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CORINGA

Quando crianças assistimos, na época empolgados, à série semanal Batman, que hoje soa absolutamente ridícula, mas que tinha o Coringa como um dos inimigos do homem-morcego, vilão que se caracterizava por seu rosto maquiado, imitando um palhaço de circo e pela risada estranha e meio esquizofrênica. Com o tempo e as histórias em quadrinhos sendo transpostas de maneira menos jocosa/amadora para a TV e o Cinema, esse vilão ganhou importantes interpretações em vários filmes, notadamente por Jack Nicholson, Jared Leto e Heath Ledger, este último tendo ganho um Oscar póstumo por sua magnífica interpretação do palhaço no inesquecível Batman: O Cavaleiro das Trevas. Agora, quando as coisas pareciam acomodadas, surge essa obra poderosa e Joaquin Phoenix com sua magistral performance, que parece uma premonição para o Oscar de 2020. A sensação experimentada ao término do filme, é de se ter testemunhado uma obra magistral, com invulgar qualidade cinematográfica. E isso não apenas graças a Joaquin, mas à sintonia de todos os elementos, comandados pelo diretor Todd Phillips: edição, direção de arte, fotografia e uma trilha sonora marcante e que eleva de maneira elogiável o nível do impacto e da tensão que permeiam pelo filme todo. O roteiro, inclusive foi executado pelo diretor com total maestria e originalidade, escapando dos clichês que normalmente aparecem nesse tipo de produção, baseada em HQs. Não é à toa que o filme ganhou o Leão de Ouro em Veneza (segundo semestre de 2019), feito raro para produções americanas nas últimas décadas. E que corre firme no páreo duríssimo para o Oscar 2019 a ser entregue ano que vem. Trata-se de um filme adulto, tenso, denso, violento, um drama com algumas pitadas de ironia mas notável profundidade psicológica, que se passa na decadente Gotham City dos anos 80 e tem seu foco principal no palhaço, que vive de bicos, sustenta a mãe idosa e sonha ser um stand-up man famoso e entrevistado no popularíssimo programa do famoso apresentador interpretado por Robert De Niro. O protagonista efetivamente se torna icônico nas mãos de Joaquin (a cena do poster, que é da escada, já entrou para os anais do cinema), que transgride e escancara seu conturbado universo mental/psicológico, assolado pela massificação e com isso viaja por caminhos esquizofrênicos, do céu para o inferno. O filme é todo emocionante e cru, não fazendo concessões e por incrível que pareça, por esse motivo, acarretou operações especiais da polícia americana, na saída das salas de cinema dos EUA, preocupada com as ações e reações de fãs e “seguidores” do vilão. O final é surpreendente e arrasador e o filme por seu incontestável mérito entra para a galeria das grandes obras do cinema de todos os tempos.9,8

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THEM THAT FOLLOW

Este é um filme incômodo, embora tenha alguma previsibilidade em seu roteiro. A começar pelo ambiente físico e patriarcal e pelos personagens abordados. Trata-se de pessoas singulares, que vivem em uma comunidade religiosa rural no meio do mato nos EUA e que ritualizam sua fé, dentro da qual o símbolo da serpente se torna mais eloquente com a própria presença do ofídio nas celebrações de iniciação e de provação da fé -e que aqui não se dê crédito ao fato de uma cobra não venenosa estar-se se querendo passar, não sem o devido vexame, pela venenosa cascavel, inclusive com o som do silvo e do chocalho! O Pastor é quem comanda os ritos e a conduta da população e o roteiro começa a perturbar, mas também a se firmar, quando um determinado segredo é revelado. A partir do qual, a interpretação dos fatos dependerá do que cada um acredita: conforme for, pode-se achar que a culpa é do pecado; ou, então, da ignorância. Mas mesmo que assim seja, não parece defensável, diante de uma gravidade médica, a recusa da ajuda da medicina em nome da fé! E o fortíssimo engessamento dos costumes é ainda mais chocante, quando se sabe que os fatos tratados no filme não são mera fantasia e sim realidade em muitos pontos do planeta atual. Um filme que não é para se adorar, mas com boas intenções e que pode ser apreciado, inclusive pela intensidade do elenco, que traz a excelente Olívia Colman (que venceu o último Oscar de Melhor atriz com A favorita) e outras ótimas interpretações, como a de Alice Englert e Walton Goggins.  7,6

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EN GUERRE

De tão enxuto e bem acabado, este filme parece quase um documentário. Aliás, tem muito disso nos enfoques que faz, nos closes, nas cenas sem som e sem diálogo…É sólido e preciso e vai na jugular, sem excessos ou sobras. O roteiro é extremamente bem acabado, o ritmo é jornalístico, tenso o tempo todo, alternando a trilha sonora conforme os momentos de ação ou menos incisivos, em suma um filme de alto nível. Concorreu inclusive à Palma de Ouro em Cannes em 2018 e causou efeitos perturbadores onde foi exibido. Porque é uma belíssima obra sobre as relações entre capital e trabalho, talvez o melhor filme jamais feito sobre esse tema, que aborda a paralisação de uma fábrica situada na França, diante da ordem de fechamento, pela matriz alemã e a reação dos trabalhadores (e do sindicato), porque a princípio não haveria motivo para o encerramento das atividades -afinal, houve boa distribuição de lucros/dividendos aos acionistas- e ainda existia uma garantia de emprego que perduraria ainda por alguns anos. As circunstâncias todas, as negociações, os efeitos dos fatos no âmbito pessoal e familiar, tudo é muitíssimo bem explorado pela excelente direção de Stéphane Brizé (O valor de um homem, A vida de uma mulher…), coadjuvado pelo notável elenco, que é composto por profissionais misturados com muitos amadores, sob o comando do ótimo ator Vincent Lindon (O valor de um homem, Rodin, Augustine). O filme é pungente, forte, vibrante, perturbador e envolve todas as questões de mercado, de globalização, de interesses corporativos e patronais, embora ponha na mesa os argumentos de ambos os lados, em discussões o quanto podem ser civilizadas (educação europeia, que naturalmente também tem seus limites). A obra propicia muitas reflexões em diálogos inteligentes e que expõem os pontos nevrálgicos, inclusive quanto aos efeitos do tempo em uma greve, que podem inclusive provocar nocivos conflitos internos. Ótima edição e exploração com extrema competência – e de forma singularmente dinâmica- de um tema que já foi alvo de diversos filmes anteriormente. A belíssima cena do bebê no colo da mãe e depois do avô (estaria ele pensando no que seria o futuro daquela criança?) constitui um momento de extrema importância, parecendo querer mostrar a menor  importância de toda aquela luta, diante do que é fundamental na vida. Mas também mostra o futuro. E a cena final é tão inesperada quanto impactante…assim como angustiam os fatos que a sucedem.  9,0

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NEWNESS

Uma produção Netflix com algumas cenas mais fortes (eróticas), mas que ficam em segundo plano diante do real interesse que o roteiro proporciona. Relacionamentos não são fáceis. Alguns são breves, outros duradouros, mas todos têm suas fases difíceis. Quando um casal resolve assumir um casamento aberto e propor que só a verdade seja dita, a que limites conseguirá chegar? É possível se viver a dois assim? O ser humano consegue assimilar a verdade sempre? A natureza do ser humano aceita ouvir relatos das intimidades do ser amado com outras pessoas, em nome da verdade? O cartaz do filme já antecipa a questão: pode o amor sobreviver a um casamento aberto? Este é um filme maduro, muito bem dirigido, editado e interpretado e que foge do padrão que transita pelas salas de cinema e de TV, enfocando o relacionamento moderno e de jovens, embora envolva temática universal. Porque as questões postas são maduras e transcendentais. Que inquietam desde sempre, conforme disse a escritora no encontro literário: “…E este casamento improvável entre o sentimento de pertencer e o sentimento de liberdade com uma pessoa é provavelmente o grande desafio do amor na era moderna”. A natureza do ser humano que a princípio a rejeita, não terá apreço irresistível pela monogamia? Como sobreviver aos dias que sucedem aos primeiros encantos de uma relação e que duram tempo limitado? Se a monogamia não for o limite, haverá paz algum dia? São reflexões, entre muitas outras que o filme propicia. Um dos melhores e mais profundos realizados com esse tema e que cada um vai receber à sua maneira, o que dependerá talvez de vários fatores, como visão de mundo, experiência de vida, conceitos sobre vários temas complexos… Embora soe, afinal, com muita eloquência uma das frases do filme: “amor é quando duas pessoas não desistem uma da outra…não deixam nas mãos do destino”. Um filme adulto e extremamente verdadeiro, com a cor da alma humana.  8,7

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RATTLESNAKE

A tradução do título do filme é literalmente “cobra de chocalho”, o que obviamente vai significar que se trata da nossa temida e venenosa “Cascavel”, serpente que habita vários locais do mundo, entre eles o território do Texas, onde se passa a história. Aliás, só o fato de o filme envolver essa serpente já causa um espécie de atração e inclui previamente um ingrediente de perigo e mistério. Porém a nota/cotação para este filme tem sido baixíssima por parte dos críticos e de certa porção do público. Discordo desse avaliação tão rigorosa, independentemente de ser ou não uma produção Netflix. O filme é uma boa produção, com bastante suspense e algum terror, podendo muito bem ser comparado seu estilo com o  daqueles episódios das antigas séries “Alfred Hitchcock” ou “Além da imaginação”. Nada especialmente elaborado, muito menos inesquecível, mas um bom passatempo porque uma história bem contada, com boas interpretações e aqueles mistérios típicos de filmes desse gênero (superstições, fatos sem explicação etc). Não confundir este filme com outro, de nome bem parecido (exceto a letra “s” ao final): Rattlesnakes.  7,5

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RAINHA DE COPAS (QUEEN OF HEARTS)

A diretora dinamarquesa May el Toukhy não é ainda muito conhecida, mas já foi indicada e premiada diversas vezes por seu trabalho. E aqui mostra de fato grande qualidade. Apesar de o cinema dinamarquês ser frio (inclusive pelo clima), lento e algo introspectivo, o roteiro aqui, juntamente com a direção e as belas interpretações, faz emergir das profundezas muita riqueza, em meio a princípios, sentimentos e culpas. E o que dói mais, afinal? A dor ou a culpa? Um drama interessante, especialmente valorizado pela interpretação de Trine Dyrholm, mas o marido, Magnus Kreper e o filho (enteado dela), Gustave Lindh também estão ótimos. Excelente trilha sonora, com algum suspense e alguma melancolia, paisagens geladas, isoladas, mistérios e limites dos seres humanos, com um direcionamento final surpreendente, em um filme nada cômodo de ver, mas extremamente bem feito e pungente nas doses acertadas de dramaticidade e realismo, com um roteiro que não cede às facilidades e impõe a que enfrentemos de frente os fatos, inclusive a partir de uma inesperada e impactante mudança de rumos. Curiosamente não gostei do cartaz do filme, mas o nome em português achei muito melhor do que o original (Rainha de corações???). 8,8

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JOVEM E BELA

Filme de François Ozon e que só por esse detalhe já merece a maior atenção. Se avaliada a aparente fragilidade da história, pelo lugar-comum que encerra, poder-se-ia imaginar um filme banal, superficial e sem grandes atrativos. Contudo, não é isso o que acontece, quando combinados roteiro, direção e a excelente interpretação da atriz Marine Vacht, indicada ao Oscar francês (Cesar) para Melhor atriz revelação. O filme mostra uma vida em família, as alegrias e as dificuldades, os relacionamentos, mas seu foco principal é o difícil rito de passagem da menina para moça, suas inquietações e esperanças/ilusões, mas também a expectativa e a realidade a ser enfrentada, notadamente pela inesperada e não explicada opção de vida que faz a adolescente. O amadurecimento ou despertar da jovem é dividido sugestivamente nas quatro estações do ano, cada qual acompanhada pelo seu clima e seus temas próprios (e uma perspectiva diferente), sempre de modo sensível, porém com muitas cenas bastante liberais. Fatos inesperados vão ocorrer, conflitos não previstos e o caminho escolhido poderá ou não redundar em um final feliz, seja esperado, seja imprevisível. A atriz alcança, a par de sua beleza, um notável desempenho, por conseguir com poucas palavras deixar sutilezas e enigmas no ar, a serem desvendados, envolvendo sua enigmática e resoluta personagem, aparentemente livre de qualquer censura moral ou apego a bens materiais. A aparição da personagem de Charlotte Rampling na parte final parece finalmente alimentar o espectador para que  desvende pelo menos parte do mistério. O filme é embalado por temas da também bela cantora Françoise Hardy, que grande sucesso fez na França na década 60 e foi premiado no Festival de San Sebastián, tendo também concorrido em outros, como à Palma de Ouro em Cannes em 2013.  8,5

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CELLE QUE VOUS CROYEZ

É instigante a questão do anonimato na internet, permitindo muitas “viagens”, múltiplas possibilidades. E criar um perfil falso no Facebook não é difícil para ninguém. Embora possa render consequências imprevisíveis. O cinema francês ousou invadir esse tema com uma de suas maiores atrizes, Juliette Binoche, tendo o filme sido exibido no último Festival Varilux (2019). Enorme o talento da atriz, muito competente o diretor Safy Nebbou e amplo o universo da temática. O filme é melancólico e exige paciente e vagarosa digestão, legítimo cinema francês: lento, desapegado da matéria, interessado apenas no emocional dos personagens. E nisso reside sua riqueza, além das surpresas na parte final e que levam a um desfecho que mostra simplesmente as facetas do ser humano, embaladas por um tema musical empolgante e que remete ao verbo viver. Parece que a mensagem final seria essa: seja da forma que for, vale a pena tentar, vale a pena ousar. 8,2

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SWIMMING POOL (À BEIRA DA PISCINA)

Um filme de 2003, que se passa em uma casa de veraneio no interior da França, do grande diretor francês François Ozon, que também dirigiu, entre outros, Dentro de casa (2012), Jovem e bela (2013), Uma nova amiga (2014) e Frantz (2016), todos de alta qualidade. Trata-se na verdade de um thriller psicológico, lentamente desenvolvido e muitíssimo bem interpretado pela veterana Charlotte Rampling, com a também muito boa atuação da sensual Ludivine Sagnier. O nome do filme parece bastante sugestivo com o enfoque que a personagem principal vai dando aos fatos e com as mudanças por que vai passando (uma inglesa conservadora para uma mulher aberta aos sentidos), além das sutilezas e ambiguidades, que enriquecem também a obra. O drama convive com o suspense e segue por caminhos imprevisíveis, inclusive invadindo em algumas cenas o gênero policial. O que é fantasia, o que é realidade, é uma questão que perspassa pelo espírito do espectador, que se verá diante de um ótimo enigma a ser desvendado na cena final, principalmente considerada a simbologia que parece atravessar todo o filme. E que certamente permite mais de uma interpretação, assim como o próprio roteiro como um todo. Ótima e adequada trilha sonora, um filme que acaba se classificando como “de arte” e que após o seu término deixa agradáveis e variados sentimentos e algumas interrogações que convidam a pensar e a debater, o que não é pouco.  8,7

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A LAVANDERIA

Drama produzido pela Netflix estilo “denúncia”, abordando com ironia e sarcasmo a corrupção no mundo atual, com foco nas empresas de fachada, lavagem de dinheiro, ações, paraísos fiscais, grupos empresariais e controladoras criados para sonegar impostos, ganhar dinheiro fácil, sócios fantasmas etc. O Grupo Odebrecht -citado expressamente como brasileiro- protagoniza un importante momento do filme. Na verdade, um filme com esse tema acaba virando quase um documentário e, embora criativo, torna-se um pouco enfadonho em boa parte de seu andamento, pela repetição de alguns fatos e algumas cenas demoradas. Embora seja, afinal, um passatempo interessante, pela atualidade e pelo roteiro inteligente. A direção é muito boa, do experiente e inusitado Steven Soderbergh (Insônia, Che, Onze Homens e um segredo…) e o elenco ótimo, com Meryl Streep, Gary Oldman, Antonio Banderas, James Cromwell, David Schwimmer. 7,8

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YESTERDAY

O britânico Danny Boyle, o mesmo diretor de Quem quer ser um milionário, vencedor do Oscar, traz agora uma deliciosa e irresistível fábula/comédia romântica (e musical), estrelada por Himesh Patel (ótimo ator e cantor, gravando ao vivo suas interpretações no filme) e a bela e adorável Lily James (Cinderela, Little woods, Mamma mia…) filme que acaba sendo, na verdade, um tributo aos Beatles e à própria música pop inglesa, em sua importância e amplitude mundial. O filme tem um ritmo gostoso, leve, irresistível e a partir de um determinado fato sobrenatural (de cuja aceitação obviamente depende todo o encantamento do filme) se transforma em uma viagem maravilhosa, divertida e comovente, que passeia sobretudo sobre o trabalho de Paul McCartney e John Lennon (pelas belíssimas e sensíveis músicas que os dois compuseram), fazendo com que os mais velhos revivam a magnitude e a riqueza da obra dos Beatles e com que os mais novos a conheçam e/ou a reafirmem. O roteiro foi escrito principalmente por Richard Curtis, que tem muita experiência e competência nesse tipo de comédia, pois é autor de Simplesmente amor, Quatro casamentos e um funeral e Um lugar chamado Nothing Hill, entre outros. E se tudo parece orbitar em torno da música, desde o início (embora em tom de comédia, com algumas ótimas piadas), existem bons sentimentos e exemplos permanentemente à volta de todos -e da própria obra homenageada, coroada pelo encontro na casa à beira da praia- e o sentimento principal é o que acaba coroando e dando um sentido maior à procura do verdadeiro caminho, fazendo com que o filme termine envolvendo a todos em suas emoções e ao som de uma das mais belas canções já feitas e que ecoa no compasso dos corações: Hey Jude.  9,5

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ALLADIN (ALADIM)

Verdade seja dita: depois da computação gráfica, qualquer mundo é possível! Mas mesmo assim, o faz de conta deve sempre predominar. Ou seja: a gente deve fingir que não existem os tais efeitos especiais e entrar no sonho, afinal, quem não gosta de um conto de fadas? Aladim desenho foi algo extraordinário e agora o filme é também marcante, com muita qualidade técnica, magia e o carimbo “Disney” escancarado. Nos detalhes dos desenhos, nas músicas (o tema icônico !), na condução da história, no figurino e na cenografia, nos interessantes personagens…No encantamento, enfim. Das fábulas. Como não se deixar levar e se emocionar com personagens que povoaram nossa infância, repleta de príncipes, princesas, grão-vizir, gênio da lâmpada, sultões, reinos maravilhosos? E que vemos agora, ampliados, aperfeiçoados? Como não se tocar pelos ideias de justiça que o filme traz, de beleza, de harmonia, de equilíbrio, amor e paz? É a essência de todos os desenhos e filmes dessa espécie mostrar o desequilíbrio e logo após nos trazer de volta, em um retorno que sensibiliza nossos corações e nos reduz aos valores essenciais! Bem provável que os mais românticos se sentirão especialmente tocados, evocarão as histórias da infância e os voos no tapete mágico das 1001 noites! Claro que a história é a de sempre –aqui, o desenho fidelizado-, mas quem não quer navegar por esse mundo todo de fantasia e quem não deseja, mesmo que secretamente, um final feliz? Quem não se afeta por exemplos de nobreza, caráter, coragem, força, generosidade? E aqui, com um forte toque feminista (a música cantada pela princesa a quase 1h 40min de filme é realmente empolgante), vemos muitíssimo bem personificados Ali e Jasmine, o par central da trama. As cenas com o gênio, magnificamente composto por Will Smith, são muito dinâmicas e divertidas. Tudo para manter com graça e competência a tradição e plenamente vivas as lendas!  9,0

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PROJETO LAZARUS (REALIVE)

Um filme de ficção científica de 2016, com tríplice produção: franco, belga e espanhola. O ator é Tom Hughes e a história aborda um tema bastante interessante: a criogenia aplicada ao ser humano, ou seja, o fato de alguém congelar seu corpo para em um futuro distante ser submetido ao processo inverso. Só que aqui com dois diferenciais: em primeiro lugar, a forma se assemelha à dos filme de arte, porque a direção é daquelas mais herméticas, o andamento tem uma dinâmica mais contida, assim como o próprio personagem principal, havendo cenas ótimas e também algumas estranhas; segundo, o roteiro não apresenta o que comumente vemos nos filmes em que o personagem se congela e acorda dezenas de anos no futuro: aqui existem dificuldades para que simplesmente ocorra o processo, que esbarra em restrições tanto orçamentárias, quanto científicas e de conveniência, assim como físicas e fisiológicas no processo da perfeita do paciente que se sujeitou ao procedimento. Tudo isso em meio a dramas diversos, memórias lançados na tela, inclusive também de forma simbólica etc. Ressurreição e imortalidade são discutidas em um contexto interessante, envolvendo dramas existenciais. Não é para todos os públicos, mas para quem gosta do tema e de filmes menos comerciais, uma boa viagem embora tivesse elementos para ser extraordinária.  8,0

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NO FINAL DO TÚNEL

Com o ator argentino Leonardo Sbaraglia (Neve negra, Plata queimada, Relatos selvagens…), uma co-produção argentina-espanhola de 2018, resultando em um bom filme, estilo policial com suspense (thriller), com ótimo elenco, incluindo também, em papel sensual, a atriz espanhola Clara Lago. O filme é muito bem acabado visualmente, tem muito suspense -mérito da direção e da trilha sonora excelente, que eleva a tensão a níveis importantes- e um roteiro interessante e com surpresas, que deixam o espectador com muitas dúvidas e consideráveis expectativas, não só quanto ao desenvolvimento, mas principalmente no tocante ao desenlace. Daquelas produções com baixo orçamento, mas com uma história bem costurada, atraente e que apresenta situações criativas que prendem quem está assistindo. Aliás, as cenas que precedem o desfecho são inteligentes e palpitantes e envolvem alguns diálogos inesperados e criativos (deixando os bandidos desconcertados e criando um impasse saboroso). Um agradável passatempo cinematográfico dirigido por Rodrigo Grande. 8,5

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O REVERSO DA FORTUNA

Um filme de 1991, dirigido pelo iraniano Barbet Schroeder, e que merece ser visto/revisto. Com diz a sinopse, o aristocrático Claus Von Bullow é suspeito da tentativa de assassinato de sua esposa e contrata um escritório conceituado de advocacia (Ron Silver é o condutor dos trabalhos da equipe que busca defender o milionário) para recorrer da decisão que o condenou inicialmente. O personagem de Jeromy Irons é realmente desconcertante. Enigmático. Ele interpreta aquele inglês típico, todo afetado, fleumático, empombado, arrogante, parecendo distante das emoções (pois as esconde), temperamento que ajuda a desconcertar o espectador quanto aos fatos e onde está a verdade dos fatos. Ele flutua nas cenas e entre os diálogos, deixando todos em estado de permanente suspense e dúvidas. As investigações, o passo a passo, tudo é interessante e intriga. A mesma perplexidade toma conta da equipe de advogados contratados e a interpretação de Jeromy conquistou o Oscar 1991 de Melhor Ator. Glenn Close também não fica muito atrás, desempenhando com maestria o papel da esposa e que de modo muito original acaba sendo a narradora in off. A fotografia é ótima e em algumas cenas primorosa, igualmente sendo muito bem cuidada. Atua também no filme, entre outros, a bela Annabella Sciorra (Amor além da vida, A mão que balança o berço, Justiça cega, Febre da selva). A última cena, na banca de jornais e variedades, é um achado, irônico e cínico, para talvez desfazer/confundir algumas impressões anteriores sobre o personagem e deixar algumas reticências… 8,8

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CASAL IMPROVÁVEL (LONG SHOT)

Tão improvável quanto o casal formado pelo estranho Seth Rogen e a ótima e belíssima atriz Charlize Theron, é o sucesso desta comédia repleta de críticas sociais e políticas, inclusive à política americana, abordando diversas questões de vários ângulos diferentes, sob o fundo do humor gratuito, mas que, afinal, esconde tiradas muito boas e finas, em meio a outras menos sutis e elaboradas (inclusive envolvendo as alardeadas fake news). Mas o improvável muitas vezes é o que acontece e o filme tem agradado a grande parte do público. Porque é leve, entretém e vai-se acompanhando os fatos sem saber bem para onde vão levar (embora não seja tão difícil prever…), com a motivação em parte pelo próprio roteiro e em grande parte pelo par central: ele, enigmático nos limites da loucura, do sarcasmo e da ternura; ela, com alguma sobra de mistério e muitas doses de beleza e classe, em uma mistura no mínimo inusitada e por isso interessante, justamente o que dá base ao enredo e justifica o seu desfecho. Um passatempo gostoso e divertido.  7,8

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THE TIME ELEMENT

A TV já produziu várias séries que com mistério e suspense (e à vezes horror) tratam do “desconhecido”, de questões de ficção científica, envolvendo tempo e espaço e que despertam o interesse e instigam o espectador: Quinta Dimensão, Alfred Hitchcock apresenta, mais recentemente Black Mirror…porém a mais famosa delas foi a que durou de 1959 até 1964, com 5 temporadas e 156 episódios: “The twilight zone” ou “Além da imaginação”. Este filme precedeu a série e teve o roteiro escrito pelo mesmo Rod Serling (responsável pela série), porém foi comprado e inicialmente rejeitado pela CBS, que o guardou por um ano até que acabou sendo aproveitado por uma exibição de 1958 do seriado Desilu Playhouse  – após o final do filme há uma “quebra” e nos sentimos vendo a TV dos anos 50, com a exibição de uma longa propaganda dos patrocinadores, anunciando o moderno refrigerador com freezer. Mas o filme foi um grande sucesso e a partir dele Serling foi autorizado a produzir a série com episódios semanais. Portanto, embora “The time element” não seja um “piloto” da série, pode até ser considerado como seu “episódio zero”. Uma história que tem a participação do conhecido Martin Balsam, a direção de Allen Reisner e que aborda aqueles temas maravilhosos e atraentes que envolvem os paradoxos temporais (viagem no tempo etc). No caso, focados em Pearl Harbor. Para os fãs do gênero, visão obrigatória.  8,7

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A CORTE

Um filme francês de grande qualidade (2015), a começar pelo duplo sentido do título (excelente e quem assistir a ele vai entender). Depois, tem um roteiro simples mas premiado porque muito bem construído e interessante, não apenas por dar suporte a um filme “de tribunal” (que em  geral é um gênero bastante atraente), mas por apresentar os bastidores de um julgamento, mostrar os fatos que ocorrem longe dos olhos do público, envolvendo o juiz, os funcionários, os jurados, a hierarquia, a linguagem, o protocolo… Por fim e com vital importância, esse elegante filme conta com uma marcante atuação de Fabrice Luchini, que com esse papel ganhou o prêmio de Melhor ator no Festival de Veneza: o de um magistrado rígido, sério, compenetrado nas funções, mas que de repente reencontra alguém do passado e se sensibiliza com essa presença (a da ótima atriz dinamarquesa Sidse Babett Knudsen, inclusive agraciada com o Cesar, Oscar do cinema francês), que causa mudanças em sua rotina e se mistura com diversos elementos em um contexto pessoal complexo (separação recente, dever, moral…). O fato é que o desenlace parece menos fundamental do que os detalhes e as reticências, que são inteligentemente colocados no enredo e que, como observou brilhantemente um crítico, fazem com que “mesmo a rápida presença de um vestido branco, na conclusão, se transforme numa pérola de significados latentes”.  9,0

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LUGAR NENHUM NA ÁFRICA

Este filme alemão, com aroma de épico, ganhou o Oscar de Melhor filme estrangeiro no ano de 2003. E merecidamente. É uma história maravilhosamente bem contada, baseada na autobiografia da jornalista Stefanie Zweig (que passou a morar na África quando criança) e que mistura com inteligência, delicadeza e emoção diversos ingredientes abordando a natureza humana e sua capacidade de refletir, de adaptação, de superação, de imaginação, sua bravura e tenacidade. Na iminência da Segunda Guerra Mundial e já com a ameaça real do nazismo (1938), uma família alemã se muda para o Quênia, região onde todo o filme acontece. E ali, essas pessoas acostumadas a uma vida aristocrática e sem carências, são obrigadas a se integrar e a se adaptar aos costumes, à natureza, enfim a todos os elementos de transição e também aos conflitos que o novo mundo vai trazer. Alguns terão maior dificuldade. Outros, como a menina Regina (a atriz Lea Kurka), vão se integrar de forma fácil e feliz e nesse ponto aparece um dos principais e mais interessantes personagens do filme, que é o cozinheiro Owuor. As paisagens fascinantes da África (emolduradas na bela fotografia), o clima, as imagens, cores, diferenças de hábitos, a viagem interior dos personagens, tudo é muito bem cuidado e conduzido pela diretora Caroline Link e pela atuação do elenco, sendo belíssima e comovente também a trilha sonora. Um filme praticamente perfeito, que não cai em clichês e que, sem maiores pretensões mas com muita competência, traz paz, beleza e profunda emoção. 9,5

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YELLA

Um filme alemão de 2007 e que pode ser enquadrado como “filme de arte”, porque é lento, diferente, imprevisível, com muito suspense e sobretudo estranho…Esses dois últimos fatores são bastante valorizados pela direção de Christian Petzold, pela trilha sonora e pela atuação perfeita da bela atriz Nina Hoss (Wolfsburg, Partículas elementares, Anônima –uma mulher em Berlim, Bárbara…). O diretor Christian Petzold é bastante premiado, inclusive tendo ganho o Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 2012 com o filme Bárbara (também com a mesma atriz, com quem já realizou inclusive várias parcerias). Este filme gira em torno de uma fuga em busca de uma vida melhor e sem problemas, mas que não mostra precisamente os caminhos que vão sendo seguidos, ficando sempre algo a desvendar. O diretor é muito hábil em manter o mistério, inclusive ao não mostrar os fatos ao mesmo tempo em que são captados pelos personagens…sempre vamos percebendo com algum atraso o foco principal de algumas cenas mais tensas, o que intensifica o suspense e nos deixa inquietos, sempre sentindo que existe algo muito estranho pairando em torno do universo corporativo que vai sempre mostrado. Só no final descobrimos, em desenlace inesperado, a chave do enredo ligada a uma informação que nos foi omitida em parte do filme: mas que além de ser interessante e atraente, não causa tanto desconforto quanto poderia, justamente pela competente construção de todo o roteiro e pela marcante performance de Nina.  8,7