o carisma de Mel Gibson (excelente) para desenvolver algo de densidade inesperada. E com as ótimas atuações de Vince Vaughn, Tory Kittles e ainda a presença de Jennifer Carpenter. Um drama policial muito acima da média, violento, desenvolvido lenta, mas profundamente e carregado de realidade (atenção: é longa metragem, com pouco mais de 2h 30min). Exceto na sua parte final, pois, na minha opinião (pode ser que não seja a da maioria) o roteiro enfraquece nos momentos decisivos, apresentando inconsistências e concessões no comportamento de alguns personagens. Não é verossímil o que ocorre, tendo em vista o que houve até ali. É pelo menos o meu ponto de vista, mas esse fato não retira o grande mérito e a qualidade do filme no seu todo, que apresenta inúmeros momentos marcantes: como o discurso do personagem de Mel Gibson aos 50 minutos de filme, pungente e verdadeiro. Muito drama, suspense, ação mais na parte final e vários personagens, com diversos enfoques interessantes, algo imprescindível para os fãs do gênero.  8,8

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NUNCA DEIXE DE LEMBRAR (NEVER LOOK AWAY)

Este é um daqueles filmes que trazem variadas emoções e que nos dão a sensação de minissérie (até poderia ser uma, por exemplo, com 9 episódios de 20min cada), pois abordam fatos dramáticos através da história (a Segunda Guerra, as duas Alemanhas…), e vamos acompanhando o destino das pessoas ao longo de vários anos, como uma verdadeira saga. E no seu final sentimos uma intensa emoção e que perdura por um bom tempo ainda, como se vivenciássemos nossa própria história, sendo essa uma característica típica das minisséries. E esse, por paradoxal, é justamente um de seus poucos defeitos, porque há alguns fatos que mereceriam um maior aprofundamento, o que nas minisséries não ocorre. E além disso há um outro problema, a meu ver, que é o desempenho apenas regular do ator Tom Shilling em um papel que se interpretado por um ótimo ator certamente faria o filme crescer bastante em intensidade dramática. Inclusive também não é ideal a química entre o personagem dele e o da parceira. Mas o restante do elenco é ótimo, a começar pela bela Saskia Rosendahl, que a partir do início do filme e de cenas memoráveis (a primeira, já no museu, com o guia discursando sobre a inutilidade da arte moderna – depois a da buzina dos ônibus e a da nudez e da nota Lá no piano) já prenuncia sua importância para toda a história, projetando sua presença com profundo significado em diversos momentos até o emocionante final. Muito boa atriz também a igualmente bonita Paula Beer (que fez Franz), mas o destaque maior fica por conta do ator Sebastian Koch, que faz com maestria o implacável e gélido médico da SS, cuja caneta tem o poder de determinar o extermínio de pacientes. Aliás, a cena da escrita em vermelho é uma das várias impactantes do filme, belo também na fotografia e na trilha sonora. São vários momentos ao longo da história que afetam o espectador, mostrando a destruição das pessoas, das cidades, das famílias, das esperanças, ao longo dos horrores da guerra e do domínio nazista, bem como de cenas importantes também sob outros aspectos, no caso vinculados à arte: a invasão aérea de Dresden, a paciente sendo levada à força para ser esterilizada, o aborto, o parto, o discurso do professor no ateliê do aluno em busca do caminho artístico, os discursos sobre a arte, a criação do estilo, afinal, pelo jovem pintor, a do médico enfrentando as pinturas e seu significado, a entrevista ao final, na qual o criador nega qualquer vínculo com a criatura, embora o espectador se emocione por saber da verdade. Pelos defeitos já citados, não é um filme totalmente arrebatador; mas pelas qualidades, igualmente descritas, é uma bela “viagem” pelos dramas humanos e de guerra. Dirigido pelo grande Florian Henckel von Donnersmarck (que dirigiu o magnífico A vida dos outros e é grande também na altura, com 2,05m), o filme concorreu no Festival de Veneza e foi escolhido para representar a Alemanha no Oscar 2019.  8,9

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SUPREMA (ON THE BASIS OF SEX)

Se o roteiro deste filme – com lamentável título em português – for escrito de uma forma rápida e genérica, ele já terá sido visto dezenas de vezes. Os americanos seguem fórmulas padrão, aquelas de patriotismo, superação, ufanismo etc. Esse fato é enfadonho e às vezes até provoca repulsa, como um desrespeito à inteligência do espectador. Os clichês proliferam e parecem não cansar os realizadores dos filmes ianques. Entretanto, o truque é justamente o seguinte: a maneira de contar o filme, aliada à alta qualidade técnica e a experiência manipuladora (a música na hora certa, a heroína e o herói bonitos etc), fazem com que esqueçamos dos clichês em nome da emoção. E é o caso aqui, razão pela qual o filme – baseado na vida real – fica de fato interessante, emoldurado pelo carisma da atriz britânica Felicity Jones (A teoria de tudo, Sete minutos depois da meia-noite…). Constatar épocas de atraso da humanidade no que se refere à discriminação dos sexos, nas quais as mulheres só podiam, por exemplo, ter cartão de crédito em nome do marido, sendo figuras raras nos cursos de direito (e até mal vistas ou discriminadas nas rodas sociais) e a luta para modificar esse estado de coisas é algo que faz bem à alma. Nos indignamos com os fatos e ao mesmo tempo nos inflamamos com a luta. E é disso que trata o filme: a luta pela mudança da mentalidade e da própria lei vigente. Quebrar paradigmas como se diz modernamente. No caso, em cortes superiores dos EUA, onde precedentes orientam todo um comportamento ao longo de décadas, às vezes até de séculos. E, nesse contexto, a partir de certo ponto o filme empolga, quando traz à tona a beleza do Direito, o idealismo que alimenta os corações… e nesse sentido apela aos mesmos sentimentos de todos os demais filmes do gênero e comuns a todos nós: o ideal do bem e do justo, os ideais de justiça. Como não poderia deixar de ser, a parte do tribunal é ótima (quase todo filme que tem tribunal é bom!), com argumentos sendo muito bem expostos e contestados, inclusive pelos próprios membros da Corte, o que eleva o tema e deixa várias interessantes questões no ar. Ao final das alegações, principalmente quem milita no ramo jurídico vai sentir o peito estufar. E, nos créditos finais, a aparição da verdadeira Ruth e a história real dos personagens completa o impacto emocional do filme, nesse instante já totalmente bem recebido e assimilado.  8,7

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LORO

Um filme para adultos, tanto pelo erotismo, quanto pela temática, conduzido pelo original diretor Paolo Sorrentino (La Giovinezza, The Young pope…), que conta, como trunfo, com seu ator favorito, o brilhante Toni Servillo (A garota da névoa, Viva la libertá). Ambos já fizeram antes ótimos trabalhos, com destaque para As confissões e principalmente para o premiado A grande beleza. Aqui, em meio a festas e mansões milionárias, música, danças coreográficas, drogas e sexo, pessoas aparentemente bem sucedidas e felizes, com pleno acesso às coisas boas da vida, parecem exuberantes e donas de um sucesso incontestável. Entretanto, a fina ironia e o cinismo do diretor parecem emoldurar os fatos, como crítica social e para mostrar em parte a decadência dos costumes, da juventude e da própria sociedade italiana. E o personagem central ainda é o polêmico e controvertido empresário, político e bilionário Sílvio Berlusconi, milanês que em diversos períodos foi Primeiro Ministro Italiano. Tony está extraordinário no papel do personagem de várias facetas (e o ator faz um segundo papel também, que cabe ao espectador descobrir na hora), revelando-o ambicioso, pitoresco, manipulador, carismático, vaidoso, poderoso e fanfarrão, sendo notável a cena em que ele canta à beira da piscina, sob a atenção de todos os convidados, a música “Malafemmena”. O filme não é tão bom quanto os anteriores citados, mas os toques personalíssimos do diretor mantém vivas e estimulantes as suas marcas de originalidade, além de alguns diálogos bastante afiados e perturbadores, como o do personagem central com uma jovem de 20 anos, que expõe o que pensa da diferença de idades e da aproximação que ele impõe, de modo firme mas delicado definindo a situação como patética e o hálito dele como o de um velho. A fotografia e a trilha sonora também são grandes destaques neste filme que emerge como um cinema moderno, mas que ao mesmo tempo parece homenagear grandes mestres do cinema italiano. Sorrentino já está entre os grandes cineastas da modernidade, pelo fascínio e verdade que consegue transmitir e escancarar. 8,7

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SEU FILHO (TU HIJO)

Mais uma produção Neflix, aqui um filme pouco digestivo, que trata de temas difíceis, mas reserva momentos imprevisíveis e surpreendentes. Porém, é tenso, denso, lento, carregado de realidade e para públicos especiais, já que o tema não é fácil de ser enfrentado, ainda mais pelo sentido de realismo que norteia a história. Não concordo com quem diz que o final do filme é para que cada um tire a sua conclusão, porque achei o final óbvio. Embora inesperado para mim. E esse final adquire uma conotação bem mais impactante e relevante, na medida em que o personagem principal é um médico, ou seja, alguém situado em patamar alto na hierarquia sócio-econômica. O roteiro é muito bem elaborado e prende inteiramente o espectador, tendo também grande mérito o diretor Miguel Ángel Vivas (La casa de papel) e o excelente ator espanhol José Coronado (Contratiempo). Mas o elenco todo é ótimo, como exige este filme pesado e que nos coloca diante da violência que explode ao nosso lado (e de nossos filhos) e nos a refletir sobre a nossa capacidade de absorver fatos e administrar os nossos instintos e a nossa razão. Até onde poderá o homem moderno conviver com o remorso? Conseguirá domesticar para níveis aceitáveis o impulso da vingança com as próprias mãos? Em suma, um filme sobre os limites do ser humano, inclusive tanto na posição de protagonista, como na de vítima da insegurança e imprevisibilidade dos tempos atuais.  8,5

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MINHA OBRA PRIMA (MI OBRA MAESTRA)

Um drama/comédia diferente, envolvendo um pintor temperamental e já em fase decadente e seu amigo e dono de galeria, disposto a ajudar o protegido, mas sem muita certeza dos caminhos a tomar para valorizar as obras que no passado muito dinheiro renderam. O pintor Renzo, interpretado por Luis Brandoni (ator argentino de teatro, cinema e TV) está muito bem caracterizado em seu temperamento rústico, suas manias e explosões artísticas e o marchand Arturo da mesma forma, por Guillermo Francella (igualmente argentino, ator e comediante), em seu comportamento elegante, requintado mas às vezes duvidoso. O filme tem surpresas, de certa forma alfineta o mundo da arte e cria curiosidade pelo seu desenlace, que pode até ser considerado surpreendente, mais ainda pela crítica social, absolutamente ácida e atual, de seu desfecho. Sem compromissos maiores além disso, mas divertido e interessante, é dirigido pelo ótimo Gastón Dupra, que ganhou o Goya de 2017 pelo filme Um cidadão ilustre.   7,8

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DESTROYER

Um drama policial com suspense (qualificado pela trilha sonora), no qual convivem o passado – 17 anos antes – e o presente, em doses intermitentes, bem colocadas e editadas, o que valoriza o interesse e envolve o espectador. O ponto alto do filme sem dúvida alguma é o desempenho poderoso da atriz Nicole Kidman, inclusive no tempo presente praticamente desfigurada pelo envelhecimento/sofrimento e pelo uso do álcool. Ela concorreu merecidamente ao Globo de Ouro, perdendo apenas para um também magnífico desempenho de Glenn Close (A esposa). De todo modo, uma entrega marcante da atriz à difícil personagem que interpreta. A história trata de policiais infiltrados, de uma operação que não deu certo e do passado retornando para assombrar, paralelamente das dificuldades de adaptação da policial do presente, até mesmo para administrar as relações com a filha. O filme é denso e levado pela direção, edição, maquiagem, trilha e pelas interpretações, fundamentalmente de Nicole. De resto, atrai e mantém o envolvimento do espectador, mas não é arrebatador nem memorável, embora tenha trechos ótimos, inclusive seu desfecho. Nada semelhante, assim, às atrações descartáveis da sessão da tarde,  feito para públicos especiais.  7,8

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ESTRADA SEM LEI (THE HIGHTWAY MEN)

Este é um produto a mais da marca Netflix, empresa que fatura mais de 500 milhões de dólares por mês, produzindo e promovendo filmes e séries em profusão, de tal maneira que está praticamente monopolizando o mercado. E é um filme de qualidade, tendo Kevin Costner como seu principal protagonista (no papel de Frank Hamer, o mais famoso dos Texas Rangers) e também produtor executivo. O diretor é John Lee Hancock (Walt nos bastidores de Mary Poppins, Um sonho possível, Um mundo perfeito) e o parceiro de Kevin é Woody Harrelson, que faz o contraponto da seriedade, com algumas “tiradas” a título de alívio cômico (embora eu não goste muito dessas “piadinhas” em filme dito sério). Tem também Kathy Bates, para lembrar que o governo sempre é quem leva a fama, mas aparece pouco. Mas a atração mesmo são os dois “cobras” do elenco, embora a direção seja ótima, oferecendo um filme enxuto e sem excessos: fica claro que a experiência dos ex-Rangers, embora tidos como aposentados, consistia em uma vantagem sobre toda a força policial que estava atrás da famosa dupla de bandidos apaixonados, Bonnie e Clyde, que já viraram filme antes, mas não sob o foco dos perseguidores, com aqui. E assim vemos um filme investigativo, em que uma caça lenta e através dos Estados americanos é deflagrada, mas sem a certeza absoluta de se conseguir emboscar os foragidos, que parecem quase “fantasmas” nos jogos de gato e rato com a polícia. Aqui, felizmente, a ficção se apoia totalmente na realidade, tendo sido feito um ótimo trabalho de pesquisa e de reconstituição de época. Bonnie e Clyde de fato existiram e fizeram o terror da polícia nos idos de 1931 a 1934, quando finalmente foram mortos. E tinham legiões de fãs entre a população (20.000 pessoas foram ao velório de cada um), sendo tidos como uma espécie de Robin Wood, que rouba dos ricos (os Bancos) para vingar os pobres (o povo, roubado pelos Bancos) – aspecto que obviamente aumentava a fama e dificultava a localização da quadrilha.  Algumas características do casal também foram fielmente transpostas para a tela, como o apego à literatura e à poesia de Bonnie, o cigarro fumado por Clyde etc. Para quem sabe em qual Estado americano aconteceu a derrocada final, porém, o filme deixa de ser surpresa no final, mas só nesse ponto e embora já seja fácil imaginar o desenlace dos fatos. Obviamente a história do casal foi um pouco romantizada, porque tudo nos EUA pode virar lenda: todavia, o filme procura mostrar os fatos de modo fidedigno, inclusive exibindo fotos e reportagens autênticos nos créditos finais, para demonstrar a verossimilhança: a carta escrita por Clyde a Henry Ford, elogiando a qualidade do V8 que utilizava, realmente ocorreu. Chocante também é constatar o medo que a dupla inspirou ao longo dos anos e a amplitude atingida pela “lenda”, pela forma em que se deu a morte do casal: pelo número de policiais envolvidos e de balas disparadas, um verdadeiro absurdo, sendo que a esse respeito, no final, a própria atitude dos dois policiais demonstrou que realmente se tratou de um excesso, quase uma covardia. Um filme interessante, com alguns estereótipos aos quais os americanos não resistem (como, por exemplo, “todos os tiras são imbecis, menos os nossos heróis”), mas que não comprometem o conjunto, que, afinal, mostra uma realidade, valorizada por uma jornada instigante e bem construída. 8,0

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O MÉDICO E O MONSTRO (DR. JEKYLL AND MR. HYDE)

Esta é uma história que inúmeras vezes foi transposta para o cinema, do clássico literário de Robert Louis Stevenson. A presente versão foi a produzida em 1941, estrelada por Spencer Tracy, Lana Turner e Ingrid Bergman e dirigida por Victor Fleming (O mágico de Oz e Oscar de Melhor Diretor em 1940 por.. E o vento levou,.). Na Londres do século 19, um médico faz pesquisas científicas sobre a possibilidade de isolar a maldade humana ou o lado mau do homem. A história já é conhecida, mas com parcos recursos técnicos à época, o papel duplo acabou sendo desempenhado com maestria por Spencer Tracy graças a seus recursos pessoais e interpretativos, embora a maioria opine que o Mr. Hyde das versões anteriores era muito mais terrível e assustador. Contam que Ingrid Bergman, inicialmente escalada para fazer o papel da “mocinha”, fez questão de interpretar a prostituta, embora tal fato não tenha de modo algum ofuscado sua jovem e radiante beleza. Outro destaque do filme é a fotografia, mas de todo modo o elenco é muito bom, a direção segura e competente e o filme para muitos se tornou a versão definitiva do clássico.  8,3

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O CRÍTICO (EL CRÍTICO)

Primeiro filme do diretor argentino Hernán Guerschuny, aborda interessantes situações por que acaba passando um crítico de cinema renomado porém cético, com jeito de mal humorado e que vive uma vida pessoal reservada. O destino acaba envolvendo o personagem em um roteiro daqueles que ele mesmo costuma desprezar e o diretor mostra os fatos com bastante competência e humor, parodiando inclusive diversas obras conhecidas e de sucesso. A atriz Dolores Fonzi é excelente e carismática e sua presença dá um colorido especial ao filme, que assume vários tons de romantismo, embora o sisudo personagem masculino acabe surpreendentemente despertando no público também uma sincera simpatia (Rafael Spregelburd). Na verdade, o filme apresenta o mundo de clichês, dos quais alguns tentam fugir, mas que são indeclináveis, embora ao mesmo tempo aborde superficialmente alguns elementos a mais, envolvendo o próprio cinema e a vida dos que o criticam. Nada muito além disso, mas algo digerível e divertido e que foi o vencedor do prêmio da crítica do Festival  de Gramado de 2014.  7,8