EXCALIBUR (1981)

Este filme americano de John Boorman (“Amargo pesadelo”, “Esperança e glória”) pode muito bem ser considerado um épico medieval. E mais: o épico medieval definitivo sobre o tema. Pois contém muita ação, suspense, aventura, magia e todos os personagens e elementos que embalaram muitos – alguns desde a infância com as histórias do Almanaque Disney – nas aventuras das cruzadas, na Idade Média, especificamente do Rei Arthur e sua Távola Redonda (depois em Camelot, cidade construída pelo Rei), do Mago Merlim, da Maga Morgana, de Sir Lancelot, da busca do Cálice de Cristo. E, claro, com o brilho enigmático da espada mágica que dá título ao filme! Os únicos defeitos do filme a meu ver são a sua parte final, na busca do Santo Graal, quando tudo fica meio confuso e fragmentado, parecendo até outro filme e, de outro lado, o seu lado de comédia ou de quase pastelão em alguns momentos: esse humor permeia boa parte do filme e torna algumas situações menos sérias e alguns personagens meio caricatos. Pelo menos a mim não agrada muito a mistura de temas sérios com a inserção de com “alívios cômicos”. Entretanto, essa escolha do diretor, em pontuar momentos realistas com um pouco de humor, de modo algum ofusca as grandes qualidades deste filme, que proporciona um profundo e extenso mergulho em um extrordinário mundo de fantasia, repleto de lendas, magia, violência, mas também de honra, heroísmo e até romance: em primeiro lugar, conta basicamente toda a história envolvendo a espada mágica, o reino que ficou algum tempo sem comando, o novo rei, as batalhas formidáveis junto aos castelos, a história de Merlin, de Morgana, de Guinevere e Sir Lancelot (o cavaleiro que protegia a ponte e foi eleito o melhor do reino); em segundo lugar, o tom do filme e a trilha sonora compõem elogiável harmonia com os cavaleiros da época e suas pesadas armaduras: ao contrário do que normalmente ocorre, aquí o peso das armaduras e das armas era sentido, limitando a mobilidade e a agilidade dos contendores! Em terceiro lugar, o filme tem ótimos momentos de ação e também de suspense e intriga, inclusive a partir da formação da Távola Redonda e da suspeita sobre as atitudes esquivas de Sir Lancelot, além das cenas sempre marcantes envolvendo os conhecimentos milenares de feitiçaria de Merlin e ambicionados por Morgana, na verdade irmã do rei. Há momentos inesquecíveis no filme, inclusive o seu final e merece também destaque o fato de que muitas cenas dos cavaleiros a galope são embaladas simplesmente pela música “Carmina Burana” (de Orff), um espetáculo emocionante por si só! O elenco, com muitos nomes que viriam a ser bem conhecidos, tem muito boas e também algumas regulares atuações, apresentando Nigel Terry como Arthur e Nicholas Clay como Lancelot – que poderiam ser melhores -, e, entre outros, Cherie Lunghi (Guinevere), Liam Neeson (Gauvain), Paul Geoffrey (Perceval), Patrick Stewart (Leodegrance) e Gabriel Byrne (Uther); mas as duas performances mais notáveis são efetivamente a da ótima e bela Helen Mirren (como Morgana) e a do misterioso e vibrante Nicol Williamson (como Merlin), apesar de  construir um personagem meio cômico. Um filme intenso, poderoso, que como poucas retratou a lenda do Rei Arthur e da mágica espada Excalibur e que passa muito bem a atmosfera proposta, com fortes imagens, som e trilha, ótima direção e um roteiro abrangente e que só peca em alguns instantes de continuidade e no trecho da busca pelo Santo Graal. Na realidade, tanto a história deste filme, como a de outros que abordaram a fascinante lenda, derivam da mesma fonte, que é o livro “Le Morte d´Arthur”, escrito em 1495 por Sir Thomas Malory, no qual estão reunidas as lendas orais e escritas, além de todo o próprio folclore, sobre o personagem que teria combatido pela Bretanha os invasores saxões. 9,2

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