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NÃO SE MOVA (NON TI MUOVERE)

Este é um filme de 2004, dirigido por Sérgio Castellitto e baseado no romance de Margaret Mazzantini (esposa do cineasta), cujo título, pelo contexto, significa algo como “não me deixe”, “não me abandone”. O próprio diretor é o ator principal (muito bom), mas a atuação mais destacada no filme é de Penélope Cruz, que entrega uma soberba interpretação, inclusive consideradas a dificuldade do papel e a invulgar complexidade da personagem. Embora rotulado de romance, o filme na verdade é um drama. E pesado, com variados e ricos subtextos. Mas não só por isso é recomendado a públicos especiais: também porque a forma de contar a história é às vezes meio confusa, estranha (por fugir aos padrões habituais), podendo ser enquadrado perfeitamente dentro do gênero “filmes de arte”. De todo modo, é um trabalho impactante e muito bem realizado (inclusive com vários flashbacks), abordando temáticas bastante interessantes e até incômodas sob certo aspecto, pois relacionadas com perdas, desvios,…do comportamento, da alma (que há de explicar tais desvios, afinal???), com sentimentos de renúncia, com a miséria de certas vidas, com as escolhas principalmente diante do imprevisível e do acaso. Um filme de grande sensibilidade e bem ao feitio das melhores produções italianas do gênero.   8,7

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VOU RIFAR MEU CORAÇÃO

Este é um documentário de Ana Rieper, produzido em 2012, por ela e por Suzana Amado (produtora executiva), e que traça um impressionante painel da chamada música brega e daqueles que não apenas a ouvem e convivem com ela, mas que vivem a realidade narrada nas próprias letras. É um retrato realista e feito com muita verdade e sensibilidade do povo pobre do nordeste, mostrado em seus dramas passionais do dia a dia, nas letras das mais diversas músicas de um gênero geralmente esnobado por muitos. O filme é recheado de cenas do cotidiano desse povo sofrido e feliz ao mesmo tempo (frequentadores de botecos, prostitutas, motoristas, pedreiros, donos de bar etc.) e de relatos prestados por eles e também por alguns dos maiores cantores de sucesso do gênero popular, que também são entrevistados (como se não houvesse uma câmera na frente, mérito total da diretora) e externam sua visão dos fatos, inclusive sobre a criação da música popular romântica, suas relações e paralelos com o que se conhece como MPB. O filme é, então, constituído por músicas, imagens e depoimentos. Para se ter uma ideia desse retrato musical todo, na abertura Nelson Ned canta “Eu também sou sentimental” e no epílogo Agnaldo Timóteo interpreta “Perdido na noite”. Desfilam ao longo do filme, enaltecendo o imaginário romântico, e também sensual do povo brasileiro, entre outros, Odair José, Waldick Soriano, Amado Batista, Wando, Lindomar Castilho, Nélson Ned, Aguinaldo Timóteo, tecendo verdadeiras histórias e depoimentos sobre o povo, a música e os relacionamentos amorosos e passionais. A diretora mostra as dores e os prazeres do amor, a importância desse estilo de música para o povo simples e também escancarara o preconceito, sendo exemplo um dos depoimentos, ao deixar claro que apesar da “vestimenta” (rótulo), o amor exaltado por Chico Buarque, com seus dramas e mazelas, é exatamente o mesmo cantado por Agnaldo Timóteo. O documentário foi gravado principalmente em Sergipe e Alagoas e harmoniza de forma muito feliz as músicas com as cenas que vão sendo mostradas, absolutamente verdadeiras quanto a retratar uma realidade para a qual muitos fecham os olhos, mas que sempre se revelou absolutamente pungente. 8,8

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O DÉCIMO SEGUNDO HOMEM

Filme norueguês baseado em fatos reais ocorridos durante a Segunda Guerra, na Noruega ocupada. Um grupo de noruegueses treinados no Reino Unido foi enviado para praticar atos de sabotagem contra os alemães que montaram base em terras norueguesas e a partir daí é que ocorrem os fatos. Na verdade, são doze os soldados encarregados do golpe contra os nazistas (razão do título do filme). Com muito realismo, vamos acompanhando a ação, com uma boa dose de suspense emoldurada por bela fotografia, ótima trilha sonora e excelente elenco e direção. Há momentos em que não há muito de novo, mas a natureza hostil, selvagem e perigosa é uma boa atração, como um adversário a ser também vencido. As cenas de fuga no final são espetaculares e inéditas. No desfecho, o filme celebra seus heróis, o que também é justo, considerando ter sido esse mais um país dominado algum tempo pelos comandados de Hitler, na cega e furiosa investida contra o mundo.  8,2

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TARÂNTULA

A década de 50 foi extremamente fértil em filmes de ficção científica. Alguns deles notáveis (como O incrível homem que encolheu), outros interessantes e a maioria descartável, apenas para assustar ou provocar boas risadas com o besteirol ou com os efeitos especiais péssimos/amadores (uma grande parte). Este filme se enquadra na categoria dos interessantes, inclusive porque foi escrito e dirigido por Jack Arnold, que um ano antes havia feito sucesso com O monstro da lagoa negra (1954) e dois anos depois faria a sua grande obra (sem dúvidas,  O incrível homem…).Este filme tem como mérito o andamento e o suspense, porque não tem pressa em mostrar e explorar a presença do monstro na tela (que o nome do filme já revela o que é…), construindo lentamente a história com as explicações para o fenômeno, as quais não assim tão sem pé nem cabeça como na maior partes dos filmes fantásticos e de ficção científica da década. Portanto, é um bom roteiro. É verdade que os personagens não são aprofundados e os diálogos não possuem uma graça especial, mas o filme é divertido e pode até mesmo ser tido como um dos clássicos B da época, com um final inclusive plausível e ao que parece o único possível diante das circunstâncias (apesar do “The end” abrupto). De negativo, obviamente as perspectivas quanto ao tamanho da aranha, que variam de uma cena para outra, demonstrando o incipiente profissionalismo nos efeitos especiais, que em poucos anos, contudo, já mostrariam grande evolução (vide o citado “O incrível homem que encolheu“). Trabalham no filme o galã da época John Agar, a bela Mara Corday e Leo G. Carrol (que anos mais tarde faria o papel de “chefe” na série dos anos 60 Os agentes da UNCLE). 8,0

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SUBMERSÃO

O que este filme parece ser à primeira vista não é. O estilo nos engana. Parece algo banal, do tipo que passa em sessão da tarde, mas é bem diferente. Vamos percebendo que se trata de algo mais elaborado, mais profundo e de um gênero que não é o que esperávamos. A dica poderia quem sabe ser dada pela dupla de protagonistas: ele, James Mc Avoy, aqui muito bem, até já fez alguns filmes “meia boca”, mas ela, Alícia Vikander ultimamente não anda se metendo em fria e já demonstrou ser uma excelente atriz. Mas a pista definitiva é o diretor, pois se trata de Wim Wenders e dele não se poderia esperar nada trivial ou pelo menos nada mal feito. Este cineasta, dramaturgo, produtor e fotógrafo alemão já fez muita coisa na vida (Asas do desejo, Paris Texas, O sal da terra, O amigo americano, Buena Vista Social Club, Cidade dos anjos…) e agora, setentão, se dá ao luxo de apresentar uma história que sem pressa nenhuma vai construindo a seu gosto fatos, que depois se tornam histórias paralelas e que criam um suspense excelente, deixando o espectador absolutamente sem saber o que pensar e o que vai acontecer, tanto no mar, quanto no Islã. Com belíssima fotografia, o filme foi exibido no último festival de Toronto e constitui algo que realmente não é para todos os gostos (a maior parte da crítica e dos espectadores não apreciou muito), mas que muitos vão saborear, reconhecendo muitas qualidades facilmente perceptíveis, uma delas – e que não é pouco – a de ser algo bem diferente do que o dia a dia nos oferece no mundo do cinema.  8,5

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THE THIRD MURDER

Este é um filme policial japonês, investigativo, com advogados, crime, tribunal etc. E mais: com qualidade técnica e de roteiro muito superior à média, demonstrando a evolução do cinema do Japão, tanto em termos que fotografia, trilha, cenografia, edição etc., como no que se refere à direção e ao elenco, absolutamente harmoniosos e contando uma história que prende a atenção até o seu final. Na verdade, o diretor já tem razoável fama pela ótima produção que vem realizando: Hirokazu Koreeda (Depois da tempestade, Pais e filhos…). É um filme que valoriza os do gênero e tem um andamento mais ao estilo europeu, com muitos temas e subtextos interessantes e pungentes. A busca da verdade, a desqualificação de latrocínio para homicídio, a investigação e luta dos advogados diante de um criminoso confesso mas misterioso e contraditório, estratégias, muita filosofia sobre a vida, sobre o destino e uma aula sobre a cultura e costumes dos japoneses (ética, honra…), inclusive quanto aos elementos vinculados ao direito e à justiça – com as devidas críticas.  Há várias cenas com grande significado, entre as quais, por exemplo, a relativa ao túmulo dos pássaros, a que envolve a brincadeira e o trio familiar deitado na neve. Em destaque também o sacramento da advocacia! Os fatos são intrigantes e os personagens muito interessantes, havendo também riqueza nos subtextos (como na relação pai-filha do advogado Shigemori) e o personagem do suposto assassino, Misumi, de grande riqueza e complexidade. O roteiro prende o espectador e guarda surpresas, inclusive o nome do filme já sendo intrigante, pois o acusado é alvo de uma segunda acusação de homicídio (e não a terceira, como refere o título, o que já desperta a curiosidade…). De repente, o espectador não sabe mais em que acreditar…o que é verdade, o que é mentira??? Essencial também que, a par de haver alguns pontos que podem ficar desatados, o roteiro dá colorido a várias questões importantes e contempla a essência do ser humano e seus valores, os quais muitas vezes transcendem o que a mera aparência indica, focando sobre fatos e sentimentos que realmente deveriam prevalecer nesse mundo tão carente de sentimentos e de humanidade. 9,0

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O DOCE AMANHÃ (THE SWEET HEREAFTER)

Um drama canadense de 1997 que se desenvolve em torno de um trágico acidente, em uma certa comunidade (cercada montanhas de neve) e mostra a vida dos moradores antes e depois do fato, principalmente pela chegada de um advogado, que tenta persuadir a todos para que o contratem a fim de processar os responsáveis pela tragédia. Interessante que esse advogado vive também seu próprio drama, suas próprias dores, que sob certo ângulo se assemelham às dos cidadãos a serem convencidos (perdemos as nossas crianças, diz ele em determinada cena). Com Ian Holm, Sarah Polley e Bruce Greenwood de mais conhecidos, o filme mostra a dor humana, mas também a solidão, os valores morais, os pecados que se escondem nas sombras da aparente normalidade das relações. Sem pressa, vemos a história se desenrolar e se valorizar com muitas cenas fora da ordem cronológica, fato que também acrescenta um pouco de suspense ao enredo. Importante a discussão ética e também os fatos que demonstram também como funciona o sistema jurídico, notadamente nos EUA. Mas é do universo onde moram as dores não reveladas, é que poderão as coisas se definir, pelo testemunho de uma das vítimas.  8,0

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EM PEDAÇOS (IN THE FADE)

Este filme alemão não concorreu ao Oscar de Melhor filme estrangeiro, embora tenha sido indicado ao prêmio como representante da Alemanha e escolhido em uma pré-seleção dos cinco finalistas. Entretanto, ganhou o referido prêmio no Critics Choice Awards e também no Globo de Ouro de 2018, além de diversos outros em variados festivais alemães; mas não apenas de melhor filme, mas de roteiro, atriz e fotografia. Diane Kruger, aliás, foi premiada como Melhor Atriz no festival de Cannes 2017. De fato ela é a alma do filme e tem um desempenho extraordinário em papel bastante difícil (a interpretação dela chega a nos emocionar em várias cenas, tal a intensidade da entrega). O título do filme é mais do que adequado a este drama pungente e doloroso, que trata de um fato violento e das consequências decorrentes. Em vários níveis. Mais do que isso, a segunda metade do filme, em que predomina o suspense e aprofunda o contexto sócio-político, desenvolve a motivação do crime e com isso retrata feições do mundo de hoje e que por pertencerem a um horror que está à nossa volta, torna o universo do filme mais rico e também mais impactante. Trata-se de uma obra de difícil digestão (pelo tema forte), mas muitíssimo bem construída, dirigida e interpretada e que realmente mereceu as indicações e prêmios que teve.  8,8

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MAMA

Um filme de suspense e terror de alta qualidade. Para quem gosta do gênero, um filmaço. Mas mesmo para quem não é aficionado em filmes assim, ele tem um nível de roteiro e produção bem diferenciado em relação à média que anda por aí. A fotografia, maquiagem, efeitos visuais, o som, a edição, a direção, todos os elementos são muito bem harmonizados. Para começar, a produção leva o nome de Guillermo Del Toro, que dispensa apresentações: A espinha do diabo, Hellboy, O labirinto do fauno, Círculo de fogo, O orfanato e recentemente A forma da água. Depois o elenco, encabeçado pela excelente Jessica Chastain e com o ótimo ator dinamarquês Nicolaj Coster-Waldau (o Jaime Lannister de Game of Thrones). A atuação das crianças é esplêndida e o filme tem grandes momentos dramáticos e principalmente de suspense. O final pode até ser discutível (eu gostei), assim como o fato de acabar não sendo um filme de terror legítimo…mas não creio que o objetivo tenha sido o de assustar: o clima e a história são os elementos mais importantes e nesse ponto o filme efetivamente corresponde às expectativas, tendo sido indicado a inúmeros prêmios, inclusive.  8,8

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A NOITE DOS GENERAIS

Um filme de 1967, que apresenta uma linha de ação e em torno dela vários temas importantes. Gira a princípio em razão de uma investigação de um assassinato em Varsóvia, do qual acabam sendo suspeitos três generais, que passam a ser investigados por um major, que não vai ter facilidades em romper a hierarquia. Tudo isso na época da Segunda Guerra e até a véspera do Dia D. Como dito, o filme tem vários desdobramentos, complôs, jogo de política, o fanatismo da guerra (o lado moral aqui é muito sensível, embora haja cenas que explicitam a violência gratuita da guerra)…A história embora em alguns instantes pareça enfadonha, no seu todo é muito estimulante e na parte final o filme é realmente ótimo, preservando seu charme (embora não com toda a intensidade da época, logicamente). Mas apresenta diálogos bem construídos e um elenco espetacular, com a atuação inesquecível de Peter O´toole, muito bem acompanhado por Omar Sharif, Philip Noiret, Christopher Plummer, Tom Courtenay e Donald Pleasence, entre outros. 8,7

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TODAS AS COISAS (DA VIDA) SÃO BELAS (ALL THINGS FAIR)

O cinema sueco – aqui com a parceria dinamarquesa – é muito bom em contar histórias de jovens a caminho da idade adulta, com todos os seus dramas e de forma bastante realista, sem perder a sensibilidade (“Kim Novak nunca nadou aqui” é um exemplo). Este filme, feito em 1995, concorreu pela Suécia ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 1996 e ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim. Mostra a vida familiar e escolar de um jovem de 15 anos, maduro para sua idade e que de repente se vê envolvido na fantasia muito comum de adolescentes, com a professora. Que no caso é casada com um caixeiro viajante, alcoólatra, excêntrico, mas de bom coração, criativo e apreciador da música clássica. A partir daí e com algum erotismo, várias reflexões são propostas…sobre o equívoco da paixão, sobre distâncias instransponíveis, sobre o que parece eterno e de repente vai se desvanescendo, sobre erros de conduta e de avaliação…mas o lado do filme que realiza um tipo de estudo sócio-psicológico é forte, a ponto de deixar o espectador até constrangido com a decadência das coisas, com o sofrimento, com os paradoxos e as armadilhas do destino…8,5

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O INSULTO

Este filme esteve entre os cinco finalistas para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O que não é pouco, considerando a grande quantidade de inscritos, do mundo todo. E merecidamente. E foi a primeira vez que um filme libanês ganhou tal honra. Na minha opinião, é o melhor dos cinco finalistas (todos com seus méritos!) e deveria ter ganho o Oscar. Venceu, entretanto, o filme chileno, talvez pelo “politicamente correto”, já que envolvia os dramas de um transexual. De todo modo, trata-se de um filme de alta qualidade, rico e com inúmeras virtudes. Um filme extremamente bem acabado em todos os sentidos, um roteiro excelente, interpretações primorosas (nem parecem atores), direção segura, edição, trilha sonora, fotografia, tudo perfeito. E a história, política e humana ao mesmo tempo, aborda um tema incômodo, pesado, forte, porém universal: o destino de certos povos, o ódio racial que o tempo não consegue resolver, provocado pelas fobias, pelas guerras, pelo passado, pela política, inclusive da intolerância…a partir de um fato trivial acende-se o estopim para grandes dramas, tristes, dolorosos e que parecem desencadear algo ilimitado…a questão inicial acaba nos tribunais, onde se tenta dar racionalidade aos conflitos de ódio entre cristãos libaneses e refugiados palestinos, mas há perigo no ar, permanentemente…Uma frase marcante do advogado: “ninguém tem exclusividade sobre o sofrimento.” Um estudo sociológico, histórico, psicológico de povos que vivem eternamente em lutas externas e internas. Grande mérito do filme é mostrar os conflitos íntimos dos personagens, que não conseguem se desvencilhar do seu passado e do que parece ser o seu destino, mas ao mesmo tempo não são estereotipados: possuem alma e, com isso, tanto um lado mau, como também um bom. Pode haver um momento ou outro de concessões do diretor, até na parte final, mas no todo é uma obra de fôlego e de peso! O ator Kamel El Basha, que interpreta Yasser, foi premiado como o melhor ator do festival de Veneza 2017.  9,0

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EL AUTOR (THE MOTIVE)

Filme espanhol de qualidade, sobre o difícil ofício – obsessão – de escrever e outras derivações. O protagonista é um aprendiz de escritor, seu desejo é o de escrever livros importantes, ser um profissional da literatura nobre, bem diferente da esposa escritora, que acaba de lançar e ficar famosa por uma sub-literatura. Para sair da mediocridade, orientado e desafiado pelo professor, começa a aprender a aguçar a sensibilidade para ver a vida acontecendo à sua volta e dos fatos forjar a obra desejada: o objetivo é observar a realidade, para chegar à sua verdade, à sua identidade…O filme começa com uma bela canção, cuja letra diz “Algumas vezes você sente que está só, mas está acompanhado…às vezes alguém sente solidão estando acompanhado…”. Ainda no começo, um palestrista chama a atenção da plateia sobre os elementos vitais da literatura, entre os quais “o drama”… já que sem ele o leitor ficará certamente desinteressado. E Álvaro acaba escolhendo seu caminho e ficando obcecado por ele, um rumo que parece sem retorno possível. Até que ponto é possível ser apenas um observador dos dramas cotidianos? Até onde o escritor pode interferir na realidade ao seu redor, para com ela construir seus personagens? É lícito que provoque conflitos reais, manipule, trapaceie? O roteiro é ótimo, idem o diretor (Manuel Martín Cuenca) e o ator Javier Gutiérrez é colecionador de prêmios, por este filme ganhando o Goya 2018 (o Oscar do cinema espanhol). Curioso: a sua fisionomia lembra às vezes a do ator Anthony Hopkins quando jovem. Além dele trabalham também no filme, entre outros, Adriana Paz e Antonio de La Torre (seu colega no premiado Pecados antigos, longas sombras – ou La isla mínima). O filme concorreu a vários prêmios Goya 2018 e ganhou também o de Melhor atriz coadjuvante (Adelfa Calvo, a “porteira”). Seu desfecho é muitíssimo interessante, extremamente coerente e, sob certa perspectiva, efetivamente genial.  9,0

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O PORTEIRO DA NOITE

Filme de 1974 da diretora italiana Liliana Cavani (A pele, Berlin affair, Atrás daquela porta, O retorno do talentoso Ripley…) e que lançou Charlotte Rampling para o estrelato (com 28 anos na época). O filme apresenta Dirk Bogarde como porteiro de um hotel na Viena de 1957, vendo de repente o passado ressurgindo para assombrá-lo. Na verdade, são memórias e fatos da Segunda Guerra, envolvendo as crueldades do nazismo. Mas a situação não se restringe simplesmente ao inesperado reencontro. É algo bem mais complexo do que isso. Porque um grupo nazista, mesmo após 12 anos do término da guerra, está à caça de testemunhas do holocausto…para eliminá-las e então poder seguir suas vidas em paz, sem ninguém para delatar os tenebrosos crimes. E então a trama se intensifica e o filme acaba seguindo uma linha mais tensa e sem dúvidas adequada para estudos do Dr. Freud. Como são surpreendentes os caminhos do coração, como são vastos os subterrâneos dos seres humanos! O filme não deixa de ser interessante, porque tem roteiro para isso, mas há um sério comprometimento do ritmo, certos fatos destoantes, algumas partes excessivamente monótonas e também a trilha sonora em alguns momentos se mostra totalmente inadequada. Além disso, falta coerência em alguns aspectos. Na verdade, é um filme famoso, polêmico (inclusive pelas cenas fortes e de sado-masoquismo), mas que poderia ser bem melhor em mãos mais experientes na direção. Também não acho que Dirk Bogarde fosse a escolha mais adequada para o papel, não vendo nele o necessário talento dramático.  7,5

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THELMA

Um drama norueguês, com mistério e suspense,  denso e que trataria de uma história comum se não fossem algumas “peculiaridades” envolvendo a protagonista. Após a primeira misteriosa e impactante cena, acompanhamos com curiosidade a adaptação da jovem à nova rotina (de estudos na capital, Oslo), tentando fazer amigos, levar uma vida normal, para tentarmos descobrir, afinal, qual o significado da primeira cena. E o que essa moça tem de errado com ela…mente perigosa? Poderes paranormais? Ela própria com o tempo sente que não é exatamente como as outras pessoas, mas não sabe explicar. Convulsões antigamente se pensava que eram obra de bruxas…E o peso do pecado, da culpa…pelos conceitos cristãos, os ensinamentos religiosos vindos dos pais…injusta carga sobre os ombros de quem precisa mergulhar nas experiências novas da idade, deixar-se desabrochar (inclusive quanto à sensualidade). E assim vai sendo conduzido o enredo e tornando o espectador cúmplice dos fatos, que lentamente vão compondo a história e revelando os segredos. Que são terríveis e a partir de certa parte o filme se potencializa e muda de gênero. Ótima atuação de todo o elenco, com grande destaque para a atriz que faz o papel de Thelma. Belas imagens, alguns personagens complexos, bem realizado, estranho em muitos momentos, assustador em outros, com muitas reticências, ricas, que podem render variados comentários sobre sua construção e concepção, um filme para quem gosta do gênero.  7,8

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A VILÃ

Este é um filme que tem um lado de gangue, ação, perseguição de motos etc. (luta de arma branca durante essa perseguição, inclusive), de lutas marciais muito bem coreografadas – como é tradição nos filmes orientais – e de muita violência, mas tem um outro lado mais denso, de dramas valorizados por flashbacks e que exploram temas pessoais e relacionamentos, memórias…a condição humana, inclusive de sobrevivência. Por isso vai além dos meros passatempos triviais de lutas e ingressa num campo que geralmente não era muito aprofundado pelo cinema desse gênero. É que aqui se trata de uma produção da Coreia do Sul e os coreanos se preocupam muito com o lado humano de suas histórias, de modo que as coreografias (a da abertura e as da parte final são realmente sensacionais) acabam fazendo parte da trama, mas não são seu prato principal. Igualmente há muita preocupação com o visual, cenografia etc., aspectos técnicos, enfim, e o filme inclusive ganhou alguns prêmios nesse particular, fora as premiações por melhor filme. Lembra alguns clássicos, como Nikita, por exemplo. Há algumas lacunas de edição, de sentido em alguns momentos, um ou outro fato meio inexplicável (a última cena – 5 segundos -me desagradou bastante), mas no todo é uma obra bem acabada (embora as tragédias da história não permitam dizer que o filme seja “divertido”…), com cenas repletas de adrenalina, movimentos de câmera alucinantes e que vai agradar aos fãs do gênero, que nem se darão conta dos pontos falhos. Aos que não são especialmente fãs desses filmes, porém, poderão ser contagiados pelo “estilo coreano de ser”. 8,0

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AU REVOIR LÀ-HAUT (SEE YOU UP THERE)

Daqueles filmes franceses que ficam na memória (o belíssimo pôster ajuda), talvez por sua elegância, talvez por valores que não conseguimos definir com precisão. Simplesmente delicioso, embora tenha seu lado dramático, envolvendo a guerra (a Primeira Guerra Mundial), seus horrores e sequelas. E tocante também. Drama salpicado com originalidade e aquele clima meio de fantasia, meio de crua realidade/tragédia, mas com toques de leveza. O diretor, co-roteirista e protagonista é o talentoso e carismático Albert Du Pontel (Em equilibre) e a harmonia é total, em termos de fotografia, trilha, ritmo, direção de arte, elenco…tem narração em voz over, cenas com cores de comédia, sendo uma mistura, enfim, muito bem dosada e totalmente a serviço da história da guerra e de seus sobreviventes, de amigos, de dores, de máscaras…com muitos desdobramentos e algumas surpresas, inclusive chocantes (embora até o voo seja poético…). O filme ganhou o Oscar do cinema francês, o Cesar 2018, para Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Fotografia. Além de Albert, entre outros, atuam Mélanie Thierry,  Niels Arestrupm e Laurent Lafitte. 9,0

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LES DÉMONS

Um filme não convencional, até porque canadense e falado em francês e dirigido por alguém que não segue os padrões, o que imprime uma certa estranheza em alguns aspectos, como, por exemplo, as longas tomadas (câmera fixada bastante tempo no mesmo objeto: para intensificar o momento e os sentimentos provavelmente), a trilha sonora que em alguns momentos parece inadequada…Não é fácil de ser assistido em alguns segmentos, enquadrando-se, pelo exposto, na categoria dos “filme de arte”. Mas é um trabalho apreciável pela mensagem que passa e até mesmo bastante ousado. Os demônios do título do filme não são entidades diabólicas ou sobrenaturais e sim uma metáfora para os “fantasmas” da infância e da adolescência, dos ritos de passagem. E que possivelmente assombraram, pelo menos em vários aspectos mostrados, vários de nós. Demônios são as brigas dos pais, a exclusão no colégio, o bullying, a incapacidade de compreensão total de várias coisas da vida em função da idade, espiar os adultos, a paixão pela professora, o medo do escuro, de assombração, de pegar uma doença grave, a pedofilia…São horrores que elegem os naturalmente fragilizados física e/ou emocionalmente em razão da idade e do crescimento e o filme trata do tema com bastante densidade, o que muitas vezes incomoda. Claro, isso é uma virtude. Como a harmonia de seu elenco, com destaque para os garotos. Mas, se por um lado nos são mostrados os demônios, pelo outro principalmente em três momentos especiais somos resgatados do pesadelo com a possibilidade de luz e equilíbrio: quando a irmã dialoga com Felix dentro do armário, na brincadeira das crianças no banheiro e finalmente quando todos se divertem na água, nesse caso a música de fundo deixando evidente tratar-se de um momento tanto de alegria, beleza e paz, quanto da absoluta e possível normalidade, o que sugere que apesar de tudo a vida é assim mesmo,  repleta de fases de pesadelos, com a escuridão sendo sucedida pela claridade. Concorreu em vários festivais e foi vencedor em 2016 no Festival de cinema de São Francisco e no Titanic International Film Festival, nas categorias de Melhor novo diretor e de de Melhor diretor (Philippe Lesage).  8,4

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STRANGLED (ESTRANGULADO)

Um filme que foge dos thrillers policiais que estamos acostumados a ver e que tratam de casos envolvendo serial killer. Esse diferencial se explica simplesmente pelo fato de a história se passar na década 60 e o filme ser de nacionalidade húngara. Desse modo, o contexto envolve locais e costumes diferentes dos tradicionais, além de todo o panorama sócio político da Hungria socialista da época, fatores que constituem atrativos a mais e criam inclusive um clima especial que potencializa as bem feitas cenas de suspense. Com um roteiro bem elaborado, ótima direção, alguns personagens interessantes e cenas bastante fortes/realistas e perturbadoras, inclusive dos assassinatos (bem além do corriqueiro), foi, pelo que consta, baseado em fatos reais e que aterrorizaram por um tempo a pequena cidade de Martfü.  7,7

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AUF KURZE DISTANZ (À QUEIMA ROUPA)

Um filme feito para a televisão alemã e que tem como tema a máfia, com todos os desdobramentos relativos a seus crimes e a todo o envolvimento de corrupção: a máfia sérvia em guerra contra a máfia turca, por sua vez apoiando a máfia italiana. E a corrupção inclusive envolve com destaque a manipulação de resultados em jogos de futebol, com altas apostas e naturalmente muito dinheiro em jogo. A questão crucial de toda a trama é que existe um policial infiltrado (com namorada “fabricada” e tudo o mais) e que passa, de um lado, a ter relações íntimas com os mafiosos e, de outro lado, a ter o dever de desmontar o esquema de corrupção. Um dilema ético, que aparece como um dos pontos principais do filme. Não é um filme com nada de excepcional, mas sim muito bem produzido, com muitos momentos de tensão (predominantes) e um final muito bom e até surpreendente, por tais motivos tornando-se uma boa diversão para quem aprecia o gênero. A tradução do título ao pé da letra seria “A uma curta distância”, nesse caso havendo uma boa conexão com o título em português.  7,7

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