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NO PORTAL DA ETERNIDADE (AT ETERNITY´S GATES)

Goste-se ou não de Willem Dafoe, o sujeito é um grande ator e faz grandes imersões nos papéis que representa. Esta composição de Van Gogh, quase no final do século 19, é dedicada e inspirada e valeu a ele uma indicação para o Oscar, o que não é pouco, principalmente considerando as inúmeras versões que são feitas contando a história do famoso pintor impressionista e que acabou insano, inclusive cortando uma das orelhas. A ótima direção de Julian Schnabel (O escafandro e a borboleta, Basquiat, Antes do anoitecer) aproxima o personagem de nós, bem como a época em que viveu, sendo difícil acreditar que esse gênio não só não era reconhecido, como desprezado pelos seus pares, tendo de mendigar para sobreviver. Mas, afinal, esse fato não foi tão incomum assim com relação a muitos artistas que somente foram valorizados na velhice ou após morrerem. O filme privilegia imagens campestres, com as cores de predileção de Van Gogh, mas como se trata de um personagem introspectivo e com vários sintomas de loucura (que avança, paralelamente às demais pressões), embora em sua arte dono de uma lucidez e originalidade inegáveis, é um filme meio deprimente e que não traz grandes novidades, afinal Dafoe é o filme e nele tudo se concentra. Mas é interessante acompanhar o pouco espaço de tempo em que ele teve uma produção absolutamente admirável, que foi a época em que mudou para o sul da França, a conselho de seu amigo e protetor – e também famoso pintor – Paul Gauguin.  7,8

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A.I. RISING

Este é um filme de ficção científica para adultos.  E surpresa: é sérvio! Um cinema que às vezes causa alvoroço. Acho que quem tiver paciência para saborear o filme até o fim, será devidamente recompensado. Mas cabe a advertência: é um filme de orçamento de 1 milhão de dólares, com dois personagens, cenário restrito à nave espacial, lento, repleto de sombras e efeitos coloridos…em suma, vai gostar quem com ele se identificar, os demais correndo o risco de achar tudo um tédio. Mas eu gostei demais! Fiquei emocionado, tenso, encantado com o roteiro e na derradeira cena, quando a câmera vai mudando o ângulo da visão da nave, minha vontade foi de aplaudir. E a trilha sonora achei espetacular, fora a história, que realmente testa os limites da natureza humana, conforme anuncia o cartaz. O tema, aliás, até lembra duas produções mais ou menos recentes: Ela e Ex machina, mas aqui são outros quinhentos e o roteiro é baseado em obra literária. Mas pela qualidade e temática, até se poderia imaginar tratar-se de um episódio da série Black Mirror. A viagem no caso é para Alfa Centauro, com apenas dois tripulantes: um macho humano (Sebastian Cavazza, ator esloveno) e uma fêmea androide (Stoya, atriz americana de filmes pornôs). E os desafios e limites que vão aparecendo nessa estranha relação desafiam a natureza do homem, fazendo emergir de forma inesperada desejos e anseios imprevisíveis. Como inesgotáveis parecem também os conceitos cibernéticos. O filme explora com grande sensualidade, sensibilidade e talento as possibilidades e expectativas da interação homem-máquina, inclusive sob a perspectiva da solidão, dos sentimentos humanos e dos instintos puros e selvagens da paixão. Do amor, por que não? Uma experiência rica, inclusive pela capacidade do diretor sérvio Lazar Bodroza (estreando) de jamais cair na vulgaridade. Vivenciamos o desespero para humanizar o que não é humano – para o homem é insuportável a falta de humanidade no androide – e a escravidão que a paixão e o amor podem proporcionar, trazendo o desenrolar do filme vários questionamentos interessantes e a partir de certa parte os fatos ficam bastante difíceis de prever. O final poderá lembrar obras imortais do cinema e da literatura, mas antes o espectador poderá perguntar até onde tudo será suportável? De quanta humanidade, afinal, o amor necessita para ser amor?  9,0

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A HISTÓRIA DE HEDY LAMMAR (BOMBSHELL – THE HEDY LAMMAR STORY)

Este é um documentário muito bem feito por Alexandra Dean, contando sobre a vida de uma atriz que se destacou por fatos muito mais importantes do que sua beleza, mas que foram reconhecidos apenas depois da carreira que teve no cinema. A bela atriz austríaca de origem judia e que interpretou Dalila no famoso filme Sansão e Dalila – que na época só perdeu em bilheteria para E o vento levou – começou a carreira gerando uma polêmica que depois tentou de todos os modos apagar: chocou o mundo do cinema ao aparecer nua em um filme de 1933 chamado Êxtase. Esse fato e muitos outros são contados, mostrando diversas facetas da vida da atriz, inclusive todas as dificuldades que teve, os vários casamentos, os sucessos e os fracassos, até o final melancólico (sempre) em que se tornou reclusa e quase uma caricatura após inúmeras plásticas, algumas mal sucedidas. Mas o filme mostra fatos interessantíssimos dessa mulher que foi mais de uma vez “esposa-troféu”, mas que sempre desejou ser valorizada por outros atributos que não a beleza, como sua integridade, inteligência e criatividade, pois era uma mãe carinhosa, feminista corajosa (na época não havia tal denominação, claro) – tendo até co-produzido filme, o que era impensável para uma mulher – mas incrivelmente uma inventora (chegando a ter cientistas pagos por Howard Hughues para ajudá-la em alguns inventos) e aqui reside um dos pontos principais do filme. Porque ela “projetou” um dispositivo baseado na teoria do “salto de frequência”, imaginando sua utilidade nos torpedos durante a segunda guerra, e que acabou sendo utilizado pela marinha americana e servindo de suporte para importantes inovações tecnológicas da atualidade. Mas ela desconhecia na época que havia um prazo para reclamar os direitos de patente e, como sempre, as homenagens e o real tributo à sua criação foram quase póstumas… 8,0

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O RETORNO DE BEN (BEN IS BACK)

Um drama doloroso de ver, porque aborda fatos que acontecem em nossa realidade, que são difíceis de resolver socialmente e aqui mostrados de uma maneira bastante realista pelos efeitos que provocam nas famílias. Um ótimo filme graças à competente direção de Peter Hedges e também à interpretação de Lucas Hedges (filho do diretor) e principalmente de Julia Roberts, que dá um show de talento como atriz, porque bastante difícil o seu papel neste filme (efetivamente uma atriz madura e que aceita grandes desafios). O amor incondicional da mãe, os problemas do filho para ficar livre das drogas, fatos que ocorrem à nossa volta e que vemos retratados todos os dias nos jornais. Só que a dose de realismo aqui é muito bem colocada e o filme tem o mérito de não tomar partido, apenas mostrando as dificuldades e o contexto do submundo dos drogados e do comércio. Mostra também – e bastante – os efeitos nas relações familiares do doente que tenta se recuperar, mas que encontra as dificuldades naturais, não só da própria droga, mas do meio em que vive. Mérito do filme, as informações a respeito do passado do personagem vão sendo construídas aos poucos, pelas ligações que teve (e que vamos acompanhando) e pelas consequências que seus atos provocaram. Um filme difícil de assistir justamente pelo mérito que tem, que é o de trazer um tema complexo, assim como nada simples é a sua solução, o que justifica plenamente o conteúdo da última e adequada cena.  8,0

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FREE SOLO

O desafio se chama El Capitan (El Cap), um rochedo localizado no Parque Nacional de Yosemite (Califórnia) e o desafiante é o americano Alex Honnold, que é o protagonista deste documentário vencedor do último Oscar (Melhor Documentário de Longa Metragem). Se alpinismo é um esporte dos mais difíceis, exigindo grande força física, mental, concentração, disciplina, técnica e planejamento, imagine-se o que é escalar uma montanha, uma parede quase vertical de mais de 900 metros de altura, sem usar qualquer corda ou utensílio, ou seja, sem qualquer equipamento, apenas as mãos, o corpo e a força muscular, agilidade e destreza. É esse o esporte radical que este filme contempla.  As cenas de altura são fantásticas e provocam até vertigem no espectador. As filmagens são feitas por câmeras comuns, especiais e por drones. O filme procura relatar o lado banal do personagem, suas relações e dificuldades de relações e a origem do que o levou a escolher os caminhos pelos quais optou. E em sua parte final, o documentário é simplesmente fabuloso e de tirar o fôlego, mesmo já se sabendo do resultado. E isso é o mais notável: ser a tensão quase insuportável, na mistura de imagens, sons com a trilha sonora em um excelente trabalho de edição e direção, mesmo já sabendo do final dos fatos. Não é à toa que ganhou o recente e merecido Oscar, mas ganhou muitos outros prêmios também, mais de duas dezenas, incluindo o Oscar inglês (BAFTA de Melhor Documentário, entre outros). Merecidamente.  9,0

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JORNAL 64

Na realidade o filme tem como base acontecimentos graves passados, mas é como se fosse um mero drama policial de ficção. Mas não é comum. Primeiro, porque é dinamarquês, um cinema que tem se notabilizado através dos anos por ótimas produções, principalmente no gênero, um policial que mantém o suspense o tempo todo: um thriller, portanto, mas com um formato totalmente diferente do cinema ianque. Segundo, porque, embora a trama vista no papel seja até corriqueira, está inserida em um filme da série do Departamento Q (setor da polícia encarregado de causas tidas como perdidas ou encerradas), o que significa qualidade e densidade, tendo como fatores principais os seus personagens. A personalidade de cada um é muito bem desenvolvida e aprofundada e esse elemento é o que dá a tônica do filme e o singulariza, valorizando-o também e colocando-o bem acima da média das produções concorrentes. E terceiro, porque também foi baseado em obra literária de grande sucesso na Dinamarca, sendo o quarto filme da série. Foram filmes anteriores, retratando os dramas do mesmo setor da polícia dinamarquesa e os mesmos agentes: Departamento QO guardião das causas perdidas, O ausente e Uma conspiração de fé. Todos com o mesmo tipo de atração, inclusive pelo personagem muito bem construído do detetive Carl Mork, circunspecto, solitário, meio neurótico e de seu colega quase totalmente oposto. Fotografia, trilha e direção ótimos também compensam qualquer lugar comum.  8,0

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OSCAR 2019 – vencedores

OSCAR 2019 – vencedores

Filme

  • Green book

Ator

  • Rami Malek (“Bohemian Rhapsody”)

Atriz

  • Olivia Colman (“A Favorita”)

Diretor

  • Alfonso Cuarón (“Roma”)

Atriz coadjuvante

  • Regina King – “Se a rua Beale falasse”

Trilha sonora original

  • “Pantera Negra”

Ator coadjuvante

  • Mahershala Ali – “Green Book – O guia”

Roteiro adaptado

  • Infiltrado na Klan

Roteiro original

  • “Green Book – O guia”

 Edição

  • “Bohemian Rhapsody”

Fotografia

  • “Roma”

Filme de língua estrangeira

  • “Roma”

Melhor animação

  • “Homem aranha no aranha verso”

Figurino

  • “Pantera Negra”

Curta-metragem

  • “Skin”

Edição de som

  • “Bohemian Rhapsody”

Mixagem de som

  • “Bohemian Rhapsody”

Curta de animação

  • “Bao”

Direção de arte

  • “Pantera Negra

 Canção original

  • “Shallow”, “Nasce uma estrela”

Efeitos visuais

  • “O primeiro homem”

Maquiagem e penteado

  • “Vice”

Documentário

  • “Free Solo”

Documentário curta-metragem

  • “Period. End Of Sentence”
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SE A RUA BEALE FALASSE

Baseado em famoso romance de James Baldwin e concorrendo ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, além de Melhor Trilha Sonora (New Orleans etc., ótima) e Melhor Atriz Coadjuvante (Regina King, igualmente muito boa), o filme na minha opinião não tem nada muito diferente do que já foi visto dezenas e dezenas de vezes no cinema sobre injustiça, pobreza, superação, união etc. O filme é bem acabado, tem ótimo elenco, alfineta bastante nos temas raciais, é bem conduzido (Barry Jenkins), apresenta alguns ótimos momentos românticos – embora predomine o drama pesado -, mas não traz para o espectador grandes atrativos, sequer um suspense bem construído sobre o destino dos personagens. Achei tudo muito morno, embora seja uma obra acima da média pelas qualidades já evidenciadas. Na minha opinião, este filme está muitíssimo distante de Moonlight – sob a luz do luar, trabalho anterior do diretor.  7,5

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PODERIA ME PERDOAR? (CAN YOU EVER FORGIVE ME)

Um drama com tons de comédia em alguns momentos e um pouco menos leves em outros, baseado em fatos reais. Uma escritora que já passou de sua época, desempregada, solitária e precisando sobreviver, acaba encontrando uma solução para o seu problema, mas algo marginal e com isso desencadeia consequências inesperadas. A direção é sensível, o roteiro muito bem estruturado, mas o filme se sustenta mesmo graças à maravilhosa interpretação de Melissa Mc Carthy e Richard E. Grant, este a meu ver até injustiçado por não ter recebido nenhum prêmio de ator coadjuvante nas variadas premiações que já houve este ano. Ela está realmente sensacional (passando todas as “cores” da personagem) e a dupla foi indicada em todas as premiações deste ano, ela como atriz principal e ele como ator coadjuvante, e ambos estarão inclusive concorrendo ao Oscar no próximo dia 24 de fevereiro. Ela até poderia ganhar, mas a meu ver a concorrência de Glenn Close é muito forte. Entretanto, ele na minha opinião desempenhou um papel mais difícil do que o de seus concorrentes e mereceria ter ganho pelo menos em algum dos eventos (Globo de Ouro, SAG, Critics etc). De todo modo, é sempre prazeroso ver um filme interessante, com boas doses de realismo e tão bem interpretado.  7,8

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ÁRVORE DO SANGUE

Um filme espanhol Netflix que no início é um pouco difícil de entender, porque mistura épocas e personagens diversos, que se entrelaçam direta ou indiretamente. Trata-se de um casal que resolve escrever a história da família e com isso somos conduzidos constantemente ao passado, em meio a diversos personagens, segredos, confissões dolorosas e muitos dramas. O filme tem uma excelente direção (Júlio Medem, de Lúcia e o sexo, que também é o roteirista), fotografia, trilha sonora e interpretações, sendo estrelado por Úrsula Corberó (a Tokio, de Casa de Papel), Joaquim Alejandro Furriel e Álvaro Cervantes, entre outros e os comentários sobre ele são os mais polêmicos. Primeiro pela forma de contar a história e os vários detalhes importantes ou não, que são abordados; segundo, pela complexidade do roteiro, principalmente no início da história. Entretanto, eu faço parte dos que ficaram fascinados com o filme, mesmo parecendo fragmentado às vezes, ficando ansioso pelos desdobramentos e sentindo grandes emoções em vários trechos, principalmente na parte final da história. O filme tem de fato cenas que parecem estar meio dispersas, uma ou outra falta aparente de conexão, situações com aroma novelesco, mas o seu todo é muito mais do que meros defeitos: é uma obra forte, de fôlego, com permanente erotismo (as cenas de sexo são quentes, embora de bom gosto), interessante e para quem tiver dificuldades de compreensão, no final a paciência será recompensada, pois então os fatos vão se aclarar e precipitar momentos de intensa emoção até a cena final, embora o desenlace para alguns não seja o que moralmente seria de se esperar…ou aprovar.  8,8

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VIDA SELVAGEM (WILD LIFE)

Um grande elenco dirigido com sensibilidade, em um drama com as cores da realidade, fazem um bom filme. Jack Gyllenhaal (Velvet Buzzsaw, O abutre, O segredo de Brokeback Mountain, Príncipe de Pérsia) é um dos melhores atores das últimas gerações, um intérprete que aceita desafios e desempenha qualquer personagem. Carey Mulligan (Educação, Shame, Longe deste insensato mundo…) é uma ótima atriz e que sempre passa muita força nos papéis que representa, apresentando aqui uma de suas  melhores performances. Ed Oxenbould é um jovem e ótimo ator australiano (17 anos), que se mostra à altura do difícil personagem, a quem interpreta com muita maturidade. Paul Dano, o diretor, é também ator, produtor e músico, estreando com o pé direito neste filme como cineasta. Um filme forte, denso, que impacta, com bela fotografia e trilha e que nos envolve em uma trama que incomoda e por isso tem inegável qualidade. A história se passa em Montana, na década 60 e por isso há também uma competente reconstituição de época. Um belo trabalho, um belo filme, de melancólico final. Mas não poderia ser outro.  8,7

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TEMPESTADE DE GELO

Um filme para adultos. Mais para o estilo do cinema de arte, porque nada corriqueiro, muito menos popular. Mas uma obra densa, surpreendente e de valor. Produzida em 1997 e com um elenco espetacular: Kevin Kline, Joan Allen, Sigourney Weaver, Tobey Maguire, Christina Ricci, Elijah Wood e, entre outros Allison Janney, Henry Czemi e Katie Holmes (com 19 anos). Dizem que quando um filme incomoda é porque é bom. E esse filme deixa a gente incomodado em muitas passagens, ao mostrar o conflito de gerações, a frieza conjugal, a alienação da juventude, o gelo nas relações e há cenas até bizarras ou ridículas, como a do pai tentando ser didático com o filho com o qual não consegue manter um diálogo de nível, com dois adolescentes tentando uma intimidade estando ela com a máscara de Richard Nixon, que, aliás, faz parte do contexto, pois os fatos são da época de Watergate…o diretor Ang Lee vai mostrando a solidão, os personagens perdidos à procura de algo e o faz com a habilidade e a frieza de um cirurgião. Até chegar à constrangedora festa das chaves, com no mínimo uma cena patética e acabando por resumir tudo na frase de um personagem que diz “na minha imaginação seria tudo diferente”. Mas tem uma das cenas, da filha subindo no colo do pai, que parece mostrar como seria simples a solução de tudo… O diretor é autor de várias belas obras da sétima arte, como  O tigre e o dragão, As aventuras de Pi, Razão e sensibilidade e aqui apresenta um belo, sensível (inclusive na trilha sonora e fotografia) e visceral estudo da natureza humana e cujo título não poderia ser mais apropriado e ferino. O filme ganhou vários prêmios, entre eles de melhor filme, roteiro, atriz coadjuvante (Sigourney Weaver) e traz questões muito interessantes, como a que associa as tragédias aos pecados (pensamento mágico) e como a que envolve o fato de que depois da tempestade vem a calmaria, mas também muitas vezes a certeza de que nada voltará a ser como antes. E nessa hora, já tomados completamente pela emoção, talvez choremos junto com Ben.  9,2

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VELVET BUZZSAW

Este é um filme de terror tão inusitado, que se torna realmente divertido, inclusive pela estranheza que passa ao espectador – fato esse que, entretanto, mantém o interesse. É diferente, primeiro, porque a história se passa no mundo das artes e das galerias, com aqueles personagens típicos desse mundo (alguns afetados, alto padrão de vida, galerias suntuosas etc.); segundo, porque tudo é moderno, claro, limpo, não tem aquele clima de filmes de terror de antigamente. E terceiro, porque não parece um filme de terror: é como irmos vendo um drama, com alguns toques leves, relacionado com o selvagem universo das pinturas, galerias e exposições, as rivalidades etc. Inclusive sendo estrelado por Jack Gyllenhaal, Rene Russo e Tony Collette. Mas é, afinal e de fato, um filme de terror e que tem no fundo seu lado moral, podendo ser interpretado não como um filme de terror diferente por força dos tempos atuais, mas como um filme de terror do tipo antigo (com muitos e velhos elementos já conhecidos), apenas vestido com as roupas da modernidade. Boa diversão, embora com muitos desacertos e hesitações.   7,6

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O CAPITÃO

A história, em bela fotografia em preto e branco, retrata uma farsa (quanto pode durar uma farsa???) e que até se imagina, afinal, ser possível, diante da complexidade de uma guerra. Mas o fato é que o filme é baseado em fatos reais, ocorridos em abril de 1945, portanto poucos meses antes do final da 2ª Guerra Mundial. A primeira cena já impressiona ao mostrar uma perseguição a um soldado desertor (sabe-se depois) que corre desesperado em frente a um pequeno caminhão – o lado negativo da cena é a falta de pontaria dos soldados alemães motorizados, perseguindo um homem a pé e o fato de que este teima em correr exatamente na mesma direção que o carro ! Mas é algo isolado dentro de um filme muito bem acabado. De todo modo, tudo é verossímil porque baseado em algo que realmente aconteceu e segundo uma lógica dentro do razoável, mesmo mostrando um impressionante embuste e que cada vez mais exige destreza e atenção plena do farsante, para não ser desmascarado. E o próprio emaranhado da hierarquia acaba permitindo as engenhosas manipulações de poder, o que passa a ser um atrativo a mais no roteiro, inclusive virando em algumas cenas quase comédia (lembrando, por exemplo, Guerra sombra e água fresta). A par disso, o filme tem um tom absolutamente sério e os horrores da guerra vão sendo mostrados, como as cenas do campo de concentração e a humilhação e violência contra prisioneiros, principalmente os desertores, executados à queima-roupa. As cenas dos assassinatos são quase inacreditáveis e nesse ponto o preto e branco cria uma densidade dramática realmente apreciável.  Os ângulos de câmera, assim como os demais detalhes técnicos, são muito bem cuidados e o filme mostra também o quanto o poder vai inebriando quem nele está investido (o farsante se sente invencível), como cria uma obediência cega e totalmente absurda – é hilária e melancólica a cena do capitão de cuecas dando ordens. E continua impressionando o fato de que, mesmo em grande maioria frente aos algozes, os prisioneiros se resignam e humildemente vão se sujeitando à morte certa, sem qualquer reação, fato certamente de grande importância no estudo sócio-psicológico dos fatos da guerra. O filme tem cenas impressionantes (como a das bombas ao final) e que o destacam muito acima da média: uma delas, depois do massacre, quando alguém diz “a bebida é por minha conta!”  8,7

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VICE

Este é um filme forte (com tons de comédia, porém), com excelente roteiro, realmente muito bem feito, mas que não é para todos os gostos porque  aborda essencialmente assuntos políticos envolvendo os EUA – inclusive política de guerra, com cenas reais e de grande impacto, notadamente nas campanhas do Afeganistão e do Iraque. O tema pode ser aborrecido para alguns, mas a verdade é que o filme apresenta muitas cenas e temas interessantes, diversos fatos inéditos e traz de mais original o aspecto de que um vice presidente americano, de quem poucos ouviram falar, teve uma importância vital para o governo e para o mundo (pela consequência dos atos que autorizou pessoalmente ou se utilizando de um presidente dependente e com nenhum poder de comando – um fantoche, George W. Bush). Impressionante a figura de Dick Cheney, composta em mais um trabalho memorável do ator Christian Bale, com um igualmente marcante trabalho de maquiagem. O diretor é Adam McKay e esse drama biográfico também conta com ótimas performances, entre outros de Amy Adams (atriz realmente de destaque em cada papel que desempenha), Sam Rockwell (ótimo como George W. Bush) e Steve Carell (ator que tem enfrentado desafios em variados papéis). Há relatos no filme que são simplesmente inacreditáveis, como se fosse aberta uma caixa preta mostrando os bastidores da política americana, em que são permitidas e praticados atos muito além da ética e dos tratados. Concorre ao Oscar nas categorias Filme, Ator, Diretor, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante, Roteiro Original, Edição e Maquiagem.  8,3

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GUERRA FRIA (COLD WAR)

Um filme em belíssimo preto e branco (certamente para dar o clima) que enfoca a Polônia do pós-guerra, precisamente a partir de 1949. No começo do filme já somos envolvidos com o folclore rural, com a escola de canto e danças típicas camponesas, tudo muito interessante: a “capela” (solo vocal) emociona, a difícil peça no piano arrebata e os fatos vão acontecendo aos poucos e confirmando a beleza da fotografia, o excelente figurino e a perfeita reconstituição de época, além do ótimo roteiro, que vai devagar acentuando o mérito do excelente diretor Pawel Pawlikowski (Ida) e da maravilhosa atriz Joana Kulig. As músicas em vocal são belas e chama a atenção a inocência das letras, que falam de um amor puro. Entretanto esse painel vai mudar com a introdução de temas políticos às canções, a partir do momento em que a escola vai também “servir” ao regime: nesse aspecto, em uma das cenas é visível o constrangimento dos diretores da escola Mazurka, enquanto o coral se apresenta para um público externo e na parte de trás do palco sobe um painel com a foto de Stalin: a Polônia, cujas baixas na segunda guerra chegaram a 20% da população, acabou instaurando um sistema socialista (seguindo alguns modelos russos). E desde o início surge e vai se aprofundando uma relação amorosa que afinal é o tema central do filme e que sobrevive com dificuldades em meio e ao sabor dos fatos políticos, geográficos (Polônia, Alemanha, Rússia, Iugoslávia, França…) e da própria passagem do tempo. E ao constatarmos que as letras das canções mantêm a pureza que a frieza do regime não conseguiu vencer, igualmente somos inebriados pela força inabalável do amor, o sentimento mais solitário do mundo, mas que a tudo pode transcender. Nos emocionamos com belíssimas cenas de felicidade, instantes mágicos como o de Zula cantando blues ou dançando rock!. Assim como há momentos dolorosos de distância, de impossibilidades e um impressionante sacrifício em nome do amor, tudo desaguando no final em um memorável momento que também evoca Shakespeare. Em resumo, uma belíssima obra, um filme de música, amor e dor, que ganhou diversos prêmios europeus (filme, diretor, roteiro, atriz) e concorre ao Oscar de Diretor, Fotografia e Melhor filme estrangeiro.  9,0

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A PISCINA

Este filme francês (co-italino), de bela fotografia, feito em 1969 e dirigido por Jacques Deray (Borsalino) traz uma dupla que foi exaltada pelo cinema e ficou na história da sétima arte por sua beleza física. Ele, Alain Delon, ela, Romy Schneider, que treze anos antes havia imortalizado a imperatriz Sissi. O casal, realmente belíssimo, exala força e juventude e protagoniza uma ou outra cena erótica em meio à paisagem idílica do sul da França, embora a temática do filme seja bem diversa, conforme aos poucos vai sendo revelado – embora o clima de tensão erotica predomine ao longe do filme.  O roteiro faz um estudo interessante dos personagens (a partir da chegada do amigo e da filha) e provoca alguns bons questionamentos envolvendo relacionamento aberto, limites, fidelidade, ciúmes…Até onde a liberdade será coerente com a natureza humana? O problema, entretanto, é muitas vezes de ritmo, excessivamente morno, algumas cenas arrastadas ou desnecessárias (muitas para mostrar a beleza plástica do vaidoso galã) e também um pouco de interpretação, uma vez que Romy é ótima atriz, assim como também é bom ator Maurice Ronet, mas não se pode dizer o mesmo de Alain Delon e de Jane Birkin, quase irreconhecível em sua juventude e noviciado (muito bela e com seus 22 anos, embora interprete uma moça de 18). No todo, um filme bom, mas que poderia ser bem melhor se mais bem aproveitado em seus elementos básicos. Houve uma refilmagem em 2015, com Ralph Fiennes, com o título de A bigger splash (A piscina – um mergulho no passado).   7,8

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VIDRO

Sucesso atual do espetacular diretor M. Night Shyamalan, que aqui confirma ter recuperado a velha forma do início da carreira. Importante: penso ser imprescindível se ver antes “Corpo fechado” e “Fragmentado”, não só porque se trata de uma trilogia (intenção revelada pelo diretor no final de Fragmentado), mas para se compreender o sentido da maior parte dos fatos, embora um ou outro aspecto tenha uma complexidade à primeira vista difícil de compreender. O roteiro é muito bem articulado e desenvolve suas amarras em torno dos quadrinhos, dos heróis e vilões e das sombras em que os superpoderes e os superpoderosos se escondem, sendo uma espécie de lenda para o homem comum, transportando o espectador para um universo fascinante e repleto de mistério e tensão. Todas as cenas fazem sentido e se completam, embora a parte inicial do filme seja morna em alguns trechos. Mas quando o filme esquenta, sai de baixo! Os personagens são fabulosos: o de Samuel L. Jackson, obstinado, mental, vaidoso e  a firma convicção de que as histórias em quadrinhos são a mais poderosa fonte de história da humanidade, mas temos também novamente o prazeroso contato com as diversas e fascinantes personalidades interpretadas magnificamente por James McAvoy e com o misterioso vigilante (que nega conhecimento à sua extraordinária força) interpretado por Bruce Willys, o ator mais frequente nas obras desse cineasta, que também concebe e escreve seus filmes, extremamente originais, densos, violentos e que neste caso em sua parte final causa sensações impressionantes no espectador com as maravilhosas e impactantes cenas que se sucedem. No epílogo do filme  realmente resplandece a genialidade do diretor, que oferece realmente um trabalho extraordinário também na edição, interpretação, som, trilha, enfim, um fechamento coerente e também surpreendente (o velho mestre…)  da trilogia – sou fã e, portanto, suspeito – e que eleva definitivamente o nome de Shyamalan entre os grandes diretores do cinema, de todos os tempos.  9,4

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FRAGMENTADO

O único senão deste filme para mim é que já vi outros anteriormente e com o mesmo tema. É lógico que nenhum deles teve a consistência e a amplitude que aqui nos oferece o fantástico diretor M. Night Shyamalan. Que à temática ainda acrescenta seus ingredientes absolutamente pessoais, de originalidade, suspense, trilha sonora, movimento e enquadramento de câmeras e neste caso uma interpretação extraordinária do ator James McAvoy, diante da dificuldade dos múltiplos personagens que desempenha. A atriz Anya Taylor-Joy é também uma surpresa bastante agradável, dando expressiva densidade dramática à sua atuação, a ponto de em algumas cenas realmente emocionar/impactar o espectador. De todo modo, embora não atinja o nível dos dois primeiros filmes do diretor (mestre em criar climas), é um ótimo filme de suspense e com uma parte final sensacional. E no epílogo, os poucos segundos de participação de Bruce Willys fornecem o “gancho” para sabermos que se trata de uma trilogia iniciada com “Corpo Fechado” e que vai encerrar justamente com o filme que está atualmente em cartaz nos cinemas, “Vidro”.  8,6

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CORPO FECHADO

Um filmaço de suspense (com alguns momentos de legítimo arrepio) do diretor de O sexto sentido, M. Night Shyamalan. Estrelado por Bruce Willys, Samuel L. Jackson e Robin Wright, foi o segundo filme de sucesso do diretor e iniciou uma trilogia continuada por Fragmentado (Split) e Vidro, atualmente nos cinemas. Os filmes desse diretor possuem elementos especiais, um jeito único de mostrar os fatos e provocar sentimentos e emoções, além de apresentar histórias boas e originais, repletas de ótimas sacadas cinematográficas. É um mistério o que vai acontecer na cena seguinte e a tensão permeia todo o filme. O roteiro aqui é interessantíssimo e se entrelaçam relações em crise, paternidade, histórias em quadrinhos, heróis que se opõem nos poderes e fraquezas, desastres, assassinato…enfim, mais uma viagem cinematográfica propiciada pelo diretor, que em muitas cenas talvez deixe clara sua profunda admiração por Alfred Hithcock: e, de fato, em muitos aspectos do filme faz por merecer a comparação.   9,4