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THE TIME ELEMENT

A TV já produziu várias séries que com mistério e suspense (e à vezes horror) tratam do “desconhecido”, de questões de ficção científica, envolvendo tempo e espaço e outras que despertam o interesse e instigam o espectador: Quinta Dimensão, Alfred Hitchcock apresenta, mais recentemente Black Mirror…porém a mais famosa delas foi a que durou de 1959 até 1964, com 5 temporadas e 156 episódios: “The twilight zone” ou “Além da imaginação”. Este filme, que precedeu a série, teve o roteiro escrito pelo mesmo Rod Serling (responsável pela série), porém foi comprado e inicialmente rejeitado pela CBS, que o guardou por um ano até que acabou sendo aproveitado por uma exibição de 1958 do seriado Desilu Playhouse (após o final, vemos a longa propaganda exibida pelos patrocinadores, anunciando o moderno refrigerador com freezer). Foi um grande sucesso e a partir daí Serling foi autorizado a produzir a série com episódios semanais. Portanto, embora “The time element” não seja um “piloto” da série, pode até ser considerado como seu “episódio zero”. Uma história que tem a participação do conhecido Martin Balsam, a direção de Allen Reisner e que aborda aqueles temas maravilhosos e atraentes, envolvendo os paradoxos temporais (viagem no tempo etc). Para os fãs do gênero, visão obrigatória.  8,7

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A CORTE

Um filme francês de grande qualidade (2015), a começar pela duplo sentido do título (excelente e que assistir a ele vai entender). Depois, tem um roteiro simples mas premiado porque muito bem construído e interessante, não apenas por dar suporte a um filme “de tribunal” (que em  geral é um gênero bastante atraente), mas por apresentar os bastidores de um julgamento, os fatos que ocorrem longe dos olhos do público, envolvendo o juiz, os funcionários, os jurados, a hierarquia, a linguagem, o protocolo… Por fim e com vital importância, esse elegante filme conta com uma marcante atuação de Fabrice Luchini, que com esse papel ganhou o prêmio de Melhor ator no Festival de Veneza: de um magistrado rígido, sério, compenetrado nas funções, mas que de repente reencontra alguém do seu passado e passa a ficar tocado/sensibilizado por essa presença (a ótima atriz dinamarquesa Sidse Babett Knudsen, inclusive agraciada com o Cesar, oscar do cinema francês), que causa mudanças em sua rotina e se mistura com diversos elementos em um contexto pessoal complexo (gripe, separação recente, dever, moral). O fato é que o fim das coisas parece menos fundamental que o meio, em que os detalhes e as reticências são inteligentemente colocados em situação de extrema importância no enredo e que, como observou brilhantemente um crítico, faz com que “mesmo a rápida presença de um vestido branco, na conclusão, se transforme numa pérola de significados latentes”.  9,0

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LUGAR NENHUM NA ÁFRICA

Este filme alemão, com aroma de épico, ganhou o Oscar de Melhor filme estrangeiro no ano de 2003. E merecidamente. É uma história maravilhosamente bem contada, baseada na autobiografia da jornalista Stefanie Zweig (que passou a morar na África quando criança) e que mistura com inteligência, delicadeza e emoção diversos ingredientes abordando a natureza humana e sua capacidade de refletir, de adaptação, de superação, de imaginação e sua bravura e tenacidade. Na iminência da Segunda Guerra Mundial e já com a ameaça pungente do nazismo (1938), uma família alemã se muda para o Quênia, região onde todo o filme acontece. E ali, pessoas acostumadas a uma vida aristocrática e sem carências, são obrigadas a se integrar e a se adaptar aos costumes, à natureza, enfim a todos os elementos de transição e aos conflitos que o novo mundo vai trazer. Alguns terão maior dificuldade. Outros, como a menina Regina (a atriz Lea Kurka), vão se integrar de forma fácil e feliz e nesse ponto aparece um dos principais e mais interessantes personagens do filme, que é o cozinheiro Owuor. As paisagens fascinantes da África (emolduradas na bela fotografia), o clima, as imagens, cores, diferenças de hábitos, a viagem interior dos personagens, tudo é muito bem cuidado e conduzido pela diretora Caroline Link e pela atuação do elenco, sendo belíssima e comovente também a trilha sonora. Um filme praticamente perfeito, que não cai em clichês e que, sem maiores pretensões mas com muita competência, traz paz, beleza e profunda emoção. 9,5

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YELLA

Um filme alemão de 2007 e que pode ser enquadrado como “filme de arte”, porque é lento, diferente, imprevisível, com muito suspense e sobretudo estranho…Esses dois últimos fatores são bastante valorizados pela direção de Christian Petzold, pela trilha sonora e pela atuação perfeita da bela atriz Nina Hoss (Wolfsburg, Partículas elementares, Anônima –uma mulher em Berlim, Bárbara…). O diretor Christian Petzold é bastante premiado, inclusive tendo ganho o Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 2012 com o filme Bárbara (também com a mesma atriz, com quem já realizou inclusive várias parcerias). Este filme gira em torno de uma fuga em busca de uma vida melhor e sem problemas, mas que não mostra precisamente os caminhos que vão sendo seguidos, ficando sempre algo a desvendar. O diretor é muito hábil em manter o mistério, inclusive ao não mostrar os fatos ao mesmo tempo em que são captados pelos personagens…sempre vamos percebendo com algum atraso o foco principal de algumas cenas mais tensas, o que intensifica o suspense e deixa o nos deixa inquietos, sentindo que existe em torno dos negócios que dominam a história (em hotéis, em viagens, orbitando o universo corporativo…) algo muito estranho pairando no ar. Só no final descobrimos a chave do enredo e que se vincula a uma informação que nos foi omitida em parte do filme e que acaba precipitando um desenlace inesperado. Mas que além de ser interessante e atraente, não causa tanto desconforto quanto poderia, justamente pela competente construção de todo o roteiro e pela marcante performance de Nina.  8,7

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EL REINO (THE REALM)

Mais um filmaço do cinema espanhol, que hoje é um dos melhores do mundo. Aqui novamente juntos –antes em Dios nos perdone–  o diretor Rodrigo Sorogoyen e o excelente ator Antonio de La Torre, que nos brinda com uma atuação espetacular, em papel difícil. O elenco todo é excelente, trilha, fotografia etc. Um thriller que ganhou sete prêmios Goya 2019: melhor Diretor, Ator, Ator Coadjuvante (Luis Zahera), Roteiro Original, Edição, Som e Música. A história contempla e denuncia a política corrupta, os meandros do poder, das negociatas, a obsessão cega…só que, de forma muito original e intensa, o ponto de vista é o do lado do acusado, em um roteiro bem amarrado, tenso e imprevisível e que mostra todas as consequências dos atos marginais à lei, inclusive psicológicos e na vida privada, até os limites possíveis: quase que o horror. Ação e tensão mostrados com maestria, em um filme poderoso politicamente falando, que apresenta uma cena extremamente chocante antes do final e termina de forma absolutamente inesperada e com extraordinárias reticências. Impactante, assim como a chamada do filme: os reis se vão, mas os reinos permanecem9,3

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TEEN SPIRIT

Eu vi este filme motivado principalmente pela atriz Elle Fanning (Galveston, O estranho que nós amamos, Mary Shelley…), de quem sou fã. Ela é excelente em todos os papéis que desempenha –apesar de só ter 21 anos!- e aqui o fato se confirma, inclusive com a tarefa nem sempre fácil de se interpretar o papel de uma cantora. O filme não tem lá quaisquer novidades no roteiro, repisando uma história já conhecida e exaustivamente contada. Entretanto, acima da superfície dos fatos corriqueiros (e com a boa história paralela da amizade), a interpretação dela (e com a ótima parceria com o ator croata-dinamarquês Zlatko Buric) valoriza em muito o filme em suas nuances e o tornam intenso e emocionante, principalmente na parte final. Agnieszka Grochowska, atriz polonesa, também faz um papel interessante, embora pequeno. O título diz respeito a uma competição de jovens talentos e que é a meta a ser atingida: em razão disso, somos brindados com diversas belas músicas e vários números bem coreografados, embora sempre com o ritmo vertiginoso da modernidade, que atenua um pouco a emoção, embora tenha sempre o mérito de ocultar eventuais defeitos cênicos (a famosa estética “vídeo-clip”). A fotografia é ótima, misturando diversos enfoques/temas com habilidade. Em suma, algo que poderia ser apenas um passatempo, mas que acaba sendo mais do que isso pela emoção dos momentos emoldurados pelo talento da jovem e já exponencial atriz. 8,4

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O PROJETO HUMMINGBIRD

Este é um filme que segue inicialmente um ritmo e lento e um tanto desanimador, embora seja bem produzido em sua totalidade. Só que a partir de certo ponto ocorre uma grande “guinada” e o filme se transforma de algo morno em bom suspense, com ação e emoção. Os temas e conflitos apresentados e as variantes fazem o interesse retornar e até convincente o ator Jesse Eisemberg, pelo natureza do papel que interpreta (embora eu sempre o veja como ator limitado e que parece sempre interpretar ele mesmo em todos os papéis). Estão também no elenco Alexandre Scarsgard e Salma Hayek (em papel clichê). O roteiro envolve sujeitos espertos, rivalidades, a bolsa de valores e ambições, principalmente a de se levar vantagem no acesso a informações e com isso naturalmente atrair muito dinheiro, no caso envolvendo  a instalação de um cabo de fibra ótica por uma grande extensão geográfica -bem como as dificuldades de um projeto desse quilate- e a busca pela  velocidade de comunicação cada vez maior. 8,4

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DEADWOOD (DEADWOOD O FILME)

Este excelente western tem tudo a ver com a premiada série de 2004 a 2006 da HBO, que ganhou 8 Emmy e 1 Globo de Ouro, embora possa ser apreciado sem que se faça a vinculação. Mas o título em português (“O filme”) já faz a referência, porque o roteiro apresenta uma continuação dos fatos, vários anos depois, inclusive com os mesmos personagens principais. Lá, os acontecimentos contemplavam o ano de 1876 na Dakota do Sul antes de ser anexada ao Território de Dakota e aqui o filme (da mesma HBO) aborda o ano de 1889,  época da fundação do Estado. O filme começa com a chegada de Calamity Jane à cidade e além dessa referência histórica há outras, sendo, por exemplo, Wild Bill Hickok personagem muito importante na primeira temporada da série, que também menciona Wyatt Earp e Búfalo Bill entre outros. O diretor Daniel Minahan (condutor de vários episódios de Six feet under, Game of thrones, True Blood, além da própria série Deadwood) faz um trabalho excepcional, inclusive quanto às tomadas e ângulos de câmera, fotografia, direção de arte, reconstituição de época etc…aliás, todos os elementos do filme são perfeitos, inclusive os personagens que se repetem já mais maduros, como os interpretados por Paula Malcomson (a prostituta), Timothy Olyphant (o delegado), Brad Dourif (o médico) e Molly Parker (a das posses): por esse motivo são aprofundados e criam vida palpável. Porém, o grande destaque do filme, assim como foi da série, é o ator Ian McShane, que ganhou anteriormente vários prêmios por sua marcante performance. O filme foi escrito por  David Milch, o mesmo que criou e dirigiu a série e também muito premiado na época. O roteiro dispensa maiores comentários porque realmente de excelência (inclusive nas questões políticas e éticas tratadas, abordagem do racismo, homossexualismo…). Como disse um amigo, “diálogos inteligentes num mundo cão”.  Um painel fascinante da época em que a barbárie do Oeste pouco a pouco ia cedendo vez à modernidade (telefonia incipiente, povoação mais intensa das cidades, fiscalização mais ativa e organizada da lei…), mas em que a violência e os instintos primitivos ainda tinham forte presença, fato que o filme também explora -e opõe-  ao demonstrar que determinadas condutas inerentes ao ser humano não desaparecem apesar da passagem do tempo e da aparente evolução da humanidade.  9,2

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ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

Este é um drama forte e envolvente e que desenvolve profundamente os personagens, que se defrontam com fatos imprevisíveis, muitos deles causadores de muita dor e desespero. Nem sempre os planos acontecem de acordo com as expectativas e desde o início do filme entendemos isso – por um fato específico e dá origem a tudo – e vamos então acompanhar as consequências na vida dos diversos personagens. Qual a razão de o ser humano optar por determinados caminhos? Quais os limites da crueldade ? E da consciência? Sidney Lumet é um renomado diretor americano e que tem no seu currículo “12 homens e uma sentença”, “Rede de intrigas”, “Sérpico” e “O veredito”, entre outros, dirigindo aqui mais uma obra com notável maestria.  Philip Seymour Hoffman é um ator de primeira grandeza, precocemente falecido, mas que deixou inesquecíveis trabalhos cinematográficos, como em “O mestre” e em “Capote”. E que neste filme se entrega totalmente ao papel, em uma interpretação inesquecível. O filme também tem Marisa Tomei e Albert Finney (e o caricato Ethan Hawke…mas há muitos que gostam dele!), mas principalmente um roteiro muitíssimo bem construído, consistente e verossímil e que mergulha nas profundezas do ser humano de uma forma avassaladora de causas e efeitos. Sem nenhuma concessão ou pudor. Não é filme para todos os gostos pela densidade e talvez pelo tema, mas para quem aprecia o gênero, cinema de primeira grandeza.  9,0

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O MISTÉRIO DE HENRI PICK

Este filme pode ser tido como uma síntese do ótimo cinema francês e talvez seja mais bem aproveitado se o espectador conhecer um pouco de literatura, embora não seja um ingrediente estritamente necessário: direção e elenco impecáveis, um roteiro perfeito e delicioso, com suspense, humor, ironia, algum drama…e grande vitalidade/vivacidade, nas ações e no ritmo dos diálogos, tudo compondo uma história de mistério e que é contada de uma forma absolutamente irresistível, emoldurada por cativantes personagens. Algo que aparenta ser uma fraude acaba desencadeando pistas inteligentes e uma investigação começa, com características policiais e que vai também provocar a reflexão sobre a arte, sobre a literatura especificamente, a mídia, bem como sobre a própria estrutura/instituição literária…O filme é dirigido por Rémi Bezançon e tem muitas frases e “tiradas” interessantes (e rápidas), como “tem mais escritores do que leitores na França”. Embora todo o elenco seja ótimo (Camille Cottin etc), o grande condutor do enredo é o brilhante ator Fabrice Luchini, veterano, mas que parece ser como os bons vinhos.  9,2

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MINHA FAMA DE MAU

O título do filme faz referência ao cantor Erasmo Carlos, o homenageado principal com esta biografia, assim como presta tributo à Jovem Guarda, movimento musical da década de 60 e liderado por Roberto Carlos, que a partir de certo momento e após a efervescência seguiu carreira solo. O forte do filme não são seus aspectos técnicos, nem a caracterização dos personagens (quem por sinal, em nada lembram os artistas em questão), mas a nostalgia que provoca ao reviver o Teatro Record, o movimento e a loucura que se propagou em torno dele, com as fãs incontroláveis (como ocorria com The Beatles), auditórios cheios e barulhentos e os novos ídolos cantando belas e inocentes músicas de iê-iê-iê (saídas do rock in roll, paixão comum dos artistas da época), com trajes e adereços coloridos e às vezes bizarros, acompanhados de conjuntos-base. O jeito de vestir e de se comportar e principalmente as belas e empolgantes (e eternas algumas) músicas acabam sendo a razão principal do filme, vale dizer, a emoção! Há algumas cenas ruins, falta de unidade, mas o filme mostra com ótimo ritmo a fase áurea do programa de TV comandado por Roberto e dos sucessos todos, bem como também aborda a época difícil por que passou Erasmo, a chegada concorrente e esvaziadora da Bossa Nova (até se menciona uma crítica de Elis à Jovem Guarda) e, depois de tudo, encerra com uma cena memorável entre os dois que viriam a ser uma dupla inseparável de amigos: Roberto e Erasmo Carlos (muito bom o ator Chay Suede), sintetizando o que o filme tenta mostrar, embora se saiba que os fatos podem não ter ocorrido bem dessa maneira…Mas, como dito, o que manda aqui (e na nota do filme) é só a emoção de reviver esse movimento, suas cores e sua música! Quem se deixar levar apenas pelo coração (e talvez tiver a idade certa…) vai apreciar!  8,9

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O PROFESSOR (RICHARD SAYS GOODBYE)

Uma “comédia séria”, reflexiva, filosófica, triste, melancólica, positiva, tudo misturado e em doses bem colocadas, emoldurada por uma bela direção, trilha, edição, mas principalmente por Johnny Depp protagonizando (ele é ótimo em tudo o que faz!). E coadjuvado por Danny Huston e com a performance sempre ótima de Rosemarie DeWitt (adoro essa atriz). Um filme que faz a gente pensar na vida e tentar colocar o foco no que realmente importa, ou seja, na mortalidade e na necessidade de extrairmos de nosso curto espaço no mundo as experiências mais enriquecedoras que pudermos. Um filme muito bonito na sua essência, comovente, envolvente e que é bem cuidado em todos os seus detalhes. Entretanto, pelo conteúdo, existe grande probabilidade de que gostar dele dependa da idade ou da experiência/maturidade do espectador, como também de seu modo de encarar a morte. Porque se pode observar a existência de muitas polêmicas em torno do filme e os conceitos variam, de uma até quatro estrelas, o que não é muito comum. De minha parte, gostei bastante e nem me fixei ou me aborreci com eventuais imperfeições do contexto. Comédia é comédia, embora a temática séria, e reconheço total liberdade para variados voos, os quais também aprecio. E achei tudo plausível, como cada um reage diante do inesperado. Além do quê, a última cena é realmente inesquecível, na sua aparente simplicidade.  8,8

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STOCKHOLM (ESTOCOLMO)

O filme reconstitui tão bem a época (1973), que se pensa ser uma obra antiga, da própria década, quando na verdade é produção recente. Com Ethan Hawke, Noomi Rapace e Mark Strong, entre outros, mostra um acontecimento entre vários do mesmo tipo que ocorreram na cidade de Estocolmo (Suécia) na mesma época, sendo que este mostrado aqui teria dado origem ao termo “Síndrome de Estocolmo” – expressão que acabou ficando mundialmente conhecida dois anos depois, quando ocorreu o sequestro de Patty Hearst. O enfoque aqui é de comédia, mas daquelas que envolvem temas sérios, ou seja, um drama com reltiva leveza de abordagem. O filme não tem muitas variantes e os próprios personagens não possuem muitas alternativas, mas se torna interessante por algumas situações específicas (notadamente as relativas à síndrome) e por trazer o fato que deu origem ao termo, que segundo a Enciclopédia Britânica “…tem o instinto de sobrevivência em seu coração…as vítimas vivem em dependência forçada e interpretam atos raros ou pequenos, de gentileza, no meio de condições horríveis, como um bom tratamento”.  7,7

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THE PROFESSOR AND THE MADMAN (O GÊNIO E O LOUCO)

Este é um filme de muitas virtudes, incluindo sua qualidade e equilíbrio: produção, direção, edição, trilha, arte, elenco e também a história, muitíssimo interessante e que tem uma temática central, mas em torno dela fatos que se transformam no fio condutor dramático e permitem inclusive ao ator Sean Penn apresentar talvez o maior desempenho de sua carreira. Ele está brilhante. O tema original diz respeito à realização de um ousado projeto na Londres do século 19, que foi o da elaboração do dicionário Oxford da língua inglesa (fatos reais, confirmados nos créditos finais). Talvez antes de ver o filme não tenhamos pensado em tudo aquilo que é necessário para se fazer um dicionário: simplesmente reunir em uma só coleção de livros todas as palavras possíveis de um idioma, com todos os contextos de sua existência, ramificações, origem, significados etc, com ilustrações e tudo o mais. Um universo de fatos a serem coletados e que a equipe encarregada –  da qual participou o professor James Murray, personagem de Mel Gisbon, também com ótimo desempenho – se propôs a coletar, usando como artifício de pesquisa a próprio população, que acabou colaborando para a compilação e organização do trabalho. De todo modo, são fatos muito interessantes de serem conhecidos e acompanhados e que faz com que todos nós certamente passemos a valorizar mais ainda o trabalho daqueles que constroem um dicionário de línguas. Entretanto, o lado mais obscuro e forte do filme envolve o personagem de Sean, o qual que acaba tendo uma conexão com os fatos acima. Em função dele, a história nos revela, então, cores intensas, sombrias, doentias, corajosas, idealistas/obsessivas, surpreendentes (a culpa, a redenção e impotência)…sentimos ao longo do filme uma mescla muito grande e diferenciada de emoções, viajando por caminhos inesperados e sendo brindados por personagens absolutamente humanos e reais, interpretados por um elenco muito competente, onde também brilham Natalie Dormer (Margaery Tyrell de Game of thrones), Jennifer Ehle e Eddie Marsan e por um texto também muito rico, que valoriza e dá acabamento à obra. O diretor é o iraniano Farhad Safinia (Apocalipto). Emocionante, original, denso, superlativo.  9,5

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EXTREMELY WICKED, SHOCKINGLY EVIL AND VILE

Ted Bundy foi um dos mais famosos serial killer dos EUA, acusado de diversos atos violentos e assassinatos em vários estados americanos. A diferença deste filme em relação aos demais é que aqui a história é narrada a partir do ponto de vista da namorada, interpretada pela atriz Lily Collins, de modo que além de não presenciarmos as cenas de violência, igualmente ficamos sem ter certeza da culpa, uma vez que o acusado negou ter sido o autor dos crimes até o final de seus dias. E tomamos contato com um lado aparentemente inofensivo, doméstico, até supostamente apaixonado do personagem. Esse é um mérito da obra, sem dúvidas, porque se trata de um ângulo novo sobre fatos já vistos em diversos outros filmes. O ator Zac Efron está ótimo no papel e no final do filme, quando exibidas cenas reais, esse fato se confirma com louvor. Também atuam no filme Jim Parsons, Dylan Baker e John Malkovich, além de Haley Joel Osment, que é o ator que quando menino fez o famoso papel no filme O sexto sentido (…vejo pessoas mortas…).  8,0

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O ÓDIO QUE VOCÊ SEMEIA (THE HATE U GIVE)

Um tema já explorado, mas que aqui é apresentado de forma extremamente cuidadosa e com muita força interpretativa, o que compensa plenamente aquele fato. Impecável direção e coeso elenco, roteiro bem construído com muito realismo – escancarando o racismo, a a realidade dos negros, traz inclusive uma explicação bem verossímil sobre a causa e origem do  tráfico de drogas – além de cenas bastante densas. Um filme para sentir alguns apertos no coração e refletir sobre a vida e a humanidade em si. Adaptação para o cinema do famoso livro de Angie Thomas, a história apresenta a personagem central – muitíssimo bem interpretada por Amandla Stenberg – morando na periferia mas estuda em um colégio rico, por esse motivo adotando comportamentos diferentes em cada meio. Esse fato e os contrastes de ambientes ajudam a acentuar as diferenças e os conflitos sociais, provocando importantes reflexões e conduzindo o filme ao amadurecimento súbito e provocado da personagem a partir de um fato específico e que vai exigir uma tomada de posição, com absoluto envolvimento e coragem. Em uma cena se sugere que o sistema é invencível, na medida em que o racismo é praticado por um negro contra outro negro. A trilha sonora é mais um destaque, sendo contundente e bastante a frase citada no filme e atribuída a Nélson Mandela: “ninguém nasce odiando alguém pela cor de sua pele. Para odiar, a pessoa tem que aprender. E se ela pode aprender a odiar, também pode aprender a amar.”  8,8

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BEM-VINDO A MARWEN

Este é um filme que surpreende, pois é bastante original e vamos aos poucos compreendendo a sua essência. E no final, após sermos relembrados de que tudo foi baseado em fatos reais (antes dos créditos finais), é que acabamos entendendo por que o filme lembra tanto os da Disney como os de Steven Spielberg: foi dirigido por Robert Zemeckis, especialista em efeitos especiais, diretor de obras como Tudo por uma esmeralda, O expresso Polar, De volta para o futuro, A morte lhe cai bem, Náufrago, Forrest Gump, e parceiro habitual de Spielberb, que inclusive foi o produtor de muitos de seus filmes. Desse modo, obviamente não ficamos sem técnica e sem emoção ao longo da história, que também evidentemente inclui uma bela e adequada trilha sonora, além de caprichada animação de alta qualidade para dar vida à fantasia do personagem, muita sensibilidade e poesia, instantes dramáticos e divertidos, um filme que também faz pensar sobre as várias facetas do ser humano, em uma interpretação extraordinária do ator Steve Carell, que cada vez mais abandona as comédias, para mostrar sua competência como ator dramático.  8,8

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CLARA

Que história diferente, maravilhosa e fascinante ao mesmo tempo. Algo totalmente não convencional, invadindo o mundo da ficção científica, mas que em um instante toca Bob Dylan e no outro Beethoven (adoro e sempre me emociono com Moonlight Sonata), deixando as emoções à flor da pele. Porque a busca dos personagens é fascinante. Um filme meio mágico, meio exótico, com mistério, dramas, que nos deixa sempre na expectativa de algo -, pois navega na busca do desconhecido, mas sem escapar das amarras dos amores e das dores da vida terrena. Um filme original, atraente, que desperta a sensibilidade e causa diversas emoções no espectador. E que mesmo após o seu final deixa rastros de muitas coisas indefiníveis e que perduram por muitas horas, o que é sinal de algo especial e que sai do lugar comum. Um filme canadense com diretor desconhecido e que deixa pairando no ar, como as estrelas, as inquietações que provoca: se somos pó, se somos únicos…se há algo maior, que dê razão ao existir, à dor, à felicidade, a tudo (assim me disse um amigo após assistir a ele).  9,0

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DRAGGED ACROSS CONCRETE

Geralmente olhamos o cartaz de um filme ou inadvertidamente lemos a sinopse e já temos mais ou menos uma ideia de como será. Neste caso, cabe esquecer de tudo isso! O filme não é nada daquilo que superficialmente aparenta ser. A aparência é de uma coleção de clichês, com criminosos e policiais se digladiando no submundo do crime, diálogos superficiais, situações banais e conhecidas, tudo já massificado e adequado para uma sessão da tarde, talvez sessão da noite pela violência. Puro engano. O curso do filme vai mostrar que nada disso se confirma, que aqui existe um roteiro forte e consistente, que a história é contada com mãos firmes do diretor  – o americano S. Craig Zahler tem ótima bagagem cinematográfica, sendo também roteirista e músico -, explorando cada nuance do texto e a experiência e o carisma de Mel Gibson (excelente) para desenvolver algo de densidade inesperada. E com as ótimas atuações de Vince Vaughn, Tory Kittles e ainda a presença de Jennifer Carpenter. Um drama policial muito acima da média, violento, desenvolvido lenta, mas profundamente e carregado de realidade (atenção: é longa metragem, com pouco mais de 2h 30min). Exceto na sua parte final, pois, na minha opinião (pode ser que não seja a da maioria) o roteiro enfraquece nos momentos decisivos, apresentando inconsistências e concessões no comportamento de alguns personagens. Não é verossímil o que ocorre, tendo em vista o que houve até ali. É pelo menos o meu ponto de vista, mas esse fato não retira o grande mérito e a qualidade do filme no seu todo, que apresenta inúmeros momentos marcantes: como o discurso do personagem de Mel Gibson aos 50 minutos de filme, pungente e verdadeiro. Muito drama, suspense, ação mais na parte final e vários personagens, com diversos enfoques interessantes, algo imprescindível para os fãs do gênero.  8,8

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NUNCA DEIXE DE LEMBRAR (NEVER LOOK AWAY)

Este é um daqueles filmes que trazem variadas emoções e que nos dão a sensação de minissérie (até poderia ser uma, por exemplo, com 9 episódios de 20min cada), pois abordam fatos dramáticos através da história (a Segunda Guerra, as duas Alemanhas…), e vamos acompanhando o destino das pessoas ao longo de vários anos, como uma verdadeira saga. E no seu final sentimos uma intensa emoção e que perdura por um bom tempo ainda, como se vivenciássemos nossa própria história, sendo essa uma característica típica das minisséries. E esse, por paradoxal, é justamente um de seus poucos defeitos, porque há alguns fatos que mereceriam um maior aprofundamento, o que nas minisséries não ocorre. E além disso há um outro problema, a meu ver, que é o desempenho apenas regular do ator Tom Shilling em um papel que se interpretado por um ótimo ator certamente faria o filme crescer bastante em intensidade dramática. Inclusive também não é ideal a química entre o personagem dele e o da parceira. Mas o restante do elenco é ótimo, a começar pela bela Saskia Rosendahl, que a partir do início do filme e de cenas memoráveis (a primeira, já no museu, com o guia discursando sobre a inutilidade da arte moderna – depois a da buzina dos ônibus e a da nudez e da nota Lá no piano) já prenuncia sua importância para toda a história, projetando sua presença com profundo significado em diversos momentos até o emocionante final. Muito boa atriz também a igualmente bonita Paula Beer (que fez Franz), mas o destaque maior fica por conta do ator Sebastian Koch, que faz com maestria o implacável e gélido médico da SS, cuja caneta tem o poder de determinar o extermínio de pacientes. Aliás, a cena da escrita em vermelho é uma das várias impactantes do filme, belo também na fotografia e na trilha sonora. São vários momentos ao longo da história que afetam o espectador, mostrando a destruição das pessoas, das cidades, das famílias, das esperanças, ao longo dos horrores da guerra e do domínio nazista, bem como de cenas importantes também sob outros aspectos, no caso vinculados à arte: a invasão aérea de Dresden, a paciente sendo levada à força para ser esterilizada, o aborto, o parto, o discurso do professor no ateliê do aluno em busca do caminho artístico, os discursos sobre a arte, a criação do estilo, afinal, pelo jovem pintor, a do médico enfrentando as pinturas e seu significado, a entrevista ao final, na qual o criador nega qualquer vínculo com a criatura, embora o espectador se emocione por saber da verdade. Pelos defeitos já citados, não é um filme totalmente arrebatador; mas pelas qualidades, igualmente descritas, é uma bela “viagem” pelos dramas humanos e de guerra. Dirigido pelo grande Florian Henckel von Donnersmarck (que dirigiu o magnífico A vida dos outros e é grande também na altura, com 2,05m), o filme concorreu no Festival de Veneza e foi escolhido para representar a Alemanha no Oscar 2019.  8,9