HAMNET (2025) – Antes de mais nada cabe uma observação: desprezei totalmente o subtítulo brasileiro “A vida antes de Hamlet”, por ser superficial, ridículo e totalmente dispensável, apenas significando que o filme contempla fatos anteriores à peça de Shakespeare. Prosseguindo, cheguei à conclusão de que para se analisar esta co-produção anglo-americana é necessário considerar o seu todo, principalmente o que dele emerge em seus momentos finais, que são dos mais magníficos que o cinema já produziu: é como uma ode ao teatro e as emoções que propicia, às suas origens, principalmente quanto à participação popular, aos sentimentos humanos, às perdas e à resignação e ao perdão. Essa cena, repleta de significados (inclusive ao valorizar o amor paterno), certamente propiciará ao público um impacto inesperado e é maravilhosamente enaltecida pelas atuações e notadamente pela direção magistral de atores. Entretanto, ao longo do filme – muito bem dirigido por Chloé Zhoe (“Nomadland”) – existem outras cenas fortes e importantes, grande parte delas potencializadas pela estupenda atuação de Jessie Buckley, que já ganhou vários prêmios por este filme e estará concorrendo ao SAG dia 1º e ao Oscar dia 15 de março, mas também pelas performances intensas do garoto Noah Jupe e também de seu irmão Jacobi Jupe, da veterana Emily Watson, de Paul Mescal (como Shakespeare – exceto em uma cena específica, em que para mim faltaram as lágrimas) e de Joe Alwyn (irmão de Agnez – que seria Anne, na história perpetuada). Continuando o raciocínio de início, com belas fotografia, direção de arte e trilha sonora, o filme em seu início enfoca dois personagens imersos em mundos diferentes (o da natureza e o do intelecto) e que se mostram umbilicalmente vinculados a eles, explora com delicadeza e profundidade o núcleo familiar mesmo no século 16 e início do século 17, porém se desenvolve sem grandes arroubos, sem uma especial nota de criatividade a par da elevada carga dramática, a princípio sem elementos que justificariam a indicação que teve em diversos festivais de cinema, inclusive ao Oscar – apesar de o roteiro ser bem costurado (pela autora do livro Maggie O´Farrell como co-roteirista), ao misturar habilmente a história com fatos desconhecidos. Entretanto, é na sua porção final que torna claro e robustece seu tema principal, que inclusive também envolve a vida de homem comum de William Shakespeare (ou Will), antes de se tornar famoso: no epílogo é que, afinal, compreendemos todo o seu propósito e amplo contexto e o que antes se passou é então absorvido e trazido àquele universo dramático, como um choque emocional e intelectual poderoso e que desde já se torna memorável na história do cinema. 9,0
