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ERA UMA VEZ NA AMÉRICA

Último filme da carreira de Sergio Leone (1984), que a encerrou em grande estilo. Mais um longa metragem e aqui o diretor muda totalmente de cenário, deixando de fazer faroestes para incursionar no mundo dos imigrantes que desde cedo, crianças (em Nova Iorque), já partem para a criminalidade, atravessando todo o período da chamada lei seca (década de 20). Um filme de gang, envolvendo atividades ilícitas, assassinatos e permeado de muita tensão. Entretanto, abre um painel da vida desses imigrantes em determinado bairro americano, com seus costumes e sobretudo a respeito da amizade que nasce na mais tenra idade e que vai se manter durante muito tempo. Na verdade, o foco do filme não é a vida criminosa, mas os laços que passam a existir a partir da infância de Noodles e dos demais meninos judeus. O filme contempla três épocas diferentes: não só a maturidade de alguns personagens (e são dolorosos os fatos da volta!), como a época da juventude e a inicial, de crianças ainda, mas já realizando “certos serviços” para os mais velhos e aprendendo a se virarem sozinhos (às vezes a duras penas). Como sempre a música ficou a cargo de Ennio Morricone, que conduz uma trilha sonora magnífica: com as canções lindíssimas do próprio Morricone, reveladoras, aliás, de seu estilo, com aquela orquestração conhecida e nuances que misturam o romântico, o épico e o nostálgico; e neste filme a especial música Amapola, que emoldura um momento muito especial (lírico) do filme e que vai acabar marcando dois personagens ao longo do tempo, sempre com grande significado, principalmente nas reticências…As cenas onde toca essa música, por sinal, ficam registradas para sempre também na memória do espectador! Um filme extremamente bem feito (exceto, talvez, o sangue de algumas cenas) e que destaca diversas atuações, sobressaindo a excelência de Robert de Niro e a grande performance de James Woods. Impressionante inclusive a transformação física de De Niro nas fases jovem e adulta do seu personagem. Também está no elenco a bela Elizabeth McGovern (que quando jovem é interpretada pela novíssima Jennifer Connely, na época com 14 anos) e Joe Pesci faz uma ponta rapidíssima (apesar do seu nome em destaque no cartaz do filme!), mas já com os trejeitos que que iriam consagrá-lo seis anos depois no filme Os bons companheiros (de Scorsese). Com bastante atenção, o espectador vai também observar a presença do ator Burt Young, o Robin da TV e da atriz Louise Fletcher, a enfermeira chefe de Um Estranho no ninho, entre outros rostos conhecidos. Uma narrativa estilo gangster, mas que enaltece a amizade, a lealdade e as mudanças que ocorrem conforme o curso da história da própria vida, uma saga que aborda inúmeras circunstâncias, mas que no final das contas acaba girando em torno de poucas coisas fundamentais, que são aquelas nas quais efetivamente se resume a vida de cada um e que ficam gravadas como as que são efetivamente relevantes. Atenção, spoiler: e, ainda, com a cena final, surge uma teoria meio bizarra, mas cogitada por alguns críticos e que não pode ser desprezada: a de que a partir daquele fato retratado, os demais que se seguiram efetivamente não ocorrendo, tendo sido apenas um delírio provocado pelo ópio! Pessoalmente, não acho tenha sido a intenção do diretor. História maravilhosa à parte, o diretor se despediu do cinema, deixando uma obra limitada no tamanho (7 filmes relevantes), mas de grande e permanente inspiração, para estudiosos, colegas e fãs, qualificada tanto pelo seu aspecto humano, como técnico: elenco (de várias idades), fotografia, figurino, direção de arte, reconstituição de épocas, direção de arte, edição e a trilha sonora, em cada filme com inesquecíveis acordes e harmonias. Uma obra que permanece, a despeito da passagem do tempo (já são 36 anos de sua produção!), tendo sido efetivamente o épico pretendido pelo diretor, que ainda não se considerava preparado 12 anos antes, quando recusara o convite para dirigir O poderoso chefão.  9,2