OS ELEITOS (THE RIGHT STUFF – 1983)
Frase não-literal de um integrante do programa aeronáutico americano: “O império romano dominou o mundo porque abriu estradas, o império britânico foi poderoso pela sua frota naval, o nosso império dominou a era da aviação e agora, na era espacial, devemos evitar que os russos controlem o espaço, inclusive porque de lá poderão desferir ataques fatais ao nosso povo”. Um filme baseado em texto não ficcional de Tom Wolfe (que enfoca os primeiros 15 anos do referido programa espacial), com ótimo ritmo e muito interessante, porque mostra o desenvolvimento tecnológico dos Estados Unidos, a partir das histórias dos corajosos pilotos de teste dos aviões a jato americanos, inclusive na tentativa de romper a barreira do som (“match 1”). Parte essencial da história é a corrida espacial contra os soviéticos, quando os Estados Unidos faziam os primeiros testes com os foguetes e os russos pareciam estar sempre um passo à frente (Gagarin etc), fazendo com que os americanos se lançassem à concorrência, mesmo muitas vezes sem o adequado preparo. Até pela presença de astronautas reais, como John Glenn, Al Shepard, Gordon Cooper e Gus Grisson, tudo fica parecendo até um documentário, sendo destaque além do espírito destemido dos ases, as grandes cenas dos jatos, que são sempre impressionantes (pelas imagens e pelo som), incluindo as das aterrissagens nos porta-aviões, que sempre fascinam e impressionam, inclusive pela engenharia criativa e perfeita responsável pelas “frenagens”). Mérito do filme também é apresentar os vários dramas humanos acompanhados de severas críticas aos projetos americanos: o filme mostra a precariedade de alguns locais de treinamento, a bisonha retribuição financeira que os militares davam aos pilotos que diariamente arriscavam suas vidas a fim de superar limites, a sorte ingrata das esposas desses pilotos caso perdessem o marido – ficando sem qualquer proteção legal ou financeira – e a própria retribuição bisonha, dada pelo governo após os grandes feitos dos pilotos e dos astronautas, quando os projetos começaram a engrenar: a visão do filme sobre as esposas é de “enfeites” necessários e em uma das cenas o então vice-presidente Lyndon Johnson é mostrado como um político oportunista e interesseiro, sem o menor resquício de ética (ele viria, após o assassinato de Kennedy, a ser o Presidente dos EUA), que ficou frustrado porque a mulher de um dos astronautas se negou a ser objeto de suas manipulações da mídia: aliás, a imprensa aparece no filme, invariavelmente, como um “bando de urubus ou abutres”, interessados apenas no furo, sem qualquer respeito ético ou à privacidade. O filme mostra também, de forma realista, as diversas tentativas fracassadas de foguetes que explodiram na subida ou logo após, com milhões e milhões de dólares sendo desperdiçados e, paralelamente, um evidente pouco caso com a vida daqueles que corriam os efetivos riscos, integrando projetos ainda incompletos. A edição é impecável, assim como a bela trilha, a direção é ótima de Philip Kauffman (“Henry e June”, “Sol nascente”, “A insustentável leveza do ser”), mas um grande destaque, além do roteiro, é o afamado elenco, constituído, entre outros, por Sam Shepard, Barbara Hershey, Ed Harris, Scott Glenn, Kathy Baker, Fred Ward, Veronica Cartwright e Lance Henriksen. O problema do filme (que poderia ser efetivamente uma grande e muito bem apresentada aventura), a meu ver, é o relativo ufanismo, que retira inclusive a seriedade dos temas, transformando a história, muitas vezes em algo próximo à comédia, até mesmo pelo próprio comportamento dos personagens, que parecem grande parte do tempo estar brincando ou encarando as situações de risco como se fossem mera trivialidade, aliás especialidade do sempre canastrão Dennis Quaid (que aquí sempre parece estar em viagem de férias), desde a sua mais tenra idade. Até Jeff Goldblum foi escalado, dando ao filme aquele seu tom característico, meio cômico/bizarro, meio alienado (em português: “o esquisitão”). Enfim, um filme de sucesso, integrante em várias listas de melhores do cinema, ganhador de prêmios (entre os quais os Oscar de “Montagem”, “Som”, “Edição de som” e “Trilha sonora”), mas que seria muito melhor se levasse as coisas a sério e retrasse o verdadeiro e pioneiro “espírito americano” e não apenas o clichê em que se transformou com o tempo o “espírito dos filmes americanos”. 8,9
