A GRAÇA (LA GRAZZIA – 2025)
O italiano Paolo Sorrentino não é um diretor convencional: sendo geralmente o roteirista dos filmes que dirige, tem um olhar peculiar sobre as coisas (inclusive nas questões entre sagrado e profano) e uma forma original e bem característica de transmitir suas ideias, primando sempre pelas imagens (fotografia caprichada) – algumas inesperadas e surpreendentes – e pela qualidade do elenco. Seu ator favorito é o excelente Toni Servillo, que inclusive por este filme ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza: merecidamente, sendo ele protagonista recorrente ou um trunfo à parte nas produções de Sorrentino, quais sejam Um homem a mais (primeiro longa do diretor), As consequências do amor, Il Divo, Loro, A mão de Deus e A grande beleza, filme que ganhou o Oscar de Filme Internacional em 2014. Aqui os temas sociais e políticos predominam, mas como pano de fundo para muitas reflexões e filosofia, forte enfoque no lado humanitário das questões, passando pela liturgia de um cargo fictício de presidente e envolvendo temas sensíveis como os da eutanásia, do indulto presidencial, da mortalidade e do destino. Tudo sendo mostrado de forma lírica, mesmo diante das importantes temáticas existenciais. O texto é maravilhoso e inclusive extremamente comovente ao final (também graças às impecáveis performances), não havendo no filme absolutamente nada desnecessário ou forçado. Mesmo assim, não é uma obra para todo tipo de público, sendo certamente destinado aos amantes de filmes que lentamente vão compondo seu universo repleto de cores e significados, aprofundando-se nos diálogos e nas sutilezas das emoções (até poderia, assim, ser enquadrado como “filme de arte”). Como sou fã do diretor, inclusive dos inesquecíveis A juventude e Parthenope (este um caso à parte), talvez fiquem sob suspeição os superlativos elogios acima: mas se não merecer o adjetivo de maravilhoso, pelo menos e com certeza fará jus ao reconhecimento de um trabalho sério, singular e de destaque na cinematografia atual. 9,5
