TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO (WHITNESS FOR THE PROSECUTION – 1957)

Este filme de 1957 é a adaptação para o cinema de um dos livros de maior sucesso da imortal escritora de romances policialis, Agatha Christie. E foi dirigido pelo extraordinário Billy Wilder (que co-assina o roteiro), inclusive por exigência do mito Marlene Dietrich (cantora e atriz alemã, naturalizada estadunidense e que ganhou fama a partir de “O anjo azul”, de 1930), que de outro modo não concordaria em atuar no filme. Wilder, tanto pela fama, quanto pela efetiva competência, merece que sejam citados vários de seus filmes (por exemplo, os que produziu até completar seus 60 anos de idade), para que se tenha uma ideia da extensão e importância de sua obra cinematográfica: Pacto de sangue (1944), Farrapo humano (1945), Crepúsculo dos deuses (1950), A montanha dos sete abutres (1951), Sabrina (1953), O pecado mora ao lado (1955), Quanto mais quente melhor (1959), Se meu apartamento falasse (1960) e Irma La Douce (1963). Neste caso, trata-se de mais uma obra exponencial, sendo o roteiro rico como algo que se extrai das obras de Shakespeare e extremamente bem temperado, com leveza e humor, em meio a um drama tenso e surpreendente, daqueles de tribunal e com epílogo imprevisível. Uma história bem humorada e extremamente saborosa, que além de muito bem conduzida (e produzida e editada e fotografada) é proverbialmente valorizada pelo elenco, que além de Dietrich, apresenta o ainda galã Tirone Power (na época já com 43 anos, mas que nas décadas anteriores fez milhões de fãs suspirarem), a carismática e peculiar Elsa Lancaster (como a enfermeira implicante/rigorosa), a impagável Una O´Connor (empregada mal humorada da viúva rica) e o inigualável Sir Charles Laughton (58 anos na época), que dá um banho de carisma e talento interpretativo, como um advogado de defesa que apesar da idade e da doença teima em ser irreverente e em fazer suas peraltices (como trocar o chocolate da garrafinha médica por brandy). Tudo, enfim, forma um conjunto mais do que harmônico, realmente especialíssimo, tornando os momentos do filme bastante prazerosos e vários deles simplesmente inesquecíveis. Dinâmico, com ótimos diálogos, nos faz também apreciar todo o requinte e o ritual dos tribunais britânicos, com aquela pompa e seriedade (obviamente incluídas as famosas perucas brancas), mas que na realidade e no fundo significam uma profunda reverencia à lei, ao direito, à cidadania e às tradições. Três curiosidades: 1) Elsa Lanchester e Charles Laughton eram casados na vida real; 2) o filme teve várias indicações para o Oscar e para o Globo de Ouro (filme, diretor, ator, atriz coadjuvante etc), mas não ganhou nenhum prêmio – nesse ponto, pode-se considerar que embora tenha sido o ano de êxito de “A ponte do rio Kwai” e tenham concorrido a prêmios filmes de peso, como “12 homens e uma sentença”, “Sayonara”, “Peyton place”, “Tarde demais para esquecer” e “As três faces de Eva” (ah, saudades do grande cinema !), este filme certamente mereceria um muito maior reconhecimento, pois efetivamente beira a obra-prima; 3) no final do filme, a gerência do cinema faz um pedido ao espectador, para que não revele a ninguém o seu final, a fim de não estragar a surpresa, tática que Hitchcock acabou adaptando 3 anos depois no filme “Psicose”. A propósito e para finalizar, transcrevo uma frase notável do jornalista, novelista e crítico literário alemão Hellmuth Karasek, que define perfeitamente o valor e o alcance deste filme: “Testemunha de acusação é um dos melhores filmes de Hitchcock, só que dirigido por Billy Wilder”. 10,0

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