A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (ACE IN THE HOLE – 1951)

Filme ambientado em lugarejos quase desertos no Novo México e que discute o papel e a realidade de determinado tipo de jornalismo, além dos dilemas morais envolvidos. Estes últimos têm ligação com o título original, que deriva do jogo de pôquer e significa “um as na manga” (ou seja, o jogador tem um trunfo, uma ótima oportunidade), mas neste caso, surpreendentemente, o nome em português também é mais do que adequado, porque se refere tanto ao local onde o fato principal do enredo acontece, como principalmente dá ênfase ao sentido crítico da história, ao comparar jornalistas sem escrúpulos às aves que se alimentam de carniça. O filme acabou ficando famoso – embora não na época do seu lançamento, apesar de ter ganho o Oscar de Melhor Roteiro Original em 1952 –, por ter sido um dos mais ácidos do cinema (se não o mais e ainda como precursor) a criticar com tanta eloquência o jornalismo “marrom”, que infelizmente nunca deixou de existir. Mas sua qualidade, na verdade, a partir do roteiro, já começa pela competência de seu diretor, o mestre Billy Wilder, que antes já havia entregue ao cinema, entre outros, “Pacto de sangue”, “Farrapo humano” e ‘Crepúsculo dos deuses” e depois dirigiria outras maravilhas, como “Inferno número 17”, “O pecado mora ao lado”, “Testemunha de acusação”, “Quanto mais quente melhor”, “Se meu apartamento falasse”, “Irma la Douce” etc. E, a partir daí, a qualidade prossegue com o belíssimo elenco, composto por nomes como Jan Sterling e Porter Hall, mas capitaneado/estrelado pelo grande Kirk Douglas (falecido com 103 anos e pai de Michael), considerado como um dos maiores atores da história do cinema e que aquí, aos 35 anos, apresenta uma atuação memorável: no papel de um experiente, cínico e de caráter mais do que duvidoso repórter, reiteradamente despedido de seus vários empregos em jornais, forçado a se adaptar a uma rotina enfadonha, em local ermo onde nada acontecia, mas que de repente, como por um milagre, sente, como um “vampiro”, o cheiro de sangue no ar e que um determinado fato pode alimentar a mídia (e a população) sedenta e carente por notícias de impacto e mais: é a chance para a sua redenção/ascensão profissional, naturalmente bem remunerada. Mesmo que a duras penas. E o belo roteiro passa a ter como foco principal justamente essa atuação desenfreada e faminta da mídia, dessensibilizada para os dramas humanos e tendo como meta apenas a notícia e os frutos dela, tanto junto aos leitores, como sob o ponto de vista da fama e financeiros, o que faz com que em pouco tempo tudo acabe virando um circo e o povo receba, então, o que se diz que sempre procura. Kirk já havia feito alguns filmes, mas a partir deste a sua carreira decolou, estrelando maravilhosas obras, como “Assim estava escrito (1952), “Ulisses” (1954), “Vinte mil léguas submarinas” (1954), “Sede de viver” (1956), O nono mandamento” (1960), “O último pôr do sol” (1961), entre muitos outros. Um filme muito interessante, profundo, reflexivo, impactante e com diálogos afiados, como o havido entre Chuck Tatum (Kirk) e seu chefe Jacob Boot (Hall): “Não sou seu tipo de jornalista, não combino com o quadro que tem no seu escritório (“Diga a verdade”), não ligo em fazer acordos corruptos ou inventar maldições índias ou esposas tristes”. 9,2

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